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Capítulo 12 - Nenhum de Vós Partirá!

KazzTeles
Pensamento

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thiaguinho

Edran, não...

Edran, não...

Conteúdo da publicação

A manhã seguinte nasceu com um silêncio pesado e sufocante. Descobrir a verdade sobre o Polaris não trouxe o alívio que uma resposta costuma trazer, pelo contrário, para Daiquiri, a morte do irmão deixou de ser uma tragédia sem explicação e tornou-se o exato momento em que sua própria humanidade lhe fora roubada. Azoth estava dentro dele. E, em algum lugar daquele mundo, a outra metade da entidade esperava para ser completamente reunida.

O pior era a confusão interna, Daiquiri já não sabia onde terminavam seus próprios sentimentos e onde começavam os da entidade. Havia picos de uma raiva que não era sua, seguidos por uma calma gélida no meio do pânico, como se algo sussurrasse em sua nuca que resistir era inútil.

Ninguém tocou no café da manhã, João tentou puxar uma de suas piadas para quebrar o gelo, mas a frase morreu no meio. Marina, notando a palidez de Daiquiri, apenas lançou um pedaço de pão para perto dele, sem dizer nada. Alexander vigiava a entrada da fortaleza arruinada, tenso como uma corda de arco.

Edran passou a madrugada debruçado sobre os documentos do posto, finalmente se aproximou. Ele tinha a expressão de quem acabara de ler uma sentença de morte.

— Precisamos sair daqui antes do meio-dia — disse o velho, a voz cortando silêncio do lugar.

— Por quê? — perguntaram.

Edran desenrolou um mapa sobre a mesa de pedra. — Porque o que aconteceu ontem confirmou o que eu temia, Azoth não está apenas despertando, ele está se sintonizando com os pontos onde a magia do mundo reage à sua presença. Nós deixamos um rastro ontem...

— Você tem certeza? — Marina se inclinou sobre os desenhos.

— Não absolutamente... Mas há sinais de movimentação a leste, ninguém estava por ali ontem, e, mais importante... eu encontrei algo nas anotações de Ezekiel — Edran apontou para um região remota, engolida por um anel de montanhas negras. — A outra metade da essência.

— Você achou onde ela está? — João parou de respirar.

— Achei uma referência clara, Ezekiel caçou esse lugar a vida toda. Ele sabia que, se o culto nunca reunisse as metades, Azoth não voltaria com força total.

— Então por que não fomos atrás dessa metade antes? — questionou Marina, os olhos semicerrados.

Edran olhou para Daiquiri com uma tristeza profunda.

— Porque antes nós não sabíamos que o receptáculo estava viajando com a gente.

O silêncio engoliu a sala outra vez, Daiquiri olhou para o próprio pulso, onde a marca de Azoth parecia pulsar levemente sob a pele.

— Se encontrarmos essa essência... podemos destruí-la? — Daiquiri questionou.

— Não sabemos. — Admitiu o velho. — As coisas não são desse jeito, a prioridade não é juntar as duas metades, Daiquiri. É garantir que elas fiquem o mais longe possível uma da outra, se o Azoth já estiver rastreando o local...

— Então temos que chegar antes dele.

Enquanto falava, Daiquiri sentiu uma corrente elétrica subir pelo braço, uma sensação bizarra de reconhecimento invadiu sua mente. Uma parte parte profunda e escura dele sabia exatamente o que era aquele ponto no mapa, sabia o caminho, sem perceber ele abaixou sua mão e tocou o papel. A reação foi instantânea, a tinta do mapa ferveu, linhas negras e espessas começaram a se espalhar a partir dos dedos de Daiquiri, rasgando o pergaminho em direção às montanhas desenhadas, como veias enchendo de sangue negro.

Os três recuaram num pulo, Daiquiri tentou puxar a mão, mas ela estava colada à mesa.

— Não... — a voz que saiu de sua garganta era dupla, era a de Daiquiri e a de algo muito mais antigo.

— Daiquiri, solta isso! — gritou Marina.

Ele puxou com toda a força, mas nada, a linha negra traçou um círculo perfeito ao redor das montanhas. Então, a pesada mesa de pedra rachou ao meio com um estalo ensurdecedor.

