Tem uma distinção boa aí: o texto insiste que o giro da taça não era ritual religioso, era costume de casa. É bem o caminho da oração antes da refeição, que em muita família sobrevive como gesto muito depois de alguém lembrar a reza inteira. Aposto que é por aí que a Luz volta pra Etérea, pela mesa antes de qualquer templo.
Capítulo 15: A memória despertou
Pensamento
Tem uma distinção boa aí: o texto insiste que o giro da taça não era ritual religioso, era costume de casa. É bem o caminho da oração antes da refeição, que em muita família sobrevive como gesto muito depois de alguém lembrar a reza inteira. Aposto que é
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Uma voz masculina atravessou o salão.
— Então era aqui que você estava.
Amme congelou.
Aras ergueu os olhos.
Dois eterianos aproximavam-se entre as mesas.
Pentre vinha à frente, com aquele sorriso cansado de quem já esperava encontrar confusão.
Yria caminhava ao seu lado, impecável como sempre.
Amme sorriu sem graça.
— Ah... oi.
Pentre cruzou os braços.
— Você sumiu de novo.
— Tecnicamente...
— Não.
— Nem comecei.
— Exatamente.
Yria desviou o olhar pelo salão.
— Onde está a humana?
O coração de Aras disparou.
Ela deu um passo para frente.
Amme segurou discretamente seu pulso antes mesmo que pudesse responder.
Foi um gesto tão natural que quase ninguém percebeu.
Quase.
— Dormindo.
Yria estreitou os olhos.
— Dormindo?
— Exagerei um pouco no pó calmante.
Pentre suspirou.
— Você deu quanto?
Amme fez uma careta.
— Um pouquinho mais do que pretendia.
— Traduz.
— ...
— Amme.
— Talvez ela só acorde mais tarde.
Pentre levou a mão ao rosto.
— Você dopou a princesa.
— Foi sem querer!
— Isso não melhora em absolutamente nada. Ela está bem?
Pela primeira vez, Amme respondeu sem brincadeiras.
— Está.
— Leve alimento até ela quando acordar.
— Eu ia fazer isso.
Yria permaneceu observando o salão.
Seu olhar percorreu lentamente cada rosto.
Por um breve instante...
Encontrou os olhos de Aras.
A princesa desviou imediatamente a atenção para a própria tigela, como qualquer outra eteriana faria.
Yria continuou andando.
Mas algo permaneceu incomodando-a.
— Licença? Oi?
— Ah, é comigo? — Aras apontou para si mesma, confusa por o ser à sua frente chamá-la tão de repente.
O ser em questão era Pentre, que sorriu de maneira gentil.
— Sim. Com você.
Aras piscou algumas vezes.
— Eu?
— É.
Ele fez um pequeno gesto para a cadeira vazia ao lado da dela.
— Posso?
A princesa olhou rapidamente para Amme.
A Segunda Guia apenas assentiu, tentando parecer tranquila.
— Claro.
Pentre sentou-se.
Por alguns instantes, apenas observou a tigela diante dela.
— Ainda está se acostumando com a comida daqui?
Aras deu uma pequena risada.
— Está tão na cara assim?
— Um pouco.
Ela olhou para a fruta azul entre os dedos.
— Nunca tinha visto nada parecido.
— Então foi resgatada há pouco tempo.
Aras congelou por um breve segundo.
Amme respondeu antes que ela pudesse abrir a boca.
— Foi.
Pentre assentiu lentamente.
— Imaginei.
Ele não perguntou de onde.
Nem quando.
Nem como.
Para um eteriano, encontrar sobreviventes escondidos pelo mundo ainda era algo possível.
Yria, porém, permaneceu observando de longe.
Pentre voltou a falar.
— Como está se sentindo?
Aras demorou um instante para responder.
— Confusa...
Ele riu.
— Então está igual ao resto de nós.
A resposta arrancou uma risada sincera da princesa.
Até Amme relaxou um pouco.
Pentre ainda sorria quando um dos servidores aproximou-se trazendo uma pequena jarra translúcida.
O líquido em seu interior brilhava num tom dourado muito claro.
O servidor serviu primeiro Amme.
Depois Pentre.
Em seguida, aproximou-se de Aras.
A princesa ergueu automaticamente as duas mãos para receber a pequena taça.
O servidor a entregou.
Ela permaneceu imóvel por um segundo.
Então...
Sem pensar.
Levou a taça até a altura do próprio rosto.
Fechou os olhos.
