Que nojo dessa burocracia que a gente cita pra tudo mas Sean tá vivendo de verdade num acampamento.
1883 - Capítulo 2: Na sua mente. Sensível Spoiler
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Que nojo dessa burocracia que a gente cita pra tudo mas Sean tá vivendo de verdade num acampamento.
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Sean.
A mesma gota de sempre pingava novamente em seu rosto através da lona da cabana.
A primeira coisa que pensou quando acordou foi que precisava mijar.
A segunda foi que não queria morrer com as calças abaixadas.
Ficou alguns segundos olhando para o teto de lona, ouvindo a chuva bater sobre o acampamento. Uma chuva tão forte que podia sentir a barraca querer voar.
Esperou o som da chuva ficar mais fraco para sair. Não demorou muito desde o momento em que acordara.
Estava ali, indeciso entre sair para mijar e talvez ser acertado por uma flecha ou deixar para mijar em batalha. Quem perceberia mesmo?
Lembrou-se de quando estava na academia militar e torcia para poder voltar para casa e estar entre os braços quentes da mãe.
Sua boca tinha gosto de metal.
Passou a língua pelos dentes e sentiu alguma coisa quebrada. Um pedaço de obturação, talvez. Já fazia três dias que não escovava os dentes.
— Soldado!
Escutou a voz de alguém gritando do lado de fora e abriu os olhos.
O cabo Almeida estava parado na entrada da barraca, olhando para Sean, que permanecia deitado.
Sean, O cabo e companhia, ficavam na área mais afastada do centro do acampamento.
Na parte norte, para confrontos rápidos com a Venezuela e a Colômbia.
— Levanta. A gente vai junto com o front, protegendo os pilotos de drones.
— Já tô levantando. — respondeu, virando-se para a parede e permanecendo deitado.
Mesmo com os olhos fechados, podia sentir os olhos do cabo queimando em suas costas, até que ele chutou o pé da cama.
— Levanta, porra.
Sean piscou e já estava em pé, batendo continência.
— Chegou uma missão extra, pra começar bem o seu dia.
— Que missão? Achei que hoje nós só íamos ficar de guarda aqui no arsenal. — Sean coçou a barba crescida e percebeu que não cheirava tão bem. — E ainda preciso passar uma água na cara.
— A gente ia, mas chegou uma ordem diretamente do Rei. — O cabo Almeida respondeu enquanto eles saíam das barracas. — Vamos... Sei lá o que vamos fazer. Estamos perdendo a guerra.
— Como assim? — Sean não acreditou no que havia escutado. — Ganhamos nos confrontos contra a Bolívia e o Peru.
— E do outro lado perdemos para a Argentina e a Guiana Francesa! — Cabo Almeida gritou, quase em um choro insatisfeito, chutando um balde próximo.
Sean respirou pesado. O ar estava úmido e ainda chuviscava devagar do lado de fora.
A floresta começava a poucos metros do acampamento. Durante o dia, ela parecia apenas verde. À noite, parecia um buraco. Um buraco enorme, cheio de coisas que faziam barulho quando ele não conseguia vê-las.
— Vamos invadir a infraestrutura de comunicações deles.
— Aquela instalação que vimos outro dia pelo drone? — Sean perguntou com um tom sarcástico.
— É. Aparentemente, os comandantes da N.N.S. na Colômbia usam ela para se comunicar com o resto do continente.
— Aí nós tem que ser os kamikazes? — Sean questionou, contrariado.
— Alguém tem que ser, né. — Cabo Almeida respondeu com desprezo na voz. — Sei pai lá no front contra o resto do mundo e você nessa?
Ele cuspiu no chão e saiu andando, pisando forte como se aquilo fosse mudar alguma coisa.
Sean nem havia notado, mas estava com as botas atoladas na lama.
E o cheiro não era apenas o da floresta. Era fumaça, suor, combustível e alguma coisa podre que ele preferia não identificar.
