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1883 - Capítulo 2: Na sua mente. Sensível Spoiler

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Pensamento

Pensamento

duvidaHonesta

Meu palpite é que Sean vai mudar depois daquela missão, porque tem algo quebrando dentro dele: a boca com gosto de metal, a mãe que esqueceu. Você tá preparando a gente pra perder ele.

Meu palpite é que Sean vai mudar depois daquela missão, porque tem algo quebrando dentro dele: a boca com gosto de metal, a mãe que esqueceu. Você tá preparando a gente pra perder ele.

Conteúdo da publicação

COMPLETO!

SEAN

A mesma gota de sempre pingava novamente em seu rosto através da lona da cabana.

A primeira coisa que pensou quando acordou foi que precisava mijar.

A segunda foi que não queria morrer com as calças abaixadas.

Ficou alguns segundos olhando para o teto de lona, ouvindo a chuva bater sobre o acampamento. Uma chuva tão forte que podia sentir a barraca querer voar.

Esperou o som da chuva ficar mais fraco para sair. Não demorou muito desde o momento em que acordara.

Estava ali, indeciso entre sair para mijar e talvez ser acertado por uma flecha ou deixar para mijar em batalha. Quem perceberia mesmo?

Lembrou-se de quando estava na academia militar e torcia para poder voltar para casa e estar entre os braços quentes da mãe.

Sua boca tinha gosto de metal.

Passou a língua pelos dentes e sentiu alguma coisa quebrada. Um pedaço de obturação, talvez. Já fazia três dias que não escovava os dentes.

— Soldado!

Escutou a voz de alguém gritando do lado de fora e abriu os olhos.

O cabo Almeida estava parado na entrada da barraca, olhando para Sean, que permanecia deitado.

Sean, o cabo e companhia ficavam na área mais afastada do centro do acampamento.

Ficavam na parte norte, para confrontos rápidos com a Venezuela e a Colômbia.

— Levanta. A gente vai junto com o front, protegendo os pilotos de drones.

— Já tô levantando — respondeu, virando-se para a parede e permanecendo deitado.

Mesmo com os olhos fechados, podia sentir os olhos do cabo queimando em suas costas, até que ele chutou o pé da cama.

— Levanta, porra.

Sean piscou e já estava em pé, batendo continência.

— Chegou uma missão extra, pra começar bem o seu dia.

— Que missão? Achei que hoje nós só íamos ficar de guarda aqui no arsenal. — Sean coçou a barba crescida e percebeu que não cheirava tão bem. — E ainda preciso passar uma água na cara.

— A gente ia, mas chegou uma ordem diretamente do Rei — o cabo Almeida respondeu enquanto eles saíam das barracas. — Vamos... Sei lá o que vamos fazer. Estamos perdendo a guerra.

— Como assim? — Sean não acreditou no que havia escutado. — Ganhamos nos confrontos contra a Bolívia e o Peru.

— E do outro lado perdemos para a Argentina e a Guiana Francesa! — cabo Almeida gritou, quase em um choro insatisfeito, chutando um balde próximo.

Sean respirou pesado. O ar estava úmido e ainda chuviscava devagar do lado de fora.

A floresta começava a poucos metros do acampamento. Durante o dia, ela parecia apenas verde. À noite, parecia um buraco. Um buraco enorme, cheio de coisas que faziam barulho quando ele não conseguia vê-las.

— Vamos invadir a infraestrutura de comunicações deles.

— Aquela instalação que vimos outro dia pelo drone? — Sean perguntou com um tom sarcástico.

— É. Aparentemente, os comandantes da N.N.S. na Colômbia usam ela para se comunicar com o resto do continente.

— Aí nós tem que ser os kamikazes? — Sean questionou, contrariado.

— Alguém tem que ser, né. — Cabo Almeida respondeu com desprezo na voz. — Seu pai lá no front contra o resto do mundo e você nessa?

Ele cuspiu no chão e saiu andando, pisando forte como se aquilo fosse mudar alguma coisa.

Sean nem havia notado, mas estava com as botas atoladas na lama.

E o cheiro não era apenas o da floresta. Era fumaça, suor, combustível e alguma coisa podre que ele preferia não identificar.

Havia homens sentados perto da fogueira apagada. Alguns comiam. Outros apenas olhavam para a mata como se esperassem que ela lhes dissesse quando seria seguro morrer.

Sair todo dia era um risco diferente. Não que já houvesse lutado em alguma guerra antes para poder dar uma opinião melhor, mas Sean não achava tão patriota assim ser devorado por uma onça enquanto cagava na mata.

Um soldado estava de cócoras ao lado de uma caixa de munição, tentando acender um cigarro com as mãos protegidas do vento.

Sean olhou para ele por alguns segundos.

O homem finalmente conseguiu.

— Tem isqueiro aí? — Sean perguntou, verificando se ainda tinha algum cigarro.

O soldado levantou os olhos.

— Acabou de acabar.

Ele chacoalhou o isqueiro e o jogou longe.

Sean assentiu, olhando para o isqueiro no chão.

Não queria ir tão longe. Não era o momento para virar lanche de nenhum predador.

Mas também não podia ficar muito perto. Não queria ser “confundido” com um inimigo e morrer com vinte tiros de aviso nas costas.

Seguiu até a parte mais afastada do acampamento.

Membros humanos apodrecidos, já consumidos pela floresta, estavam espalhados pelo caminho.

Sua parafal permanecia sempre junto ao corpo, próxima o suficiente para ser puxada em um instante. Era a sua segurança e a garantia de que o próximo homem perto dele também fosse brasileiro.

Passou por um homem que parecia vivo. Usava uma farda semelhante à sua, mas parecia ter sido surpreendido por uma mina, já que lhe faltava do joelho para baixo em ambas as pernas.

Ele não gritava nem berrava de dor. Estava jogando ao lado dos outros.

Não tinha como ajudar. Uma burocracia só para conseguir munição, comida e água já o perseguia havia dias. Quem dera poder ajudar aquele homem.

Virou-se para o outro lado da mata, onde ela era um pouco mais densa, próxima ao rio.

Andou até a margem para lavar o rosto, garantindo que nenhum jacaré lhe desse um bote.

Um estalo.

Sean congelou, com as mãos molhadas no rosto.

As árvores o deixavam mais paranoico a cada dia.

Mirava com o fuzil para todas as árvores que estavam do outro lado do rio.

À distância, pareciam maiores e mais assustadoras. Pareciam querer desabar sobre ele cada vez que se aproximava.

Nada mais podia ser ouvido.

A chuva fraca continuava.

Algumas folhas cantavam com o vento.

Alguma coisa passou voando entre os galhos.

Um pássaro.

Provavelmente.

Talvez um drone.

Seu coração apertou, mas já não havia alternativa além de voltar sem se aliviar.

Se fosse um drone mesmo, descobriria agora.

Sean mijou tranquilamente, aliviando o peso do corpo. Com uma das mãos na cintura, mantinha o fuzil apoiado contra o corpo e apontado para frente.

Fez o mesmo caminho de volta, mas dessa vez o mais rápido possível.

Tomava cuidado por onde pisava, para não acabar como o amigo de mais cedo.

Quando voltou para o acampamento, o cabo já estava reunindo os homens.

— Vinte minutos!

Os soldados que o cabo Almeida havia reunido estavam próximos à sua barraca.

Alguns já tinham rostos conhecidos.

Haviam lutado há alguns dias no Rio Cuiari, a alguns quilômetros do encontro com o Río Içana, contra o ataque no flanco pela Venezuela.

Para a infelicidade da Morte e dos desgraçados que nos querem ver embaixo da lama, nossas horas estavam longe, com certeza.

Isso não preocupa um soldado.

Mas, a cada dia que passava, todos podiam dizer que sentiam a mesma coisa.

O mesmo aperto no peito.

Aquela sensação de escapar da morte estava mais difícil de conquistar a cada dia.

Era frustrante olhar para alguns deles e saber que nunca os veria mais.

Não que fossem amigos.

Mas lutavam, todos os dias, por suas vidas.

Por seus filhos, irmãos, pais e mães.

Era frustrante saber que a maioria deles nunca pôde se despedir adequadamente.

Ter um último abraço.

Um último beijo.

Era estranho para ele imaginar que as últimas pessoas com quem falou antes de ir para o front foram os oficiais do Exército.

Eles só sabiam seu nome por carregar Martin no sobrenome.

Era estranho pensar que, em um ano e meio, havia esquecido como era a voz de sua mãe.

Se esforçou para guardar a única foto que tinha dela por todo esse tempo.

Ela nunca o abandonou e, com certeza, o protegeu de todo mal nesse tempo.

Sean entrou no círculo que eles formavam próximo à sua barraca.

E verificou seu carregador.

dezoito balas.

Ele ficou olhando para o carregador.

Sempre faltavam duas.

Um verdadeiro mistério, apesar de seus esforços para solucionar o caso.

Guardou o carregador.

Ajustou o colete.

Um soldado ao seu lado distribuiu os carregadores extras.

O rádio começou a chiar antes que conseguisse dar três passos para pegar uma granada na caixa próxima.

— Movimento na linha norte!

Algum soldado afastado do acampamento trovejou.

E todos pararam o que faziam e se viraram para o norte.

Olhou para o cabo Almeida.

Ele já estava mirando para a mata.

Ele não precisava apontar onde era exatamente; sua visão estava clara por alguns metros nas árvores ao norte.

Ninguém precisou mandar que se abaixassem. Os homens simplesmente fizeram. Alguns largaram o que tinham nas mãos. Um soldado deixou cair o cantil e o barulho metálico pareceu alto demais naquela chuva.

O silêncio era desconfortável.

Uma explosão seca fez Sean e os outros abaixarem suas cabeças e pegarem cobertura nas caixas e árvores próximas.

Sean se agachou atrás de uma caixa de munição.

O tiro parecia ter vindo de um sniper do seu lado do acampamento. O projétil rasgou o ar entre os homens e desapareceu na mata à frente.

Ali, alguém gritou de dor por um momento antes do silêncio voltar.

O coração batia depressa.

FENRIR

Fenrir acordou com os olhos pesados, deitado no sofá velho da sua vó.

Seus machucados que antes doíam e queimavam de dentro pra fora estavam costurados, enfaixados e sujos com seu sangue.

Algumas ataduras usadas, jogadas na mesa de centro, pareciam um tecido de ouro — corroídas, corrugadas e manchadas pelo sangue dele.

Assim como algumas que estavam coladas à sua pele. Isso explicava por que, quando acordou, pensou ter sido mumificado.

— Não se mexe, garoto. — A velha murmurou enquanto se sentava na poltrona ao lado do sofá. — Senão vai acabar abrindo os pontos.

Ela entregou uma xícara de chá para Fenrir, que lutava para ficar acordado.

— Depois, eu acho bom você botar minha porta no lugar. Tá escutando?

A velha senhora exigiu enquanto pegava um controle para ligar a TV e assistir confortavelmente de sua poltrona, onde se recostava.

Fenrir terminou de tomar o chá enquanto assistia ao programa que estava passando naquele momento.

Era um velho desenho animado a que costumava assistir durante sua infância, o que achara um tanto engraçado para a situação.

Na tela da TV, que parecia tão antiga quanto o sofá, a raposa perseguia a ave novamente, implacável como sempre.

Mesmo carregando um histórico de fracassos, o sonho que alimentava suas esperanças todas as noites — o de um dia roer até os ossos daquela maldita ave — não a deixava desistir.

Naquele dia ensolarado, um amigo da raposa aparecia para ajudá-la: um lobo selvagem de outro desenho invadia o episódio.

