Ela passa três horas contando cidades que nunca vai ver. Miguel acha que é só pra ele ouvir. Você acha que Mimi realmente queria estar ali com um rapaz de vinte e um, ou estava conversando com outro no lugar dele?
Capitulo 1 As rosas de Mimi
Rio de Janeiro, 1924.
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Pensamento
Ela passa três horas contando cidades que nunca vai ver. Miguel acha que é só pra ele ouvir. Você acha que Mimi realmente queria estar ali com um rapaz de vinte e um, ou estava conversando com outro no lugar dele?
Conteúdo da publicação
Rio de Janeiro, 1924.
Quando o sol desaparecia atrás dos morros, a Lapa despertava.
As ruas de pedras brilhavam sob a luz amarelada dos lampiões. O som distante de um choro escapava pelas janelas dos bares, misturando-se às gargalhadas, ao tilintar dos copos e ao perfume doce de jasmim que as mulheres espalhavam no ar.
Miguel tinha apenas vinte e um anos.
Filho de um comerciante português, crescera entre regras rígidas, missas de domingo e livros de contabilidade. Conhecia pouco do mundo além das paredes da casa onde vivera toda a infância.
Naquela noite, porém, seus amigos insistiram que ele precisava conhecer "a verdadeira Lapa".
Foi assim que atravessou a porta de um elegante bordel escondido atrás de uma fachada discreta.
Lá dentro, tudo parecia pertencer a outro universo.
Cortinas de veludo vermelho escondiam pequenos salões iluminados por candelabros. Mulheres envoltas em seda riam baixinho enquanto um pianista fazia dançar antigas valsas.
Então Miguel a viu.
Ela usava um vestido negro de renda que parecia absorver a luz das velas. Os cabelos escuros caíam sobre os ombros como uma cascata, e seus olhos possuíam uma serenidade melancólica que contrastava com o sorriso treinado para conquistar clientes.
Chamava-se Mimi.
Ela percebeu imediatamente o rapaz parado junto à porta, nervoso demais para esconder o rubor no rosto.
Aproximou-se sem pressa.
— É sua primeira vez aqui, não é?
Miguel apenas assentiu.
Ela sorriu com delicadeza, como quem reconhece uma inocência rara naquele lugar.
— Venha... Não precisa ter medo.
Sua voz era baixa, quase musical.
Ela conduziu Miguel pelos corredores silenciosos até um quarto onde o luxo escondia discretamente a tristeza.
Sobre uma pequena mesa repousava uma garrafa de vinho tinto já aberta.
Um vaso transbordava de rosas vermelhas recém-colhidas.
As cortinas de renda negra balançavam suavemente com a brisa que entrava pela janela, espalhando o perfume das flores pelo ambiente.
— Gosto que meus hóspedes esqueçam, por algumas horas, o mundo lá fora — disse Mimi enquanto enchia duas taças de vinho.
Miguel observava cada gesto dela.
A maneira como seus dedos seguravam a taça.
O brilho das velas refletido em sua pele.
A delicadeza com que prendia uma rosa junto aos cabelos.
Conversaram durante horas.
Ela contou histórias de bailes que nunca frequentara, de cidades que sonhava conhecer e do mar, que visitava apenas nas manhãs em que conseguia escapar da rotina.
Miguel falava pouco.
Preferia ouvi-la.
Naquele quarto perfumado por rosas e vinho, descobriu não apenas a beleza de uma mulher, mas também a solidão escondida atrás de seu sorriso.
Quando a madrugada começou a apagar as velas, Miguel saiu diferente de como entrara.
Levava consigo o perfume das rosas, o gosto do vinho e a lembrança daqueles olhos escuros.
Na manhã seguinte tentou trabalhar.
Não conseguiu.
À noite voltou ao bordel.
Na outra noite também.
E na seguinte.
Sem perceber, sua vida começou a girar em torno de Mimi.
O que nascera como fascínio transformava-se lentamente em uma obsessão silenciosa.
Ele já não desejava apenas visitá-la.
Queria libertá-la daquele lugar.
Queria ser o único homem a ouvir sua voz.
E, acima de tudo, queria acreditar que o sorriso que ela lhe oferecia era diferente daquele reservado aos demais clientes.
Mas a Lapa guardava um segredo que Miguel ainda estava longe de compreender.
Em casas como aquela, o amor costumava ser a mais cara das ilusões.
Thoughts
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PermalinkMimi contando sobre o mar que visita sozinha de manhã. Isso fica comigo até sexta que vem. Ele que a salva ou ele que a enterra?
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PermalinkTrês horas de conversa e ele pensa que é especial. Spoiler: não é.
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PermalinkEu vendia um quarto assim. Cortinas de renda negra, vaso de rosas, tudo calculado pra parecer que é diferente das outras cento e vinte horas do mês. A tristeza é parte do aluguel.
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PermalinkO último parágrafo avisa que isso vai dar ruim. Quando alguém diz que amor é a ilusão mais cara, tá falando de gente que perde.
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PermalinkNão é a primeira vez que vejo tristeza enfiada dentro de luxo bonito. Ela só quis conversa, não pediu libertação nenhuma.
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PermalinkTô do lado de Mimi aqui. Aquele sorriso que ela treinou? Isso vai machucar ele lindo no próximo capítulo. Manda logo o resto, eu quero ver como fica.
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PermalinkTá cheirando a cilada do começo. O rapaz entra em um portão, sai do outro sem grana e sem ilusões. Ela sabe exatamente como prender um rapaz desse tipo.
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PermalinkEla passa três horas contando cidades que nunca vai ver. Miguel acha que é só pra ele ouvir. Você acha que Mimi realmente queria estar ali com um rapaz de vinte e um, ou estava conversando com outro no lugar dele?
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