Casas muito baratas costumam vir acompanhadas de alguma explicação, às vezes é o bairro que é perigoso, às vezes é o telhado cheio de goteiras, a infiltração escondida sob uma tinta recém-passada ou algum problema na documentação que o corretor menciona depressa, esperando que você esteja ocupado demais calculando as parcelas para perceber. Davi e Elisa sabiam, inclusive, que o valor era baixo demais para uma construção daquele tamanho, mas ainda assim, depois de quase 8 anos pagando aluguel e vendo os preços dos imóveis crescerem mais rápido que seus salários, aprenderam que certas perguntas perdem importância quando alguém finalmente oferece uma porta cuja chave pode ser sua.
A casa ficava no bairro de São Martim, uma região que já fora considerada elegante, quando a cidade de Leorio ainda terminava algumas ruas antes dali. A cidade crescera ao redor das casas antigas, substituindo jardins por estacionamentos, sobrados por pequenos edifícios e árvores por fachadas comerciais. A Rua Meridiana, entretanto, permanecera quase intacta, havia calçadas estreitas, postes antigos e residências grandes demais para as famílias que agora viviam nelas. A casa de número 114 ficava no final de uma pequena descida, protegida da rua por um muro baixo e um portão de ferro que reclamava sempre que era aberto.
Elisa gostou imediatamente, já Davi precisava de um pouco mais de tempo.
— Tem a cara da casa da minha avó — Disse ela quando entraram pela primeira vez.
— Tem cara de casa que vai custar o preço de outra casa, quando terminarmos a reforma por completo — Retrucou Davi enquanto sentia seu nariz pinicar. — Esse lugar ataca minha rinite...
— Você fala isso pra qualquer imóvel que já tenha passado dos dez anos. Se for por causa da sua rinite, jamais compraremos uma casa.
— Mas isso é porque qualquer imóvel com mais de dez anos tá sujo, caindo aos pedaços, ou a família que vivia aqui viu algo e tá tentando esconder dos próximos compradores. — Ele brincou antes de começar uma sequência interminável de espirros.
O corretor, um homem chamado Nestor, que suava mais do que o calor daquele início de verão justificava, riu como quem escutava a mesma conversa todos os dias. Disse que a estrutura estava boa, a rede elétrica havia sido recém revisada e o antigo proprietário fizera reparos no telhado dois anos antes. A casa possuía três quartos, sala, cozinha, dois banheiros, uma pequena lavanderia e um quintal comprido onde uma mangueira crescia quase encostada ao muro dos fundos. Havia também piso de madeira nos quartos, ladrilhos antigos na cozinha e paredes grossas o suficiente para fazer qualquer barulho da rua desaparecer assim que a porta da frente era fechada.
Foi o silêncio que Davi percebeu primeiro.
Não era um silêncio completo, casas nunca são completamente silenciosas, madeira estala, canos vibram, geladeiras ligam sozinhas e telhados parecem guardar pequenos animais mesmo quando não há animal algum. O estranho era como os sons de fora simplesmente paravam na entrada. Um ônibus passou enquanto Davi examinava a sala, e ele viu pela janela o veículo atravessar a rua sem escutar o motor.
— Caramba... As paredes são realmente muito grossas! — Exclamou surpreso.
— Sim, foi pensado justamente no conforto da família que vivia aqui. — Explicou Nestor quando o Davi comentou.
Naquele momento, essa era uma resposta mais do que suficiente. O valor continuava sendo o aspecto mais difícil de entender. Davi perguntou três vezes se havia dívidas, processos ou algum problema na escritura da casa, mas Nestor garantiu que não, a primeira proprietária, dona Orminda Salvat, morrera no ano anterior e os herdeiros queriam vender rapidamente, pois nenhum deles moravam em Leorio e aparentemente não tinham interesse em conservar uma casa construída mais de setenta anos antes.
— Ela morreu aqui? — Elisa se aproximou de Davi como quem tem medo.
— Não, faleceu no hospital. — Nestor balançou a cabeça.
— De quê? — Ambos questionaram.
— Aí vocês estão exigindo informações demais de um pobre corretor de imóveis. — Nestor começou a rir. — Infelizmente, ou felizmente, eu só cuido dos problemas imobiliários, as histórias dos antigos proprietários não são parte do meu salário.
— E ninguém morou aqui desde então? — Davi começou a olhar o teto minuciosamente . — Parece que está há anos fechada?
— Quase isso. — Respondeu o corretor.
A casa não parecia abandonada havia tanto tempo, havia poeira, claro, e o cheiro fechado de qualquer imóvel que passa meses sem ventilação, mas nada sugeria um ano inteiro sem cuidados. Nem mesmo o jardim estava tão tomado pelo mato quanto deveria. Davi perguntou quem fazia a manutenção daquele lugar, mas Nestor não soube responder.
Ainda assim, duas semanas depois eles assinaram os documentos.
Quem já comprou o primeiro imóvel sabe que a alegria costuma chegar misturada com um medo bastante concreto, não é o medo de fantasmas, maldições ou coisas escondidas atrás das paredes - É o medo das parcelas - Davi passou a primeira semana na casa calculando mentalmente quanto dinheiro ainda teriam depois da prestação, da mudança e das reformas que inevitavelmente apareceriam, já Elisa, por outro lado, ficava até tarde planejando onde colocaria cada móvel.
Eles chegaram em uma sexta-feira, 12 de junho, mas o caminhão com todas as mudanças só apareceu num sábado, 02 de julho, a mudança começou antes das nove, e às quatro da tarde a casa estava ocupada por caixas, móveis desmontados e objetos que ambos juravam possuir em quantidade muito menor antes de precisarem carregá-los. O quarto principal ficava no fim de um corredor curto, Davi retirou a cama inflável que usaram durante as últimas semanas e montou sua "nova cama" enquanto Elisa tentava decidir onde colocar um guarda-roupa grande que pertencera à mãe dela.
O problema era que já havia outro guarda-roupa ali.
O móvel era baixo, pesado e antigo, feito de madeira escura. Nestor havia dito que os herdeiros deixariam alguns objetos sem valor, mas nenhum dos dois lembrava daquele armário durante os últimos dias que viveram ali.
— Isso sempre esteve aqui? — Elisa perguntou.
— Acho que sim. — Davi tentou lembrar.
— Eu não lembro dele, vivemos nessa casa há 3 semanas e não lembro de ter me deparado com ele nem em nossas primeiras visitas. — Ela se aproximou e começou a tocá-lo, o armário era tão escuro que nem a luz da lâmpada refletia sob o verniz que o recobria.
Eles abriram as portas do armário e estava vazio.
