Epá, quando os faróis apareceram na estrada de terra fiquei tenso cá em casa. Pensei que a Mirian não passava desta noite.
Capítulo 16: O Refúgio Inesperado
Pensamento
Epá, quando os faróis apareceram na estrada de terra fiquei tenso cá em casa. Pensei que a Mirian não passava desta noite.
Conteúdo da publicação
livro ( Querida, Sorria!)
Já passava das vinte e duas horas, e a noite estava estrelada. Maraíra estava envolta em papéis na mesa de centro da sala, analisando finanças e seguindo os rastros do dinheiro da família, quando ouviu o barulho de um carro se aproximando da casa. Caminhou em direção à janela: era o carro de Vivi.
O Palio estacionou. Dele, desceram Vivi e uma mulher de uns trinta anos. A estranha usava maquiagem pesada e roupas extremamente curtas. Estava com um braço engessado, um colete nas costelas — que pareciam fraturadas —, vários hematomas pelo corpo e um olho roxo. Inegavelmente, a mulher havia sido severamente espancada.
Maraíra caminhou até a porta e a abriu. Vivi não pediu licença; apenas entrou carregando uma bolsa de tamanho médio, deixando-a perto do sofá.
— Boa noite, Maraíra — falou Vivi, com a sua costumeira voz calma. — Você pode hospedar a Mirian esta noite? Ela vai viajar amanhã.
Maraíra ficou perplexa com a aparência da mulher. As roupas da estranha eram pouco maiores que uma lingerie, revelando hematomas por todo o corpo. A maneira como a amiga lhe impunha aquela situação constrangedora a deixou extremamente desconfortável. Não queria hospedar ninguém em sua casa, muito menos uma estranha.
— Você não pode aparecer assim sem avisar, Vivi. Somos amigas, mas você precisa ligar primeiro. Eu... bem, não estou preparada para receber visitas no momento.
— Da próxima vez eu ligo. E como assim você não está preparada? Você tem quarto de hóspedes, a sua casa é gigante.
— É, mas eu não posso, sabe... — retrucou Maraíra, tentando falar baixo para que a mulher, que observava a casa com curiosidade, não se ofendesse. — Ela parece, sabe... Olha o estado dela.
— Ah, você está falando da surra que ela levou? — respondeu Vivi, imune ao embaraço social da amiga. — Eu não posso hospedá-la, minha casa será o primeiro lugar onde ele irá procurá-la.
A mulher, que até o momento estivera calada, intrometeu-se:
— Foi... foi um "pau pequeno" que me espancou — revelou, com sarcasmo e um tom de divertimento na voz.
— Eu lamento por você, mas, sabe... no momento não estou recebendo visitas — insistiu Maraíra.
— Você está reparando nas roupas dela? — exclamou Vivi, com certa indignação, percebendo o olhar de desaprovação da amiga sobre os trajes da estranha.
— É... bom, ela parece... — murmurou Maraíra, a voz ainda mais baixa.
— Uma puta! — exclamou a mulher. — Bem, eu sou puta. Não tenho outro tipo de roupa a não ser esta e, sinceramente, eu sou linda e posso me vestir assim. — Abriu um sorriso genuíno.
— É... ela trabalha no cabaré aqui da região — confirmou Vivi, prática como sempre. — Que bom que vocês já se conheceram. Maraíra, esta é a Mirian. Mirian, esta é a Maraíra.
— Mas eu não disse que ela podia ficar na minha casa! — protestou Maraíra, cruzando os braços sobre o peito. Ela vestia um vestido de alta costura e um cardigã que ia quase até os tornozelos.
Nesse momento, luzes de farol iluminaram a estrada de terra em direção ao bangalô de Maraíra, chamando a atenção das mulheres. O barulho de um carro freando bruscamente na frente da casa fez com que as duas saíssem para a varanda para verificar o visitante. Discretamente, por trás da cortina, Mirian observou o homem que descia rapidamente do veículo.
— É o "pau pequeno" — sussurrou Mirian, encolhendo-se e escondendo-se perto da parede.
