Véi, o Pedro contido na varanda e fervendo por dentro é aquele marido que ninguém de fora acredita que existe. A vizinhança toda deve achar ele um amor.
Capítulo 13 : O Retorno
Pensamento
Véi, o Pedro contido na varanda e fervendo por dentro é aquele marido que ninguém de fora acredita que existe. A vizinhança toda deve achar ele um amor.
Conteúdo da publicação
livro (Querida, Sorria!)
O silêncio no Palio cinza era denso, mas não opressivo. Era o silêncio de quem havia acabado de testemunhar o fim de um ciclo. Vivi dirigia com o olhar focado na estrada de terra, enquanto Maraíra, no banco do passageiro, mantinha o rosto voltado para a janela. A imagem de Agenor e a luz se apagando de seus olhos ainda estavam vivas em sua mente. A morte, que ela buscara em diversos momentos de sua vida, não se revelou da maneira que imaginava. Diferente de tudo o que idealizara, a morte havia se mostrado calma, serena e amorosa, como uma porta que se abre vagarosamente. O perdão concedido foi a soleira que ela finalmente atravessou.
O rádio comunicador perdido no porta-luvas do carro de Vivi — uma ferramenta essencial para as áreas rurais sem sinal de celular — chiou de repente, quebrando a quietude.
— Vivi? Na escuta? Aqui é o Sargento Moraes — a voz metálica soou urgente.
Vivi pegou o rádio com uma das mãos, apertando o botão.
— Na escuta, Moraes. O que houve?
— Recebemos um chamado de emergência no bangalô novo, lá na encosta. Um granfino, que diz ser o marido da dona, acionou a viatura. A porta estava escancarada, a casa toda revirada, móveis quebrados. Ele deu queixa de sequestro.
Vivi suspirou pesado, trocando um olhar de soslaio com Maraíra, que franziu o cenho ao ouvir a história.
— Cancela a ocorrência, Moraes. Não tem sequestro nenhum — respondeu Vivi, com a paciência de quem lida com crianças. — A dona do bangalô está aqui no meu carro, vivinha da silva. Tivemos uma emergência na rota. O seu Agenor descansou. Estamos voltando para o bangalô agora. Chegamos em dez minutos.
— Entendido, Vivi. Meus sentimentos pelo seu Agenor. Vou avisar o granfino lá no bangalô para baixar a guarda. — O rádio ficou mudo.
Maraíra sentiu o estômago revirar. Pedro. A última pessoa que ela queria ver no mundo naquele momento. O universo de Pedro girava em torno de status, controle e aparências — exatamente o mundo que a havia adoecido.
— Parece que a sua onça interior deixou marcas grandes demais na casa e assustou a visita — comentou Vivi, quebrando o gelo, enquanto o carro vencia a última curva antes da propriedade.
Quando o bangalô surgiu no campo de visão, a cena era caótica. O SUV importado de Pedro Correia estava estacionado de qualquer jeito no gramado. Pedro aguardava na varanda, com as mãos enfiadas nos bolsos do terno caro; suas roupas de grife impecáveis destoavam completamente daquele cenário rural. Quem não o conhecesse, pensaria que ele estava calmo. Mas Maraíra sabia: quanto mais contido na superfície, mais furioso por dentro ele estaria.
Assim que o Palio amassado de Vivi parou, Pedro tirou as mãos dos bolsos e observou a esposa. Maraíra usava um vestido florido simples e os cabelos curtos. Ainda estava magra, mas a antiga apatia já não existia em seu rosto.
Maraíra abriu a porta e desceu lentamente. O cansaço físico e emocional pesava em seus ombros, pois o dia tinha sido longo e carregado de emoções intensas. Ela já aprendera a não esperar afeto ou demonstrações genuínas de preocupação do marido. E Pedro, fiel à sua natureza, não demonstrou nenhum sinal de alívio por ela estar viva.
O que veio foi uma avalanche.
— Maraíra! Entre! — ordenou Pedro de forma pausada, apontando em direção à porta aberta, a voz aguda cortando o ar pacífico da tarde.
Maraíra, no entanto, continuou parada no cascalho.
— Você perdeu o resto do juízo que tinha? — continuou ele. — Eu dirijo por horas até esse fim de mundo, encontro a sua casa destruída, roupas no chão, cacos de vidro! Achei que você tivesse sido roubada ou sequestrada!
Vivi saiu do carro, cruzando os braços e encostando na porta do Palio. Estava pronta para intervir se necessário, mas decidiu apenas observar o casal entrar na casa e fechar a porta atrás de si.
— Eu estou bem, Pedro. Sei que não perguntou... Apenas... saí para espairecer — respondeu Maraíra, a voz rouca, tentando manter a calma no interior destruído da sala.