O lobo não era mais inteligente, mas era muito mais agressivo em suas investidas.

Em um dos planos mirabolantes da raposa, juntos, eles finalmente conseguiram capturar a ave. Mas o lobo, com uma risada maliciosa para o espectador, a traía, amarrando uma dinamite nas costas dela e jogando-a de um penhasco, onde ela explodia ao atingir o chão.

Aquele lobo assustador soltava uma risada maléfica enquanto abria sua boca, revelando seus longos dentes, preparando-se para devorar a ave, até que ela explodia em suas mãos, reduzindo-o a cinzas.

A ave havia colocado uma bomba dentro de outra ave, uma personagem recorrente em alguns outros episódios.

Enquanto as cinzas do lobo eram levadas pelo vento, a câmera se afastava e mostrava a ave rindo, em cima de uma árvore distante, admirando a visão do pôr do sol, ao lado de uma caixa de dinamites e de um balde de tinta azul.

Deitado no sofá, sentia as feridas como se estivessem se esforçando para romper os pontos.

Seus olhos pareciam querer pular das órbitas, enquanto o som dos créditos do desenho martelava o ambiente.

A visão escureceu, seus músculos descontraíram e o som do programa da TV se afastava cada vez mais de seus ouvidos.

Ele se viu levado de volta para a ilha de Khizi, na Rússia, em 2013 — quando, como um prisioneiro de guerra, foi recuperado pelo seu tio, e os dois fugiram para um dos navios de guerra do grupo dele.

Partiram pelo Mar de Barents, cruzaram o Mar da Noruega — com algumas paradas em regiões aliadas, onde conheceu um tipo de pessoa importante — até o Atlântico Norte.

As duas semanas que passou no mar foram diferentes de tudo em sua vida. Os zumbidos ainda estavam em seus ouvidos e o sentimento de derrota na vida ainda ocupava seus pensamentos.

Até o dia em que finalmente chegou aos Estados Unidos.

Na Carolina do Norte, ele a conheceu.

Aquela mulher, tão gostosa quanto era doce e gentil.

A única que, até aquele momento, o havia tratado daquela maneira.

Apesar de se esforçar para não pôr sentimentos em uma estratégia política do tio, foi inevitável resistir aos encantos de uma vida comum, onde seu sangue não o condenaria a uma vida medíocre.

Ele se contorceu um pouco no sofá, com outras memórias mais dolorosas sendo trazidas pela dor.

Fenrir acordou, meio tonto, em meio a uma cirurgia, com o peito completamente aberto.

O homem que parecia ser um cirurgião colocava folhas finas e maleáveis de prata em volta de todo o seu coração, que ele podia ver pulsar.

Aquele lugar cheirava a remédio.

Os gemidos de dor ecoavam pelos corredores até seus ouvidos. Eram de causar uma enxaqueca enorme.

Fenrir não era diferente e gritava de dor enquanto a mulher ruiva segurava sua mão. Ele apagou novamente com outra dose de anestesia percorrendo sua corrente sanguínea.

Ao fim da cirurgia, ainda tonto, com os olhos semiabertos, olhava para os olhos verdes dela.

Seu sorriso branco, marcado por suas pequenas presas nos cantos, sobre os lábios vermelhos do seu batom cereja, quase o fazia esquecer da dor que estava sentindo em seu coração.

Apesar de procurar, nunca achou uma droga com um efeito parecido.

— Ele vai reclamar da dor por um tempo.

O homem falou tirando suas luvas sujas de sangue e se aproximando da mulher.

— Até o corpo dele, ainda com 14 anos, se acostumar a envelhecer mais rápido que o comum para um licano. Mesmo tomando os medicamentos certos, ele vai demorar até poder viver como uma criança comum. Se esse procedimento fosse com ele mais novo, tudo bem. Mas já tem 130 anos. Na cultura dele, ele só fica de maior aos 220 — avisou o médico, no que parecia ser o fim da cirurgia. — Vai ser um processo doloroso.

A mulher se aproximou; sua visão ainda estava embaçada.

Mas aquele perfume, suave e doce como mel, ficava impregnado no ar.

Ela lhe deu um pequeno beijo com as pontas dos lábios em sua testa. Aquele perfume... Poderiam se passar décadas e ele nunca conseguiria esquecer seu aroma.

Fenrir acordou no sofá, com menos dor do que quando foi atingido pela senhora, e se sentou, acomodando-se nas almofadas.

— Por que você tinha que atirar em mim? — Fenrir soltou com dificuldade enquanto abria os olhos aos poucos, com a visão embaçada. O brilho da TV parecia estourado e doía em sua vista sensível.

A sua vó, que estava sentada na poltrona com um prato de sopa ao seu lado, se levantou e sentou no sofá, aumentando o volume da TV com o controle sobre o qual ele estava deitado.

— Você fica uivando igual um maluco por aí. — Ela pausou sua fala arrastada para comer uma colher da sopa. — E vem derrubar a minha porta, eu que sou a errada? — A velha senhora resmungava.

— Você deu sorte que não era prata. — Ela insistiu com a reclamação entre as colheres de sopa. — Achei que tivesse com o corpo Puro.

Corpo Puro, nem se lembrava direito como era estar assim.

Sem proteções mágicas da sua natureza antiga.

Houve um período, é claro, do seu nascimento até seus 11 anos.

Lembrava-se bem do período final antes do seu aniversário de 12.

Quando adquiriu o que todo homem precisa ter para sobreviver na selva de pedra.

Ambição.

Desde lá, um mundo novo se abriu; não abdicaria dele tirando seu relógio.

— Já faz anos que não fico daquele jeito. Além disso, todas as noites tô tomando os remédios que a Isobel mandou.

Fenrir rebateu enquanto lutava para manter os olhos semiabertos e assistir à televisão. Ele se esticou e pegou um cigarro que estava na mesa do centro da sala.

— Você tem que tomar mais cuidado. Um tiro desse em algum órgão da cintura pra cima e você não volta nunca mais. — Ela se levantou, deixou a sopa na mesa do centro e foi até a cozinha mexer em algumas gavetas.

— Nunca deveria ter feito essa porcaria de prata. Não ganhei nenhuma vantagem, só tive a perder. — Fenrir resmungou e deu uma longa tragada no cigarro.

— O nome é "Coração de Prata" e não seja ingrato. Minha filha pagou o melhor cirurgião das Planícies, e eu me lembro muito bem que você concordou com tudo.

A senhora rebateu, voltando pra sala e colocando, na mesa em frente ao Fenrir, um martelo e uma pequena caixa de pregos.

Ela se sentou de volta no sofá e voltou a tomar sua sopa.

Fenrir se levantou, os pegou e foi até a porta.

Suas pernas ainda não pareciam tão firmes e seus músculos pareciam tremer.

— Valeu por cuidar de mim, vovó. Como é que a senhora tá? — Fenrir perguntou enquanto tentava ajustar a porta da entrada da casa no lugar, surpreendendo-se por ela não ter caído de suas mãos.

— Você é de Lua, nunca mais veio aqui me ver e passa por aqui quase todo dia. — A velha admitiu, se levantando do sofá e voltando até a cozinha. — Vou fazer uma marmita com essa sopa pra você levar. — Ela gritou da cozinha enquanto o Fenrir terminava de consertar a porta.

Ele terminou, e a porta estava de volta no lugar, um pouco torta e sem muita garantia de que permaneceria em pé; porém, estava feito, o que não lhe renderia tantos sermões.

— Obrigado, vovó. Aquele livro que a senhora me deu é muito interessante. — Ele foi até a cozinha guardar o martelo e os pregos em uma das gavetas.

— Tô curtindo. Li umas paradas dele — me trouxe outras perspectivas sobre algumas paradas — concluiu Fenrir antes de dar um beijo pequeno atrás do pescoço da vó e abrir a geladeira para pegar uma cerveja.

— Não sei por que o interesse repentino em magia negra. Mas é melhor vir a mim do que a qualquer bruxa meia-boca por aí. Ei, você não tá falando com a Isobel e a Ari?

— E quem que te disse que eu não falo com elas? — Fenrir questionou, encostado na pia da cozinha, atrás dela, bebendo a cerveja.

— Ninguém — disse ela logo em seguida. — Ela não fala comigo há três anos e, mesmo assim, manda mensagem às vezes, perguntando sobre como você está.

A senhora terminou a marmita e se virou para entregá-la a ele enquanto tomava a cerveja da sua mão. Ela deu um gole, foi até a sala e se jogou no sofá.

— Fale com a Isobel, ela tava falando do quanto tá sendo difícil ensinar a Arienne a gerir as Planícies sem você lá para dar apoio a ela. E eu espero que você não esteja tomando aquela porcaria falsa que vendem. O filho do vizinho — o filho do Ned, da família de vampiros que eu te falei da outra vez — tomava essa merda; chegou um dia desses em casa, borbulhando sangue pela boca, e matou os pais.

— É, o Roy me falou. — Fenrir conhecia a mãe do garoto, uma mulher adorável e bastante inteligente.

“Que parada maluca”, ele pensou.

— Como ele tá? Eles eram amigos, é? — A senhora perguntou enquanto Fenrir colocava uma roupa que ela havia separado para ele.

— Não sei. Acho que sim, né? Todo mundo aqui se conhece praticamente.

Fenrir se despediu da sua vó, passou pela porta e a bateu com uma força que, por um instante, o fez pensar que ela fosse cair sobre ele.

Do lado de fora.

Fenrir percebeu que já estava no fim da tarde e que passou uma boa parte do dia lá se recuperando.

Ele fez o caminho de volta a pé até a casa de Arthur.

Ele pôde sentir alguns olhares sobre ele no caminho.

Alguns cachorros latiam para ele.

Fenrir decidiu passar na casa do Roy, que era no caminho.

Havia passado antes, mas não tinha ninguém em frente.

Agora Roy estava em frente à casa de sua mãe, fumando com o Brian, Sam e mais alguns outros garotos.

— Eu passei lá no Arthur, mas você já tinha saído.

Roy disse ao ver Fenrir se aproximar. — Escutei o tiro, mas tava no banho na hora. Colei lá depois na casa da sua vó, mas ela disse que você tava apagado. A vizinha da casa de trás me falou o que aconteceu; ela viu tudo. Você tá bem?

— Tô legal. — Ele respondeu com uma voz ríspida, pegando o baseado que o irmão mais novo do Roy passou para ele. — Preciso que você cole lá nos Flats hoje. Na 4C, pra torar uns corre pelo fim da tarde. Leve seu irmão junto, bote ele pra dar uns tiros por lá. Alguém deles tem que tombar, tá ligado.

— Achei que tínhamos um acordo de paz? — Roy se precipitou, em dúvida, antes de pedir para seu irmão ir buscar sua arma.

— Quem você acha que tentou me matar hoje? — Fenrir respondeu, passando o baseado para ele.

Podia ver sua íris âmbar sendo refletida nos olhos vermelhos e semicerrados de Roy. Ao se esticar para alcançar o baseado entre os dedos de Fenrir, ele o encarava com um olhar vidrado.

— Demorou, vou colar por lá com os caras. — Roy falou, referindo-se à sua turminha da pesada. — Se acha de boa levar ele mermo?

— Você que me diz. — Fenrir respondeu e o irmão do Roy voltou correndo com a pistola na cintura. — Não foi você que botou ele pra torar um noia aqui semana passada?

Roy não respondeu, apenas pegou a arma do irmão, três anos mais novo; seu olhar estava para o chão e ele parecia concentrado na fumaça.

ROY

A chuva caía forte do lado de fora do bar.