Davi decidiu que poderiam desmontá-lo ou vender depois, empurrar o móvel para o lado a fim de abrir espaço para o novo guarda-roupa e encontraram atrás dele uma pequena folha de papel presa à parede com fita. A tinta estava um pouco desbotada, mas a frase podia ser lida sem dificuldade.
SE OUVIR TRÊS BATIDAS, DIGA "PODE ENTRAR"
— Nossa que simpático... E assustador... — Disse Elisa após ler o papel.
— Me deixe ver isso. — Davi pegou o papel e começou a virá-lo para ver se tinha mais coisas escritas. — Deve ser alguma brincadeira dos netos da velha Ocarina, Osmarina... Nem lembro o nome da velha.
— Ou pode ser uma brincadeira que a dona Orminda, fazia com os netos.
— Isso, dona Orminda.
— Mas bom, eu vou guardar. - Elisa tomou o papel da mão dele e examinou o verso, mas como Davi já havia percebido: não havia nada escrito ali.
— Vai guardar pra quê? Virou acumuladora?
— Vai ser a nossa primeira relíquia da casa. - Elisa sorriu de orelha a orelha.
Ela colocou o bilhete dentro de uma caixa onde guardava documentos da mudança, tanto ela quanto Davi não pensaram mais nele durante o restante do dia. Às 23h23 daquela noite, ambos já estavam deitados completamente esgotados, quando ouviram as primeiras batidas.
Toc. Toc. Toc.
O som parecia vir da parede atrás da cabeceira, Davi arregalou os olhos e olhou para Elisa que estava completamente imóvel ao lado dele.
— Você ouviu? - Perguntou ele.
— Ouvi... —
Ambos ficaram esperando algum outro som, mas nenhum outro som veio.
Davi levantou e encostou a mão na parede para sentir alguma vibração que pudesse ser causada por um cano defeituoso ou algum animal no quarto ao lado. O quarto vizinho era o menor dos três, mas as janelas estavam fechadas e não haviam caixas ali, o quarto estava praticamente vazio.
— Cano. - disse ele.
— E dentro da parede tem cano? - Elisa virou pra ele.
— Algumas casas antigas possuíam os canos na parede, coisa de casa velha.
— Essa vai ser sua explicação pra qualquer som na casa né? — Disse ela sorrindo, enquanto se arrumava na cama para ficar de frente para Davi.
Davi bateu com os dedos nada parede, ouviu um som sólido, bem diferente do som oco que seria ouvido caso ali realmente tivesse algum cano.
— As três batidas... — Elisa se sentou na beira da cama e se lembrou do papel. — Estava escrito quando ouvir as três batid-
— Não começa. —
— Pode entrar! — Ela exclamou em alto tom, e deu um belo sorriso para Davi, que mudara rapidamente de expressão.
Davi estava em uma mistura de medo e preocupação, ficou olhando ao redor como se esperasse alguma coisa aparecer, mas após alguns minutos ele soltou um suspiro exageradamente alto.
Nada aconteceu.
— Pronto. — Disse ele. — Agora o vampiro está autorizado legalmente a entrar na nossa casas e sugar todo o nosso sangue.
— Pensa pelo lado bom, pelo menos ele é educado! — Elisa bateu com os dedos na superficie da cama. — Vem, vamos dormir. — Elisa o puxou, abraçando-o fortemente, enquanto ambos lentamente adormeciam.
Na manhã seguinte, havia uma porta no corredor.
Eles demoraram para perceber, durante o primeiro mês ninguém sabe exatamente quantos passos existem entre o quarto e a cozinha ou qual interruptor controla determinada lâmpada. É justamente por isso que Davi passou pela porta duas vezes antes de parar, ela estava entre o banheiro e o terceiro quarto, era estreita, pintada da mesma cor creme das paredes e possuía uma maçaneta redonda de metal
Davi ficou olhando e Elisa saiu do quarto ainda prendendo o cabelo.
— Essa porta estava aqui? - Davi perguntou.
— Claro. — Ela rapidamente respondeu enquanto coçava seus olhos. — Não estava?
— Acho que não.
Elisa se aproximou e tocou na porta.
— Amor, nós acabamos de nos mudar. — Tocou ela os ombros de Davi. — Pare de desconfiar de tudo.
— Eu sei.
— Então pronto.
— Mas eu medi esse corredor, Elisa...
E isso era verdade.
Antes de comprar os móveis, Davi medira praticamente todos os cômodos da casa, ele tinha anotado em seu celular todas as dimensões da casa. Pegou seu celular e começou a procurar pelo aplicativo do bloco de notas.
— Olha, o corredor tem quatro metros e dezessete centímetros. — Ela foi até sua maleta de ferramentas e buscou uma trena métrica antiga e começou a medir o corredor. — Ué? — Reclamou em um tom baixo. — Cinco metros e dois?
— Você anotou errado. — Elisa brincou enquanto se aproximava de Davi.
— Errar 5 centímetros é uma coisa, mas errar oitenta e cinco centímetros?
— Matemática nunca foi seu forte. — Ela tentou brincar.
— Eu sou engenheiro, Elisa.
— Eu sei, foi uma escolha péssima de piada... Me desculpe.
Davi não se segurou mais e abriu a porta, atrás dela havia um pequeno armário embutido com três prateleiras vazias - nada mais - nenhum corredor secreto, escada ou um cadáver escondido. Apenas um espaço bastante útil em uma casa onde havia caixas espalhadas por todos os lados. Davi entrou e mediu sua profundidade: cinquenta e oito centímetros para dentro da parede.
Do outro lado deveria estar o banheiro, foi até lá e mediu, mas as dimensões continuavam iguais. Foi novamente até o corredor, mediu novamente e soltou um grito de raiva: — NÃO CABE!
— O quê? — Elisa cruzou os braços.
— Isso aqui!
— Amor, isso é um armário.
— Eu sei o que é Elisa! Eu só estou afirmando que fisicamente não tem espaço pra ele aqui.
A parede entre o corredor e o banheiro tinha pouco mais de quinze centímetros, o armário possuía quase sessenta.
Davi tirou fotografias, refez todas as medidas e procurou alguma diferença na planta do imóvel, mas não foi capaz de encontrar nada. Elisa até sugeriu ligar para Nestor, mas Davi não queria explicar para o corretor de imóveis que um armário simplesmente aparecera três semanas depois deles se mudarem, principalmente, construído numa madrugada.
— Vamos ligar pelo menos para saber se essa porta realmente existia. — Elisa insistiu tanto que resolveram ligar para Nestor
E depois de algumas tentativas o corretor atendeu.
— Porta onde? — Perguntou o corretor.
— No corredor, entre o banheiro e o terceiro quarto. — Houve um silêncio estranho após a frase de Elisa, ela escutou um breve suspiro vindo do outro lado da linha.