Havia homens sentados perto da fogueira apagada. Alguns comiam. Outros apenas olhavam para a mata como se esperassem que ela lhes dissesse quando seria seguro morrer.
Sair todo dia era um risco diferente. Não que já houvesse lutado em alguma guerra antes para poder dar uma opinião melhor, mas Sean não achava tão patriota assim ser devorado por uma onça enquanto cagava na mata.
Um soldado estava de cócoras ao lado de uma caixa de munição, tentando acender um cigarro com as mãos protegidas do vento.
Sean olhou para ele por alguns segundos.
O homem finalmente conseguiu.
— Tem isqueiro aí? — Sean perguntou, verificando se ainda tinha algum cigarro.
O soldado levantou os olhos.
— Acabou de acabar.
Ele chacoalhou o isqueiro e o jogou longe.
Sean assentiu, olhando para o isqueiro no chão.
Não queria ir tão longe. Não era o momento para virar lanche de nenhum predador.
Mas também não podia ficar muito perto. Não queria ser “confundido” com um inimigo e morrer com vinte tiros de aviso nas costas.
Seguiu até a parte mais afastada do acampamento.
Membros humanos apodrecidos, já consumidos pela floresta, estavam espalhados pelo caminho.
Sua parafal permanecia sempre junto ao corpo, próxima o suficiente para ser puxada em um instante. Era a sua segurança e a garantia de que o próximo homem perto dele também fosse brasileiro.
Passou por um homem que parecia vivo. Usava uma farda semelhante à sua, mas parecia ter sido surpreendido por uma mina, já que lhe faltava do joelho para baixo em ambas as pernas.
Ele não gritava nem berrava de dor. Estava jogando ao lado dos outros.
Não tinha como ajudar. Uma burocracia só para conseguir munição, comida e água já o perseguia havia dias. Quem dera poder ajudar aquele homem.
Virou-se para o outro lado da mata, onde ela era um pouco mais densa, próximo ao rio.
Andou até a margem para lavar o rosto, garantindo que nenhum jacaré lhe desse um bote.
Um estalo.
Sean congelou, com as mãos molhadas no rosto.
As árvores o deixavam mais paranoico a cada dia.
Mirava com o fuzil para todas elas que estavam do outro lado do rio.
Às distantes, pareciam maiores e mais assustadoras. Pareciam querer desabar sobre ele cada vez que se aproximava.
Nada mais podia ser ouvido.
A chuva fraca continuava.
Algumas folhas cantavam com o vento.
Alguma coisa passou voando entre os galhos.
Um pássaro.
Provavelmente.
Talvez um drone.
Seu coração apertou, mas já não havia alternativa além de voltar sem se aliviar.
Se fosse um drone mesmo, descobriria agora.
Sean mijou tranquilamente, aliviando o peso do corpo. Com uma das mãos na cintura, mantinha o fuzil apoiado contra o corpo e apontado para frente.
Fez o mesmo caminho de volta, mas dessa vez o mais rápido possível.
Tomando cuidado por onde pisa, para não acabar como o amigo de mais cedo.
Quando voltou para o acampamento, o cabo já estava reunindo os homens.
— Vinte minutos!
Os soldados que o Cabo Almeida havia reunidos estavam próximo a sua barraca.
Alguns já tinham seus rosto conhecidos.
Haviam lutado a alguns dias no Rio Cuiari, a alguns quilômetros do encontro com o Rio Içana. Contra a ataque no flanco pela Venezuela.
Para infelicidade da Morte e dos desgraçados que nos querem ver embaixo da lama.
Nossas horas estavam longe, com certeza.
Isso não preocupa um soldado.
Mas a cada dia que passa, todos podiam dizer sentir a mesma coisa.
O mesmo aperto no peito.
Aquela sensação de escapar da morte, estava mais difícil conquistá-la a cada dia.
Era frustrante olhar para alguns deles e saber que nunca os veria mais.
Não que fossem amigos.
Mais lutavam, todos os dias, por suas vidas.
Por seus filhos, irmãos, pais e mães.