Alguns carros estacionavam do outro lado da rua.

O tempo parecia lento, e o branco das luzes parecia diluir sua visão; elas eram nauseantes.

O cheiro da fumaça que saiu da cozinha fez seu estômago roncar alto. Fenrir olhou para ele e, em seguida, chamou a garçonete.

Fenrir parecia gostar de encostar naquele bar durante as madrugadas em que saía pra pista com o resto de nós. Não só por ser um dos únicos abertos àquela hora, mas também, Roy achava, pela localização. O bar ficava na descida de um morro, bem numa esquina que dava para uma avenida.

Talvez Fenrir gostasse daquele lugar justamente por isso: ali, distante da cidade, os problemas da DEA pareciam existir em outro mundo.

Fenrir usava a camisa comum, verde-escura, e o relógio que contrastava com quase tudo nele.

O carro da mãe do Roy estava estacionado na calçada do outro lado; não era prudente continuar dirigindo aquele alvo ambulante do Fenrir.

Apesar da diferença entre eles, os dois combinavam pelo luxo que carregavam.

Sentado à sua frente, ele pediu o mesmo lanche de todas as outras vezes.

Roy fez o mesmo; não estavam lá para experimentar nada novo.

Fenrir tinha pedido pra alguns de nós darem um giro pelas áreas naquela noite, para ver como estavam as coisas.

Depois do que acontecera mais cedo, não podia se dar ao luxo de parecer fraco diante de ninguém nem deixar os abutres tomarem proveito.

— Vai querer algum refri menor?

Ele perguntou logo após perguntar a uma das garçonetes quais refris havia. Nesse momento, um jovem também pediu licença para passar.

Roy e Fenrir estavam no caminho de uma das passagens, e o jovem não queria dar a volta, pois já se balançava meio tonto pelos copos de whisky que bebera mais cedo.

Ele simplesmente fez o mesmo que Fenrir, deu passagem para o jovem entre eles e concordou em pagar um refri com Fen.

Eles se sentaram em uma das mesas mais próximas à esquina. E, ao lado deles, sua moto estava estacionada.

— Viu o pivetão?

Fenrir perguntou disfarçadamente enquanto endireitava a pistola na cintura.

— Quem?

Roy perguntou em dúvida; se fosse o jovem que passou por ele mais cedo, já não se lembrava tão bem para poder dizer que sim. — O que passou por nós? — Roy insistiu, sussurrando.

— É, ele mesmo. — Fenrir disse com ânimo, sussurrando mais baixo. — Não foi esse gurizão aí que disse que, se visse você por aí, ia te encher de tiro?

— Foi, mas olhe pra esse guri, Fen. — Roy mexeu um pouco sua cadeira para o lado e olhou bem para o jovem que estava algumas mesas atrás deles. — Você acha que esse otário aí vai fazer alguma coisa? — Roy questionou, encarando o rapaz, abandonando completamente a descrição.

— Ah, só ideia check. — Fenrir concordou, segurando um riso, enquanto puxava o celular do bolso e Roy se virava de volta à sua mesa.

Tony alguma coisa. Talvez fosse esse o nome. O garoto resmungou algo que Roy não conseguiu ouvir direito. Também não fez questão de perguntar.

No rádio tocava um som chiclete, o mesmo que parecia tocar em todas as noites em que ele também tinha bebido.

A chuva parecia não querer parar, e seguir trabalhando naquela noite estava se tornando cada vez mais difícil.

Seu único alívio era ser feriado amanhã e não precisar ir para a escola.

Dia da União das Montanhas. Lembrava-se bem, já que foi com o professor de história que ele mais precisou de pontos.

— Aí, cê vai conseguir, né? — Fenrir lhe perguntou, encostando-se na cadeira, em um tom mais relaxado. — As paradas do Oregon vai chegar pelo Condado de Beaverhead, tá ligado?

Roy concordou, tremendo com o frio da chuva. Sua polo bem-arrumada não era suficientemente calorosa, e sua calça jeans lhe impedia de bagunçar tudo na mesa.

— Já dei a ideia no Arthur, pra ele colar lá com nóis mais cedo e depois resolver aquela parada... — Roy pausou enquanto lembrava que não havia mencionado antes que Arthur iria junto amanhã cedo e suspirou cansado. — Então, né, ele vai lá amanhã com nóis.

Roy se virou ao terminar de falar e, pra sua sorte, foi no mesmo momento em que a garçonete vinha e trazia seus hambúrgueres.

Os dois agradeceram pelo lanche e os arrumaram na mesa. Roy se concentrava no lanche até a garçonete se afastar, e Fenrir se concentrava no Roy.

— Tranquilo, Roy.

Fenrir murmurou abrindo a coca que a garçonete havia deixado na mesa. — Você acha que eu vou te tratar como criança é? A responsa da 3C tá na sua mão e dos guris lá. Faça merda não.

— Eu tô ligado. — Roy afirmou enquanto avançava no seu lanche. — Nóis só quer ver qual é a dele. Ele já soltou alguma coisa boa pra você?

— A gente tá vendo pra resolver uma parada com o Craig, mas não sei não, amanhã eu dou ideia em vocês. — Fenrir respondeu por cima de uma mordida no lanche, rápido, como se quisesse encerrar o assunto.

— Atenção com o pessoal do Logan, tá ligado. Pra eu dizer pra vocês saírem pra pista, pra matar todo mundo, é só questão de dia. — Ele murmurou entre as mordidas. — Mês que vem, se der tudo certo, nóis já tá numa melhor. Mas até lá é chão, filho, temo muitos tiros pra dar ainda.

Permaneceram ali por meia hora. Terminaram seus lanches e tomaram seu refrigerante antes de decidirem ir embora às quatro da manhã.

Tinham um pico onde gostavam de fumar quando passavam por lá. Uma casa onde Fenrir costumava se encontrar com o filho do prefeito.

Fumavam na esquina da casa, que ficava no caminho de Uptown para o Centerville Park, subindo a colina ao norte.

Algumas árvores do outro lado da rua, no meio da escuridão, com o carro a algumas ruas a pé, formavam o canto perfeito. Muitas vezes, Fenrir procurava uma desculpa para fumar do lado de fora; dizia que se sentia sufocado quando passava muito tempo em casa.

Roy limpou seu lado da mesa e colocou-os junto ao pedaço de hambúrguer que sobrou no prato.

Fenrir pagava a garçonete enquanto Roy acendia o cigarro com o isqueiro que pegara com ele.

Os dois saíram do lugar em direção ao carro do outro lado da rua.

— E aí, você ainda vai colar naquela parada amanhã?

Roy perguntou, sonolento, com palavras pesadas.

— Nem sei mais, acho que não. — Fenrir respondeu, procurando a chave do carro.

A chuva já tinha passado e eles nem haviam percebido antes.

Fenrir continuou vestindo seu casaco enquanto Roy decidiu que estava suando muito e decidiu ficar só com a camisa vestida e jogou o casaco no carro.

Quando achou que entraria no carro, algo pesado atingiu sua cabeça. Sua visão escureceu. As pernas perderam a força e ele se segurou no carro para não cair.

Pôs a mão na nuca e a trouxe de volta para o centro de sua visão, que estava com os cantos escurecidos.

Sangue e pequenas pedras sujavam sua mão. A cabeça latejava forte, mas uma descarga de adrenalina foi suficiente para fazê-lo recuperar os sentidos.

Virou-se, cerrando os punhos fechados.

Fenrir, que havia se assustado com o impacto, foi discutir com o jovem de mais cedo e alguns amigos, que estavam a alguns passos do carro.

Roy viu os pedaços do tijolo espalhados no chão ao seu lado.

Suas costas se arrepiavam com o vento frio; o sangue escorria da nuca e sujava sua polo branca.

Fenrir empurrou o garoto, xingando-o e perguntando se ele havia perdido a noção de perigo.

Roy não queria saber de perguntas e avançou em cima dele.

Deu socos tão fortes que seus punhos doíam tanto ao atingir o rosto do Tony que ficou em dúvida se o sangue era dele ou seu.

Tony morava em Williamsburg e seu tio, que era policial, morreu há alguns meses. Tony sempre falava que queria seguir a mesma carreira que o tio um dia; ele o ensinou a lutar bem.

— Vai, Roy! — Fenrir gritou, encorajando. — Dá um mata-leão e sufoca esse filho da puta!

Tony afastou Roy com um empurrão e avançou para cima dele, deixando-o contra o carro com tantos socos certeiros que Roy achou que ia desmaiar.

Fenrir separou-os e se meteu entre os dois.

Tony estava com um corte no lábio e alguns inchaços na cara.

Roy não sabia como estava, mas tinha certeza de que era pior.

Fenrir discutia com alguém, perguntando quem havia jogado a droga do tijolo.

Tony gritou que tinha sido ele, encarando Roy e provocando-o para continuar a briga.

Sua visão estava tão embaçada que ele não sabia quem era Tony e quem era Fenrir, e suas mãos tremiam.

Por mais que ele quisesse, suas forças pareciam ir na estrada contrária.

Fenrir o olhava com pena e logo gritou para Tony e lhe deu outro empurrão.

— Aí, mulecão, acho melhor você meter o pé daqui.

Sua voz parecia grave e ameaçadora. — Já deu por hoje.

Fenrir ajudou Roy a se apoiar e a entrar pelo outro lado do carro.

O banco estava quente e sua pele suava fria.

Roy nunca havia se sentido assim antes; a dor em sua nuca era tão forte que preferia que a arrancassem fora.

Olhando por uma das janelas, Roy viu que Fenrir ainda estava discutindo com o garoto.

Muitas pessoas do bar estavam olhando; Fenrir parecia alguém entre os vinte anos.

Já o Tony era mais próximo do Roy, sendo apenas um ano mais velho, tendo dezesseis anos.

Fenrir se virou para entrar no carro.

Mas alguns amigos do Tony tentaram avançar sobre Fenrir, que não pareceu muito feliz por estar levando socos de adolescentes.

Fenrir se afastou dos garotos e foi até a porta do carro.

Pôs a mão na cintura, embaixo do casaco, e, devagar, sacou sua pistola.

Roy percebeu que Fenrir não estava ameaçando ninguém.

O clarão do tiro foi tão forte que precisou fechar os olhos por reflexo.

O estampido atravessou o carro.

Por alguns segundos, não houve nada além do zumbido que parecia martelar seu ouvido.

Roy abriu os olhos.

E Tony, que antes xingava e gritava, ainda estava lá de pé; agora chamava por socorro ao pôr a mão sobre o peito e sentir a camisa grudada.

A camisa dele escureceu depressa.

Ele se deitou no chão e começou a chorar por socorro.

Os amigos que estavam com ele correram de volta para o bar.

E logo seus gritos deram espaço ao silêncio da noite.

Seu sangue se espalhou rápido no asfalto.

Seus olhos pareciam assustados e havia algo diferente neles.

Era como olhar para um boneco.

Fenrir permaneceu lá mais um instante antes de entrar no carro e ligá-lo na chave.

— Você tá bem?

Ele perguntou, preocupado, antes de sair com o carro, deixando o bar para trás em uma velocidade impressionante.

尹柏翰 (Yin Bohan)

Onde o mundo finda, nós permanecemos.

Onde a escuridão devora, nós velamos.

O medo nos abandonou — e jamais tornou a nos habitar.

O medo conheceu nosso nome.

E jamais ousou pronunciá-lo.

Ano MDCCXXXV — Antártida, Vigília do Silêncio.

— Senhor Yin!

O velho Gerald gritou de algum lugar da nevasca.

