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Capítulo 20: O que ela deixou ir

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Amme caminhou pelo salão.
Cada passo em direção a Aras parecia mais pesado.

Desde que havia sequestrado aquela humana... ela sabia que iria dividi-la com o mundo. Mas...

Aras percebeu sua aproximação e sorriu.

— Amme.

Aquela voz.
Sempre tão gentil.

Amme parou diante dela.

— Eu tenho uma coisa para te contar.

Aras inclinou a cabeça.

— Aconteceu alguma coisa?

Amme segurou as próprias mãos para impedir que tremessem.

— Talvez.

A princesa ficou preocupada.

— Amme?

Ela respirou fundo.

— Tem alguém aqui que pode mudar sua vida.

Aras piscou.

— Minha vida?

Amme assentiu.

— Sim.

Ela olhou para Oden por alguns segundos. Depois voltou para Aras.

— E eu acho que você merece conhecer essa pessoa.

Aras observou a expressão dela.
Havia algo diferente.
Uma tristeza escondida.

Então, sem entender completamente, segurou a mão de Amme.

— Se você acredita nisso...

Amme olhou para os dedos entrelaçados.

Aras sorriu.

— Então eu vou com você. Até o fim do mundo, se precisar, eu vou ficar e ir com você, Am.

Amme congelou.

Por um instante, todo o barulho do salão pareceu desaparecer.

A música, as vozes, as risadas e até mesmo as luzes.

Tudo ficou distante, e aquelas duas vozes familiares falando aquela maldita frase embaralharam sua linha de pensamentos.

“É só uma brincadeira. Nós já voltamos.”

Amme chacoalhou a cabeça.

Não, ela não iria voltar para aquilo.

Em sua frente estava ela.

Era a Aras.

Sua salvadora, sua esperança!

Ela era... aquela que, em um único dia, havia lembrado Eferin de quem eles eram.

Amme fechou os olhos por um instante.

Am sorriu. Dessa vez, não era o sorriso animado de sempre.

Era pequeno, triste. Resignado.

Porque naquele momento, sua linha voltou aos eixos:

Aras era boa demais para ser mantida apenas para ela.

E Oden...

Oden precisava daquela luz.

Talvez estivesse procurando por ela sem saber.

Amme sentiu a garganta apertar.

Ela queria dizer para Aras ficar.
Queria ser a primeira pessoa que ela procurava quando tinha medo.
Queria continuar ouvindo aquela voz dizendo seu nome.

Amme apertou a mão dela.

Por um segundo, quase realmente cedeu aos seus desejos.

Quase disse que Aras não precisava conhecer ninguém. Que Eteria podia esperar. Que aquela noite podia pertencer apenas às duas.

Mas então olhou para o salão.

Para todos aqueles eterianos que voltaram a sorrir.

E lembrou.

Uma luz não existe para iluminar apenas uma pessoa.

Ela existe para alcançar todos que estão no escuro.

Amme sorriu, mesmo sentindo os olhos arderem.

— Então, por favor, venha comigo, Alteza.

Entrelaçaram os braços, e Amme a guiou pelo salão.

Oden estava de costas para elas.

Por um instante, Amme observou o irmão.

O mesmo irmão que sempre carregava o peso de seu povo nos ombros.

Pela primeira vez em muito tempo, ele parecia apenas um garoto.

Apenas esperando.

Então ele se virou.

Os olhos completamente pretos, assim como o cabelo, que estava em um rabo de cavalo embutido, brilharam com as inesperadas estrelas que surgiram no céu.

Amme pôde ver claramente a energia de seu irmão emanar muito forte enquanto ele encarava Aras.

E a princesa, por sua vez, parecia ter levado um solavanco ao avistar Oden.

Ela parou em frente a ele.

Desentrelaçou seu braço com o de Aras.

Amme olhou para os dois em silêncio.

Não precisava ser uma grande observadora para entender.

Oden havia esquecido de piscar.

Aras parecia ter esquecido de respirar.

Ela soltou um suspiro.

Claro.

É claro que seria assim.

As duas pessoas que ela mais amava naquele mundo estavam se encontrando.

— Oden, essa é a senhorita A. Senhorita A, esse é o Oden.

Oden permaneceu imóvel.

Não porque não queria falar.

Mas porque, mesmo com muitos séculos, não encontrou palavras novas ou antigas para nomear o sentimento em seu peito.

Aras sentiu a mesma coisa.

Era estranho.

Ela tinha conhecido aquele lugar há poucas horas. Tinha sido sequestrada. Tinha acordado em uma terra que deveria temer.

Mas, olhando para aquele homem...

Ela não sentia medo.

Sentia como se tivesse encontrado uma parte de uma história que ainda não conhecia.

Amme observou os dois e quase sorriu.

Quase.

Então Oden finalmente conseguiu falar:

— Senhorita A...

Aras inclinou a cabeça.

— Sim?

Ele parecia procurar a forma certa de dizer aquilo.