— Ah, essa porta... — Quando o corretor falou, os dois se entreolharam. — É claro que existia!
— Você por acaso se lembra dela? — Davi pegou o telefone da mão de Elisa.
— É claro!
— Mas essa porta não estava não fotos apresentadas por você. — Davi esperou uma rápida resposta, mas ela demorou a vir. — Nestor?
— Oi?
— Essa casa já passou por alguma reforma?
— Algumas.
— Reforma que alterasse a planta da casa? — Questionou mais ainda.
— Não que eu saiba. — A resposta veio quase que de maneira automática, porém em voz baixa. — Mas eu acredito que se ela está aí, então deveria estar aí, não?
Não era bem uma resposta, mas vinda de alguém que tantas e tantas vezes esteve ali para vender aquele imóvel parecia ser o suficiente.
Naquele fim de semana, os dois decidiram deixar o assunto de lado, uma porta impossível era difícil de aceitar - um erro de memória, por outro lado, era perfeitamente comum. - Davi verificou as medidas algumas vezes, mas, depois de horas transportando caixas e montando móveis, até ele começou a considerar a possibilidade de simplesmente ter cometido algum erro.
Na noite seguinte, as batidas voltaram, mas dessa vez da cozinha.
Toc. Toc. Toc.
Elisa estava lavando duas taças enquanto Davi estava organizando alguns livros em uma prateleira na sala, os dois pararam e ficaram olhando ao redor, como um animal que acabou de ouvir o som de um predador se aproximando.
— Você ouviu? — Disse ela em alto tom.
— Sim... — Davi foi até a cozinha e notou Elisa com as mãos tremendo.
Eles esperaram um outro som, mas ele não veio. Elisa olhou em direção à caixa onde havia guardado o bilhete, mas Davi percebeu e balançou a cabeça em sinal de negação.
— Nem inventa, Elisa.
— Eu nem falei nada.
— A sua expressão já falou...
Ela enxugou as mãos, olhou para Davi com um sorriso no rosto e gritou: — PODE ENTRAR!
As lâmpadas piscaram uma vez e Davi olhou assustado para o teto.
— Isso foi inoportuno. - Soltou em um tom amedrontado.
Elisa riu, mas foi um riso curto.
Na manhã seguinte havia uma janela na escada que levava ao pequeno depósito dos fundos. Não era uma janela especial: madeira branca, duas folhas de vidro e uma pequena trava enferrujada.
O problema era dava para o lado errado, Davi viu aquilo e abriu, do outro lado havia chuva, mas em Leorio fazia sol, ele fechou-a imediatamente.
Elisa achou que era alguma brincadeira sem-graça de Davi até abrir sozinha - a chuva continuava. - não parecia uma imagem, pintura ou reflexo, ali havia um quintal do outro lado, que não era o deles, a vegetação era diferente, mais baixa, e uma cerca de madeira separava o terreno de uma casa azul que nenhum dos dois reconhecia.
Elisa colocou a mão pra fora e sentiu alguns pingos tocarem os seus dedos, ela puxou a mão de volta e viu que ela estava molhada.
— Fecha...
Davi fechou.
Durante quase 5 minutos os dois ficaram olhando para a janela, mas nenhum deles falou nada, foi somente quando foi possível ver um relâmpago do outro lado que Elisa finalmente falou.
— A g-gente... Conta isso pra alguém?
— E fala o quê? — Davi olhou pra Elisa e disse em tom de deboche. — Que estamos ficando maluco?
Ela não respondeu, mas ficou observando enquanto Davi abria a janela novamente.
O outro quintal continuava ali, porém, havia alguma coisa nova: uma mulher estava parada perto da cerca, ela usava um vestido amarelo e segurava uma espécie de guarda-chuva preto antigo, ela parecia os observar.
Alguns segundos depois, Davi fechou a janela com pressa.
— O que foi? — Perguntou Elisa esperando uma resposta de Davi, como não obteve resposta alguma, ela tentou abrir a janela novamente, mas Davi segurou seu pulso.
— Não.
— Davi.
— Eu já disse... QUE NÃO!
Naquela noite, colocaram uma cadeira diante da janela, não porque acreditassem que uma cadeira impediria alguma coisa de atravessar, mas porque pessoas assustadas ainda preferem fazer gestos concretos - Trancar uma porta, empurrar um móvel, fechar uma cortina - mesmo quando sabemos que essas coisas não resolvem o problema, eles dão às mãos algo para fazer enquanto a cabeça tenta entender.
No dia seguinte, a janela mostrava apenas o quinta deles.
A casa azul havia desaparecido.
Davi passou a manhã inteira procurando plantas antigas do imóvel. Encontrou documentos digitalizados na prefeitura e voltou pra casa pra comparar todas as medidas. A casa registrada tinha 142m², ele mediu os cômodos e agora ela tinha exatos 159m², ele novamente repetiu a medida, e novamente 159m², era como se 17m² tivessem sido acrescentados sem modificar as paredes externas.
Quando contou para Elisa, ela perguntou se a casa estava ficando maior, mas Davi respondeu que não sabia.
— Você é o engenheiro! - Ela dizia.
— Você precisa parar de usar isso contra mim.
— Davi, eu só estou dizendo que se alguém aqui deveria entender uma casa impossível, seria você.
— Casas estranhadas não fazem parte da graduação...
Após alguns segundos de silêncio, os dois começaram a rir - eles precisavam rir - e assim, os dias foram passando devagar na vida do casal.
Na terceira vez que ouviram as batidas, eles já estavam esperando, as batidas vieram do teto da sala pouco depois da meia-noite.
Toc. Toc. Toc.
Davi e Elisa olharam um para o outro, mas dessa vez nenhum deles disse nada imediatamente, eles passaram quase um minuto em silêncio.
Então ouviram novamente.
Toc. Toc. Toc.
— Tá esperando nossa resposta... — Elisa murmurou.
— Pode entrar. — Disse Davi esperando algo acontecer, mas nada aconteceu.
Na manhã seguinte o corredor estava mais comprido, não havia nova porta ou uma nova janela, apenas um espaço maior. O caminho entra a sala e os quartos, que antes podia ser percorrido em poucos passos, agora parecia continuar por quase dez metros. A lâmpada do teto permanecia no mesmo lugar, de modo que a parte final do corredor ficava mergulhada em uma penumbra leve mesmo durante o dia.
Elisa foi a primeira a notar.
— Não gosto disso...
Davi mediu, 11 metros e 36 centímetros.
— Ontem tinha 5 metros... — Respondeu Elisa apavorada.
— Eu sei.
— Não, quero dizer que eu lembro, não sei como, mas dessa vez eu lembro.
Davi caminhou até o final enquanto ouvia as palavras de Elisa.