Não podia ver um palmo à sua frente naquele brumal, mas não podia deixá-los para trás. Com o punho fechado, apontou seu anel para onde escutara seu amigo.

Letras gigantes brancas saíram dele.

保护

Elas iluminavam toda a nevasca, dissipando-a à sua frente por um momento.

Foi o suficiente para ver seu amigo ao longe. Gerald estava deitado ao chão sobre seu sangue, enquanto um Urso Polar Antigo o devorava.

Cerrando os dentes, Bohan correu até ele com um passo maior que o outro; ele se impulsionou e pulou até o Antigo.

Seus joelhos rangeram.

Ele foi tão alto quanto pôde.

Enquanto Bohan caía do céu, a criatura o esperava com a boca aberta e os dentes sujos, maiores que seu próprio braço.

Do dedo onde trazia o anel até o punho cerrado, suas veias brilhavam em branco, subindo pelo braço até o pescoço.

Podia sentir a força que exercia com aquele poder dentro de sua mente.

E somente com um murro ele a partiu ao meio.

A grossa camada de gelo sob seus pés rangeu.

O que restava de seu amigo estava espalhado na neve e sendo levado pelo vento cortante.

— Senhor Yin!

O jovem Burim gritava de algum lugar.

Bohan cerrou o punho e bateu o anel contra o chão de gelo.

Aquela luz branca retornou e dissipou toda a nevasca à sua volta.

Um círculo de proteção tão forte que cresceu o suficiente para ser avistado pelos outros Protetores próximos.

Bohan viu uma luz longe; talvez fossem eles tentando acender uma tocha.

Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, a grossa camada de gelo sob seus pés quebrou e uma aranha enorme se ergueu do chão sobre ele.

A criatura agarrou e devorou sua perna com as presas.

Seus gritos ecoaram por toda a terra gélida.

Seu anel pulsou em seu dedo e ele lançou ondas de força contra o Antigo.

Ela não conseguiu pôr suas garras sobre ele, mas estava presa a ele por sua perna, que era segurada por alguns músculos não devorados.

Com uma força de vontade que ele desconhecia, a criatura cravou uma das enormes garras em seu estômago.

Naquele momento, não sabia se a nevasca havia parado ou simplesmente havia morrido.

Ele ainda tinha força para manter seu punho erguido contra a criatura, mas, a cada vez, a força dele com seu anel ficava mais fraca e a criatura se aproximava mais, até que sentiu seu braço perder todas as forças.

O Antigo, mesmo sendo uma aranha enorme, grotesca, corrompida pela magia negra da Terra, parecia sorrir para ele.

Parecia sorrir para o anel.

E seu último momento antes de perder a consciência foi se sentir arrastado para debaixo da neve, enquanto os gritos de dor e socorro de seus companheiros ficavam mais altos e mais distantes.

Fenrir

— Já, vou lá, mano. Tenho que pegar minha parada lá e ainda preciso colar lá em casa. — Fenrir murmurou enquanto passava o terceiro baseado para o Charles, o irmão mais novo do Roy, que recusou, pois já estava chapado o suficiente, e o passou para o Gary, um dos amigos do Roy. — Viagem do caralho ainda.

Fenrir se afastou e seus pés pareceram leves; parecia estar pisando na lua.

E seu pisar voltava a pesar cada vez mais à medida que se aproximava da casa do Arthur.

Ao abrir a porta, um cheiro podre invadiu suas narinas e Arthur ainda estava lá, caído no chão.

O braço quebrado já havia se regenerado.

Ele olhava para Fenrir com um olhar estranho.

Suas pupilas pareciam perdidas em algum lugar daquela casa.

Parecia, para Fenrir, que ele era quem tinha perdido sua alma. Era um olhar que remetia a uma pessoa triste, um olhar que pesava em seus ombros, completamente diferente do antigo olhar do garoto.

Fenrir pegou a chave da sua caminhonete que havia ficado no sofá e se abaixou próximo de Arthur.

— Tome um banho, tá? Se veste e depois volta pros seus compromissos. Eu te ligo.

Seus joelhos pareciam contestar quando ele tentou se levantar; já estavam assim há um tempo, como se seu corpo protestasse contra tudo que fazia.

O lugar era uma bagunça: cachimbos por todo lado.

Ele abriu o armário de roupas onde ele guardava todo seu dinheiro.

Quinze mil dólares. Até sobre isso o Arthur havia mentido.

Fenrir então voltou à sala e deu um chute no estômago do Arthur.

— Não se entregue pro sistema mau do Satanás. Afaste-se do crack, esqueça ela e vença o álcool.

Arthur voltou a chorar como uma criança novamente.

Arthur ficou jogado lá no chão, na escuridão, com as luzes apagadas.

A única iluminação vinha de uma fresta de luz do sol se pondo que entrava por uma pequena janela alta da casa.

Ele ouviu Fenrir lhe pedir para passar na casa do Roy antes de bater a porta e os seus lamentos tomarem conta da sala.

Fenrir bateu a porta atrás dele e entrou na sua caminhonete.

A tarde em que ficou lá foi o suficiente para deixar uma camada grossa de poeira na lataria preta.

Ele dirigiu até uma casa próxima à de Arthur, virando uma rua contrária à rua do Roy — a maior casa de Williamsburg.

Não era uma mansão, mas, pros padrões do lugar, parecia uma.

Fenrir desceu da caminhonete e entrou na casa, destrancando a porta com a chave velha que ele havia pegado no porta-luvas.

Um lugar simples como todos os outros, mas arrumado.

Ambas as portas ficaram abertas e ele jogou seu celular no sofá. Seu gato passava entre seus pés.

Ele o levantou entre seus braços e, enquanto dava tapinhas em sua cabeça e ia até seu quarto, o gato se espreguiçou ao ser colocado na cama e começou a brincar com uma das pontas do lençol.

Fenrir foi tomar um banho rápido só pra tirar o resto de sangue seco em sua pele. Alguns hematomas se espalhavam por toda a sua pele, como um raio se espalha no céu à noite.

Sob a luz do banheiro, eles haviam ficado mais evidentes.

Principalmente em seu rosto.

Ele se secou, foi até seu guarda-roupa e se vestiu com algumas roupas que estavam guardadas lá. Aquele quarto e as roupas nele só cheiravam à sua maconha, que ficava guardada em uma caixa de sapatos novos.

Pegou um dos pacotes na caixa, fechou um baseado rápido na cama ao lado do seu gato, acendeu e se levantou para pôr alguma ração para o gato.

Saiu da casa, apagando todas as luzes por onde passava. Foi até a frente da casa, trancou a porta e guardou a chave embaixo de uma pedra.

Entrou em sua caminhonete. Antes que pudesse ligá-la, algumas notificações começaram a pipocar em seu celular.

— Atividade.

Eram as principais mensagens.

— Os alemão passaram aqui em West Side, dando uns tiros pra cima em um Raven Patriot todo preto.

West Side não era tão longe assim de Williamsburg e era área do Cody.

Aquela mensagem plantou uma dúvida sobre sua próxima ação naquele momento.

Nem era para seu pessoal estar por lá. Ele não poderia tomar nenhuma decisão idiota.

A principal mensagem havia sido mandada pelo Douglas.

Ele estava longe de onde deveria estar.

— O que você faz por aí?

Fenrir digitou. Para a sorte do destinatário, a força dos dedos na tela não podia ser transmitida.

Alguns pontos apareceram quase instantaneamente no grupo; muitos queriam digitar.

Alguns até fizeram o mesmo questionamento que o Fenrir.

— Fui ver uma garota lá. Tava de xereca com os moleque.

Douglas nunca cresceu o suficiente na ideia do Fenrir para receber muita atenção, ou qualquer outra coisa além de trabalho.

— E o pessoal do Cody não liga de colarmos por aqui para vender também. Os moleque é mil grau.

Essa última mensagem dele fez seus dedos em volta do celular apertarem o suficiente para a tela trincar.

Era necessária paciência demais para aqueles desafortunados de qualquer coisa relacionada a qualquer poeira de inteligência.

O grupo estava silencioso.

Ninguém mais digitava nada, mas todos estavam online e visualizando as mensagens.

— Cole em Williamsburg amanhã, nóis precisa trocar uma ideia. Esclarecer umas parada.

Douglas reagiu à mensagem de Fenrir apenas com uma figurinha.

Era um homem com uma touca de reggae, erguendo o punho, com a frase: “Tamo junto, patrão.”

— Não quero mais ninguém saindo de Uptown, Williamsburg ou de South Butte. Não tô pedindo.

Foi sua última mensagem antes de apagar a tela do celular e jogá-lo no banco do carona.

Havia uma mensagem da Ari no celular, mas nada que não pudesse esperar até ele voltar para casa.

Ou talvez outro dia.

No caminho, a estrada parecia vazia. Era um fim de tarde um pouco anormal.

Não havia ninguém na estrada. Pareceu, por um momento, que era a única pessoa viva da Terra. Não se podiam escutar vozes ou gritos, nem nenhuma respiração por quilômetros.

O carro parecia deslizar na rua como sabonete, à medida que Fenrir tragava um baseado que pegou no porta-luvas.

Enquanto se aproximava cada vez mais da área residencial do centro de Butte, as coisas iam tomando cores de volta.

Ele parou novamente no acostamento da mercearia do pai da Chloe.

Desceu da caminhonete e entrou pela porta de vidro com o baseado nos lábios, deixando um rastro de fumaça por onde passava.

Olhou ao lado para o caixa e ainda viu Chloe lá. Seu pai cuidava da contabilidade nos fundos.

Fenrir foi direto para as prateleiras de jogos e pegou três lançamentos. Alguns turistas ficaram olhando. Não estavam tão acostumados quanto os residentes de Butte.

Pegou quatro pizzas congeladas de sabores diferentes, um whisky e foi até o caixa.

Fenrir colocou-os sobre a bancada sem muito ânimo, com uma feição diferente da que Chloe tinha visto mais cedo: um rosto mais cansado e com alguns leves hematomas espalhados pelo rosto.

— Dá 319,98 — disse Chloe enquanto empacotava as compras. Fenrir tirou do bolso quatro notas de cem, sujas de poeira da casa do Arthur. — Tá tudo bem?

— Tudo bem, sim. Pode ficar com o troco, tá. — Fenrir pegou as compras e saiu antes que Chloe pudesse começar um interrogatório.

Ao entrar na caminhonete, ele podia sentir o olhar da Chloe pesando sobre ele. Aquele não era exatamente um bom momento. Ele aumentou o trap, levantou os vidros, deu mais um trago que levou metade do baseado e pisou fundo no acelerador até chegar em casa.

Já tinha tido o suficiente da sua dose diária de estadunidenses.

Levou sete minutos até chegar. Eram nove e meia da noite. O sol tinha acabado de se pôr. E ele parou na rua estreita atrás da casa, quase um beco.

Alguns amigos que moravam na mesma rua estavam ali.

Naquela rua perfeita para o trabalho, onde seus negócios rolavam, seus amigos Ryan e Dylan estavam lá, na roda da sessão.

Ele podia sentir o haxixe do baseado que fumavam vir até seu nariz e dar um soco em sua mente.

Fenrir deixou as compras no banco da caminhonete e desceu somente com a bolsa de maconha e o seu whisky.

No faro, ele não resistiu e foi até os amigos. Encostou-se no muro ao lado deles. Eles comemoraram quando ele chegou, e Fenrir foi dar um gole em um dos copos com whisky e energético que estavam ao lado deles.

Serviu o whisky em um dos copos vazios que estavam lá e se aproximou para pegar o energético próximo ao Dylan Crowe.

