As portas terminaram de se abrir com um rangido pesado.
O ar frio das masmorras subiu pelos corredores como um sopro antigo.
Oden foi o primeiro a atravessá-las.
— Onde ela está?
Um dos guardas apontou, hesitante, para um corredor iluminado pelas velas verdes.
— No antigo setor das celas da Luz, meu senhor.
Oden voltou a caminhar.
Pentre acompanhava seus passos sem dizer uma palavra. Yria também os seguia, embora mantivesse certa distância.
O silêncio só era interrompido pelo som das botas sobre a pedra úmida.
Até que...
Uma risada, baixa.
Depois outra.
Oden parou.
Pentre também.
Os três trocaram um olhar.
— ...Isso foi... — começou Pentre.
— A Amme. — respondeu Oden.
Houve outra risada.
Dessa vez mais clara e bem mais feminina.
Não era Amme, nem perto dela.
Os olhos prateados de Oden estreitaram-se.
— Tem outro alguém.
Os três aceleraram o passo.
Dobram um corredor.
Depois outro.
Até chegarem diante de uma cela parcialmente aberta.
Amme estava sentada no chão, de pernas cruzadas.
Segurava uma tigela metálica vazia enquanto conversava animadamente com alguém escondido atrás da parede da cela.
— ...eu continuo dizendo que aquilo foi engraçado.
— Não foi!
— Foi um pouquinho.
— Não foi.
— Você quase riu!
— Quase não é rir...
— Quase, vale.— Amme abriu um sorriso enorme.— De qualquer maneira, eu estava vencendo.
— Você inventou uma competição que só existia na sua cabeça.
— Mesmo assim eu estava vencendo.
Oden fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
— ...Amme.
A eteriana deu um pequeno pulo.
Virou-se imediatamente.
— Oden! — Levantou tão rápido que quase deixou a tigela cair. — Você chegou!
Ela caminhou até ele como se nada tivesse acontecido.
Oden permaneceu imóvel.
— Você cancelou uma operação militar.
— Sim, e eu tive um bom motivo.
— sumiu sem autorização.
— qual é? Foram só alguns messes, não se equipara aquela vez que eu fiquei tipo um século.
— Invadiu um castelo humano.
— os outros eterianos também.
— ELES ESTAVAM SOBRE MINHA ORDEM, E NENHUM SEQUESTRO UMA HUMANA!
Amme sorriu sem graça.
— Tecnicamente...
— Não termine essa frase!
Ela fechou a boca imediatamente.
Pentre coçou a nuca.
— Achei prudente você não terminar mesmo.
Amme lançou-lhe um olhar de traição.
— Você devia estar do meu lado.
— Eu estou.
— Não parece.
— Estou do seu lado... só não estou do lado das suas decisões.
Ela pareceu refletir por alguns segundos.
— Justo, droga odeio isso.
Oden massageou a testa.
— Amme...— sua voz perdeu completamente a irritação. — O que passou pela sua cabeça?
Ela piscou algumas vezes.
— Esperança.— Amme abaixou um pouco os olhos. — Eu a encontrei, ela existe irmão. — Amme segurou a mão de Oden com uma animação quase infantil.— E você não vai acreditar, ela me ouviu.
Oden suspirou.
— Sei.
— Só preciso de uma chance.— Ele ergueu os olhos para o de sua irmã.— Uma conversa.
— Amme...
— Apenas uma. Você conversa com ela.
— Ela é uma humana, tambem a princesa de um reino que acabamos de atacar.
Amme respirou fundo.
— Você sempre me disse que líderes devem ouvir antes de decidir.— Ele não respondeu. — Então ouça.
— ...
— Se depois dessa conversa você concluir que estou completamente louca...— Ela sorriu de leve. — ...eu prometo aceitar qualquer punição.
Pentre ergueu discretamente as sobrancelhas.
Até Yria pareceu surpresa.
Oden conhecia a irmã havia séculos.
Sabia exatamente o peso daquela promessa.
Ela nunca oferecia algo assim.
— E se eu disser não?
Amme demorou alguns segundos para responder.
Quando falou, sua voz saiu baixa.
— Então eu vou obedecer.
Aquilo, mais do que qualquer outra coisa, convenceu Oden de que ela estava falando sério.
Ele permaneceu calado por um longo momento.
Depois olhou para a cela.
Não conseguiu enxergar quem estava lá dentro.Apenas uma sombra imóvel.
Voltou a encarar Amme.
— Uma conversa?
Os olhos dela se iluminaram.
— Sim!
— Apenas uma?
Ela assentiu com tanta força que alguns fios de cabelo escaparam atrás das orelhas.
— Sem armadilhas?
— Prometo.
— Sem manipulações?
