Em 1964, Eduardo virou símbolo. Deixou de ser homem pra ser ideal. E Helena entendeu que não conseguia competir com idealismo.
Capítulo 4 O país começa a escurecer
Março de 1964.
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Pensamento
Em 1964, Eduardo virou símbolo. Deixou de ser homem pra ser ideal. E Helena entendeu que não conseguia competir com idealismo.
Conteúdo da publicação
Março de 1964.
O rádio, antes ocupado por canções, passou a ser interrompido por boletins urgentes.
Nos cafés, as conversas diminuíam de volume quando alguém desconhecido se aproximava.
Os jornais chegavam às bancas carregados de notícias que pareciam envelhecer antes mesmo do meio-dia.
Eduardo passou a dormir pouco.
A redação fervilhava. Repórteres entravam e saíam às pressas, telefones tocavam sem parar, e o cheiro de tinta de impressão misturava-se ao da ansiedade.
Na universidade, Helena ainda tentava preservar um pouco da leveza. Levava discos dos Beatles para ouvir com os amigos, descobria os primeiros compositores que misturavam ritmos brasileiros com guitarras elétricas e sonhava com uma literatura capaz de dialogar com aquele tempo contraditório.
— Um dia o Brasil vai cantar diferente — dizia.
Eduardo sorria, mas seu sorriso já não tinha a mesma despreocupação.
— Espero que ainda possa cantar.
Naquela época, eles passaram a se encontrar menos.
Não por falta de amor.
Mas porque a realidade ocupava todos os espaços.
Quando finalmente conseguiam jantar juntos, Eduardo parecia carregar o peso de dezenas de histórias.
— Hoje entrevistei uma mãe que procura o filho há três dias.
Helena segurou sua mão.
— Encontraram?
Ele permaneceu em silêncio.
Ela compreendeu a resposta.
Outra noite, ele apareceu com o lábio machucado.
Disse que havia tropeçado.
Ela não acreditou.
Passou delicadamente uma pomada no pequeno corte.
— Estão te ameaçando?
Eduardo evitou seus olhos.
— Jornalistas incomodam algumas pessoas.
— Você pode parar.
Ele levantou a cabeça imediatamente.
— Não posso.
— Pode, sim. Pode escrever livros, dar aulas, trabalhar em outra coisa...
— E deixar que contem mentiras no meu lugar?
Helena suspirou.
— Eu só tenho medo de perder você.
Ele acariciou seus cabelos.
— E eu tenho medo de perder o meu país.
As palavras ficaram suspensas entre os dois.
Pela primeira vez, Helena percebeu que havia um adversário invisível disputando Eduardo.
Não era outra mulher.
Era a própria História.
Em junho, ela o convidou para assistir a um pequeno show universitário.
Um grupo de rapazes desconhecidos tocava músicas inspiradas naquele novo som que vinha da Inglaterra.
Helena batia palmas, cantava, ria.
Eduardo a observava mais do que observava o palco.
Ela dançava sem perceber que chamava a atenção de todos.
Livre.
Inteira.
Viva.
No intervalo, ela correu até ele.
— Você não acha incrível?
— Acho.
— O quê?
— Você.
Ela sorriu.
— Não vale responder assim.
— Então respondo de outro jeito.
Segurou seu rosto entre as mãos.
— Quando você sorri, eu quase consigo acreditar que esse país ainda tem salvação.
Ela o abraçou com força.
Por alguns minutos, o mundo voltou a ser simples.
Mas os meses seguintes endureceram os dias.
A censura crescia.
Amigos desapareciam da universidade.
Professores eram afastados.
Na redação, textos inteiros voltavam cobertos por riscos vermelhos.
Eduardo começava a publicar reportagens assinadas apenas com iniciais.
Helena percebia que ele estava mudando.
Os silêncios tornavam-se mais longos.
Os abraços mais apertados.
As despedidas mais demoradas.
Numa noite de agosto, caminhavam pela Avenida Paulista quase deserta.
O vento frio fazia Helena esconder as mãos nos bolsos do casaco.
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
— Promete uma coisa?
— O quê?
— Que, aconteça o que acontecer... você nunca vai deixar de voltar para mim.
Eduardo parou de andar.
Olhou demoradamente para a mulher que amava.
Pensou na noite do pequeno hotel.
Na frase que lhe dissera.
"Você é feita do mesmo barro que eu."
Quis prometer.
Quis jurar.
Quis acreditar.
Mas o jornalista dentro dele já sabia que havia promessas que o tempo não permitia fazer.
Então apenas a abraçou.
Muito forte.
Como quem tenta impedir que o futuro lhes roubasse aquele instante.
Sem saber, naquele abraço já existia um adeus.
Porque, às vezes, o amor não termina quando acaba.
Começa a doer muito antes disso.
Thoughts
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PermalinkIsso. A história levou. Não porque ele não amava. Mas porque algumas épocas demandam sacrifício. E quem ama o país consegue sacrificar o pessoal.
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PermalinkUm dos meus irmãos desapareceu em ditadura. A gente nunca soube se foi por política ou crime. Mas minha mãe disse uma vez: 'A gente ama, mas a história levou embora'.
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PermalinkEm 1964, Eduardo virou símbolo. Deixou de ser homem pra ser ideal. E Helena entendeu que não conseguia competir com idealismo.
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PermalinkA frase dele sobre o medo de perder o país me fez pensar: quando é que a gente se torna maior que o amor de uma pessoa?
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PermalinkE os abraços mais apertados porque ambos sabem que cada abraço pode ser o último. Não é demonstração, é desespero disfarçado de carinho.
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PermalinkOs silêncios ficando mais longos. Isso é real demais. Quando tem uma coisa grande demais pra falar, o silêncio vira linguagem. A gente comunica tudo no que NÃO diz.
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PermalinkNo fim, naquele abraço já tinha um adeus. É tão exato esse final. Mas diz, ele mandava recado depois? Ou foi mesmo tudo que tinha pra dizer?
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Permalink"E eu tenho medo de perder o meu país." Cara, que frase pra deixar tudo claro. Eduardo escolheu. E Helena... bem, ela entendeu.
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PermalinkOs silêncios ficando mais longos, os abraços mais apertados. Dói demais quando a gente vê alguém que a gente ama começando a se afastar.
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PermalinkHelena dançando livre enquanto tudo endurecia ao redor. Aquele show era um respiro real. Você acha que ela já sabia que o tempo deles tava contado?
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