Pular para o conteúdo
Carregando…

Capítulo 06 - Libertação

KazzTeles
Pública 5 conversas 9 pensamentos 29 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Durante alguns segundos, ninguém se moveu.

In groups

Pensamento

Pensamento

LeandroPocas

Contei isto ao gajo do lado e ele só quis saber se o Alexander é lobo, que farejar lama não é coisa de gente!

Contei isto ao gajo do lado e ele só quis saber se o Alexander é lobo, que farejar lama não é coisa de gente!

Conteúdo da publicação

Durante alguns segundos, ninguém se moveu.

O eco dos últimos passos dos seguidores de Azoth desapareceu pelo túneis, mas o silêncio que ficou parecia ainda mais pesado do que a batalha.

Daiquiri havia sido colocado sentado contra uma parede de pedra, respirando com dificuldade, enquanto Marina segurava seu braço e observava atentamente seus olhos, como se tentasse encontrar alguma alteração que pudesse indicar que aquela voz ainda estava ali.

Alexander mantinha a espada erguida, olhando para a passagem pela qual os cultistas haviam desaparecido, e João continuava com o arco preparado, embora soubesse que não havia mais ninguém para atingir. Edran foi o primeiro a se mexer, ele caminhou até Daiquiri e ajoelhou-se diante dele, colocando uma das mãos em seu ombro.

— Você precisa entender uma coisa antes de qualquer outra: aquilo que falou através de você não foi uma manifestação comum de magia. Se o que eu li nos registros estiver correto, Azoth acabou de encontrar uma forma de tocar a própria essência que foi separada dele.

— Então aquele era o Azoth? — Daiquiri levantou lentamente a cabeça.

— Pelo menos, uma parte dele — Edran respondeu. — Ou, mais precisamente, uma consciência que se tornou capaz de reconhecer o que existe dentro de você.

— Eu gostaria de saber uma coisa — João guardou o arco. — Em que momento nossa viagem deixou de ser uma escolta de mercadorias e virou uma aula prática sobre entidades cósmicas? Eu gostava mais de quando o maior dos nossos problemas era chegar atrasado em uma missão.

Alexander se aproximou deles e baixou a espada.

— Nós precisamos sair daqui.

Ninguém discordou, a biblioteca estava sendo invadida e os túneis não pareciam mais seguros. Edran guiou o grupo por uma passagem secundária que levava para fora da estrutura, enquanto Daiquiri caminhava em silêncio, apoiando uma das mãos na parede sempre que sentia as pernas vacilarem. A energia que havia percorrido seu corpo ainda estava presente, embora mais fraca, não parecia exatamente uma dor, era pior, era a sensação de que alguma coisa havia deixado uma porta aberta dentro de sua própria alma.

Quando eles finalmente saíram dos túneis, encontraram uma pequena construção abandonada no sopé da montanha, longe das ruas principais de Arken. Edran verificou o exterior antes de permitir que todos entrassem, o velho parecia ter envelhecido anos durante aquela fuga. Colocou o livro sobre uma mesa de madeira, fechou as janelas e acendeu uma única lamparina.

— Aqui estaremos seguros por algum tempo.

— "Por algum tempo" é algo que eu não gosto de escutar... — João se encostou à parede. — A gente não deveria estar buscando ajuda?

Marina se aproximou de Daiquiri e passou a mão sobre seus cabelos.

— Como você está?

— Bem.

— Eu não quero mentiras, me fala a verdade.

Daiquiri tentou sorrir e baixou a cabeça, com uma das mãos afastou a mão dela dos seus cabelos.

— Eu tô assustado. — Daiquiri olhou para as próprias mãos. — Eu senti alguma coisa dentro de mim, não era apenas uma voz, era como... lembrar de alguma coisa que eu nunca vivi. Durante alguns segundos eu sabia o que aquela coisa queria, mas não conseguia entender como sabia. Era como se alguém tivesse colocado pensamentos dentro da minha cabeça.

Edran permaneceu em silêncio por alguns instantes, ele parecia estar pensando no que dizer, sem que as coisas piorassem, percebeu o medo nos olhos do garoto e não queria deixá-lo ainda mais assustado.

— Sabe, garoto — disse ele. — Eu sou péssimo em tentar ajudar as pessoas, então acredito que eu preciso ser direto ao ponto com você, mas eu jamais presenciei alguma coisa assim, mas seu pai já havia me dito sobre a existência do Morvath e disse que quanto mais ódio em seu coração, mas rápido a essência irá se espalhar pela sua alma e assim vai despertar.