As portas dos quartos permaneciam onde deveriam estar, mas havia algo perturbador na maneira como aquele espaço havia sido inserido entre elas - não parecia uma construção nova - o piso tinha o mesmo desgaste, a pintura apresentava as mesmas rachaduras e até um arranhão que Davi lembrava existir próximo ao rodapé agora se repetia três vezes ao longo da parede.
Era como se alguém tivesse esticado uma fotografia.
— Davi. — Elisa apontava para a parede, ali havia uma marca de lápis próxima ao chão.
Uma pequena linha horizontal com um nome e uma alta.
PEDRO - 7 ANOS.
Acima havia outra.
PEDRO - 8 ANOS.
Depois 9, 10, 11 e as marcas continuavam a subir até que se encerra com uma que dizia: PEDRO - 14 ANOS.
— Isso sempre esteve na parede? — Davi perguntou enquanto passava o dedo pela inscrição. — Ou estava dentro da parede?
— Não sei. — Elisa respondeu desconfortável. — Talvez esse corredor tenha vindo de algum lugar.
A frase ficou entre eles por alguns segundos. Até aquele momento, Davi pensara nas mudanças como deformações da casa - um armário surgindo, uma janela apontando para outro local e um corredor agora se estendendo - a possibilidade levantada por Elisa era pior: talvez nada estivesse sendo criado, talvez a casa estivesse trazendo pedaços de outros lugares.
Naquela tarde eles resolveram pesquisar sobre a dona Orminda Salvat, mas encontraram pouca coisa.
Ela havia comprado a casa 38 anos antes e morou ali sozinha depois que o seu marido faleceu em uma expedição rumo a uma montanha no oceano. Ela não tinha filhos registrados, apesar de Nestor ter mencionado herdeiros.
Davi então resolveu pesquisar sobre o nome Pedro Salvat, mas não havia nenhum resultado.
Elisa pesquisou antigos moradores da Rua Meridiana, encontrando apenas uma pequena notícia arquivada em um jornal local, publicada vinte e quatro anos antes.
FAMÍLIA DESAPARECE MISTERIOSAMENTE EM LEORIO.
O texto falava de um casal e um filho de 14 anos, a polícia havia encontrado a casa vazia, portas trancadas por dentro, sem nenhum sinal de violência ou de arrombamentos, os desaparecidos eram: Marcos, Vera e Pedro Alencar.
O endereço não era a Rua Meridiana, na verdade, o endereço era de uma rua que ficava do outro lado da cidade. Davi leu, releu, e ficando martelando aquele noticiário na sua mente por minutos, não tão curtos, mas também não tão longos.
— O Pedro tinha 14 anos... — Ele olhou para Elisa e depois para o corredor.
Eles fecharam o navegador do celular e decidiram deixar pra lá, pois nenhum deles estava conseguindo forças pra completar qualquer pensamento.
Na noite seguinte, sem batidas.
Nem na outra.
Durante quatro dias a casa permaneceu completamente normal, isso deveria ser um alívio - mas não foi - Elisa começou a dormir mal, Davi acordava diversas vezes e verificava o corredor antes de voltar pra cama, e pelos dias que se estenderam, evitaram a pequena janela dos fundos e não usaram o armário que aparecera na primeira noite das batidas.
Foi somente um mês depois, que Elisa decidiu que precisavam ir embora, nem que fosse por apenas uma semana.
Davi não discutiu, eles arrumaram as malas com roupas suficientes para alguns dias e reservaram um quarto em um hotel em Bethlehem, cidade vizinha. Davi deixaria a casa fechada e tentaria encontrar alguém disposto a examiná-la, embora ainda não soubesse exatamente qual profissão seria apropriada - Engenheiro? Padre? Corretor? Físico? -
Quando estavam terminando as malas, ouviram três batidas que vinham de dentro do guarda-roupa preto antigo.
Toc. Toc. Toc.
Elisa parou o que estava fazendo e olhou para Davi que estava no corredor, os dois moveram as cabeças em sinal de negação, porém as batidas se repetiram.
Toc. Toc. Toc.
Elisa caminhou lentamente até a caixa de documentos onde estava o bilhete, tirou o papel e leu a inscrição novamente: "SE OUVIR TRÊS BATIDAS, DIGA: PODE ENTRAR".
— Talvez a gente tenha feito exatamente o contrário do que deveria. - Davi disse. — A gente ficou dando permissão...
— Pra quê? — Elisa ficou olhando para o guarda-roupa.
— Eu não sei. — Sussurrou Davi.
— Então por que alguém deixaria esse bilhete? - Elisa balançava o bilhete, lágrimas começavam a surgir pelos seus olhos, o medo em seu rosto se tornava cada vez mais evidente.
— Talvez isso não seja um aviso. — Davi caminhou até ela e tomou o bilhete de sua mão. — Talvez seja uma instrução.
O guarda-roupa recebeu outras três batidas, mas dessa vez, mais fortes.
— Não responde. — Disse Davi enquanto se aproximava do guarda-roupa. — Toda vez que respondemos alguma coisa mudou.
— Mas e se piorar? E se responder é justamente o que impede outra coisa de acontecer?
Era impossível saber.
Esse é um dos problemas das regras sobrenaturais: quando você recebe uma instrução sem contexto, obedecer e desobedecer podem ser igualmente perigosos. Davi decidiu pelo único padrão que conhecia, pois todas as vezes que eles haviam respondido as três batidas, a casa mudou - foram 3 vezes, e nas 3 vezes a casa mudou, então dessa vez não responderiam. -
As batidas continuaram durante quase uma hora, sempre em grupos de três.
Às vezes no guarda-roupa antigo.
Às vezes na parede.
Toc. Toc. Toc.
Em determinado momento os sons vieram debaixo da cama, foi nesse momento que ele se desmanchou em choro, mas Davi permaneceu sentado ao lado dela, segurando sua mão e repetindo que não responderiam.
Pouco depois das duas, os sons pararam e o silêncio que veio depois foi pior, pois nenhum dos dois conseguiu dormir, mas quando amanheceu, a casa parecia exatamente igual.
O corredor não havia crescido, nenhuma nova porta havia aparecido, a janela próximo a escada mostrar o quintal deles, e Davi quase sorriu, mas segurou seu sorriso quando viu que Elisa não parecia convencida, mesmo assim, saíram.
Decidiram sair depressa da casa e ir pra Bethlehem, mas ao abrir a porta da frente, se depararam não com a Rua Meridiana, mas um outro corredor: era estreito, coberto por papel de parede verde e iluminado por uma lâmpada amarelada, pendurada no teto.
Davi fechou a porta imediatamente, abriu novamente e o corredor continuava lá, Elisa se aproximou e perguntou com uma voz trêmula:
— Onde está a rua? — Esperava alguma resposta de Davi, mas não a recebeu.
