Sua mente acabou sendo puxada à realidade quando três batidas sutis foram dadas na porta. Uma de suas novas damas de companhia — aquela a qual Aras desconfiava ter encontrado suas cartas íntimas — questionou quem era.
Do outro lado, um guarda falou com certa resignação:
— Alteza... o príncipe Yal pede permissão para falar com a senhora. A sós.
O silêncio que se seguiu não foi longo.
Aras não respondeu de imediato, pois voltou outra vez ao seu mundo interno.
Yal.
Não era o nome que seu coração queria ouvir — não que ele quisesse algo, de qualquer forma. Ainda assim, havia uma pontada estranha.
Muito provavelmente por ser ele.
O homem com quem se casaria em poucas horas.
O homem que conhecia seu rosto em detalhes.
— Pode entrar — disse a dama, por fim.
Sua voz saiu estável, e logo todas as damas foram em fila até o lado da porta. A porta foi aberta com cuidado, como se o próprio ato de atravessá-la exigisse respeito. Yal entrou sem pressa, e as damas de companhia, com uma falsa confiança, saíram uma por uma, com a dama nova fechando-a atrás de si com um movimento controlado.
E então, pela primeira vez em anos, ficaram sozinhos.
Ele estava... exatamente como haviam descrito.
Alto. Ombros largos. A postura firme de quem foi treinado para comandar. Os cabelos loiros caíam soltos até os ombros, levemente desalinhados, como se ele tivesse passado as mãos por eles muitas vezes naquele dia.
Os olhos.
Verdes.
Algo vivo — algo que Aras poderia usar como inspiração para centenas de poesias.
Qualquer outra mulher provavelmente hesitaria diante dele. Aras, porém, sustentou o olhar sem dificuldade.
— Então... — Yal começou, e sua voz era mais grave do que ela lembrava. — Essa é a primeira vez que não estou escrevendo algo que posso apagar.
Um quase sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
Aras inclinou levemente a cabeça.
— E ainda assim parece que está escolhendo cada palavra com o mesmo cuidado.
— Estou — ele admitiu, sem vergonha alguma. — Porque, diferente das cartas... agora você pode me interromper.
Um breve silêncio se instalou entre eles. Aras o observou por alguns segundos antes de responder:
— Não pretendo, vossa alteza.
Aquilo o fez soltar um pequeno riso pelo nariz.
— Isso é reconfortante ou preocupante? — ele perguntou, elevando a mão até os cabelos.
— Depende do que deseja em uma esposa.
Os olhos dele desceram por um instante — não de forma vulgar, apenas cansado.
O vestido. O véu. O conjunto inteiro passou por suas pupilas esverdeadas.
Ele voltou a encará-la.
— É que você está... você é exatamente como eu imaginei.
Aras não reagiu.
Nem um rubor.
Nem um sorriso.
Nada.
— Não é um elogio eficaz. Mas, considerando as circunstâncias... também não me decepcionou, alteza — respondeu com calma.
Yal arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Não quando a imaginação é baseada na visão de terceiros. Nas cartas, nunca falou sobre sua aparência ou timbre de voz. Preferi não depender da percepção alheia.
Dessa vez, o silêncio foi dele. Curto e atento.
— Justo — disse por fim, assentindo devagar. — Então deixe-me tentar de novo... — Ele deu um passo à frente. — Você está... diferente do que eu esperava.
Aras ergueu levemente o queixo.
— Em que sentido?
— Nas cartas... você parecia menos distante.
— Eu era menos distante.
— Então, agora?
Ela o encarou diretamente.
— Agora estou aqui.
Yal ficou em silêncio, como se reorganizasse algo dentro de si.
— Certo... então vou ser direto — disse ele, aproximando-se outro passo, ainda respeitando o espaço entre eles. — Eu precisava falar com você antes da cerimônia.
— Para quê?
— Para entender como vamos lidar com isso.
Aras não desviou o olhar.
— Um casamento político não exige entendimento, apenas cumprimento.
— Discordo — ele respondeu, com calma, agora brincando com os próprios dedos. — Exige convivência. E convivência sem entendimento... costuma dar errado.
Ela o analisou por um momento.
