Três reinos combinando que certas informações nunca mais deveriam circular me fez pensar em quanta história some assim, sem incêndio nenhum, só com gente concordando em não copiar. Aposto que o Yal vai encontrar do outro lado das montanhas uma versão da guerra que nenhum desses livros tem, e que a Aras já conhece.
Capítulo 11: Sozinho
Yal respirou lentamente antes de falar.
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Três reinos combinando que certas informações nunca mais deveriam circular me fez pensar em quanta história some assim, sem incêndio nenhum, só com gente concordando em não copiar. Aposto que o Yal vai encontrar do outro lado das montanhas uma versão da g
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Yal respirou lentamente antes de falar.
— Passei a noite inteira lendo tudo o que Hagar preservou sobre Profén. Consultei registros militares, relatos religiosos, diários de viajantes, historiadores, sacerdotes... qualquer pessoa que pudesse saber alguma coisa sobre os eterianos. — Ele fez uma breve pausa. — Descobri apenas que sabemos muito menos do que acreditávamos.
Alguns olhares se cruzaram ao redor da mesa. Yal apoiou uma das mãos sobre os mapas.
— Nossos livros descrevem batalhas, perdas, estratégias... mas quase nunca descrevem o inimigo. Não sabemos quantos eram. Não sabemos como viviam. Não sabemos como construíram suas cidades. Nem sequer sabemos por que a guerra realmente começou. — Seu olhar encontrou o de Orian. — É como se alguém tivesse arrancado metade da história.
O salão permaneceu em completo silêncio.
Até que um homem idoso, usando um pesado manto vermelho marcado pelo brasão dos Carinos, apoiou ambas as mãos sobre a mesa.
— Porque arrancaram.
Todos voltaram o olhar para ele.
Era o marechal supremo de Carina.
Os cabelos grisalhos haviam sido cortados rente à cabeça. Cicatrizes cruzavam-lhe o rosto como marcas de outra época.
Sua voz era firme e grossa.
— Depois de Profén, decidiu-se que certas informações jamais deveriam circular novamente.
Yal franziu a testa.
— Decidiu-se?
O velho assentiu.
— Os quatro reinos.
Orian pigarreou, voltando o olhar para o marechal carino.
— Acho que foram apenas três. — Sua voz permaneceu calma, embora seu semblante fosse uma carranca assustadora. — Não me recordo de Hagar participar desse conselho.
O marechal sustentou o olhar do imperador Orian durante alguns segundos.
Depois, inclinou levemente a cabeça.
— Tem razão. Hagar não participou. Quando essa decisão foi tomada, seu povo ainda governava apenas um reino. Não possuía assento entre os grandes impérios.
As palavras pairaram sobre a mesa.
Nenhum dos representantes sotnianos pareceu surpreso.
A imperatriz Ena apenas baixou os olhos por um instante, como alguém que acabara de ouvir uma confirmação para algo que sempre soubera.
Yal apertou discretamente os dedos contra a borda da mesa.
— Então alguém decidiu apagar parte da história... e ninguém achou que isso pudesse causar problemas no futuro?
Quem respondeu foi uma mulher de vestes azul-escuras, sentada do outro lado da mesa. Os fios prateados presos em uma longa trança denunciavam sua origem permian. Pequenos cristais de Éter adornavam as mangas de sua túnica.
Era a Arquimestre Lysandra, principal estudiosa do Império Permian e tia menos favorita de Yal.
— Na época, parecia a decisão mais sensata. — Ela retirou um antigo cilindro de metal da bolsa e o colocou sobre a mesa. — A guerra havia terminado havia poucos meses. Havia pânico em todos os reinos. Muitos acreditavam que estudar os eterianos significava correr o risco de repetir os mesmos erros.
O marechal carino voltou a falar.
— Os sobreviventes contavam histórias diferentes entre si. Descreviam monstros. Juravam ter visto criaturas divinas capazes de curar feridos. Havia soldados afirmando que os eterianos choravam pelos próprios mortos. — Ele respirou fundo. — Aquilo confundia as pessoas.
— Então resolveram destruir os relatos? — perguntou Enaira.
— Preservamos apenas o necessário para impedir que alguém tentasse libertá-los.
A general cruzou os braços.
— Não respondeu minha pergunta.
O velho permaneceu calado. Aquela seria sua única resposta.
Yal desviou o olhar para os documentos espalhados sobre a mesa.
— Ainda assim... alguém continuou guardando esse conhecimento.
A Arquimestre assentiu.
— Sim.
Ela desenrolou lentamente um mapa muito mais antigo que os demais.