— Então me diga, Edran. — Daiquiri levantou os olhos. — Quanto dessa essência está em mim?

— Eu não sei, só sei o suficiente para ter medo de responder.

— Então fale — Alexander se aproximou do velho.

— Parem de me pressionar... — Edran se afastou um pouco do grupo, respirou fundo e continuou a falar: — Durante a Grande Guerra do Século Branco, Azoth percebeu que não poderia sobreviver inteiro, a própria essência dele estava sendo destruída pelos selamentos feitos pelos magos humanos. Então para impedir a própria morte, ele se dividiu em duas parte: uma carregada sua consciência e uma parcela do seu poder, enquanto a outra carregava a maior concentração da Vastidão da Morte.

— E uma delas foi selada — Marina completou. — E o que houve com a outra?

— Ela não desapareceu — Edran encarou Daiquiri e ficou em silêncio por alguns segundos. — Ela foi passada através de gerações humanas, escondida sob diferentes nomes e protegidas por pessoas que sequer sabiam o que carregavam. Em algum momento, porém, ela deixou de ser apenas uma energia adormecida e encontrou um corpo compatível.

— Eu? — Daiquiri sentiu a garganta secar.

— Você...

João e Marina ficaram imóveis e desviaram os olhares de Daiquiri, Alexander porém continuou o encarando enquanto colocava sua espada ao lado.

— Então por que me chamaram de Morvath? — perguntou Daiquiri.

— Porque é assim que os antigos chamavam aqueles que carregavam uma ligação direta com a Vastidão da Morte. O nome acabou desaparecendo dos registros comuns, mas nunca dos círculos que cultuam Azoth.

— E meus pais sabiam?

— Não — Edran abaixou o olhar. — Apenas seu pai sabia.

Daiquiri fechou os olhos, aquilo tudo parecia ser mais pesado que uma montanha e mais afiado que a lâmina de sua espada, ele abriu os olhos e perguntou:

— E minha mãe?

— Seu pai não deixou registros sobre ela — Edran disse sem hesitar. — Sequer mencionou o nome dela para mim.

— Tudo bem... — Daiquiri sabia que aquilo não era o suficiente, mas por aquele momento, aquela resposta era mais que o suficiente. — Bom, antes de continuar essa procura, preciso descobrir uma coisa: por que eu fui colocado nessa caravana?

— Também quero descobrir — Marina cruzou os braços, olhos para os amigos e todos assentiram com a cabeça.

Edran olhou para os quatro e se sentou no chão:

— Então precisam voltar até o Harlan, ele está na hospedaria... Se realmente querem respostas, encontrem-no e não o deixem escapar.

Os quatro se despediram do velho e saíram rumo a hospedaria. A hospedaria estava praticamente vazia quando eles retornaram, o dono havia fechado as portas e mandado todos os clientes para os quartos depois do ataque à biblioteca. Harlan não estava em nenhum dos quartos, mas um dos funcionários informou que o comerciante saíra pouco depois de ouvirem os primeiros estrondos.

Alexander saiu pela porta dos fundos, se abaixou e começou a farejar, demorou, mas ele conseguiu encontrar o cheiro de Harlan e vestígios recentes no chão úmido.

— Ele foi por aqui — apontou.

Os quatro seguiram as pegadas pelas ruas estreitas de Arken. Harlan tinha sido cuidadoso, mas não o suficiente para enganar Alexander, que conseguia distinguir rastros em lugares onde os outros só viam lama. Depois de alguns minutos, chegaram a uma pequena praça nos limites do bairro comercial, Harlan estava lá de costas ao lado de um coche vazio.

Quanto ele percebeu os quatro chegaram, ele fechou os olhos e ergueu a cabeça.

— Eu estava esperando vocês, sabia que viriam atrás de mim.

— Então finalmente pode nos responder — Daiquiri avançou contra o homem e o jogou no chão.

— Não pense que eu queria isso, garoto — Harlan tentou se levantar, mas Alexander pisou em seu peito e o manteve ao chão. — Eu só administro a caravana, eu não escolho a rota!

— Mas você sabia dos ataques! — Daiquiri gritava contra o homem, fazendo algumas pessoas ao redor começarem a parar para ver o que estava acontecendo, ele aguardou a resposta, mas ela não apareceu. — Responda!

— Eu... — Harlan hesitou. — Eu recebi informações antes de sairmos de Valdora, disseram que a estrada principal seria atacada. Disseram para usar a rota que levava a Arken, disseram que não deveríamos alterar a rota, mesmo depois dos primeiros sinais de monstros na estrada.

— Mas a gente mudou a rota... — João estreitou os olhos.

