As Paredes
Aquele quarto de paredes brancas, preenchido apenas por objetos de conforto noturno, alimentou-me por muito tempo com aquilo que eu pensava ser paz. As cores e os objetos que ali não existiam representavam a imensidão do vazio que ocupava minha existência.
Olhei para aquelas paredes por tanto tempo que me perdi naquele espaço vazio e sem vida.
Em uma noite quente, com as janelas de vidro entreabertas e a cortina roxa entrealinhada, percebi algo que antes não tinha forma e que, até então, me trazia o conforto de não me indagar.
Aquelas paredes brancas, regadas de histórias nebulosas e carregadas de uma tristeza disfarçada por um brilho vazio, gritavam por transformação.
Por onde começar? Com uma cor, uma textura, um cheiro que substituísse aquele odor?
Aquela parede branca específica, com sua palidez profunda, recebeu folhas, retratos e frases que se transformavam em sons capazes de embalar o sono. Aos poucos, aquilo que antes era apenas um interior sem vida transformou-se em pura harmonia.
O espaço vazio foi se dissolvendo.
E, enquanto preenchia aquelas paredes, percebi que, talvez, também estivesse preenchendo a vida que ali ainda não existia.
Autora: Eliete Souza