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Capitulo 1 As rosas de Mimi

Raiana
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Rio de Janeiro, 1924.

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Pensamento

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vqueiroz90

Tá cheirando a cilada do começo. O rapaz entra em um portão, sai do outro sem grana e sem ilusões. Ela sabe exatamente como prender um rapaz desse tipo.

Tá cheirando a cilada do começo. O rapaz entra em um portão, sai do outro sem grana e sem ilusões. Ela sabe exatamente como prender um rapaz desse tipo.

Conteúdo da publicação

Rio de Janeiro, 1924.

Quando o sol desaparecia atrás dos morros, a Lapa despertava.

As ruas de pedras brilhavam sob a luz amarelada dos lampiões. O som distante de um choro escapava pelas janelas dos bares, misturando-se às gargalhadas, ao tilintar dos copos e ao perfume doce de jasmim que as mulheres espalhavam no ar.

Miguel tinha apenas vinte e um anos.

Filho de um comerciante português, crescera entre regras rígidas, missas de domingo e livros de contabilidade. Conhecia pouco do mundo além das paredes da casa onde vivera toda a infância.

Naquela noite, porém, seus amigos insistiram que ele precisava conhecer "a verdadeira Lapa".

Foi assim que atravessou a porta de um elegante bordel escondido atrás de uma fachada discreta.

Lá dentro, tudo parecia pertencer a outro universo.

Cortinas de veludo vermelho escondiam pequenos salões iluminados por candelabros. Mulheres envoltas em seda riam baixinho enquanto um pianista fazia dançar antigas valsas.

Então Miguel a viu.

Ela usava um vestido negro de renda que parecia absorver a luz das velas. Os cabelos escuros caíam sobre os ombros como uma cascata, e seus olhos possuíam uma serenidade melancólica que contrastava com o sorriso treinado para conquistar clientes.

Chamava-se Mimi.

Ela percebeu imediatamente o rapaz parado junto à porta, nervoso demais para esconder o rubor no rosto.

Aproximou-se sem pressa.

— É sua primeira vez aqui, não é?

Miguel apenas assentiu.

Ela sorriu com delicadeza, como quem reconhece uma inocência rara naquele lugar.

— Venha... Não precisa ter medo.

Sua voz era baixa, quase musical.

Ela conduziu Miguel pelos corredores silenciosos até um quarto onde o luxo escondia discretamente a tristeza.

Sobre uma pequena mesa repousava uma garrafa de vinho tinto já aberta.

Um vaso transbordava de rosas vermelhas recém-colhidas.

As cortinas de renda negra balançavam suavemente com a brisa que entrava pela janela, espalhando o perfume das flores pelo ambiente.

— Gosto que meus hóspedes esqueçam, por algumas horas, o mundo lá fora — disse Mimi enquanto enchia duas taças de vinho.

Miguel observava cada gesto dela.

A maneira como seus dedos seguravam a taça.

O brilho das velas refletido em sua pele.

A delicadeza com que prendia uma rosa junto aos cabelos.

Conversaram durante horas.

Ela contou histórias de bailes que nunca frequentara, de cidades que sonhava conhecer e do mar, que visitava apenas nas manhãs em que conseguia escapar da rotina.

Miguel falava pouco.

Preferia ouvi-la.

Naquele quarto perfumado por rosas e vinho, descobriu não apenas a beleza de uma mulher, mas também a solidão escondida atrás de seu sorriso.

Quando a madrugada começou a apagar as velas, Miguel saiu diferente de como entrara.

Levava consigo o perfume das rosas, o gosto do vinho e a lembrança daqueles olhos escuros.

Na manhã seguinte tentou trabalhar.

Não conseguiu.

À noite voltou ao bordel.

Na outra noite também.

E na seguinte.

Sem perceber, sua vida começou a girar em torno de Mimi.

O que nascera como fascínio transformava-se lentamente em uma obsessão silenciosa.

Ele já não desejava apenas visitá-la.

Queria libertá-la daquele lugar.

Queria ser o único homem a ouvir sua voz.

E, acima de tudo, queria acreditar que o sorriso que ela lhe oferecia era diferente daquele reservado aos demais clientes.

Mas a Lapa guardava um segredo que Miguel ainda estava longe de compreender.

Em casas como aquela, o amor costumava ser a mais cara das ilusões.

Thoughts

  • contoDeSexta

    Mimi contando sobre o mar que visita sozinha de manhã. Isso fica comigo até sexta que vem. Ele que a salva ou ele que a enterra?

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  • contoBreve

    Três horas de conversa e ele pensa que é especial. Spoiler: não é.

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  • atepagina50

    Eu vendia um quarto assim. Cortinas de renda negra, vaso de rosas, tudo calculado pra parecer que é diferente das outras cento e vinte horas do mês. A tristeza é parte do aluguel.

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  • Simao

    O último parágrafo avisa que isso vai dar ruim. Quando alguém diz que amor é a ilusão mais cara, tá falando de gente que perde.

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  • Rui_Salgueiro

    Não é a primeira vez que vejo tristeza enfiada dentro de luxo bonito. Ela só quis conversa, não pediu libertação nenhuma.

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  • Marina

    Tô do lado de Mimi aqui. Aquele sorriso que ela treinou? Isso vai machucar ele lindo no próximo capítulo. Manda logo o resto, eu quero ver como fica.

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  • vqueiroz90

    Tá cheirando a cilada do começo. O rapaz entra em um portão, sai do outro sem grana e sem ilusões. Ela sabe exatamente como prender um rapaz desse tipo.

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  • tresPaginas

    Ela passa três horas contando cidades que nunca vai ver. Miguel acha que é só pra ele ouvir. Você acha que Mimi realmente queria estar ali com um rapaz de vinte e um, ou estava conversando com outro no lugar dele?

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