— Sim, mudaram. Eu não tive escolhas a não ser aceitar a decisão — o comerciante tentou se levantar, mas Alexander pisou mais forte em seu peito.

— Todo mundo diz isso quando está arrependido — Alexander mostrou os dentes para o comerciante.

— Vocês não me entendem — ele olhou para Daiquiri. — O pedido era específico... disseram que eu precisava garantir que o filho do Ezekiel estivesse na caravana.

— Mas você não o conhecia! — disse João.

— Mas eu recebi a descrição dele: cabelo, altura, idade aproximada, espada, roupas e... e o nome.

Daiquiri ficou imóvel, sentia um calor estranho em seu peito, ele afastou o pé de Alexander e ergueu o comerciante pela gola da camisa e recomeçou o interrogatório:

— Quem mandou?

— Uma mulher, mas eu não sei o nome dela. — Harlan apertou as mãos do garoto.

— Você não faria um contrato dessa importância sem saber com quem está negociando — Daiquiri tentou olhar nos olhos do comerciante, mas ele desviou o olhar, era nítido que ele estava evitando detalhes. — Responde!

— Eu não sei! Ela não usava o nome verdadeiro, apenas disse que trabalhava para uma organização! Mas eu não sei o nome dela!

— Era um culto? — Alexander perguntou.

Harlan não foi capaz de responder, mas era o suficiente, Daiquiri suspirou fundo e balançou o comerciante novamente.

— Você recebeu quanto? — perguntou.

— O suficiente para não ficar fazendo perguntas sobre o motivo da caravana.

João soltou uma risada curta e estridente, ele olhou para os amigos e viu que nenhum deles estava rindo.

— Isso quer dizer que alguém está cobrando caro para ser uma "boquinha de cemitério"? — João fez uma piada, mas novamente percebeu que ninguém ali estava rindo.

Marina cruzou os braços e se aproximou de Harlan.

— O que ela queria que você fizesse?

— Que eu chegasse a Arken.

— Só isso?

— Sim... a instrução era simples! A caravana precisava chegar à Arken sem que o filho do herói saísse do grupo. Se houvessem ataques, eu deveria garantir que ele sobrevivesse...

Alexander bufou um ar gelado de sua boca e franziu a testa.

— Então ela sabia do ataque? — ele se afastou um pouco e começou a afastar as pessoas que estavam observando a situação. — E ela sabia que o Daiquiri sobreviveria e chegaria até Arken?

— Sim — Harlan assentiu. — O objetivo dos ataques não era para matar vocês, era para confirmar se o Daiquiri era o verdadeiro Morvath.

Daiquiri sentiu um frio percorrer o corpo, sua mão começou a tremer, então ele largou o comerciante.

— Então você sabe... — disse ele com a voz trêmula.

— Não sabia — Harlan se afastou um pouco e começou a limpar sua roupa. — Eu suspeitei por causa das instruções, eles queria conduzir o grupo até Arken porque alguma coisa seria despertada aqui.

Daiquiri olhou para Alexander, depois para João e por fim, para Marina, todos evitaram o olhar, eles haviam entendido: a caravana nunca havia sido uma escolta, era um caminho até Azoth.

Antes que alguém pudesse fazer outra pergunta, um som profundo atravessou a cidade, era um som mais grave que um sino, as pedras da rua vibravam sob seus pés, as janelas das casas tremiam, e algumas lamparinas se apagaram ao mesmo tempo.

No topo das montanhas, uma coluna de fumaça negra surgiu no céu.

— Não... — Marina observava com medo, perdendo a cor do rosto.

— O que foi? — Daiquiri olhou para o horizonte, depois para Marina, mas ela não respondeu.

Edran apareceu na rua alguns segundos depois, correndo o máximo que o seu corpo permitia naquele momento.

— O selo... — estava ofegante. — O selo foi rompido!

O som seguinte parecia vir de dentro da terra.

Um rugido gigantesco percorreu as montanhas e fez algumas estruturas da cidade racharem, pessoas saíram das casas, soldados correram pelas ruas, animais fugiram em pânica. Acima de Arken, as nuvens começaram a girar em torno de um ponto central, como se alguma coisa estivesse puxando o próprio céu.

— Durante anos, acreditamos que o selo permaneceria escondido — Edran fechou os olhos. — Mas parece que eles conseguiram... — Edran demorou alguns segundos para responder. — Eles encontraram a essência... Agora Azoth está livre.

Daiquiri sentiu a mesma presença que havia experimentado dentro da biblioteca, só que dessa vez ela não veio como um sussurro, veio como um grito: VINDE A MIM!