Era frustrante, saber que a maioria deles nunca pôde se despedir adequadamente.
Ter um ultimo abraço.
Um ultimo beijo.
Era estranho para ele imaginar que a ultima pessoa com quem falou antes de ir para o Front, foram os oficias do exercito.
Que só sabem seu nome, por carregar Martin no sobrenome.
Era estranho pensar que em um ano meio, havia esquecido como era a voz de sua mãe.
Se esforçou para guardar a única foto que tem dela por todo esse tempo.
Ela nunca lhe abandonou e com certeza lhe protegeu de todo mal nesse tempo.
Sean entrou no circulo que eles formavam próximo a sua barraca.
E verificou seu carregador
dezoito balas.
Ele ficou olhando para o carregador.
Sempre faltavam duas.
Um verdadeiro mistério, apesar de seus esforços para solucionar o caso.
Guardou o carregador.
Ajustou o colete.
Um soldado ao seu lado distribuiu os carregadores extras.
O rádio começou a chiar antes que conseguisse dar três passos para pegar uma granada na caixa próxima.
— Movimento na linha norte!
Algum soldado afastado do acampamento trovejou.
E todos pararam o que faziam e se viraram para o norte.
Olhou para o cabo Almeida.
Ele já estava mirando para a mata.
Ele não precisava apontar onde era exatamente, estava clara sua visão para alguns metros nas arvores ao norte.
Ninguém precisou mandar que se abaixassem. Os homens simplesmente fizeram. Alguns largaram o que tinham nas mãos. Um soldado deixou cair o cantil e o barulho metálico pareceu alto demais naquela chuva.
O silencio era desconfortável.
Uma explosão seca fez Sean e os outro abaixarem suas cabeças e pegar cobertura caixas e árvores próximas.
Sean se agachou atrás de uma caixa de munição.
O tiro parecia ter vindo de um sniper do seu lado do acampamento. O projétil rasgou o ar entre os homens e desapareceu na mata a frente.
Onde alguém gritou de dor por um momento antes do silencio voltar.
O coração batia depressa.
Fenrir.
Fenrir acordou com os olhos pesados, deitado no sofá velho da sua vó.
Seus machucados que antes doíam e queimavam de dentro pra fora estavam costurados, enfaixados e sujos com seu sangue.
Algumas ataduras usadas, jogadas na mesa de centro, pareciam um tecido de ouro — corroídas, corrugadas e manchadas pelo sangue dele.
Assim como algumas que estavam coladas a sua pele, isso explicava o porquê, de quando acordou e pensou ter sido mumificado.
— Não se mexe, garoto. — A velha murmurou enquanto se sentava na poltrona ao lado do sofá. — Senão vai acabar abrindo os pontos.
Ela entregou uma xícara de chá para Fenrir, que lutava para ficar acordado.
— Depois, eu acho bom você botar minha porta no lugar. Tá escutando?
A velha senhora exigiu enquanto pegava um controle para ligar a TV e assistir, confortável, de sua poltrona, onde se recostava.
Fenrir terminou de tomar o chá enquanto assistia ao programa que estava passando naquele momento.
Era um velho desenho animado que costumava assistir durante sua infância, o que achara um tanto engraçado para a situação.
Na tela da TV, que parecia tão antiga quanto o sofá.
A raposa perseguia a ave novamente, implacável como sempre.
Mesmo carregando um histórico de fracassos, o sonho que alimentava suas esperanças todas as noites — o de um dia roer até os ossos daquela maldita ave — não a deixava desistir.
Naquele dia ensolarado, um amigo da raposa aparecia para ajudá-la: um lobo selvagem de outro desenho invadia o episódio.
O lobo não era mais inteligente, mas era muito mais agressivo em suas investidas.
Em um dos planos mirabolantes da raposa, juntos, eles finalmente conseguiram capturar a ave. Mas o lobo, com uma risada maliciosa para o espectador, a traía, amarrando uma dinamite nas costas dela e jogando-a de um penhasco, onde ela explodia ao atingir o chão.