Girou lentamente o recipiente apenas uma vez no sentido do sol nascente — um movimento delicado, quase imperceptível.
Só depois encostou a borda nos lábios.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
O servidor continuava parado.
Pentre congelou com a própria taça suspensa no ar.
Amme virou a cabeça tão depressa que quase derrubou a bebida.
Yria franziu a testa.
Aras percebeu os olhares.
— ... — Baixou a taça. — O quê?
Ninguém respondeu.
Ela olhou para Amme.
— Eu fiz alguma coisa errada?
Amme parecia incapaz de falar.
Foi Pentre quem conseguiu recuperar a voz.
— Quem... — Ele respirou fundo. — ...quem ensinou isso a você?
Aras olhou para a própria taça.
— Ensinar o quê?
— O movimento.
Ela piscou.
— Eu... não sei.
— Você acabou de oferecer o primeiro gole à Luz.
Aras permaneceu imóvel.
— Eu fiz isso?
— Fez.
Ela olhou novamente para a taça.
— Achei que... — Parou de falar. — Achei que era o jeito certo de beber.
O servidor deixou escapar uma risada emocionada.
Os olhos já estavam marejados.
— Faz mais de dois mil anos... — Sua voz falhou. — ...que eu não via ninguém fazer isso.
Amme abaixou lentamente a cabeça.
Ela conhecia aquela tradição.
As crianças deixavam de aprendê-la logo após a Guerra da Corrupção.
Não porque fosse proibida.
Mas porque perdeu o sentido.
Na época da Luz Primordial, acreditava-se que todo alimento era um presente da própria criação.
Por isso, antes do primeiro gole ou da primeira mordida, cada eteriano girava discretamente o recipiente uma única vez.
Não era um ritual religioso.
Era apenas uma forma de dizer:
"Que aquilo que me sustenta também continue sustentando o mundo."
Um costume simples, quase doméstico.
Desaparecera quando a própria Luz deixou de alimentar Etérea.
Pentre continuava olhando para Aras.
Cada segundo aumentava sua confusão.
— Nem Amme faz isso...
Amme deu uma risadinha sem graça.
— Eu esqueço...
— Quase todo mundo esquece.
Yria finalmente aproximou-se da mesa.
Seu olhar era muito mais analítico do que emocionado.
— É possível aprender observando.
Pentre virou a cabeça.
— Observando quem?
Ela ficou em silêncio.
Porque realmente...
Não havia quem observasse.
Nem os Primevos repetiam mais aquele gesto. Eles simplesmente haviam parado, séculos atrás.
Nesse instante, um dos Primevos levantou-se lentamente.
Depois outro.
E mais outro.
Sem dizer uma única palavra...
Todos ergueram suas pequenas frutas vermelhas.
Giraram-nas uma única vez.
Exatamente como Aras fizera.
Um após o outro.
Em completo silêncio.
Como se uma memória adormecida tivesse acabado de despertar.
O salão inteiro começou a imitá-los.
Não porque alguém havia os mandado, e sim porque, pela primeira vez em incontáveis gerações...
Eles se lembravam de como seus ancestrais — e, há muito tempo, eles mesmos — agradeciam pela vida.
Aras apenas observava.
Sem entender por que todos estavam fazendo o mesmo movimento que ela.
E Amme sentiu os olhos se encherem de lágrimas, enquanto um sorriso bobo tomou seus lábios.
Antes que conseguisse pensar, simplesmente envolveu Aras num abraço forte.
Escondeu o rosto em seu ombro e sussurrou, com a voz embargada:
— Eu estou tão feliz por ter te sequestrado...
Aras ficou completamente imóvel.
— ...isso foi um agradecimento?
— Foi.
— É o pior agradecimento que eu já recebi.
— Foi sincero.
— Te conheço há um dia e meio, e estou começando a desconfiar que você é incapaz de mentir.
Thoughts
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PermalinkFico com a Yria nessa. Aprender observando é a explicação mais barata, e ela testou na hora: não sobrou ninguém de quem a Aras pudesse ter copiado, já que nem os Primevos faziam mais. Quando a hipótese simples cai desse jeito, a Aras passa a ter um problema bem maior que o pó calmante.
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PermalinkTem uma distinção boa aí: o texto insiste que o giro da taça não era ritual religioso, era costume de casa. É bem o caminho da oração antes da refeição, que em muita família sobrevive como gesto muito depois de alguém lembrar a reza inteira. Aposto que é por aí que a Luz volta pra Etérea, pela mesa antes de qualquer templo.
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