Alexander tentou agarrá-lo pelo ombro, mas uma onda de força invisível explodiu de Daiquiri, arremessando o guerreiro contra a parede de pedra com um baque surdo. João correu para proteger Marina, puxando-a para trás, Edran ergueu as mãos para lançar um feitiço de contenção, mas antes que pudesse conjurar, a marca no braço de Daiquiri brilho em um roxo quase negro.

Ele arqueou as costas, soltando um grito que não era humano.

— Eis chegado o momento...

O som fez o ar da sala gelar, Edran estava paralisado de medo. O sussurro na mente de Daiquiri havia acabado, Azoth não estava mais apenas tentando tomar o controle, ele havia tomado o controle.

O corpo do garoto tremia enquanto veias escuras subiam pelo seu pescoço. Quando ele abriu os olhos, o azul de Daiquiri havia sumido. A íris estava totalmente negra, como um poço sem fundo. A expressão de dor desapareceu, substituída por uma arrogância fria e milenar.

— A vossa voz já não o alcança. — disse Azoth, testando a voz, esticando os dedos do garoto.

— Azoth! — João disse de maneira firme, dando um passo trêmulo para trás.

A criatura sorriu, o sorriso no rosto de Daiquiri parecia antinatural, era o sorriso longo e arqueado como o de uma fera.

— Por derradeiro, alguém ousa pronunciar a minha alcunha com o devido temor.

Alexander, recuperando-se do baque, avançou com a espada em punho. Sem sequer olhar, Azoth ergueu dois dedos. A gravidade pareceu esmagar Alexander, que foi atirado violentamente contra o chão, cuspindo sangue.

— Fica longe dele! — gritou Marina sacando uma adaga.

Azoth virou o rosto quase em 360º olhando lentamente para ela, seus olhos negros desceram até a bolsa no ombro da garota.

— Vós! Vós sois a que carrega o nada... Um cálice que aceita aquilo que jaz sem vida. Deveras curioso...

— Dê mais um passo e eu enfio isso no seu pescoço! — ela gritou.

— Não carecerei de mover sequer um pé... — Azoth levantou a mão, e o corpo de Marina foi puxado para frente. Mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, a mão estendida começou a tremer.

Sua expressão de arrogância começou a vacilar e por um milésimo de segundo, o negro dos olhos clareou. O desespero brilhou lá no fundo.

— Marina... Pessoal... Fujam... — a voz de Daiquiri, fraca, esganiçada, rasgou a garganta.

O corpo dele foi tomado por um espasmo violento, as vozes começaram a se sobrepor, disputando a mesma boca.

— Este invólucro me pertence! É meu!

Uma explosão de energia estilhaçou as janelas da fortaleza, Azoth cambaleou para trás, e caiu de joelho. O garoto tomando o controle, cravou as unhas no próprio rosto, suando frio. O controle havia voltado, mas estava por um fio.

— Eu consigo sentir ele... — Daiquiri arfou, olhando para os amigos machucados.

— Então continua lutando pelo controle! — implorou Marina, os olhos já cheios d'água.

— Não vai adiantar, Marina, escuta! — ele se levantou e tentar dar um passo, mas a perna falhou. — Ele quer o controle total para chegar à outra metade. Se eu continuar lutando, ele vai usar a magia dele pra matar todos vocês e passar por cima dos seus corpos.

— A gente dá um jeito, Daiquiri! Sempre demos! — João se ergueu com dificuldade.

— Não tem mais tempo! — Daiquiri virou-se para Edran, o velho tinha lágrimas nos olhos, sabia exatamente o que ele ia fazer.

— Não ouse, garoto... — rosnou Edran, a voz embargada.

— O senhor passou a vida toda protegendo meu pai de um fantasma, não faça isso comigo... Eu sei o que precisa ser feito! — Daiquiri olhou para Marina, João e Alexander. — Existe um jeito de impedir que ele mate vocês...

— Do que você tá falando? — Marina sentiu o pânico sufocá-la.

— Eu vou deixar ele assumir o controle...

— ISSO É SUICÍDIO! — Gritou João em desespero.

