A consciência voltou devagar.
Primeiro veio o frio.
Depois vieram os sons.
Pingos. Correntes arrastando ao longe. Respirações pesadas.
Os olhos de Aras se abriram lentamente.
O teto acima dela era alto demais para uma prisão comum. Rochas negras formavam arcos naturais cobertos por marcas prateadas que pulsavam em intervalos lentos, como veias sob pele morta.
O ar cheirava a ferrugem, terra molhada e hortelã.
Ela tentou se mover.
Os pulsos estavam presos acima da cabeça por grilhões escuros presos à parede de pedra. O vestido branco do casamento ainda cobria seu corpo, embora estivesse rasgado, endurecido de sangue seco e poeira.
Por um instante, ela apenas observou o ambiente.
Grades tortas. Velas verdes queimando sem fumaça. Silhuetas distantes atrás de outras celas.
Passos ecoaram.
A dama de companhia surgiu da escuridão.
Agora limpa do sangue.
Os cabelos castanhos estavam curtos, presos para trás, revelando um rosto jovem demais para carregar olhos tão antigos. O vestido havia sido trocado por roupas escuras e simples.
Ela carregava uma bandeja metálica nas mãos.
Quando viu Aras desperta, sorriu.
Não aquele sorriso grotesco do corredor.
Esse parecia genuinamente feliz.
— Você acordou.
Aras permaneceu imóvel.
A mulher aproximou-se devagar, como alguém tentando não assustar um animal ferido.
— Não tente quebrar as correntes. Elas foram feitas com fragmentos da Luz.
A princesa finalmente falou:
— Onde estou?
A dama inclinou levemente a cabeça.
— Em casa.
Aras sentiu o estômago revirar.
A mulher colocou a bandeja no chão diante da cela. Água. Frutas. Um pequeno recipiente de metal contendo algo parecido com sopa.
— Você foi sequestrada.
— Percebi.
A dama soltou uma risada baixa.
— Continua igual, alteza.
Ela sentou-se lentamente diante das grades. Os olhos castanhos percorreram o rosto de Aras.
— Etérea era um lugar inexplicável no universo... — começou ela, quase em um sussurro.
A voz ecoou pelas pedras antigas enquanto falava sobre a luz no centro do planeta. Sobre criaturas pacíficas. Sobre uma terra sem fome, dor ou guerra.
E então vieram os humanos.
Enquanto a dama falava, sombras pareciam se mover pelas paredes da prisão.
Aras ouviu em silêncio.
A história continuou: a invasão, a escravidão, a guerra chamada Profén, a corrupção dos eterianos, a prisão construída ao redor da própria luz roubada.
A cada palavra, a expressão da dama se tornava mais estranha.
— Os humanos tomaram Etérea para si... E chamaram aquilo de civilização. — Os dedos dela apertaram o próprio vestido. — Trouxeram hierarquias. Pecados. Fome. Crueldade. E acreditavam serem superiores.
Aras sustentou seu olhar.
— Do que se trata tudo isso?
A mulher sorriu de novo.
Aras franziu levemente a testa.
A dama ignorou solenemente.
— Muito tempo se passou... — murmurou. — Eu era apenas uma criança quando você apareceu na prisão.
A princesa engoliu seco.
— Você atravessava os corredores sem que os guardas a vissem. — A voz da dama suavizou. — Nunca descobri como fazia aquilo.
Algo naquela frase atingiu um lugar vazio dentro dela.
A dama se aproximou mais das grades.
Os olhos brilhavam agora.
— Você se lembra?
Aras não respondeu.
A mulher ergueu lentamente a mão, quase tocando seu rosto entre as barras de ferro.
Os dedos tremiam levemente.
— Você me salvou... Me mostrou uma saída daquele lugar. Pelas rachaduras... eu consegui tirar alguns dos meus.
Aras continuou encarando-a sem expressão aparente, embora algo dentro dela estivesse começando a se mover de maneira desconfortável.
Não uma lembrança completa.
Fragmentos.
Pedra escura. Mãos pequenas segurando barras. Uma voz infantil perguntando seu nome.
Dor atravessou sua cabeça imediatamente.
Aras fechou os olhos por um segundo.
Quando tornou a abri-los, a dama estava observando-a com expectativa quase desesperada.
— Você lembra... — sussurrou ela.
— Não.
A resposta saiu rápida.
A mulher abaixou lentamente a mão.
Pela primeira vez desde que entrara na cela, parte daquela felicidade desapareceu de seu rosto.
As velas verdes estremeceram ao redor delas.
Então a dama respirou fundo, como alguém tentando reorganizar os próprios pensamentos.
— Meu nome é Amme. E... — ela hesitou. — eu sinto muito.
— Pelo sequestro? — perguntou seca.
A eteriana sustentou seu olhar.
— Por tudo. Pelo castelo. Pelas mortes. — Os olhos castanhos desceram brevemente para as próprias mãos. — Eu não queria que aquilo acontecesse daquele jeito.
Aras soltou uma respiração curta.
— Ainda assim aconteceu.
Amme assentiu devagar.
— Era o único jeito. — A eteriana voltou a erguer os olhos. — Meu irmão lidera os nossos. — Sua expressão endureceu levemente. — Ele acredita que não existe coexistência possível entre humanos e eterianos.
— E você acredita?
— Isso não importa. — Ela desviou o olhar para as sombras da prisão. — Ele quer retomar Etérea nação por nação. Reino por reino. — Seus dedos apertaram o tecido escuro das roupas. — Para ele, a guerra nunca terminou.
Aras observou atentamente a mudança em sua voz.
— Seu irmão ordenou o ataque ao castelo?
— Sim.
— E meu sequestro?
Amme demorou um instante para responder.
— Não.
Aquilo fez Aras erguer os olhos imediatamente.
A eteriana percebeu.
— Ele queria mortos. Território. — A voz dela ficou amarga. — Você foi ideia minha. — Amme aproximou-se mais das grades. — Eu precisava encontrar você antes dele.
— Por quê?
Os olhos de ambas se fitaram.
— Quando você apareceu naquela prisão anos atrás... tudo mudou. — A voz dela suavizou novamente. — Você era humana. Pequena. Tão frágil. Mesmo assim, atravessava os corredores sem que ninguém percebesse.
Aras sentiu outro choque atravessar sua mente. Ela puxou as correntes involuntariamente. Amme se levantou imediatamente.
— Altez—
— Não me chame assim!
A eteriana congelou.
Por um instante, o silêncio entre as duas pareceu quase triste.
Então Amme abaixou lentamente a cabeça.
— Certo.
Os olhos de Aras estreitaram-se.
— O que exatamente você acha que eu sou?
Amme ergueu o rosto outra vez.
— Eu não acredito em nada, eu sei que você é nossa salvadora!