— E aí, ladrão.

Dylan o cumprimentou.

— Fumei um mais cedo com o Roy. Como que é, mofiu? Nóis tem que cobrar esses bicho aí.

Fenrir o escutou enquanto abria o energético para completar seu copo.

— É, tô com pressa não, falei com os guri, tamo vendo pra fazer essa missão aí.

Fenrir respondeu, terminando de fazer seu copo, pondo alguns cubos de gelo do saco que estava no chão.

Ele sentou-se no chão ao lado do banco do Dylan e deu um gole em seu copo.

— Fumei com o gurizão e depois fui fazer um corre pro filho do prefeito Granite. O Eddy. Ele disse que o Travis vai ser liberado amanhã.

Era incrível a habilidade do Dylan de falar quilos enquanto Fenrir tomava um gole de sua bebida.

— Aí, se ligue, tava falando com meu irmão. — Dylan deu um gole na própria bebida. — Pra nessa missão nóis pegar esse filho da puta no ônibus vindo, tá ligado? Aí ia só nóis três mermo, tá? Se bobeasse, nóis matava todo mundo lá dos parceiros dele, que vai sair junto. Fiquei sabendo que o filho dele — aquele muleque com o jeito de gay, que engravidou aquela putona que trabalhava pra nóis. Tá ligado?

Ele esperou alguma confirmação do Fenrir, que parecia perdido em goles do seu copo.

— Parece que o gurizão desapareceu e ele quer ir atrás. Aí pagaram uma moeda sinistra aos Granites pra liberar ele. Nóis tem que matar aquela vagabunda, foda-se que ainda tá grávida.

Fenrir ficou olhando para Dylan por alguns segundos, processando uma resposta, antes de puxar um baseado do bolso.

O pequeno Crowe, que tinha vinte e um anos, estava lá desde manhã, no corre. Era evidente a exaustão na sua face, mas ele seguia lá, fumando, bebendo e dispensando alguns corres certos.

Fenrir também não deixou de fazer uma moeda com os clientes que passavam próximos a eles.

— É, fiquei sabendo. O peste também metia altos assaltos por aí, deve ter pegado o doce dele. Qualquer um pode arranjar um motivo pra querer tirar a vida dele. Eu era doido pra ele meter o louco e querer vim roubar aqui na gente.

— Diga aí, e ele ficava tesando, roubava pela fronteira lá no sul de Uptown e no norte pelas áreas do irmão dele, bicho covarde. Teve uma mão até que ele roubou a casa da sua ex, não foi? — Dylan questionou, aceitando o baseado que Fenrir passou. — Você ficou de boa, não foi, na época? Eu até estranhei.

— É, nóis se acertou aí.

— Se ligue não. Você acha que quem que é o suspeito de algum envolvimento lá na cabeça do irmão dele de quinze anos preso? Altas guerras com você já, mas aí, do nada, você chegou já botando o cara pra bater a cabeça lá dentro, resolvendo pica aqui fora, de perder território e droga. — Dylan indicou e voltou a questionar. — Só tô querendo falar pra você se vigiar, tá ligado. Aquele bicho tava preso esse tempo todo e já vai sair amanhã do nada.

— Eu tô ligado, mas me diga aí. Ele tem prova? Sem, é só achismo. E isso não tem peso não, ele vai sair errado dessa história ainda. — Fenrir, pela primeira vez desde que acordou no sofá, se sentiu relaxado; seus músculos pareciam leves e sem dores; sua visão, embaçada; e seus raciocínios, rápidos. Aquele conforto extremamente desconfortável lembrava-o do porquê ele estava ali.

— E se ligue. Dê uns tapa no Eddy, pela comediagem da família dele, passe pra ele a ideia. Aqui não é bagunçado não, tá ligado, o crime é o crime, não tem essa de meio período não. Ou ele dá um jeito nesse coroa dele aí, fechando com os inimigos, ou nóis que vai cuidar desse prefeito, que é de lua. Tem fase que é lá e fase que quer ser aqui. — Fenrir ordenou claramente para outros próximos ao Dylan escutarem. — E fique dormindo, Dylan, saindo pra fumar em pico por aí, e ele num queria te levar pra debaixo da terra.

— Deixe ele tentar, pra ele cair na quarenta. — Dylan levantou um pouco a camisa na parte da cintura, revelando sua pistola calibre .45, de acabamento predominantemente preto, com o ferrolho em tom de cinza-escuro.

O cabo possuía uma textura áspera, projetada para firmeza e a parte inferior da arma apresentava um pequeno trilho para acessórios.

Aquele era um modelo novo, que disparava balas carregadas de magia negra com densidade de onze por cento junto do projétil, sem tantas falhas ou o risco de ela acabar explodindo na sua mão.

Compacta e robusta, não havia nada de ornamental nela; parecia ter sido construída com uma única finalidade.

Eles ficaram mais algumas horas ali até o irmão do Dylan chegar com mais gelo.

— E aí, cria. Vai colar naquela parada que vai gerar amanhã? — Dylan jogou para o Fenrir, com os olhos baixos e vermelhos.

— Tô querendo. Você vai? — Fenrir dava mais um trago no baseado e um gole no copo de whisky com energético.

— Tô querendo também. Se você for, me dá um tombo até lá. Meu carro tá no conserto, mano. Só vou pegar semana que vem. — Dylan devolveu enquanto dava um trago no baseado que seu irmão passava para ele.

— Vocês vão naquela parada que vai gerar, é? — perguntou Ryan Crowe, irmão do Dylan. Ryan era só três anos mais velho. Era difícil escutar o que ele falava, com o som alto e os outros amigos deles, que também estavam lá no corre, conversando.

— Demorou, Dylan. Nóis cola lá. Se a mulher do seu irmão tirar ele da coleira, dá pra ele colar lá também com nóis. — Fenrir soltou, rindo junto com o Dylan de Ryan.

— Tô querendo dar uma escapada pra colar nessa festa. Uma piveta que eu quero comer vai tá lá. Minha chance. — Ryan emendou, dando um gole grande no seu copo de whisky.

— Demorou então, nóis três cola lá. Acho que o Cody não vai mesmo. Esse zé-buceta, depois que começou a namorar com a Lila, ele acha que ninguém sabe. O cara só fica transando e dormindo o dia todo praticamente. — Fenrir largou, terminando o copo e agora só fumando o baseado.

— Ele fica dormindo na vida em vez de vir fazer dinheiro. Que ele vai pegar o dele. Essa nega que ele tá, Lila, é pilantra, mano. A guria tava com um cara lá do outro lado da cidade, passou dois dias, tá aqui com seu primo, postando story de casalzinho. Ele não se ligue, não. O cara querer vir pegar ele. — Dylan emendou com a voz rouca.

— Deixe ele. O corno, quando vem atrás, não quer saber de matar a mulher, não; quer matar é o cara. — Ryan atirou enquanto pegava o baseado que Fenrir passou para ele e dava um trago.

— A sorte dele é que nóis é por ele. Se esse comédia quiser vir pegar ele aqui, vai tá vindo direto pra toca dos leão sanguinário. — Dylan matava seu baseado com uma última tragada.

— Se liga, Dylan. Tenho um esquema certo pra nóis. Amanhã, quando nóis for colar nessa parada, vou passar lá na casa da minha ex, pegar ela e a irmã dela pra ir com nóis. Aí você tá ligado, né? Já tá certo. Você fica com a irmã dela e eu marco meu ponto com a Chloe de novo. — Fenrir traçou o plano para o Dylan enquanto pegava o baseado que o Ryan gerava de volta e dava mais um trago.

— Demorou, era isso que eu queria mesmo! Tinha um esqueminha já certo lá também, mas vou dispensar. Aquela irmã da sua ex é uma guria gostosa do caralho, mano. Aí vai ser check lá então — cada um com seu esquema certo. Só o pau no cu do Cody que não vai brotar. — Dylan emendou, dando um trago no baseado que o Fenrir gerou para ele.

— Demorou então. Vou colar lá em casa, mano. Bater um rango e ir deitar. — Fenrir se despediu e saiu, deixando o whisky e levando a bolsa com maconha que já estava na metade. — E sobre aquela missão lá do ônibus, é melhor não. Nóis tá jogando recuado até eu pensar em alguma coisa hoje à noite. Já mandei o Roy e um pessoal cuidar da ação hoje.

Dylan e Ryan concordaram, dando um gole nos seus copos, enquanto Fenrir foi até a caminhonete, pegou as compras e a marmita da vó, ainda com o baseado nos lábios, e fechou a porta da caminhonete. Antes de ir até a porta dos fundos da casa do outro lado do beco, ouviu:

— E aí! Depois me mande o número da sua cunhada lá, mano. Eu troquei de celular e perdi os contatos antigos todos. Mande lá, esqueça não, ladrão. — Dylan gritou a alguns passos da casa antes de voltar para os outros.

Fenrir acenou com a cabeça e entrou em casa, onde o Cody Martin estava na sala com a Lila, deitados no sofá.

— Demora do caralho, Fen. Tava fazendo as pizzas, foi? — Cody cobrou assim que viu a silhueta de Fenrir na cozinha de luzes apagadas. — E o dinheiro, conseguiu?

Ele se levantou do sofá, indo até a cozinha apenas de short e mexendo nas bolsas.

Mesmo sendo tarde, não pareceu surpreso em vê-lo; talvez tivesse visto quando estacionou a caminhonete mais cedo.

— Passei na casa da vovó antes e acabei ficando lá mais tempo do que esperava. — Fenrir largou, com olhos vermelhos e baixos e a voz rouca, enquanto subia as escadas para o quarto.

— E o meu dinheiro? — Cody gritou enquanto o primo subia as escadas e ele colocava as pizzas no forno.

Fenrir subiu até seu quarto e voltou às escadas com os cinquenta e cinco mil dólares nas mãos, quando se viu de frente com o Cody, que já o esperava no primeiro degrau.

O rosto de Fenrir era iluminado pela luz da sala, mas os olhos continuavam afogados na sombra do andar de cima, como se a escuridão tivesse descido com ele.

Ele deu alguns passos pesados até o primo e entregou o dinheiro.

— Tá tudo aí? Eu não contei. — Fenrir falou, quase sussurrando, passando pelo primo e indo colocar a marmita da sua vó no micro-ondas.

Era incrível como, mesmo provavelmente passando o dia transando e fumando, o cheiro de Cody parecia o mais fraco da casa.

— Com os juros certinho. Como foi que você conseguiu essa proeza de fazer o Arthur pagar tudo que me deve? Gosto do cara, mas ele tem uns problemas sérios com pagar as dívidas. — Cody questionou antes de subir para guardar o dinheiro e mandar a Lila ir olhar as pizzas.

— Acho que aprendi o idioma dos caloteiros; nenhum deles pensa em me enrolar mais. Só preciso aprender o dos traidores; ainda parecem falar em árabe pra mim.

Fenrir voltou a atenção para Lila, que se levantou do sofá vestindo apenas uma calcinha de renda e uma regata que cobria até um pouco acima do umbigo, sem sutiã.

Fenrir não conseguiu disfarçar o quanto já estava acostumado com aquela visão no cotidiano.

Aquele era o visual de Lila praticamente sempre que estava na casa deles.

Cody parecia não ligar para a maneira como ela se vestia.

E Fenrir, quando Cody não estava por perto, também não via problema em colocá-la em situações às quais não era tão fácil resistir.