Aquele lobo assustador soltava uma risada maléfica enquanto abria sua boca, revelando seus longos dentes, preparando-se para devorar a ave, até que ela explodia em suas mãos, reduzindo-o a cinzas.
A ave havia colocado uma bomba dentro de outra ave, uma personagem recorrente em alguns outros episódios.
Enquanto as cinzas do lobo eram levadas pelo vento, a câmera se afastava e mostrava a ave rindo, em cima de uma árvore distante, admirando a visão do pôr do sol, ao lado de uma caixa de dinamites e de um balde de tinta azul.
Deitado no sofá, as feridas eram como se estivessem se esforçando para romper os pontos.
Seus olhos pareciam querer pular das órbitas, enquanto o som dos créditos do desenho martelava o ambiente.
A visão escureceu, seus músculos relaxaram e o som do programa da TV se afastava cada vez mais de seus ouvidos.
Ele se viu levado de volta para a ilha de Khizi, na Rússia em 2013 — quando, como um prisioneiro de guerra, foi recuperado pelo seu tio e fugiram para um dos navios de guerra do grupo dele.
Desaportaram no Mar de Barents, cruzaram o Mar da Noruega com algumas paradas em regiões aliadas, até o Atlântico Norte.
As duas semanas que passou no mar foram diferentes de tudo em sua vida. Os zumbidos ainda estavam em seus ouvidos, e o sentimento de derrota na vida ainda ocupava seus pensamentos.
Até o dia em que finalmente chegou aos Estados Unidos.
Na Carolina do Norte, ele conheceu ela.
Aquela mulher, tão gostosa quanto era doce e gentil.
A única que ele tinha conhecido até aquele momento que o tratou daquela maneira.
Apesar de se esforçar para não pôr sentimentos em uma estratégia política do tio, foi inevitável resistir aos encantos de uma vida comum, onde seu sangue não o condenaria a uma vida medíocre.
Ele se contorceu um pouco no sofá, com outras memórias mais dolorosas sendo trazidas pela dor.
Fenrir acordou, meio tonto, em meio a uma cirurgia, com o peito completamente aberto.
O homem que parecia ser um cirurgião colocava folhas finas e maleáveis de prata em volta de todo o seu coração, que ele podia ver pulsar.
Aquele lugar cheirava a remédio.
Os gemidos de dor ecoavam pelos corredores até seus ouvidos. Eram de causar uma enxaqueca enorme.
Fenrir não era diferente e gritava de dor enquanto a mulher ruiva segurava sua mão. Ele apagou novamente com outra dose de anestesia percorrendo sua corrente sanguínea.
Ao fim da cirurgia, ainda tonto, com os olhos semiabertos, olhava para os olhos verdes dela, seu sorriso branco marcado por suas pequenas presas.
Quase o faziam esquecer da dor que estava sentindo em seu coração.
— Ele vai reclamar da dor por um tempo.
O homem falou tirando suas luvas sujas de sangue e se aproximando da mulher.
— Até o corpo dele de 14 anos, se acostumar a envelhecer mais rápido que o comum para um licano. Mesmo tomando os medicamentos certos, ele vai demorar até poder viver como uma criança comum. Se esse procedimento fosse com ele mais novo, tudo bem. Mas já tem 130 anos. Na cultura dele, ele só fica de maior aos 220. — O médico avisou ao que parecia ser o fim da cirurgia. — Vai ser um processo doloroso.
Por favor, continue sempre se expressando cada vez que ler um capítulo. Seu feedback me ajuda a melhorar minha escrita e a definir o rumo para onde quero levá-la. Faz alguns meses que trabalho neste livro. É a minha primeira vez escrevendo, então não quero deixar passar falhas. Por favor, comunique-se comigo para me ajudar a melhorar. Você e seu feedback são tão importantes para esta história quanto as engrenagens que a fazem funcionar. Obrigado e boa leitura no Seavien.