— É controle... — rebateu Daiquiri, a voz assustadoramente calma. — Se eu ceder voluntariamente, posso direcionar o primeiro impulso dele para longe daqui, eu vou empurrá-lo para as montanhas, mas vocês precisam correr!

Marina correu até ele e segurou seu rosto suado entre as mãos. — Você não sabe se vai conseguir voltar ao controle depois, não faz isso! Você não precisa morrer para provar que é um herói igual ao seu pai!

A frase foi uma facada, Daiquiri fechou os olhos, uma lágrima escorreu e se misturou com as veias escuras que latejavam em sua pele. — Eu não quero morrer, Marina, mas eu também não quero que vocês morram... Eu posso estar cometendo o mesmo erro que Ezekiel, mas dessa vez sou eu que estou escolhendo. — Daiquiri olhou para João, que instantaneamente entendeu, ele puxou Marina para trás, enquanto Daiquiri olhava para ela uma última vez. E então, soltou a resistência.

O impacto foi devastador, uma coluna de energia negra irrompeu de Daiquiri, explodindo o teto da fortaleza e pintando o céu de cinza, as paredes racharam, o chão cedeu. Do lado de fora, a grama escureceu e morreu em um piscar de olhos.

Quando a fumaça baixou, o corpo de Daiquiri estava de pé, flutuando a poucos centímetros do chão. Azoth abriu os olhos, completamente negros, agora o garoto havia sumido.

— Consumado está!

— Vem! Temos que ir! — João puxou Marina pelo braço.

Azoth virou-se para eles. — Nenhum de vós partirá!

Mas antes que a entidade atacasse, Alexander rugiu e soprou um vento congelante na criatura, não era um ataque fatal, era como um ataque suicida para ganhar tempo. Ele cravou a bota no chão e saltou, desferindo um golpe pesado.

A espada atingiu o braço de Daiquiri, rasgando o tecido, mas a pele pareceu feita de aço, Azoth mal piscou, com um movimento de costas de mão lançou uma onda de choque que quebrou as costelas de Alexander e o atirou para fora do castelo.

— Vão! — gritou Edran.

João não pensou duas vezes, viu que sua irmã não iria sair dali, acertou um golpe em sua nuca, desmaiando-a. Ele a lançou sobre os ombros e começou a correr para o meio da floresta.

Azoth não se importou em segui-los, ele fixou o olhar no único homem que não havia recuado, Edran.

— Você — A voz de Azoth ecoou pelas pedras. — Se conheceste Ezekiel, bem sabes que intentar deter-me te reduzirá ao pó da terra.

Mas Edran não puxou apenas a espada, ele a jogou de lado, fincando-a no chão. O ar ao redor do velho começou a vibrar. Seus olhos começaram a brilhar em um azul elétrico profundo, e as pedras sob seus pés começaram a levitar. A aura de um mago veterano, sobrevivente da guerra contra o Rei Demônio, explodiu na sala. Ele não era apenas um guardião de uma biblioteca, era um mestre arcano.

— Eu sabia que isso terminaria com alguém tentando salvar aquele garoto, por isso vim com eles até aqui — a voz de Edran ecoou com magia pura. — O seu erro, monstro, foi achar que nenhum de nós era capaz de protegê-lo de si mesmo.

Azoth semicerrou os olhos. — Feitiçaria de outrora... Quão risível.

Edran uniu as mãos e o chão sob Azoth implodiu. Correntes de pura luz arcana brotaram da terra, enrolando-se nos braços e nas pernas da entidade, Azoth rosnou, tentando dar um passo, mas os selos mágicos de Edran pareciam pesar toneladas.

O velho mago não parou, ele ergueu as mãos e as paredes desmoronadas da fortaleza voaram em direção a Azoth, esmagando-o em um casulo de pedra e magia, por um segundo, houve silêncio.

E então, uma luz negra vazou pelas frestas das pedras. Com um estrondo, a prisão arcana foi obliterada em poeira. Azoth saiu caminhando, ileso, rodeado de chamas escuras, olhando ao redor e notando que o velho homem havia desenhados pequenas runas mágicas pelos papéis de documentos, que ele havia anteriormente, espalhado pelo chão. Com um estalar de dedos, ele quebrou a proteção mágica de Edran, forçando o mago a recuar, sangrando pelo nariz.