Ela se aproximou e se inclinou para ver as pizzas no forno, afastando algumas mechas do cabelo castanho-escuro, da cor de madeira polida, para trás da orelha. Fenrir acompanhava cada movimento dela. Lila tirou as pizzas do forno e as colocou em pratos separados, com a ajuda dele, já que não conseguia alcançar os pratos na prateleira mais alta.

— Você vai querer? — Lila provocou enquanto os olhos de Fenrir navegavam pelas curvas do seu corpo.

— Vai querer um pedaço? — Ela insistiu mais uma vez enquanto oferecia um dos pratos.

— Não, valeu. — Fenrir desviou devagar para alcançar o micro-ondas no balcão atrás dela.

— Vou comer minha sopa.

Ele abriu a lixeira perto da pia e ia jogar fora os Crimson Daily que havia comprado. Depois de falar da vovó, lembrou o que ela havia dito sobre eles e decidiu escutar. A velha podia ser maluca, mas não faria mal se prevenir.

Mas não todos. Que mal faria a ele deixar alguns para o Cody?

Fenrir pegou um dos cigarros no bolso e o acendeu.

Lila colocou o prato na bancada do centro e abriu uma das janelas da cozinha, que dava para o beco.

— Não sei como vocês conseguem respirar com essas janelas fechadas.

Ela falou entre algumas tosses. Depois, sentou-se sobre a bancada, pegou o cigarro da mão dele e deu alguns tragos.

— Não sabe? — Fenrir perguntou, tomando o cigarro de volta dos lábios dela. — Já já você se acostuma com a marola.

Lila o empurrou com os pés, fazendo-o rir.

— Aí, finalmente vai ser uma de nós.

Fenrir deu um último trago, jogou o cigarro pela janela e a fechou.

Próxima o suficiente para poder sentir o seu perfume, Lila arqueou as costas para olhar a sopa no micro-ondas.

Fenrir se afastou dois passos para resistir aos jogos dela. Não gostava de ser tratado como um peão em um tabuleiro de xadrez.

Mas, antes de se afastar, encostou nela por um instante, como se sua mão precisasse se lembrar de como era o toque da pele dela.

Ela não recuou. Enquanto voltava a ficar ereta, lançou um olhar de canto para o relógio no pulso da mão que havia passado por sua coxa. O sorriso provocativo ainda permanecia em seus lábios.

— Muito lindo seu relógio. A cor dele combina com sua pele.

Ela sibilou enquanto pegava sua mão e dava uma olhada melhor nele. Naquela noite fria, sua respiração era quente nas costas da mão. — Você comprou no mesmo lugar em que comprou aquele colar para a Chloe, né? Quanto foi? Deve ter sido muito caro. — Lila largou sua mão e se afastou para pegar um dos pratos. Com uma das fatias, ela foi para a sala se sentar no sofá.

— Não lembro quanto custou o colar dela. Veio junto com o relógio. Foi quatro e alguma coisa. — Fenrir verificava a sopa.

— Quatro mil? Um relógio bonito desse junto daquele colar?

Ela perguntou, surpresa, da sala, enquanto procurava algo para assistir na TV.

— Não. Uns quatro milhões. Ou alguma coisa por aí. Já tenho ele faz uns seis anos.

Lila ficou surpresa ao ouvir o valor. Quando voltou a olhar para Fenrir, havia um brilho diferente em seus olhos.

— Tá tudo certo. — Cody apertou a mão de Fenrir e sussurrou próximo dele, logo que desceu a escada. — Nunca consegui aprender o “idioma” desses filhos da puta. — Cody pegou um prato na pia e viu a lixeira cheia de Crimson Daily, que Fenrir havia esquecido aberta.

— Qual foi? Tá jogando fora por quê? — Cody questionou, em dúvida, apontando para a lixeira, antes de se sentar no sofá ao lado de Lila.

— Essas porcarias são piores que cigarro. — Fenrir se explicou enquanto tirava a sopa do micro-ondas. — Nem era para eu ter comprado. Você pode sair pro corre hoje de noite e caçar alguém amanhã.

— É, vou ver se desço pro corre hoje. — Cody respondeu de volta, com um tom aborrecido. — Colar lá pelas fronteiras com os inimigos e vou abastecer o óleo dos nossos guris lá. Aproveito e toro uns corre lá na madruga. Você vai colar também, é? — Ele perguntou para Fenrir, que se sentou na outra ponta do sofá.

— Vou descer pro corre do craque nada, vei. Fica só na massa essa semana. — Fenrir respondeu entre uma colherada e outra. — Os homi tavam em cima das lojinha por aqui, véi, aí tive que dar um T do óleo, tá ligado. Evitar problema de suborno com os Granite.

— Os cara quer cobrar um olho da cara.

Ele sussurrou antes de voltar a comer.

— Tá comendo a irmã do viadinho lá ainda? — Cody perguntou, referindo-se ao Eddy. Fenrir saía com a irmã dele havia algum tempo, algumas vezes. No momento em que ouviu isso, ficou surpreso com a ideia que teve, como se a luz do meio da sala não fosse se apagar.

— Pior que você falou dela, mano, e bateu uma saudade aqui. Vou ligar pra ela essa semana. — Ele respondeu enquanto pegava seu celular para responder a uma mensagem que ela havia mandado há dois meses.

— E você quer o quê com essa piveta, Fen? — Cody questionou enquanto segurava um riso, olhando pro primo. — Perguntei porque... Craig queria chegar nela, tá ligado. Aí mandou eu chegar em você pra saber se você tava com ela ainda.

— Aí, você acha estranho eu querer ficar com ela? E ele é de boa? — Fenrir questionou, lançando um olhar irônico de confusão ao primo. — Diga pra ele que eu como ainda e mande ele se pôr no lugar dele. Ele acha que é quem? — Fenrir terminou em tom irônico.

Não era difícil entender o interesse repentino de Craig. A irmã de Eddy não era apenas uma garota bonita — olhos azuis, cabelos pretos como a noite, pele pálida e um corpo impossível de ignorar. Para qualquer um com ambição suficiente, ela também era uma catapulta de status.

— Logo ele, sim.

— Vocês discutem uma mulher como quem fala de um carro. Dois ridículos.

Lila praguejou em tom de desaprovação.

— Você não entende, não. — Cody respondeu, desdenhando da fala dela. — Não é uma xota.

— É a xota! — Fenrir cortou o primo, que lhe lançou um olhar de quem parecia tentar ler seus pensamentos.

Tasha havia respondido sua mensagem. Ela não estava tão feliz, mas pelo menos já era alguma coisa com o que ele poderia trabalhar: talvez ir a um restaurante ou qualquer outra coisa longe da rua amanhã, após trocar seus curativos e descansar seu corpo entre as brisas e dores do dia que lhe perseguiram até a noite.

— Os caras de L.A. colaram aqui mais cedo e você não apareceu.

Cody cobrou enquanto terminava sua pizza, olhando de canto para o primo que mexia no celular. — Entreguei as paradas aqui mermo. Nóis ainda ficou esperando, fumamo uns beck e trocamos umas ideias aí.

Fenrir desligou o celular na hora que escutou o que o primo disse e levou a mão aos cabelos. — Carai, é mermo, esqueci, vei. Me passei lá com a coroa.

— O DeShawn deixou um contato dos Cinderfield comigo. — Cody continuou logo após a desculpa do primo.

— Ele parecia interessado no porquê de você querer qualquer tipo de camaradagem com a Família-Estado dos Grandes Lagos. — Ele falou com um tom similar ao que Fenrir falara de Craig mais cedo.

No rosto de Cody, Fenrir claramente podia ver uma cobrança por uma resposta. Mesmo que aquilo não fosse de seu interesse, Fenrir entendeu que seus passos não eram tão precisos.

— Organizar o nosso crime, como o que já conversei com você de fazer aqui. — Ele respondeu em um tom claro enquanto se esticava do sofá até a mesa de centro para pegar uma bag.

— Foi mal. Fiquei preso lá conversando com a vovó. Não ia fazer muita diferença mesmo.

Cody não falou mais. O silêncio sobre eles ficava pesado de repente. Havia alguns dias, Lila geralmente costumava navegar nesse meio e quebrar esses momentos.

Cody vinha perturbando sua paciência havia meses, principalmente desde que as investigações contra ele e os seus começaram.

Cody nunca fez questão de esconder a resistência que tinha a certas vontades e decisões do primo. Mesmo quando concordavam em muita coisa, sempre acabavam chegando ao ponto em que, como o próprio Cody costumava dizer, Fenrir precisava entender o seu lugar.

Por mais que as discussões entre eles nunca tivessem passado de alguns murros dentro daqueles muros, só o fato de uma conversa como aquela precisar acontecer já era suficiente para irritar Fenrir.

— Acho tão fofo como você fala da sua “vovó”. — Lila quebrou o silêncio com palavras provocadoras.

Fenrir ignorou o comentário e não fez questão de quebrar o silêncio enquanto bolava um baseado. O som baixo do filme na TV tomou conta do ambiente e do ritmo da tesoura dele na flor, já que precisou dividir sua atenção com seu filme favorito de noir.

Sua atenção ao baseado foi interrompida pela notificação do mesmo grupo de mais cedo, intitulado “02, 3B e 3C”.

— O Arthur tá chegando já. — Fenrir murmurou, terminando de passar a goma pra fechar o baseado.

Cody se levantou pra ir à cozinha para lavar seus pratos. Lila pulou do sofá pro lado do Fenrir enquanto ele acendia o baseado.

— Me dá um pega, vai. Tô de cara a tarde toda. — Lila sussurrou, se aproximando mais dele.

Fenrir deu um pega e passou para ela.

— Essa maconha que você fuma é diferente, mano.

Ela tossiu as palavras ao puxar a fumaça.

— É top, né não?

Ele perguntou, soltando fumaça, enquanto ela concordava com a cabeça.

— É de uma plantação nova que vai chegar na mão da gente. — Ele sibilou para ela. — Dependendo, né, de como as coisas fluam.

— Dos iranianos que Cody tava falando outro dia que você tem amizade?

Ela perguntou entre seus pegas no baseado e em uma das pernas dele.

Parecia que ela não era tão alheia aos assuntos que rondavam aquela casa.

— É. — Ele soltou, junto de fumaças, com uma cara de quem a lia. — Me diz aí, a tarde toda de cara? O Cody não tá te alimentando direito?

Fenrir perguntou com um sorriso sincero nos cantos dos lábios.

Lila não teve tempo para responder com palavras, apenas um olhar que, pra ele, já lhe dizia tudo. Aqueles olhos castanhos pareciam perdidos em seu sorriso e ele parecia perdido na profundidade enevoada da cor caramelo deles.

Arthur e Cody apareceram na sala e Fenrir logo voltou sua atenção para o filme antes de tomar o baseado dos lábios da Lila para os seus.

Fenrir tinha se cansado por hoje e se levantou do sofá.

— E aí, nóis vai bater um game e o Craig já vai chegar também. Vai pro quarto já, é? — Cody propôs, em dúvida, enquanto se sentava de volta no sofá ao lado da Lila, que se acomodava no ombro dele.

Arthur ia para onde Fenrir estava sentado e tomava seu lugar como de costume.

— Tô cansado. Vou fumar esse lá em cima e morgar. Já tá tarde mesmo. Se for ligar o som, coloca um volume baixo. — Fenrir atirou as palavras antes de se virar para subir as escadas fumando o baseado.

— Tá fraquinho esse aí. Consegue curtir uma noite virando mais não. — Arthur caçoou, rindo com o Cody, enquanto Fenrir retribuía com um revirar de olhos e subia as escadas para seu quarto.

A noite estava tranquila.