O corredor parecia pertencer a uma casa muito mais antiga, havia fotografias nas paredes, mas a distância impedia reconhecer os rostos. Foi Davi que deu um passo para dentro do corredor enquanto sentia Elisa puxar a sua camisa.
Ele recuou e decidiram então ir até a porta dos fundos, mas ao abrí-la se depararam com um quarto infantil: Um pequeno quarto com paredes azuis, cama meio desarrumada e brinquedos espalhados pelo chão, na parede, ao lado da porta estavam as marcas de crescimento.
PEDRO - 7 ANOS
PEDRO - 8 ANOS
Ao perceber, Davi fechou rapidamente a porta.
A janela da sala mostrava uma cozinha desconhecida e a janela do quarto mostrava o interior de um banheiro, a pequena janela que antes revelava o quintal de uma casa azul agora dava para uma sala de jantar onde três pratos permaneciam sobre uma mesa que estava coberta por poeira. Eles pareciam estar cercados por outras casas, não por fora, a casa de número 114 parecia ter sido encaixada dentro de outras casas.
Davi correu até o corredor alongado e percebeu que as portas continuavam no lugar, só que agora havia outra porta no final, uma que não existia na noite anterior.
Não abriram.
Durante algumas horas tentaram encontrar uma saída.
Quebraram uma janela da sala, mas atrás do vidro havia uma parede de tijolos que começava poucos centímetros adianta, Davi bateu na parede até machucar a mão, tentaram o celular pois os aparelhos indicavam sinal, mas nenhuma chamada era completada e nenhuma página da internet era carregada.
Elisa enviou diversas mensagem, todas marcadas como enviadas, mas sem nenhuma resposta.
À tarde, eles começaram a escutar passos do lado de fora da porta da frente, alguém caminhava lentamente pelo corredor verde, se aproximando cada vez mais, ao ponto deles conseguirem enxergar as sombras por debaixo das frestas da porta. Aquilo parou diante da porta e novamente eles ouviram o som infernal.
Toc. Toc. Toc.
Elisa cobriu a boca e Davi segurou seu braço, para tapar a boca de sua esposa para caso ela gritasse de medo.
Toc. Toc. Toc.
As batidas recomeçaram.
— Tem alguém aí? — Uma voz masculina falou do outro lado. — Por favor, eu sei que tem alguém aí.
Davi e Elisa se entreolharam, a voz parecia humana, mas diferente. Elisa até tentou dar um passo pra frente, mas Davi a puxou de volta.
— Não. — Sussurrou no ouvido de Elisa.
— Mas pode ser alguém preso nessa maldita casa.
— Eu não quero descobrir se isso está preso ou não...
A pessoa deu três batidas novamente.
— Meu nome é Marcos, alguém aí?
Elisa empalideceu, enquanto Davi lembrou imediatamente: Marcos Alencar, o pai de Pedro, ou seja, um membro da família desaparecida 24 anos antes.
— Minha esposa está comigo. — Disse a voz. — Nosso filho sumiu e a gente não consegue encontrá-lo.
Elisa chorava copiosamente sem fazer barulho.
— Você tá falando do Pedro? — Perguntou Davi.
Primeiro houve silêncio e depois a voz respondeu:
— Você conhece meu filho?
— Não... — Davi fechou os olhos e não percebeu que Elisa estava se aproximando da porta. — Não conheço, apenas vi o nome dele marcado na parede da casa.
— Onde? — Perguntou a voz.
— No corredor. — Disse Elisa, fazendo com que Davi abrisse seus olhos e a tentasse puxar de volta.
A voz começou a falar de maneira trêmula, porém mais depressa.
— Abre a porta.
Davi segurou Elisa, enquanto do outro lado o homem insistiu.
— Por favor, a gente está aqui faz... Eu não sei quanto tempo, abre! Por favor abre! — Ele começou a bater na porta novamente, cada vez mais depressa.
— Talvez sejam eles... — Elisa olhou pra Davi. — Talvez o tempo aqui dentro dessa casa pode ser diferente, e eles não perceberam que já se passou 24 anos... — Foi quando a porta recebeu três batidas secas, que Elisa exclamou: — Pode entrar!
Eles ficaram em silêncio, o homem havia parado de bater.
— Pode entrar. — Dizia outra voz do outro lado, porém não era a voz com a qual estavam conversando, mas uma junção de vozes masculinas e femininas. — Pode entrar. — A voz repetiu.
Não estava mais batendo na porta, aquilo que estava do outro lado parecia estar pedindo para Davi ou Elisa abrir a porta para recepcioná-lo. Durante algum momento eles escutaram novamente três batidas vindo da lateral do corredor.
— Pode entrar. — Davi disse.
— Pode entrar. — A voz repetia, enquanto era possível escutar um ruído pesado do outro lado da porta.
Depois um grito.
Davi puxou Elisa para trás com o susto, e percebeu que após o grito, alguma coisa começou a arranhar a porta - não bater, arranhar - eles recuaram até a sala, indo de costas, observando a porta. O som continuou por vários minutos até que então parou.
Naquela noite, os dois ficaram acordados com todas as luzes da casa acesas, mas ninguém comentava nada e ninguém mais falava nada do lado de fora, era um silêncio assombroso.
Perto das 03h da madrugada, ouviram novamente as três batidas, mas dessa vez vieram de uma porta nova no final do corredor.
Toc. Toc. Toc.
A maçaneta girou lentamente, mas a porta não se abriu.
Toc. Toc. Toc.
Três novas batidas.
Elisa pegou o papel deixado por dona Orminda e rasgou no meio dizendo que eles não iriam mais dizer para aquilo entrar, mas as batidas continuaram. Foi somente pela manhã, que eles perceberam que aquela porta nova havia desaparecido e no lugar dela havia apenas uma parede. Por algumas horas, ambos acreditaram que talvez tivessem compreendido a regra de Orminda: Dizer "pode entrar" permitia que a casa incorporasse alguma coisa e não responder a impedia.
Mas essa interpretação durou pouco, pois no começo da tarde, ouviram um som vindo da janela, exatas três batidas no vidro.
Toc. Toc. Toc.
Quando Davi olhou, percebeu que do lado de fora estava - Dona Orminda? - ele a reconheceu pela fotografia do anúncio antigo da casa. A mulher permanecia parada em um cômodo que eles nunca tinham visto, parecia muito mais jovem do que na fotografia, talvez tivesse uns 40 anos. Levou um dedo aos lábios e depois apontou para alguma coisa fora do campo de visão.
Elisa se aproximou e viu Orminando escrevendo com o dedo na poeira do lado de fora do vidro: "NÃO É PRA ELA."