O papel amarelado ocupou quase toda a mesa.
Não mostrava apenas os quatro reinos.
Muito além das fronteiras conhecidas existia uma vasta região cercada por montanhas negras. No centro dela, uma enorme área havia sido riscada com tinta escura.
Sobre ela, um único nome.
Eferin.
Pela primeira vez desde o início da reunião, até Orian pareceu perder a compostura.
— Pensei que todas as cópias tivessem sido destruídas...
— Quase todas — respondeu Lysandra.
Yal aproximou-se alguns passos.
Seus olhos percorreram aquela terra proibida.
Era grande.
Muito maior do que imaginara.
Ele percebeu uma coisa.
Aras não havia sido levada para um esconderijo. Ela havia sido levada... para um país inteiro. Um mundo inteiro que todos fingiam não existir.
— Isso é impossível! — A mão dele bateu contra a mesa, fazendo os mapas estremecerem. — Era responsabilidade dos Carinos vigiar a prisão! Séculos de reis confiaram nisso! Como podem me dizer agora que existe um território inteiro sob domínio eteriano?
O marechal não se abalou com a explosão.
— Porque, durante séculos... ela permaneceu uma prisão. Os Carinos cumpriram seu dever. Patrulhamos as fronteiras desde o fim de Profén. Fortalezas foram erguidas. Ordens de vigilância jamais foram revogadas. Durante centenas de anos, nenhum eteriano ultrapassou as montanhas.
Lysandra assentiu discretamente.
— Os registros confirmam isso.
— Então o que mudou? — perguntou Yal, com a voz ainda carregada de indignação.
O marechal respirou fundo.
Foi a Arquimestre quem respondeu.
— Há dezoito anos... — Os olhos de todos se voltaram para ela. — Nossos observatórios começaram a registrar pequenas anomalias de Éter ao redor das montanhas. No início eram quase imperceptíveis. Fendas instáveis. Oscilações de energia. Fenômenos que jamais haviam sido registrados desde o fim da guerra. — Ela fez uma breve pausa. — Ano após ano, essas ocorrências aumentaram.
Yal estreitou os olhos.
— Há dezoito anos...
Lysandra assentiu lentamente.
— Coincidiram com o nascimento da princesa Aras.
Antes que qualquer outra palavra fosse dita, uma cadeira arrastou-se bruscamente pelo chão.
A imperatriz Ena levantou-se.
A luz suave refletida por sua pele parecia mais fria do que nunca.
Seu olhar atravessou a mesa até encontrar o da Arquimestre.
— Escolha muito bem as próximas palavras. — Ena apoiou ambas as mãos sobre a mesa. — Minha filha nasceu de carne e sangue, como qualquer criança deste mundo. Se os Carinos perderam o controle da própria prisão... — Ela encarou o marechal. — Foi por incompetência deles. Não ousem transformar minha caçula na desculpa para um fracasso que pertence aos seus impérios.
O marechal sustentou seu olhar sem recuar.
— Ninguém está culpando a princesa.
— Estão fazendo exatamente isso. — A voz de Ena tornou-se cortante, e o sorriso pequeno em seu rosto era uma ameaça clara. — "Coincidiu com o nascimento de Aras." "As anomalias começaram quando ela nasceu." Digam mais algumas frases e, em poucos anos, os livros dirão que minha filha libertou os eterianos ainda no berço!
Nem mesmo seu marido Orian a interrompeu. Conhecendo a sua imperatriz, ele sabia que ela poderia ser incrivelmente argumentativa.
Lysandra abaixou ligeiramente a cabeça.
— Vossa Majestade... eu não disse que a princesa causou as anomalias.
— Mas sabia perfeitamente qual conclusão seria tirada.
— Conheço minha cunhada Lysandra há muitos anos. — O imperador Arlen finalmente ergueu a voz. — Ela pode ser muitas coisas, mas não é leviana. Se disse que os acontecimentos coincidiram, foi porque os registros apontam isso. Coincidência, entretanto, não é prova.
A imperatriz Ena sustentou o olhar de Arlen por alguns instantes.
Depois, lentamente, voltou a se sentar.
— Deixemos as especulações de lado. — A voz de Orian voltou a assumir o tom firme de um soberano. — A questão agora é outra. Sabemos onde minha filha provavelmente está. — Seu olhar recaiu sobre o antigo mapa. — Quero saber como chegamos até ela.
Ninguém respondeu.
Os segundos passaram.
Até que o marechal carino respirou profundamente.
— Não chegamos.
Yal ergueu os olhos.
