O impacto das lâminas reverberou pelo salão.
Aras sustentou a força — apenas o suficiente para medir.
Seu adversário era pesado, forte e lento.
Ela girou o pulso, desviando a pressão ao invés de enfrentá-la diretamente. O aço escorregou, quebrando o eixo do ataque inimigo. Um passo lateral. Outro corte.
O eteriano recuou tarde.
Sangue.
Não como o dos homens. Mais escuro. Denso. Quase viscoso demais para ser natural. Antes que o corpo caísse por completo, outro veio, e outro.
Agora não havia espaço para precisão.
Aras se afastou.
O salão já não era um espaço aberto — era um fluxo caótico de corpos, lâminas e gritos sufocados.
Um ataque pela esquerda.
Ela bloqueou.
Outro, baixo.
Desviou.
O terceiro porém veio alto.
O impacto não foi limpo. A lâmina não a atravessou — mas a atingiu com força suficiente para quebrar sua base.
O corpo perdeu o equilíbrio.
O mundo inclinou.
E então, a jovem estava caída no chão.
O mármore frio encontrou suas costas com violência contida, o ar sendo expulso de seus pulmões antes mesmo que ela pudesse reagir.
O som ao redor ficou distante, pode se dizer, atrasado.
Quando sua visão se ajustou novamente, ele já estava lá.
Um eteriano...
A armadura deformada parecia crescer sobre o próprio corpo. Fendas irregulares deixavam escapar algo como um brilho morto, pulsante, tal como brasas sufocadas.
O rosto—
Não era um rosto.
Era uma tentativa falha de lembrar um.
E os sons que vinham dele…
Eram fragmentos.
Sussurros quebrados. Como se várias vozes tentassem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
A lâmina se ergueu.
Não havia tempo.
O som veio antes da compreensão total, um tintilhar de metal se batendo com força.
A lâmina do monstro não havia descido. Ela forá interceptada por Yal.
Ele estava entre ela e o golpe.
A espada firme. O impacto absorvido com precisão, ainda que o peso o forçasse meio passo para trás.
— Já chega — disse ele, a voz baixa, e as pupilas verdes quase exalando uma aura amarelada ao seu redor.
Com um movimento rápido, desviou a arma inimiga e contra-atacou. O corte não foi elegante como o de Aras.
Foi fatal.
O corpo do eteriano caiu ao lado dela.
Por um breve instante, o mundo pareceu se reorganizar ao redor daquele ponto.
Yal não a olhou imediatamente.
Se posicionou e avaliou a situação.
Apenas quando teve certeza da morte do monstro, ele ajoelhou-se ao lado dela.
— Você luta bem — disse, sem ironia alguma.
— Obrigada.— Respondeu ainda no chão, recuperando sua respiração.— Não foi por você senhor.
— Eu sei — ele disse, quase com um sopro de riso.— Eu entendo.
Os olhos verdes encontraram os dela. Uma graça infantil havia tomado o rosto do nobre.
Outro som de impacto ecoou pelo salão.
Mais eterianos entrando.
O tempo deles havia acabado.
Yal se levantou primeiro, estendendo a mão.
Aras a ignorou.
Levantou-se sozinha.
Ele não insistiu.
Apenas assentiu, uma vez.
— Mas agora — continuou ele, já retomando a postura — esse reino também é meu.— Os olhos dela se moveram levemente. — E se um de nós tiver que cair… — ele completou, sem desviar — eu prefiro que seja eu.
Aras não respondeu.
Não porque não tinha resposta, e sim pois quando estava prestes a falar, um grito a cortou:
— Alteza! — um dos guardas se aproximou, ofegante. — Precisamos—
Yal não olhou para ele.
— Tire-a daqui.
— Eu não vou— começou Aras.
Infelizmente não tevê como a dama seguir teimando.
O guarda era maior e havia sido bem treinado para cumprir todas as ordens.
Ele a segurou pela cintura em um único movimento firme e a ergueu do chão.
O mundo mudou de eixo novamente.
Agora vista de cima do ombro dele.
— Solte-me — disse ela, se debatendo como uma criança birrenta.
— Alteza— começou o guarda.
— Faça.
E ele fez.
Yal se aproximou um último passo.
O caos ao redor parecia dobrar-se.
Ele pegou a mão dela, com cuidado.
Totalmente deslocado para o momento.
E a beijou.
Quando se afastou, seus olhos não pediam nada.
Apenas afirmavam.
— Levem-na.
As damas de companhia hesitaram por menos de um segundo, depois obedeceram temerosas.
Seguindo o guarda, saíram pelas portas de subalternos.
Aras parou de lutar.
Seus olhos permaneceram nele. Fixos, como se estivesse memorizando o rosto de seu noivo, ou séria marido?
Pensamentos sobre o futuro atacaram sua mente com força total. Tudo que seus pais conseguiram, todas as pessoas que dependiam daquele reino, tudo dependendo da força de um homem que acabará de conviver por menos de duas horas. E esse mesmo homem, estava dando a ela outro fardo tão pesado quanto o de casamento por conveniência. Ele estava a dando, a chance de viver com obrigações dobradas.
Yal não se moveu até que ela desaparecesse além das portas, ele não tinha ideia do que se passava na mente da bela garota. Contudo, lá no fundo, ele desejava que a desistência dela de lutar, fosse sinal de confiança ou quem sabe, um início de sentimento afetivo.
Ele virou-se.
A espada firme novamente em sua mão.
Os eterianos avançavam.
Corpos distorcidos. Movimentos quebrados. A ausência de qualquer vestígio do que um dia poderiam ter sido.
Sem luz, nem harmonia.
Apenas ruído e violência.
Yal deu um passo à frente.
Dessa vez, ninguém tiraria a espada de sua mão. Ele teria que enfrentar os inimigos, lado a lado de seus homens e os guardas de sua esposa.
Seu povo, os Leriodis não eram conhecidos pela arte da guerra. Na verdade, eles eram apenas um povo agrícola.
No entanto, jamais subestime um povo que tevê contato constante com a terra e os animais. Seus sentidos se desenvolveram e ficaram bem aguçados, sendo excelentes rastreadores e conhecedores da fauna e flora.
Em palavras simples, venenos é materiais de sobrevivência, eram seus destaques e armas secretas.
Um por um, Yal foi atacando. Apenas o simples encostar da lâmina, séria capaz de findar a vida. Até mesmo dos Eterianos.
Enquanto Aras era levada pelo guarda, e suas damas de compainha, ela se perdia em sua própria mente. Até inesperadamente, o guarda que a carregava cair ajoelhado no corredor.