— Eu não sei explicar, mas sinto que deveria ter encontrado você antes.

Aras ficou em silêncio.

Naquela noite, Amme sentiu que talvez estivesse certa.

Algumas coisas realmente foram simplesmente destinadas a acontecer.

— Acho que o salão está um pouco cheio demais para uma primeira conversa. O jardim central é mais tranquilo — Amme sugeriu, dando um passo para trás, se afastando.

Enquanto dava as costas, ainda pôde ouvir seu irmão Oden dizer:

— Me agraciaria com sua companhia, senhorita A?

— Eu realmente adoro a natureza. Ficarei muito satisfeita em lhe acompanhar.

Aras segurou a mão de Amme antes que ela se afastasse.

— Você vem depois?

Amme sentiu o coração apertar.

— Claro, eu irei mais tarde. Eu prometo... A-amiga...

Mas Aras não soltou sua mão imediatamente.

Ela olhou para Amme por alguns segundos.

Aquele sorriso era bonito.

Mas não era o mesmo de antes.

— Amme... — Aras cochichou baixo.

A eteriana piscou.

— Sim?

Aras hesitou.

— Você está triste?

Por um instante, Amme esqueceu como respirar.

Porque era exatamente isso que ela tentava esconder.

Ela poderia enganar Oden. Poderia enganar Pentre. Poderia enganar todo Eferin.

Mas, aparentemente, não aquela humana.

— Não estou.

Aras inclinou a cabeça.

— Você está.

Amme soltou uma pequena risada.

— Você é assustadoramente observadora para alguém que acabou de chegar.

— E você é assustadoramente ruim em fingir que está bem.

Isso fez Amme rir de verdade.

Pouco.

Mas de verdade.

Ela apertou a mão de Aras.

— Eu só estou feliz.

— Então por que parece que está se despedindo?

A pergunta acertou em cheio uma ferida mal coberta.

Em resposta, Amme sorriu abertamente.

— Sei que está nervosa, mas Oden é confiável. Não é?

— Não precisa se preocupar, senhorita. Somos todos eterianos, afinal.

Aras não entendeu completamente.

Mas confiou.

Oden ofereceu sua mão, e Aras a segurou, soltando sua outra mão da de Amme.

— Eu volto para você depois.

Amme fechou os olhos por um segundo.

— Espero que vocês terminem a noite felizes...

A voz falhou enquanto via Aras e Oden andarem juntos para longe de si.

— Para... sempre.

Amme permaneceu parada.

Por alguns segundos, esqueceu que era uma princesa.

Esqueceu que era uma guerreira.

Esqueceu até que era uma eteriana.

Ela voltou a ser apenas um ser vendo dois seres importantes para ela partirem.

A mão que segurava a de Aras ainda estava levantada, como se seu corpo não tivesse entendido que ela já tinha ido.

Ela fechou os dedos lentamente.

O calor ainda estava ali.

— Amme?

Ela ouviu uma voz atrás de si.

Pentre.

A eteriana virou com o sorriso de sempre.

— O quê?

Pentre observou o rosto dela por alguns segundos.

— Você está chorando?

Amme levou a mão ao rosto rapidamente.

— Não.

— Amme...

— É luz do salão.

— Amme...

Ela ficou em silêncio e então riu.

Uma risada pequena.

— Eu... eu...

As lágrimas se misturaram com a risada dolorosa.

Pentre suspirou, aproximando-se.

— Você fez algo sem pensar, outra vez?

Amme olhou para Oden e Aras no jardim.

— Não.

Ela sorriu, retirando a máscara de seu rosto e limpando suas lágrimas de modo desesperado.

— Eu realmente pensei antes de fazer, por isso está doendo tanto...

Pentre não disse nada.

Não tinha uma resposta inteligente, uma piada ou uma provocação.

Porque ele entendia.

Ele passou toda sua existência sendo racional e fazendo as escolhas certas.

Isso incluía, inclusive, seus sentimentos por ela.

Pentre a abraçou.

Não como um soldado protegendo uma princesa.

Não como um amigo tentando consolar outro amigo.

Mas como alguém que passou séculos vendo Amme entregar pedaços de si mesma para salvar os outros.

Ele levantou a capa sobre os ombros dela e a tirou do próprio baile.

Porque naquela noite, depois de muito tempo, Amme precisava que alguém cuidasse dela.

E Pentre jamais falharia ou a abandonaria.

Thoughts

  • versodemadrugada

    A mão da Amme continuando levantada depois que a Aras soltou, como se o corpo ainda não tivesse entendido, me fez parar um pouco. Pra mim o capítulo inteiro mora ali: ela abre mão das duas pessoas que mais ama e só o braço demora a obedecer.

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  • TintaEAvesso

    A Amme jurando que vai pro jardim mais tarde, e o Pentre tirando ela do baile antes disso. Aposto que a Aras fica lá esperando e é ela a primeira a sacar que aquela promessa ficou pra trás.

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