— Então me pergunte o que precisa saber.
Aquilo o pegou de surpresa por um breve segundo.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Direta.
— Quando não há motivo para fingir, sim.
Yal soltou o ar lentamente, quase como um riso contido.
— Ótimo. Isso facilita.
Ele se aproximou de novo, um passo.
Agora estavam próximos o suficiente para perceber detalhes — a textura da pele dela, o leve brilho nos lábios, a rigidez imposta pelo corpete.
Não foi isso que o prendeu.
Foi a ausência.
Ele a observou com tanta atenção.
— Você não sente nada por mim — disse, sem rodeios.
— Não. — Aras confirmou levemente.
— Nem pretende?
— Não é algo que dependa de intenção.
Aquilo o fez estreitar levemente os olhos.
— Então não há espaço para mudança?
Aras inclinou a cabeça, pensativa por um segundo.
— Há espaço para adaptação, seria o suficiente?
Yal sustentou o olhar dela.
— Isso inclui as necessidades matrimoniais?
— Inclui o necessário para que funcione.
— E o resto? — ele perguntou, a voz baixa.
— O resto não é relevante.
Os olhos dele escureceram ligeiramente, não de irritação — apenas puro interesse.
— Bom, discordo novamente.
— Isso será recorrente? — Aras perguntou, com leve frieza.
— Muito provavelmente. — Um pequeno intervalo. — Você tolera isso?
— Se for útil.
Aquilo arrancou dele um sorriso curto.
— Justo.
Desta vez foi Aras que deu um passo.
Agora estavam próximos o suficiente para que qualquer movimento fosse notado.
— Posso fazer uma pergunta... inadequada? — ele disse, ainda mais baixo que antes.
— Pode.
— Vai mesmo responder?
— Se for necessário.
Ele deu uma leve tossida, tentando voltar à sua normalidade.
— Você já desejou alguém?
A pergunta pairou no ar.
Aras não desviou o olhar.
Não hesitou ao responder simplesmente um:
— Sim.
Sem pausa, nem qualquer traço de algo que justificasse a palavra.
Yal permaneceu esperando algo que não veio.
— Entendo... — disse ele, ainda observando-a com atenção. — E foi... frequente?
— Não.
Outra resposta curta.
— E foi... significativo?
Aras inclinou levemente a cabeça, como se analisasse a pergunta antes de respondê-la.
— Foi uma constatação.
Aquilo fez com que ele franzisse levemente o cenho.
— Constatação?
— De que sou capaz — completou ela, com a mesma calma.
— Então não envolvia alguém específico — ele concluiu.
— Não. — Sem mudar o tom, ela voltou a pergunta com a mesma naturalidade:
— E você?
Yal não respondeu imediatamente.
Os olhos verdes permaneceram presos aos dela por mais tempo do que o necessário, como se avaliasse não a pergunta — mas a forma como ela havia sido feita.
Aras não parecia realmente interessada, nem mesmo curiosa. Então por que ela o questionava da mesma forma?
— Sim — respondeu, por fim.
A diferença estava ali.
Sutil.
Aras percebeu sem a menor dificuldade.
— Frequente? — ela perguntou, repetindo o mesmo padrão.
Um leve sopro de ar saiu pelo nariz dele, quase um riso de descrença.
— Não.
— Significativo?
Dessa vez, ele não respondeu na mesma velocidade.
O olhar dele se desviou por um breve segundo.
— O suficiente.
Aras o observou.
— E ainda é? — ela perguntou.
Direta.
Como tudo nela.
Yal voltou a encará-la, como se retornasse ao momento presente.
— Não. — Uma pausa, curta. — E você? — ele devolveu, com um leve estreitamento dos olhos. — Ainda é?
Aras não demorou.
— Não.
Sem espaço para interpretação.
Sem margem para dúvida.
Isso pareceu... reorganizar algo nele.
— Então estamos em termos semelhantes — disse ele por fim.
— Não — Aras corrigiu, com leve inclinação de cabeça. — Estamos em condições diferentes.
Aquilo o fez quase sorrir.
— Explique.
— Eu não posso ter amantes — disse ela, com naturalidade. — Você pode.