— Você estará falando com um ser humano, não tem como ela ser mais manipuladora que a yria.— Amme piscou, ao perceber os três a encarando.
— Quero dizer... eu vou pedir para ela não manipular você.
Pentre levou a mão ao rosto.
— Isso não ajudou muito.
— Não ajudou?
— Nem um pouco.
Ela franziu a testa, genuinamente confusa.
Oden soltou um longo suspiro.
— Por que ela não apareceu? — Pendre perguntou, tentado quebrar o clima.
Amme olhou discretamente para a cela.
— Porque eu prendi ela.
— Prendeu?
— Ela parecia assustada.
— Compreensível — murmurou Pentre.
Oden arqueou uma sobrancelha.
— Então você decidiu que a melhor forma de acalmá-la era... mantê-la presa?
Amme pensou por um instante.
— Quando você fala desse jeito, realmente parece ruim.
— Porque é!
Ela abaixou a cabeça.
— É...
Pentre suspirou.
— Pelo menos estamos chegando perto de um progresso.
— Não é? Estou aprendendo!
— Bem devagar, como sempre.
Amme ignorou o comentário de Yria.
Respirou fundo, como quem finalmente criava coragem para dizer o que realmente queria.
— Oden...
— Hum?
Ela entrelaçou os dedos atrás das costas.Um gesto antigo, sempre fazia aquilo quando estava nervosa.
— Amanhã é meu aniversário.
Pentre sorriu de lado.
— Verdade...
Oden assentiu.
— Eu lembro.
O rosto de Amme iluminou-se por um breve instante.
— Vai ter um baile.
— como em todo milênio.
— E... eu queria fazer um pedido.
Oden estreitou os olhos.
— Estou ouvindo.
Ela respirou profundamente.
— Eu quero que vocês dois conversem durante a festa.
Silêncio.
Nem mesmo as chamas verdes pareciam se mover.
Pentre piscou.
Yria cruzou os braços.
Oden apenas encarava a irmã.
— Você quer levar a princesa humana...
— Sim.
— ...para um baile...
— Sim.
— ...cheio de eterianos.
— Sim.
— E colocá-la para conversar comigo.
Amme sorriu.
— Exatamente!
Oden fechou os olhos.
— Amme...
— Espera, ainda não terminei! — Ela ergueu um dedo. — Vocês não vão saber quem o outro é.
Ele abriu um dos olhos.
— Como?
— Eu vou preparar tudo.— Ela começou a gesticular com entusiasmo. — Vou arrumar a Aras. Ela vai usar roupas eterianas, uma máscara... você também vai estar mascarado por causa da cerimônia. Todo mundo usa máscaras na primeira dança do baile!
Pentre inclinou a cabeça.
— tem coerência.
Amme apontou para ele imediatamente.
— Viu?
— Eu disse "tem coerência". Não disse que é uma boa idéia.
— Já é um começo.—Ela voltou-se para Oden. — Se ela entrar naquela sala como humana, você vai enxergar uma inimiga. Se você entrar como rei eteriano, ela vai enxergar um conquistador. Quero que, por uma única noite, vocês sejam apenas iguais.
— vou descobrir quem ela é em cinco minutos.
— Não vai.
— está colocando seu povo em perigo.
— Não estou.
— Como tem tanta certeza?
Amme abriu um sorriso cheio de confiança.
— Porque ela e boa, e estaremos em maior número. — A resposta fez Oden permanecer em silêncio. Ela continuou.
— E você também não sabe como ela é.
Yria deu um passo à frente.
— Isso é completamente irresponsável.
Amme olhou para ela.
— É meu baile de aniversário.
— É uma prisioneira de guerra!
— Justamente por isso ela merece passar algumas horas sem correntes.
Yria pareceu indignada.
— Você pretende simplesmente soltá-la?
— Não.—Amme balançou a cabeça. — Eu vou acompanhá-la o tempo todo.—
Depois olhou novamente para Oden.
Dessa vez, sem o entusiasmo exagerado. — Você está deixando a guerra decidir quem você é, por favor deixe que essa conversa traga luz ao nosso povo... por mim é por você irmão.
Pentre observou Oden atentamente.
Yria aguardava a resposta com os braços cruzados.
E Amme apenas esperava, apertando as próprias mãos, como se toda a paz de Etérea dependesse daquela única decisão.
— Sua fé inabalável sempre ganha das minhas cicatrizes. Que seja como deseja irmã, a leve para um quarto da zona leste. Essas masmorras não são boas para suas feridas.
Oden virou as costas, sendo seguido por yria desacreditada é Pentre que andava admirando Amme dar pulos e rodopios.
— Prepare a guarda discretamente amigo. — Oden susurou.
— Não confia nela?— yria questionou venenosamente.
— Confio nela. Justamente por isso que estou preocupado.