— COMO?!
— Se acalme. — Com um balançar de mão, Orian fez o marechal começar a explicar.
— Eferin continua sendo uma prisão. Apenas... deixou de ser uma prisão subterrânea. — O velho aproximou um dedo das montanhas desenhadas no mapa. — Durante séculos enviamos patrulhas às fronteiras. Depois, pequenos grupos de reconhecimento. Mais tarde, expedições militares. — Seu dedo percorreu lentamente uma das passagens. — Nenhuma conseguiu atravessar todo o território.
Lysandra completou:
— As poucas que retornaram jamais conseguiram descrever o caminho de volta. Alguns soldados afirmavam que as montanhas mudavam de lugar e que caminharam durante dias para descobrir que haviam retornado ao mesmo ponto.
— E os demais? — perguntou Yal.
— Morreram.
Enaira estreitou os olhos.
— Quantas expedições?
— Mais do que os registros oficiais admitem.
A general soltou uma breve risada, sem qualquer humor.
— Então vocês esconderam isso também.
O marechal não respondeu.
Arlen cruzou os braços.
— Em outras palavras... nenhum exército conhece Eferin.
— Exatamente — confirmou Lysandra. — Enviar milhares de soldados significaria condená-los à morte sem sequer encontrar o inimigo.
Orian fechou lentamente os olhos. Parecia cansado, muito cansado.
— Então... não temos um plano.
Ninguém respondeu.
Os representantes dos quatro povos permaneceram imóveis.
Generais.
Imperadores.
Estudiosos.
Todos em silêncio.
Yal olhou para cada rosto ao redor da mesa.
Viu medo.
Dúvida.
Hesitação.
Por fim, voltou os olhos para o mapa.
Para o único lugar onde Aras podia estar.
Respirou fundo.
Então falou.
— Existe uma entrada?
Lysandra assentiu.
— Vocês sabem onde ela fica.
— Sabemos.
— E ninguém pretende atravessá-la?
O marechal respondeu sem desviar o olhar.
— Não enquanto não soubermos o que existe do outro lado.
Yal permaneceu calado por um instante.
Depois, apoiou a mão sobre o mapa.
— Então eu vou.
A frase caiu sobre o salão como o golpe de uma espada.
— Não. — A resposta de Arlen foi imediata.
— Está fora de cogitação — acrescentou Orian.
— Yal... — murmurou Ena.
Enaira deu um passo à frente.
— Você enlouqueceu?
Ele balançou lentamente a cabeça.
— Não. — Seu olhar percorreu toda a mesa. — Vocês acabaram de me dizer que conhecem o caminho, mas têm medo de segui-lo. — Silêncio. — Eu não.
Arlen deu um passo à frente.
— Você é o herdeiro dos Leriondis. O povo de Hagar já o vê como seu rei.
Yal encontrou os olhos do pai.
— O reino nunca foi meu. Hagar já escolheu sua rainha.
Outra vez, ninguém encontrou palavras.
Yal respirou fundo.
Sua voz saiu firme.
— Não estou pedindo um exército. Não estou pedindo autorização. — Ele encarou um a um os líderes reunidos. — Estou apenas avisando. — Sua mão fechou-se sobre o punho da espada. — Se nenhum império terá coragem de buscá-la... — Ele voltou os olhos para Eferin. — ...eu a trarei de volta. Sozinho.
Ninguém respondeu.
Nem o imperador dos Carinos.
Nem a Arquimestre dos Permians.
Nem Arlen.
Nem Orian.
Pela primeira vez naquela manhã, o maior conselho do continente permanecia completamente sem resposta diante de um único homem.
Thoughts
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PermalinkO marechal dizendo que guardaram só o necessário pra ninguém tentar libertá-los é a frase mais franca daquela mesa, e a mais assustadora. Quem decide o que é necessário é sempre quem ganhou. O soldado que jurou ter visto eteriano chorando pelos próprios mortos deve ter sido o primeiro a sumir dos registros. Aposto que esse relato volta, e na boca de alguém que não devia saber dele.
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PermalinkTrês reinos combinando que certas informações nunca mais deveriam circular me fez pensar em quanta história some assim, sem incêndio nenhum, só com gente concordando em não copiar. Aposto que o Yal vai encontrar do outro lado das montanhas uma versão da guerra que nenhum desses livros tem, e que a Aras já conhece.
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PermalinkPois é, no capítulo passado faltava o inimigo no arquivo. Agora sabemos que alguém sentou numa mesa e decidiu tirar. Três reinos, uma borracha, e séculos depois todo mundo espantado.
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