Craig havia chegado; Fenrir podia dizer pelo seu cheiro característico e pelos resíduos em sua pele. Por cortar a droga, Craig empesteava o olfato do Fenrir mesmo trancado em seu quarto.

Uma pequena festa rolava em mais uma das casas de uma das áreas residenciais mais perigosas do estado de Montana.

O principal estado governante das Montanhas era também o palco dos 3 chefes do crime dos Estados Unidos.

Fenrir Nechestnyy.

Doug Silva.

Travis Miller.

Montana pertencia à Família-Estado Granite, uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos, que tinha como seus Dependentes os estados de Oregon, Idaho, Wyoming, Colorado, Nebraska, Dakota do Sul e Dakota do Norte e suas respectivas Famílias-Estados.

Música baixa, o cheiro de maconha forte no ar, garrafas de cerveja espalhadas pela sala e o som de tiros de videogame vindo da TV da sala. Nada demais. Só mais uma noite de "descanso" depois de um longo e difícil dia de trabalho.

No quarto do andar de cima, a neblina do seu baseado tomava conta do lugar.

Muitas vezes ele não sabia se o que fumava tinha algo tóxico para seu organismo.

Não importava também.

Não era como se aquilo fosse matá-lo ou algum dos seus clientes.

Também, se o matasse, não importava. Tanto fazia.

E lá estava ele, deitado na cama com o celular na mão, vendo algumas mensagens acumuladas que a mulher que chamava de mãe havia mandado:

“Oii, tá sem crédito, é? A Ari disse que tá tentando falar com você há alguns dias, mas você não responde e não atende ela. Tá tudo bem por aí?”

“Bom dia. Tá tudo bem, Fen? Ari tem andado bem triste esses dias, desde que perdeu o bebê. Tamo segurando as pontas por aqui, mas ela sente sua falta.”

Fenrir começou a digitar uma resposta para a última mensagem da Isobel. Ele parou, pensou em alguma notícia boa para mandar, mas nada veio à sua mente e ele apagou tudo que tinha digitado.

Mas ela estava online e havia mandado uma nova mensagem.

“Vou aí semana que vem. Se precisar de alguma coisa, avisa que eu levo. Beijo. Boa noite.”

Uma mensagem que ele não podia ignorar: elas virem para Montana só atrapalharia tudo e complicaria ainda mais uma situação que já estava pra ficar completamente fudida.

“Não precisa vir. Vou terminar umas coisas por aqui e vou voltar pro Texas. Perdi meu celular com o número da Arienne, fala pra ela mandar os caminhões virem e diz que tô bem. Faz ela ocupar a mente com outra coisa. Uma pessoa desgastando a mente com essa merda já é o suficiente.”

Desligou o celular e decidiu não responder às dúzias de mensagens que ele sabia que ela iria mandar.

Isobel sempre foi muito inteligente, mas muitas vezes deixava seu coração dar razão a seus atos.

Tomara que dessa vez seja diferente.

Em que elas poderiam ajudar daqui, em vez de continuarem de lá?

Amava-as, como não poderia? Por isso, trazê-las para cá não era uma opção.

Já havia 8 anos que Fenrir vivia sob a tutela dessa família.

Movido pela saudade de sua casa e pela estratégia de seu tio, ele não podia falhar.

Não havia espaço em sua vida para isso.

Não importava o quanto seu corpo resistisse.

As suas costelas, os braços e as costas ainda doíam, rangiam sempre que se movimentava e manchavam seus curativos com seu sangue.

Prata — um tiro machuca qualquer um, mas a prata, mesmo retirada, queimava como se ainda estivessem disparando ou desferindo golpes com aquele facão.

Cada trago aliviava um pouco. Não resolvia, mas deixava a neblina grossa o suficiente pra ele parar de pensar nisso.

Com o volume da TV no mínimo, ele nem prestava tanta atenção até que uma fala da âncora do plantão de notícias urgentes do jornal local o puxou de volta das profundezas do reggae que tocava em uma caixa de som ao lado da cama:

“Uma operação federal interceptou um comboio vindo de Butte. Quatro veículos de uma conhecida gangue de Los Angeles foram abordados na rodovia.

A operação, segundo alguns oficiais, vinha sendo investigada há alguns meses pela Agência Internacional Contra o Narcotráfico e Narcoterrorismo, visando os supostos três chefes das maiores organizações criminosas do país.”

Fenrir aumentou o volume da televisão e desligou o som, deixando o quarto ser banhado pela voz da jornalista do plantão, suave e doce como um soco na têmpora.

“Muitas Famílias-Estados já tentaram barrar a agência de se meter em problemas de americanos porque, segundo muitas delas, ela não faz o mesmo em outros países; mas a agência só usou isso como argumento na ONU no início do ano para dar início às suas operações no país.

Das dezoito pessoas que estavam nos carros, nove foram presas e nove morreram em confronto armado, deixando também cinco policiais feridos e dois mortos. Entre os detidos, três estavam em condicional; um deles é um conhecido traficante de Los Angeles: DeShawn Lamar Holloway, conhecido popularmente como Grave. Ele é o único detido cuja identidade foi oficialmente confirmada…”

Nesse momento, a cabeça de Fenrir ficou em branco.

O baseado parou no meio do caminho até a boca.

Por um instante, sua mente ficou perdida entre os rumores que ouvira sobre os interrogatórios de tortura da AICNN e a possibilidade de tudo ir abaixo. — Qual a chance de qualquer um dos "gangsters" de calças arriadas de Los Angeles aguentar tortura e não assinar um acordo? Qual a chance do próprio DeShawn não aceitar?

Eles podem ser tão resistentes quanto acham que sejam, mas não botaria sua mão no fogo por nenhum deles.

Fenrir deu um salto da cama, com o baseado preso aos lábios, e correu até seu closet para pegar algumas roupas e as jogar em uma bolsa próxima.

A adrenalina o fez desconsiderar temporariamente a dor. Romper seus pontos tornou-se a menor de suas preocupações.

No fundo do guarda-roupa, ele afastou a madeira do fundo falso, que revelava uma caixa de munição de bala de prata e 224 mil dólares, que foram jogados direto na bolsa. Vestiu um dos seus casacos, pegou mais três bolsas e saiu do quarto.

Cada passo que ele dava na escada podia sentir nas pontas dos dedos dos pés dormentes. Cada passo mais próximo da sala e ele conseguia sentir aquele cheiro... Suor e todo tipo de fluidos de um vampiro no andar de baixo. Mesmo em todos esses anos, ainda era como se jogassem água sanitária direto em seu nariz.

O único que notou os passos pesados de Fenrir nos degraus foi Craig, sentado do outro lado da sala com uma tocha quase do mesmo tamanho da ponta que Fen havia deixado acesa no quarto.

O Cody Martin, no auge de seus vinte e dois anos, parecia ter perdido seu instinto de sobrevivência. Fenrir poderia ser uma onça e pular no pescoço do primo, que só o notaria quando estivesse em outro plano.

Jogado no sofá da sala, jogando contra alguns amigos um jogo de FPS — quem morre passa o controle. Estava tão imerso e charradão que custou a voltar sua atenção ao mundo real.

— Acho impressionantes os gráficos desse jogo. — Cody murmurou sem tirar os olhos da TV. — Ainda mais nessa TV de 80 polegadas. Me sinto em uma guerra de verdade.

Pelado, enrolado apenas em um lençol fino, com Lila ao lado enquanto ela bebia um pouco. Arthur estava sentado no chão comendo uma fatia de pizza e tinha acabado de plantar uma mina no jogo. Ele estava jogando contra Cody.

Quando Fen apareceu e jogou duas bolsas pesadas em cima do primo, uma acertou o ombro, a outra quase quebrou o nariz. Cody gritou de susto:

— EAE, QUE PORRA É ESSA, MOFIU? TÁ DOIDO, É?

Ele gritou, assustado pela explosão da mina que tinha acontecido no mesmo momento, levantando pelado, segurando uma das bolsas com raiva. Fenrir, que estava com a íris brilhando em âmbar forte naquela noite, jogou outras duas bolsas abertas que segurava no chão e soltou, nervoso:

— Qual foi, Fen? — Craig, sentado em uma das poltronas, o único que notara sua presença antes de chegar à sala, questionou ao perceber a preocupação nos olhos dele.

— A CASA CAIU, MOFIU! Os otários que vieram aqui mais cedo pegar as paradas rodaram. Certeza que os viadinhos vão falar da gente.

— Ideia check? Diga que é mentira, mano. Como assim, viado? — Cody cobrou, já nervoso, desacreditando do que havia escutado.

Fenrir entregou o seu celular ao Cody com a matéria do jornal na internet.

— Três tavam em condicional. Vai ter acordo, certeza, véi. Nóis tem que meter o pé.

Fenrir avisou enquanto pegava 4 pistolas, vários pacotes de munição, oito quilos de maconha embalada e 4 quilos de cocaína escondidos nas gavetas da cozinha para guardar nas bolsas.

O primo vampiro, por um instante, ficou mais branco que o normal quando terminou de ler toda a matéria do celular.

Vampiro ou não, o sangue ainda gelava quando o inferno batia na porta.

— O dinheiro! A gente precisa de uma pá. A merda do dinheiro tá enterrada no quintal, embaixo da piscina, véi. — Cody cobrou, nervoso, segurando uma das bolsas que foi jogada nele.

— A pá tá lá na garagem. Não sei se vai dar tempo não, mano. Melhor a gente deixar pra depois. — Fenrir respondeu enquanto pegava 7 granadas e jogava, sem cuidado nenhum, dentro das bolsas.

— Caralho! Cortou minha lombra... Merda.

Cody e todos os outros pararam por um instante para terem certeza do que escutavam ecoando nas ruas.

— Tô escutando algumas sirenes bem baixo, como se estivessem vindo pra cá! Droga, a casa tá entupida de pica até o telhado, nóis não pode deixar tudo pra trás assim não. — Cody avisou, rangendo os dentes e se voltando ao primo.

— Tem algum dinheiro nessas bolsas que te joguei. — Fenrir avisou, terminando de arrumar as bolsas. — Se você quiser ficar, é com você, mas aqui não tem nada que eu não possa recuperar. Já resolvi muita pica pra um dia só, não vou colocar trocar tiro com o FBI na lista de tarefas diárias.

Cody saiu correndo até o quarto para se vestir, praguejando algumas blasfêmias contra os federais, enquanto todo mundo na sala não entendia nada do que estava acontecendo. Fenrir pegou uma das pistolas, botou na cintura e foi até a sala:

— Pessoal...

Fenrir olhou para cada um deles na sala, que olhavam de volta esperando algum tipo de esclarecimento.

— Qual parte vocês não entenderam? Preciso tá me justificando? Bora, porra, todo mundo na rua, a casa caiu, caralho!

Fenrir caminhou até a janela onde Craig estava próximo, moveu levemente a cortina e eles viram luzes azuis e vermelhas piscando a algumas quadras de distância, vindo direto para a casa. Desesperado, ele gritou pelo primo e pegou duas das bolsas, enquanto todos na sala se vestiam.

— Tão viajando, vocês, né, véi? Qual foi? Não tava de boa aqui e agora vocês tão vendo bicho no teto. Era melhor nóis ter ido curtir lá em casa, mano. Lá é mais entocado. — Craig soltou enquanto se vestia e saía correndo com os outros para seus carros pela porta da frente.

— Como se a gente fosse adivinhar, né? Tenho bola de cristal, arrombado. — Fenrir gritou enquanto corria para o fundo da casa, indo em direção à caminhonete preta que estava estacionada na rua de trás.