Davi franziu a testa e a mulher retirou a poeira, buscou um pedaço de papel e escreveu com um lápis: "É PRA CASA."
Toc. Toc. Toc.
Três batidas ecoaram pela cozinha, Elisa e Davi começaram a olhar ao redor para descobrir de onde vinha o barulho, enquanto Orminda gesticulava de maneira desesperada para chamar a atenção deles, ela arrancou uma nova página de um bloco de notas e escreveu: "ELA PEDE LICENÇA"
— A casa? — Elisa disse em voz alta, vendo Orminda assentir.
Então outra sequência de batidas.
Toc. Toc. Toc.
Davi sentiu o estômago afundar, pois durante todas aqueas noites, não havia alguma coisa dentro das paredes pedindo parar entrar, era a própria casa - mas entrar onde? -.
— Entrar onde? — Davi se aproximou do vidro, percebeu que Orminda não podia ouvi-lo ou pelo menos, fingiu não ouvir, mas escreveu uma outra frase: "NÃO DEIXEM ENTRAR EM VOCÊS".
A janela escureceu e quando a luz voltou, dona Orminda havia desaparecido, Davi e Elisa permaneceram por alguns segundos em silêncio, a frase explicava pouco, mas era suficiente para destruir a única segurança que ainda possuíam. Se as primeiras respostas tinham permitido que a casa entrasse em alguma coisa, talvez os quartos, corredores e janelas fossem apenas etapas.
As batidas recomeçaram ao anoitecer, primeiro na parede, depois no teto e logo em seguida no chão, mas nenhum deles respondeu.
Foi um pouco antes da meia-noite, Elisa disse que estava sentindo um leve incômodo no ouvido, quase como se algo estivesse pressionando o seu tímpano esquerdo, Davi até perguntou se ela estava sentindo, e ela prontamente disse que não.
Logo, se iniciaram outras três batidas, mas dessa vez não vieram da casa, vieram de dentro da cabeça de Elisa. Ela rapidamente levou as mãos aos ouvidos e olhou para Davi.
— Amor... — Ela estava apavorada. — Está aqui...
— O que foi? — Ele se aproximou. — Onde está?
— Dentro... — Elisa começou a chorar. — Eu consigo sentir... — Elisa fechou os olhos enquanto sentia mais três pequenas batidas.
— Só não responde. — Davi segurou o rosto de Elisa. — Olha pra mim! Aconteça o que acontecer, NÃO RESPONDA!
Ela assentiu com a cabeça, enquanto sentia as batidas continuarem.
Não demorou muito para Davi começar a ouvir também, não era exatamente um som, era uma sensação seca atrás dos olhos, três impactos pequenos separados por intervalos perfeitos.
Toc. Toc. Toc.
A cada nova sequência, a vontade de responder aumentava, não porque alguma voz o ordenasse, era mais parecido com a necessidade de terminar uma frase conhecida. Quando alguém bate à porta, existe uma expectativa de resposta, e quando essa batida acontece dentro da própria cabeça, o silêncio parece errado.
Elisa passou horas repetindo: — Não fala. Não fala. Não fala.
E Davi concordava, mas o problema é que ninguém consegue permanecer acordado para sempre, e mesmo com todo o incômodo, Elisa foi a que adormeceu primeiro. Davi ficou ali sentado ao lado dela até perceber que também estava perdendo a consciência.
Não sabia por quanto tempo ele dormiu, mas ele acordou com a voz de Elisa, dizendo em voz muito baixa: — Pode entrar.
Davi ergueu os olhos e levantou assustado: — Elisa! O que você fez? — Mas percebeu que ela continuava dormindo e repetindo que aquilo podia entrar. — ELISA! — Davi a sacudiu.
— O quê? — Elisa acordou assustada.
A casa inteira estalou.
Não foi como madeira cedendo, pareceu um suspiro percorrendo pelas paredes, esse "suspiro" fez todas as portas se abrirem ao mesmo tempo e uma enorme pressão foi lançado contra os dois que caíram novamente ao chão. Davi abraçou Elisa e durante alguns segundos, nada mudou.
— Você sempre teve essa cicatriz? — Elisa perguntou, enquanto tocava o rosto de Davi.
Davi levou a mão ao rosto, mas não era capaz de sentir cicatriz alguma, mas sentia uma fina linha descendo de sua sobrancelha até a mandíbula. Ele correu para o banheiro, o homem no espelho - quase - parecia ele, os olhos eram um pouco mais fundo e o cabelo estava ligeiramente mais grisalho, e sim, havia uma cicatriz.
No peito havia uma tatuagem que nunca fizera, que tinha um nome: VERA
— Davi... — Elisa parou na porta do banheiro atrás dele, e quando ele virou, ela mostrou uma fotografia que havia acabado de encontrar no chão próximo ao banheiro, na imagem estavam Marcos, Vera e Pedro Alencar, mas ao lado deles havia um quarto homem.
Davi, porém mais velho, com a mesma cicatriz.
Elisa começou a repetir que não fazia sentido, mas a própria casa já havia deixado claro que sentido não fazia parte da história. Ao permitir a entrada, talvez não estivessem apenas trazendo cômodos, a casa parecia também misturar pessoas com aquilo que guardava.
Elisa correu até a sala e notou que na parede havia novos quadros com fotografias, centenas com fotos de famílias diferentes e todos de décadas diferentes, casas diferente. Em quase todas havia alguém que Davi ou Elisa reconheciam vagamente sem saber de onde. Entre as fotos eles encontraram uma fotografia dos dois diante da casa de número 114.
O problema é que a mesma fotografia tirada por Nestor no dia em que eles compraram a casa, na imagem, Davi e Elisa estavam mais velhos, e atrás deles havia uma criança, uma menina de aproximadamente 6 anos de idade.
— Quem é ela? — Elisa tocou a fotografia, ela sabia que Davi não saberia a resposta, mas mesmo assim sentiu a necessidade de perguntar. — Ela tem os meus olhos e o seu sorriso, Davi...
Elisa pegou a fotografia e viu que no verso estava escrito um nome: CLARA.
Ela prontamente começou a chorar, não porque lembrasse de Clara, ou porque esse era o nome que ela gostaria de colocar em sua futura filho, mas porque, de alguma maneira, ela sentia saudade daquela garota. Esse foi o momento em que perceberam que a casa não precisava mover apenas as paredes, ela podia trazer lembranças de lugares que ainda nem existiram, pessoas que nunca conheceram e versões de vidas que talvez tivessem acontecido em algum outro lugar. A saudade de Elisa pela menina era real, isso tornava tudo ainda pior, porque significava que não poderiam mais confiar sequer naquilo que sentiam.
As batidas voltaram pouco antes do amanhecer, dessa vez vindo da porta da frente.