— Empunhas tuas armas à feição dele. — Azoth zombou, caminhando lentamente na direção do velho. — Ezekiel igualmente cria que sacrifício era a própria vitória. Meus olhos viram Polaris tombar, viram Ezekiel derramar lágrimas na escuridão qual uma criança desamparada... Ele era irrisório! E vós não sois menos lastimáveis do que ele.

— Não ouse falar o nome dele novamente! — Edran limpou o sangue do queixo e fez o líquido levitar sobre suas mãos.

Edran puxou a última gota de sua força vital, seus braços brilharam intensamente, ele materializou uma lâmina de energia arcana e pura, de cor vermelha pelo seu sangue, avançando contra a criatura. A velocidade do velho era aterradora. Ele e Azoth colidiram no centro das ruínas, luz e escuridão se chocaram, rachando a própria estrutura do espaço ao redor.

Edran sabia que não podia matar um deus no corpo de um garoto, mas podia marcá-lo. Em uma finta brilhante, Edran deixou sua defesa aberta. Azoth viu a brecha, materializou uma lança negra e a cravou diretamente no peito do velho mago. O impacto levantou Edran do chão, fazendo seu sangue espirrar.

— Te peguei — Edran sorriu.

Ignorando a lança em seu peito, Edran usou a própria lâmina que o empalava para puxar-se para mais perto. Cara a cara com os olhos negros de Azoth. Com a mão esquerda brilhando como uma estrela em chamas, o mago cravou os dedos diretamente sobre a marca negra no braço de Daiquiri.

— CARCER LUCIS! — Gritou.

Uma explosão de magia incandescente marcou a pele de Azoth a ferro e fogo. A entidade soltou um urro de dor agoniante, recuando aos tropeços enquanto a magia de Edran criava uma restrição ao redor de seu poder. Não o pararia para sempre, mas o deixaria mais lento, custaria tempo, mas talvez fosse o tempo que o grupo precisavam.

Edran caiu de joelhos, ofegante, o sangue manchando as pedras. Seu trabalho estava feito, ele havia garantido uma chance. Azoth, furioso, ofegava, segurando o braço onde o selo mágico agora brilhava sob a pele, queimando a escuridão.

De repente, a raiva no rosto de Azoth sumiu, os olhos negros vacilaram e um vislumbre de azul retornou, era Daiquiri, o garoto assumiu o controle, olhando para o velho caído. Então lágrimas grossas começaram a escorrer pelos seus olhos.

— Edran... não... me perdoe...

Edran tombou para o lado, sorrindo fracamente para o garoto que vira crescer.

— Garoto... — os olhos de Edran perderam o brilho, o lendário mago, amigo leal de Ezekiel, deu seu último suspiro.

O grito que Daiquiri tentou dar foi abafado quando a escuridão retomou seus olhos. Azoth piscou, expulsando a consciência do garoto de volta para o fundo de sua mente. A fortaleza ao redor deles finalmente cedeu, desabando em uma nuvem colossal de poeira e escombros.

No meio das ruínas, a entidade ergueu o rosto para o céu cinzento. A essência dentro dele pulsava, irritada com o selo de Edran, mas ainda continuava poderosa. A outra metade nas montanhas o chamava, guiando como um farol. Não havia mais ninguém em seu caminho, apenas o selo de um velho morto e a teimosia do próprio garoto que servia de casca.

Dentro daquela prisão de carne, afundando no próprio desespero e vendo tudo através dos olhos que já não controlava, Daiquiri gritava em silêncio pela morte de Edran. Ele entregara o próprio corpo para salvar seus amigos, mas as mãos de Azoth já estavam sujas com o sangue de sua "família postiça".

Porém, através do luto e da dor, uma faísca acendeu na escuridão de sua mente, ele poderia até ter entregado a chave, mas quem controlava a porta, era ele.

Thoughts

  • largoECalcada

    A Marina ficou sem a despedida e foi levada desmaiada às costas do João. Aposto que acorda furiosa com o irmão antes de conseguir chorar o Edran.

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  • thiaguinho

    Edran, não...

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