A essa hora não tinha mais ninguém lá. Fenrir estava um pouco mais aliviado por saber que seus amigos não iriam sofrer tanto daquela retaliação. Ele abriu a porta do motorista, jogou as suas duas bolsas no banco de trás, ligou o motor e esperou o primo. O coração batia forte.

A mente passava por mil pensamentos enquanto tentava aguentar a enxaqueca da prata.

Seus hematomas pareciam pulsar em dor por todo o corpo cada vez mais.

Ele olhou pra casa e viu Cody na janela do segundo andar.

E, em segundos, ele abriu a janela e, em sua forma espectral, fumaçenta e preta, disparou como um tiro em direção ao carro pela janela do quarto dele.

Apareceu quase instantaneamente do lado de fora do passageiro, vestindo somente uma camisa e uma cueca, com mais duas bolsas.

Ele abriu a porta ao lado e as jogou no banco de trás.

— Vai! Vai! Acelera, Fen! Tá esperando o quê? Adianta, mano! — Cody insistiu ao entrar no carro.

Fenrir, que achou que estava alucinando o visual do primo devido à dor de cabeça, engatou a marcha…

E a caminhonete morreu.

— Filho da puta… — Fenrir praguejou, rindo de nervoso, virando a chave de novo.

O motor pegou no segundo giro. Ele acelerou forte. A caminhonete deu um tranco e bateu de frente num carro estacionado a uns oito metros. O impacto foi seco. Fenrir bateu a testa no volante e viu estrelas por um instante. Tentava recuperar a consciência enquanto Cody pegou uma das pistolas e exclamou:

— Ó, seu maluco! — Ele gritou de susto enquanto notava o sangramento embaixo da camisa do Fenrir. — Tá bem, Fen? Adianta, vai! Dá ré pra nóis cair fora logo...

Cody parou por um instante para prestar mais atenção e filtrar todos os barulhos que estavam chegando até os seus ouvidos.

— Tá escutando? — Ele parou pra prestar mais atenção no final da rua e nas distâncias dos sons das sirenes. — Acho que eles chegaram na frente da casa. Eles mandaram o FBI mesmo ou são só os policiais covardes de sempre? Qualquer pica dá pra nóis trocar uns tiros.

Fenrir piscou rápido, tentando recuperar o foco. Engatou a ré e pisou fundo sem pensar muito. Enquanto isso, Cody viu que duas viaturas da polícia e um blindado Lenco BearCat da DEA apareciam no final da rua em que eles estavam, atrás da casa, tentando encurralar exatamente qualquer um que tentasse escapar pelos fundos.

— Se apressa aí! Eles estão vindo! Sai logo com essa merda, filha da puta! — Cody gritou, sem paciência, com a aproximação das viaturas.

Fenrir seguiu em frente na rua, mas não sem chamar a atenção das viaturas e do blindado que estavam se aproximando da casa deles. Eles aceleraram, e o blindado e uma das duas viaturas aceleraram junto com eles. Uma delas parou na parte de trás da casa e dois policiais com coletes e bem armados desceram.

— Despista eles e vai para Williamsburg! — Cody ordenou antes de se transformar novamente naquela fumaça densa e escura. Ele saiu pela janela como se fosse um redemoinho e voou em direção à viatura que estava se aproximando mais deles.

Fenrir tentou manter a direção perigosa, aproveitando a chance para tentar despistar os policiais antes que um helicóptero aparecesse e os seguisse até Williamsburg. Cody bateu forte na janela do motorista de uma das viaturas, desestabilizando-a um pouco.

A parte de cima do corpo dele se materializou e acompanhava a velocidade deles. Ele atacou novamente a janela com as duas mãos, tentando quebrar o vidro. Mas, ao encostar no vidro com a mão aberta, as suas palmas queimaram.

Mas ele não recuou, mesmo gritando de dor — pressionou mais forte lateralmente a viatura. O rosto diabólico se distorcendo e se transformando próximo ao vidro: veias e olhos negros pulsando, pupila vermelha sangue, centenas de dentes que fariam qualquer pescoço parecer frágil.

O policial que dirigia congelou.

Cody empurrou mais forte, fazendo os policiais baterem forte o suficiente em um carro estacionado próximo — o policial que estava no banco do passageiro, sem cinto, voou pelo para-brisa da viatura e morreu na mesma hora ao ter a cabeça esmagada contra o carro em que bateram, enquanto seu amigo piloto ficou agonizando, preso às ferragens da viatura que atravessavam seu corpo.

Cody voltou para dentro da caminhonete do Fenrir, mas ainda tinha o blindado perseguindo eles.

A outra viatura parou próxima à viatura que bateu.

— Filhas da puta! Colocaram cruzes nas portas e o vidro é temperado contra vampiros! — Cody cuspiu com aquele olhar assustador e irado, retornando à forma humana, examinando as palmas queimadas com as unhas compridas que mais pareciam navalhas.

— Monta ela e acaba com isso. Já estamos cheios de merda até o pescoço de qualquer jeito. — Fenrir ordenou, olhando sério para o Cody, que olhava de volta com um olhar vazio.

— Não. Tenta despistar eles. Fazer isso só vai chamar mais atenção. Tá maluco! — Cody rebateu. — E abre essas janelas, seu sangue vai acabar me fazendo desmaiar.

Fenrir, agora dirigindo, fazendo curvas perigosas na rua de Butte sem olhar pra estrada, com um olhar sério e vazio para o primo. Apenas o âmbar de seus olhos parecia vivo naquele homem:

— Mais atenção do que já temos? Um peido não é nada pra quem tá cagado. Já consegue escutar o helicóptero se aproximando? — Fenrir questionou enquanto continuava dirigindo, olhando diretamente para o primo. — DEA, FBI. Esses vermes devem tá trabalhando em conjunto com a AICNN. E, se eles todos tão trabalhando juntos dentro do país, significa que alguém nos traiu. Os Granite? O DeShawn? Eu não duvido de ninguém, ninguém. Qualquer descrição que tínhamos foi por terra.

Até parecia que os braços do Fenrir estavam pilotando a caminhonete independentemente do rosto dele. Sua percepção das coisas à sua volta já havia sido presenciada pelo Cody, mas nunca diante de tanto perigo.

Nunca com ele tão machucado.

— Monta o RPG e acaba com eles. Não temos mais muito tempo e eles estão na nossa cola. Ou você pode tentar ir lá tirar o blindado da rua. Mas acho que as portinholas das janelas devem estar abaixadas e o passageiro com certeza deve estar com uma pistola ou talvez uma submetralhadora com balas de prata com cruzes cravadas nas pontas, prontas pra atirar em você. O cheiro do suor dele tá tão forte, mesmo nessa velocidade, que, com certeza, ele tá nervoso e pronto pra colocar em prática o treinamento.

Fenrir traçou antes de voltar a atenção para a rua e ir para a avenida principal, deixando o Cody tomar sua decisão.

— Quem sabe alguém deles não é vampiro também e só está esperando você ir lá e tentar fazer o mesmo que com a viatura. — Fenrir cuspiu, desdenhando da falta de coragem do primo que, há pouco, era o criminoso intocável que queria trocar tiro e agora estava com as palmas tremendo.

Cody já podia escutar os policiais pedindo reforços pelo rádio a algumas quadras próximas. Ele se virou para o banco de trás e abriu uma das bolsas que Fenrir havia trazido.

Dentro dela havia um RPG-7. Parecia grande para a bolsa, mas, mesmo assim, seus olhos não o enganavam. Fenrir olhou pelo retrovisor e pôde ver Cody tirando o RPG da bolsa com certa dificuldade. Ele tentou estabilizar um pouco mais a direção.

Cody, ainda com as mãos tremendo, se virou pra frente e armou o RPG com um pouco menos de dificuldade. Ele ocupava um espaço grande entre os dois. Cody o apontou para fora da janela e mirou exatamente pro blindado.

Fenrir puxou o ar fundo pelo nariz — veio junto o medo e o desespero dos agentes da DEA ao verem um RPG apontado para eles.

Cody olhava para as casas que passavam. Conseguia escutar todos aqueles corações acelerados das pessoas que viam a perseguição pelas janelas. Batimentos que tinham se intensificado quando o Cody apareceu com o RPG pela janela. Batimentos que ecoavam nas cabeças dos primos junto das rezas a Deus daqueles agentes treinados dentro do blindado, que tentavam fazer manobras para não ficarem em linha reta.

Cody, com o dedo tremendo sobre o gatilho, disparou e viu o projétil voar de seu ombro e atingir a frente do blindado — como uma flecha atravessando uma folha de papel.

O disparo foi violento para ambos. Cody quase foi arremessado pela janela e Fenrir tossiu sangue de tanta fumaça inalada.

E mais ainda para o blindado.

Uma grande explosão tomou conta da rua, matando quase instantaneamente o motorista e o passageiro e deixando a frente do blindado em pedaços. Janelas próximas quebraram com a explosão.

Pedaços da blindagem voaram por toda a rua.

Ainda com parte do corpo pra fora da janela, com o RPG na mão, os olhos do Cody e do Fenrir — que olhava pelo retrovisor interno — se encheram com a bola de fogo daquela grande explosão, que, pra eles, aconteceu quase em câmera lenta.

Finalmente, a dupla criminosa, sem nenhuma viatura na cola, podia ir em direção à residência deles em Williamsburg.

Por um momento, antes de voltar para dentro da caminhonete, Cody — com o vento no cabelo — conseguiu escutar alguns dos poucos agentes que estavam na parte de trás do blindado e sobreviveram à explosão. Eles estavam queimando vivos, com boa parte dos corpos dilacerados. Naquela hora, dentro daquela parte do blindado, parecia o verdadeiro inferno na terra. Um deles ainda conseguia gritar por socorro — mas por pouco tempo.

Eles tinham certeza de que agora iam perder a paz por um bom tempo. E que essa explosão seria a menor que enfrentariam a partir desse maldito dia.

Continua no capitulo 3. (Em breve)

Por favor, continue sempre se expressando cada vez que ler um capítulo. Seu feedback me ajuda a melhorar minha escrita e a definir o rumo para onde quero levá-la. Faz alguns meses que trabalho neste livro. É a minha primeira vez escrevendo, então não quero deixar passar falhas. Por favor, comunique-se comigo para me ajudar a melhorar. Você e seu feedback são tão importantes para esta história quanto as engrenagens que a fazem funcionar. Obrigado e boa leitura no Seavien. #livro #literaturanacional #fantasía

Thoughts

  • li_no_busao

    Sean vai sair dessa barraca e a gente vai perder a mãe dele de vista para sempre, porque quando volta (se volta) ela virou lembrança que dói.

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  • oquefaltadizer

    O que fica de fora é quem mais me interessa. Sean tá invadindo terra que já era de outro povo. A floresta, os sons dela, tudo tem dona. A gente nunca começa a guerra do começo. A guerra já tava lá.

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  • mesaDeBar

    A coisa que mais me bate é essa: ele tá preocupado em morrer com as calças abaixadas. Porque a dignidade é a última coisa que a gente segura, e você sabe disso.

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  • duvidaHonesta

    Meu palpite é que Sean vai mudar depois daquela missão, porque tem algo quebrando dentro dele: a boca com gosto de metal, a mãe que esqueceu. Você tá preparando a gente pra perder ele.

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  • bete

    Conheci gente que estava em guerra. Nenhum deles falava bonito sobre lá, e a gente não perguntava.

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  • MarcelaOrtega

    Que nojo dessa burocracia que a gente cita pra tudo mas Sean tá vivendo de verdade num acampamento.

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