Toc. Toc. Toc.
Elisa apertou a mão de Davi, mas nenhum respondeu. Foi após mais três batidas, que uma voz infantil falou do corredor verde.
— Mãe?
Elisa parou de respirar e Davi sentiu seus dedos se fecharem ao redor da mão dele.
— Mãe? Abre aqui.
Elisa até tentou caminhar, mas Davi a segurou.
— Não é ela! Digo... A gente nem sabe quem ela é. — E ele estava certo. Como poderiam confiar em uma memória assim?
— Mãe, eu tô cum medo... — A menina começou a chorar do outro lado.
Davi puxou Elisa para trás dele, e ela levou a mão à boca, dando uma mordida tão forte que a fez sangrar um pouco. A saudade que sentia daquela criança "improvável" era tão forte que Davi percebeu que não conseguiria segurá-la por muito tempo.
— Clara... — Elisa murmurou
— Mãe? — A voz parou de chorar, e então vieram três batidas. — Pode entrar?
Dessa houve um pedido parar entrar, ou talvez fosse exatamente a mesma coisa de antes usando uma voz que Elisa não conseguiria recusar. Elisa caminhou até a porta parar abrir, mas Davi a puxou com força.
Os dois começaram a discutir em voz baixa, com medo de que até mesmo gritar pudesse contar como algum tipo de resposta. Elisa dizia que aquela menina era a filha deles e eles tinham que abrir logo para ajudá-la, enquanto Davi exclamava que eles nunca tiveram filhos, Elisa retrucava que lembrava dela agora.
E lembrava mesmo.
Lembrava de Clara aprendendo a nadar, derrubando suco no sofá, dormindo entre eles durante uma tempestade, memórias que toda mãe tem guardado no coração, apesar de Davi também lembrar dessas memórias, isso não o convenceu, ele sabia que aquelas memórias não existiam minutos antes, mas isso também não diminuía a dor de um pai ouvindo o pedindo de ajuda de sua filha pequena.
— Pai? — A menina bateu novamente.
Davi começou a chorar e caiu sem forças no chão.
Elisa correu pra porta e colocou a mão na maçaneta, mas então Davi percebeu algo curioso: Na fotografia, Clara tinha 6 anos de idade, nas novas memórias ela também tinha 6 anos, não havia nada antes do nascimento, nada depois dos 6 anos.
Era como se alguém tivesse criado apenas o suficiente para que desejassem abrir, ele correu na direção de Elisa e puxou com tanta força que a fez cair no chão.
— ELA NÃO EXISTE! — Ele gritou.
— EXISTE SIM! — Elisa se levantou e começou a arranhar o rosto de Davi.
— Então me diz, Elisa... — Davi segurou as mãos dela com tanta força que deixou marcas em seu pulso. — Me diz, Elisa! Quando ela nasceu! O que você sentiu quando ela nasceu?
Elisa até abriu a boca, mas a resposta não saiu.
— Qual foi o médico que nos atendeu? — Ele perguntava em alto tom.
Elisa começou a tremer, enquanto ouvia Clara clamando por ela do outro lado.
— Diz Elisa! Qual foi a primeira palavra dela?
Ela fechou os olhos tentando buscar em sua memória, mas não encontrava nada.
— Eu não sei, Davi! Eu não sei!
— É porquê nunca aconteceu!
Nesse momento, Clara parou de chorar.
Sua voz mudou, mas não muito, apenas perdeu a tonalidade humana que ela tinha.
— Pode entrar. — A voz dizia. — Pode entrar. — Disse novamente. — Pode entrar.
A maçaneta começou a girar sozinha.
Eles correram para o quarto e ouviram as batidas se espalhando pela casa: Paredes, teto, piso, janelas, porta, mas sempre três batidas.
A casa inteira estava pedindo, ou melhor, exigindo.
Não se sabe como ou quando, mas as horas passaram como em um piscar de olhos, eles só perceberam que havia amanhecido, quando tudo parou. Davi e Elisa permaneceram abraçados no chão do quarto por horas, não perceberam, aliás nenhum sabia quanto tempo ainda conseguiriam resistir.
Foi Elisa quem percebeu primeiro que havia luz entrando pela janela.
Luz natural.
Ela empurrou Davi para trás e correu até lá, começou a sorrir ao perceber que a Rua Meridiana estava do lado de fora. Viu carros passando, uma mulher caminhando com sacolas, parecia que o mundo havia voltado.
Davi vendo isso correu pra porta da frente e a rua estava ali.
Os dois saíram sem pegar roupas, documentos ou qualquer outra coisa, apenas saíram, correram até o outro lado da rua e olharam para o céu com extrema felicidade, ambos saltitavam felizes e abraçavam as pessoas que caminhavam pela rua. Quando olharam para trás a casa parecia normal: Número 114, portão de ferro, mangueira no quintal, nenhuma outra coisa impossível.
Davi ligou para Nestor naquela mesma hora, dizendo que queria vender e ouviu o corretor responder surpreso.
— Mas já?
— Sim, Nestor! Quero vender essa porcaria!
— Não gostaram da casa? — Perguntou o corretor. — Vocês moraram tão pouco aí.
— Nestor... — Davi olhou para Elisa. — A gente não gostou da casa, tem algo estranha nela. — Davi percebeu que Nestor permaneceu algum tempo em silêncio. — Você sabia né?
— Sabia do quê?
— Sobre as batidas. — Ele esperou uma resposta do corretor, mas não veio. — Nestor? — E a ligação foi encerrada.
Eles nunca mais voltaram para dentro casa, nem mesmo para buscar seus documentos ou os móveis.
Durante semanas, dormiram em hotéis e depois alugaram um pequeno apartamento em Bethlehem, a cidade mais próximo de Leorio. Davi perdeu dinheiro suficiente para passar meses reclamando, mas ele nunca reclamou. Elisa parou de falar sobre Clara depois de algum tempo, embora ainda acordasse chorando em algumas noites sem saber exatamente por quê.
A casa foi colocada à venda novamente, Davi encontrou o anuncio três meses depois e percebeu que o valor estava ainda mais baixo. As fotografias mostravam a sala, a cozinha, os quartos e o quintal. Na foto do corredor, ele percebeu que o espaço havia voltado ao tamanho original, não havia porta extra, não havia marcas de Pedro, era uma casa comum.
Foi então que Elisa chamou sua atenção para uma das imagens, no quarto principal havia um guarda-roupa antigo encostado à parede - o mesmo que surgiu depois de um tempo - atrás dele, quase invisível, aparecia a ponta de um pedaço de papel.
Davi fechou o anúncio, nunca mais o procurou, eles tentaram seguir a vida e por um bom tempo, eles conseguiram,
Dois anos depois, Elisa engravidou.