Vivi desceu um degrau da escada da varanda para encarar o homem alto. Ele tinha os punhos cerrados e o maxilar tão tenso que os músculos do seu rosto saltavam, emanando uma agressividade mal contida. Logo em seguida, engolindo a contrariedade, Maraíra a acompanhou até ficar próxima a Vivi.
— Boa noite. O que o senhor faz aqui na minha propriedade? — disparou Maraíra, assumindo a postura imponente de dona da casa.
O homem deu um passo largo e ameaçador para a frente, invadindo o espaço pessoal delas.
— Boa noite, senhoras. Bom... eu estou procurando uma mulher. Ela é uma ladra, roubou um dinheiro. — A voz dele saiu áspera, rosnada por entre os dentes trincados, enquanto a respiração pesada inflava o peito de forma intimidadora. Seus olhos escuros e hostis tentavam varrer o interior da casa por cima do ombro de Maraíra, como um predador raivoso caçando a presa.
— Aqui só estamos nós duas — cortou Maraíra, com a voz gélida. — Quer que eu chame a polícia para ajudá-lo na busca? Pode observar as câmeras em volta de toda a minha propriedade. Não existe sistema de segurança melhor do que o meu nesta região.
Os nós dos dedos do homem ficaram brancos de tanto que ele apertou as próprias mãos ao ser contrariado. A raiva nítida, o pescoço avermelhado e a forma como o corpo dele vibrava, lutando contra o impulso de usar a força física ali mesmo, fizeram o estômago de Maraíra se revirar.
Era uma expressão que ela conhecia muito bem: a fúria covarde de homens acostumados a subjugar os outros pela agressão e pelo medo, homens que não suportam ouvir um "não". Ao ver as veias saltadas no pescoço do desconhecido, ela se lembrou imediatamente de Pedro, seu marido, nos segundos que antecediam as pancadas em suas costelas.
— Você deveria deixar isso para lá e voltar para a sua casa, para sua esposa e seus filhos — disparou Vivi, com um tom que soava como um aviso claro, quebrando a tensão. — Eu mesma já estou indo embora, já está muito tarde para visitas.
Vivi começou a caminhar em direção ao seu velho carro, mas parou antes de abrir a porta.
— Vamos deixar a Maraíra descansar. Boa noite.
O homem trincou os dentes mais uma vez, vencido pelo olhar cortante e inabalável de Maraíra e pela ameaça silenciosa das câmeras de segurança, que o impediriam de agir com a violência que seu corpo implorava para usar. Fez um aceno tenso e raivoso com a cabeça. Caminhou a passos duros e pesados em direção ao seu próprio carro, entrou, bateu a porta com violência e acelerou rumo à saída da propriedade, sendo seguido de perto pelo Palio de Vivi.
Maraíra ficou ali na varanda, sentindo o ar noturno esfriar seu rosto enquanto tentava processar o que acabara de acontecer. Sem sequer ter concordado, agora tinha uma estranha hospedada em sua casa para pernoitar. E, ironicamente, acabara de protegê-la.
Thoughts
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PermalinkCardigã até os tornozelos de um lado, roupa quase de lingerie do outro, e as duas marcadas por homem. Aposto que a Maraíra usa essas mangas compridas desde o tempo do Pedro, e que a Mirian sacou isso antes da Vivi.
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PermalinkEpá, quando os faróis apareceram na estrada de terra fiquei tenso cá em casa. Pensei que a Mirian não passava desta noite.
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PermalinkO homem ainda volta. Espera que o Palio saia da estrada e aparece de dia, quando as câmaras já não assustam.
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PermalinkA Mirian é das minhas.
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PermalinkA Vivi faz tudo com a mesma calma, deixa a bolsa ao pé do sofá e é a primeira a ir embora. Parece-me que já fez isto muitas vezes e escolheu a casa da Maraíra por causa das câmaras.
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PermalinkMaraíra passa o capítulo inteiro dizendo que não pode receber ninguém e termina protegendo a Mirian na varanda, só com a voz gelada e as câmeras. Me parece que ela reconheceu o homem antes de reconhecer a mulher, porque aquela fúria ela conhecia do Pedro. Fiquei pensando que a Mirian ainda vai ensinar a ela alguma coisa que dinheiro nenhum ensinou!
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