— Você está bem? Olha para você! — Pedro apontou o dedo, o rosto vermelho de indignação, lutando para controlar a voz e a raiva diante da constatação de que ela parecia bem melhor do que na última vez em que a vira no hospital. — Cheirando a poeira, andando no carro dessa... dessa gente! — Ele lançou um olhar de puro nojo em direção à janela, referindo-se a Vivi. — Você está doente, Maraíra! Eu deveria ter te internado em um hospício! Foge para o meio do mato para encher a cara e me faz passar por esse vexame! Você não tem consideração por ninguém? Sabe o escândalo que seria se isso vazasse na imprensa? A grande louca vivendo no meio do nada... Seria melhor se você já estivesse morta, mas ainda está aqui!
A cada palavra cruel, Maraíra o lia com clareza. Pedro era mestre em distorcer a verdade. Ali, encarando-o, ela teve a absoluta certeza de que ele fora conivente com sua meia-irmã, largando-a naquele bangalô para que morresse de inanição ou overdose.
Maraíra lembrou-se das mãos calejadas de Agenor. Lembrou-se de dona Francisca sorrindo na varanda. Lembrou-se do peso da morte e da fragilidade da vida. Foi então que uma epifania a atingiu: é você quem dá às pessoas o tamanho e o peso que elas terão na sua vida. Sempre será você quem decidirá quem é importante e quem não é.
Todo o drama de Pedro pareceu subitamente patético. Minúsculo. Irrelevante.
A corrente que havia se rompido dentro de Maraíra horas atrás não deixou espaço para a submissão de sempre. Ela não abaixou a cabeça. Não engoliu as lágrimas e não pediu desculpas, como fizera a vida inteira.
— Chega — a voz de Maraíra saiu baixa, mas firme.
— Como é que é? — Pedro zombou, cruzando os braços. — Você faz esse circo todo e diz "chega"? Sua ingrata, vagabunda! — gritou ele, caminhando em direção a ela com fúria.
— EU DISSE CHEGA!
O grito rasgou a garganta de Maraíra com uma ferocidade que atravessou as paredes e ecoou pelas montanhas ao redor. Até Manuel, que dormia no banco de trás do carro lá fora, mexeu-se assustado. O som carregava meses de angústia, luto e raiva reprimida.
Pedro deu um sobressalto, arregalando os olhos, paralisado pelo choque. A esposa moribunda, submissa e deprimida havia sumido. No lugar dela, havia uma mulher com os olhos em chamas.
— Vá embora, Pedro — ordenou Maraíra, o tom agora frio e cortante como gelo. — Eu não pedi a sua visita. Não pedi o seu resgate e muito menos os seus julgamentos. Você não sabe nada sobre mim. Não sabe nada sobre a vida! Pegue o seu carro e suma da minha propriedade. Agora!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Pedro abriu a boca para rebater, mas a firmeza assassina no olhar de Maraíra o impediu. O homem de grife engoliu em seco, sentindo a brusca mudança de poder. Sem dizer mais nenhuma palavra, virou as costas, abriu a porta e caminhou a passos duros até o seu SUV. Bateu a porta do veículo com força e arrancou, levantando a mesma poeira que antes desprezava.
Maraíra ficou ali, parada no umbral, observando o carro desaparecer na estrada de terra. Seu peito subia e descia rapidamente, mas a mente estava perfeitamente clara. Pela primeira vez em muito tempo, a casa estava destruída, mas ela se sentia inteira.
Vivi desencostou do Palio, um sorriso discreto e orgulhoso brincando no canto dos lábios.
— É... — murmurou a enfermeira, caminhando até a caçamba para pegar sua bolsa térmica. — Parece que a sopa da minha mãe fez efeito mesmo. Mas não vou oferecer ajuda para varrer os cacos lá dentro. Foi você quem quebrou, então, você que limpe.
Vivi piscou, sorrindo, e entrou em seu velho Palio.
Thoughts
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PermalinkDuvido que o Pedro engula aquele grito e suma de vez. Um homem que dirige horas até o fim do mundo pra controlar a mulher não perde tudo numa tarde só. Ele já falou em hospício, então eu apostaria num retorno com papel de internação na mão e algum médico amigo do lado dele.
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PermalinkUai, a meia-irmã nem apareceu de novo e o Pedro já saiu daqui humilhado. Aposto que os dois se juntam antes do capítulo 15, e a Vivi vai ser a primeira a sacar!
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PermalinkVéi, o Pedro contido na varanda e fervendo por dentro é aquele marido que ninguém de fora acredita que existe. A vizinhança toda deve achar ele um amor.
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PermalinkA Maraíra só consegue gritar chega depois de ver o seu Agenor partir em paz, naquela mesma tarde. Eu fiquei pensando que perto de uma morte tranquila assim um homem gritando sobre escândalo na imprensa fica pequeno mesmo, quase ridículo. Imagino que o Pedro ainda vai tentar voltar pelo lado do dinheiro. Obrigado por seguir postando os capítulos!
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PermalinkDeixa eu pôr em ordem. O seu Agenor morre em paz, o rádio chia, e quando elas chegam o Pedro já contou pro sargento uma história de sequestro. Dirigiu horas e não perguntou uma vez se ela estava viva. Aposto que ele volta com advogado, porque homem assim não aceita perder na frente de enfermeira.
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