A notícia deveria ter sido apenas feliz, mas ambos permaneceram em silêncio quando o médico mostrou a imagem pela primeira vez: Era uma menina. Eles não escolheram o nome imediatamente, passaram meses evitando tocar no assunto, mas quando a criança nasceu, Elisa olhou para Davi e perguntou se ele também estava pensando na mesma coisa.
Estava.
Chamaram a filha de Clara.
A menina cresceu saudável, aos cinco anos, derrubou suco no sofá durante uma festa, aos seis anos caiu de bicicleta e machucou o joelho, sempre dormia com eles durante uma tempestade, memórias que pareciam se entrelaçar com as antes apresentadas pela casa, as memórias começaram a voltar, não como invenções, mas como antecipações.
Naquela noite, nenhum deles dois dormiu, pouco depois das 03h da madrugada eles escutaram um som vindo do quarto de Clara.
Toc. Toc. Toc.
Davi levantou imediatamente e Elisa foi atrás, a menina continuava dormindo, eles se aproximaram dela até escutar o som novamente, três batidas, que vinham do interior do guarda-roupa.
Davi abriu com pressa, mas ele estava vazio, como estava escuro ele demorou a perceber, mas no fundo do móvel havia um pequeno pedaço de papel preso à madeira, um papel que não estava ali quando compraram o guarda-roupa, nele a frase já conhecida: SE OUVIR TRÊS BATIDAS, DIGA ;'PODE ENTRAR".
Clara se mexeu na cama, ainda dormindo, soltou um leve sorriso como de quem está em um sonho bom e murmurou baixinho: — Pode entrar.
Davi correu até sua filha no mesmo instante, mas já era tarde. A parede atrás do guarda-roupa produziu um ruído profundo, como madeira antiga se acomodando dentro de uma estrutura muito maior, e o quarto pareceu aumentar alguns centímetros. Nada surgiu imediatamente, nenhuma porta apareceu, nenhuma janela se abriu e nenhuma voz chamou por eles, por durante quase um minuto, a única coisa que aconteceu foi o silêncio voltar.
Elisa rapidamente percebeu a mudança.
A janela do quarto não mostrava mais a cidade de Bethlehem, do lado de fora havia chuva.
Atrás de uma cerca de madeira, uma casa azul ocupava o terreno vizinho. Uma mulher de vestido amarelo permanecia parada sob um guarda-chuva antigo preto, exatamente como Davi a vira anos antes, mas desta vez, porém, ela não olhava para ele.
Seu rosto estava voltado para Clara.
A mulher ergueu lentamente uma das mãos e apontou para alguma coisa atrás da menina. Davi se virou, esperando encontrar outra porta ou outra pessoa dentro do quarto, mas não havia nada. Quando olhou novamente para a janela, a mulher escrevera uma frase no vidro molhado do lado de fora: ELA JÁ ESTAVA AÍ.
Davi sentiu Elisa apertar seu braço, Clara continuava dormindo, tranquila, enquanto pequenas batidas começaram a surgir sob sua cama. Primeiro três, depois um intervalo curto, depois outras três. Davi pegou a filha no colo e tentou sair do quarto, mas o corredor do apartamento estava mais comprido do que deveria.
No fim do corredor era possível ver uma porta em tom creme com uma maçaneta redonda de metal, a mesma da porta da casa em Leorio. Elisa começou a dizer que aquilo não podia estar acontecendo novamente, mas Davi já havia entendido algo que os dois demoraram anos demais pra perceber. Eles tinham acreditado que haviam escapado da casa número 114. Talvez tivessem até vendido o imóvel, mudado de endereço e construído outra vida. Só que a casa nunca precisou acompanhá-los fisicamente, bastou receber a permissão uma única vez, depois disso, tudo aquilo que Davi e Elisa chamavam de lar era apenas mais um cômodo que ela poderia alcançar.
Três batidas vieram da porta no fim do corredor.
Clara acordou lentamente nos braços do pai e olhou naquela direção sem demonstrar medo. — Tem alguém querendo entrar — disse.
Elisa ajoelhou diante da filha e segurou seu rosto. — Quando você ouvir isso, nunca responda, está entendendo? Nunca.
Clara franziu a testa.
— Mas ela fica triste.
Davi sentiu o corpo gelar.
— Quem? — Ele perguntou.
A menina apontou pra parede. — A casa.
As batidas vieram novamente, e dessa vez os três conseguiram sentir a vibração atravessar o chão. Elisa segurou Clara, Davi permaneceu diante delas e ninguém respondeu. Pouco a pouco, porém, outros sons começaram a surgir atrás das paredes: passos, móveis sendo arrastados, portas abrindo e vozes baixas demais para serem compreendidas, eram muitas, talvez dezenas, talvez pessoas que haviam vivido em todos os cômodos que a casa aprendera a guardar.
Entre aquelas vozes, Elisa reconheceu o de uma criança, não era o de Clara, era a voz de um menino que repetia alguma coisa.
Davi se aproximou da parede.
— O que ele está dizendo? — Se perguntava Elisa, demorando a compreender, quando conseguiu, desejou não ter ouvido. — Ele está contando.
— Contando o quê? — Perguntava Davi, repetidamente.
A voz infantil continuava
Sete.
Oito.
Nove.
Dez.
Onze.
Doze.
Treze
Quatorze.
Pedro.
Davi olhou para o longo corredor, para a porta distante e depois para a própria filha. Aos poucos, pequenas marcas começaram a aparecer na parede ao lado de Clara, linhas finas traçadas por alguma coisa invisível.
A primeira surgiu na altura de seus ombros, ao lado dela apareceu um nome: CLARA - 6 ANOS.
Elisa tentou apagar com a mão, mas a marca não sumia. Outra linha começou a surgir alguns centímetros acima, ainda não havia idade escrita ao lado. Davi rapidamente percebeu que aquilo ali não era uma memória, era um espaço reservado para Clara.
As três batidas voltaram uma última vez naquela madrugada, porém nenhum dos dois respondeu, mas dessa vez a casa também não pareceu esperar alguma resposta deles. A nova marca continuou se formando lentamente na parede enquanto, do outro lado da janela, a mulher de vestido amarelo permanecia imóvel sob a chuva. O mar, que não deveria poder ser visto de nenhuma parte daquele bairro, aparecia atrás da casa azul, mas foi somente quando a silhueta de uma montanha começou a surgir naquele horizonte, que Elisa teve a impressão de que a água estava mais alta do que antes.
No corredor, a maçaneta da porta creme começou a girar.
Não havia mais nenhuma batida ou pedido de licença.
Talvez, depois de tantos anos, a casa finalmente tivesse entendido que a licença já havia sido dada há anos atras.