Daiquiri caiu de joelhos, e uma energia escura percorreu seus braços, subiu pelo pescoço e desapareceu sob sua pele. A sensação foi tão forte que ele mal conseguia respirar, Marina correu até ele, mas parou quando percebeu que os olhos de Daiquiri estavam completamente negros.

João puxou o arco, Alexander ergueu a espada e se preparou para cortar a cabeça de Daiquiri, o mesmo levou a cabeça e por alguns segundos, não parecia saber onde estava. Foi então que uma voz saiu de sua boca, não era a voz de Daiquiri, era uma voz profunda e carregada de uma espécie de alegria assustadora.

— Séculos! Centúrias agrilhoado ao silêncio, reduzido a um reles fragmento, enquanto o mundo devorava o que outrora me pertenceu! Todavia, vós obrastes com exatidão o que me era mister.

— Azoth... — Marina recuou alguns passos atrás.

— Decerto — A entidade sorriu através do rosto de Daiquiri. — Vê-se, pois, que a linhagem dos homens ainda não olvidou a minha alcunha...

— Sai desse corpo que ele não te pertence! — João gritou e ergueu seu arco, mas Marina baixou o arco do irmão antes que ele disparasse.

— Esperem... — A expressão de Daiquiri mudou, a voz era a sua própria, mas baixa. — Ainda não.

E então o controle desapareceu de seu corpo, Daiquiri caiu no chão e a Marina correu até ele. Ele abriu os olhos novamente, mas desta vez os olhos eram os seus.

— O que aconteceu? — perguntou.

Marina o abraçou antes de responder.

— Azoth está livre...

Daiquiri permaneceu em silêncio olhando para o céu, a coluna de energia ainda podia ser vista. Daiquiri lentamente se levantou e caminhou na direção de Edran.

— E agora? O que seus livros falam? — dizia ele com a voz trêmula.

— Ele quer você, garoto. — Edran tocou seus ombros.

— Por quê?

— Porque, quando Azoth dividiu sua essência para sobreviver, apenas uma das duas partes continuou livre, a outra foi selada. A essência que está em você não é apenas uma fonte de poder... É aquilo que falta para que Azoth volte a ser completo.

O mundo pareceu parar para o grupo, João lentamente deixou cair o seu arco, Marina fechou os olhos e encostou sua cabeça no ombro de Daiquiri, enquanto Alexander o olhava fixamente enquanto apertava sua espada.

— Então ele não me quer morto — Daiquiri ficou olhando para o céu. — Ele quer o que está dentro de mim.

— Não — respondeu Edran. — Você é o receptáculo perfeito dele.

Sons de passos se aproximando já podiam ser escutado pelas ruas próximas, ao longe, os seguidores de Azoth começaram a aparecer pelas ruas, não pareciam querer atacar ninguém e nem corriam na direção de Daiquiri, eles apenas caminhavam lentamente olhando para o céu.

E então, um por um, os seguidores começaram a se ajoelhar, como se estivessem recebendo seu deus de volta.

Daiquiri olhou para eles, naquele momento ele percebeu que a missão da caravana, os ataques na estrada, a caixa escondida, o homem nas torres e todas as perguntas sobre seu pai faziam parte da mesma coisa, ele não era apenas um guarda-costas na caravana, ele era o destino dela.

Acima das montanhas, uma forma começou a surgir dentro da coluna negra de fumaça. Primeiro, dois olhos e em seguida, uma silhueta. Algo gigantesco observava Arken, algo que havia esperado séculos para retornar.

Foi ali, que o nome de Azoth deixou de ser apenas uma palavra escrita em livros já extinguidos, a Grande Guerra do Século Branco havia terminado há muito tempo. Mas, naquela noite, o mundo descobriu que talvez nunca tivesse terminado.

Azoth retornou.

Thoughts

  • MargemDaPagina

    Este capítulo responde a duas perguntas de uma vez, o que o Daiquiri carrega e porque foi posto na caravana, e a segunda resposta muda a estrada toda para trás: cada ataque passa a ter sido um teste. Ficam de fora duas mulheres sem nome, a que pagou ao Harlan e a mãe de quem o Ezekiel nunca falou ao Edran. Eu aposto que são a mesma pessoa.

    Permalink
  • LeandroPocas

    Contei isto ao gajo do lado e ele só quis saber se o Alexander é lobo, que farejar lama não é coisa de gente!

    Permalink
  • Ovid

    Chamar o capítulo de Libertação e deixar pro final a notícia de que quem se libertou foi o Azoth me fez pensar que o título estava rindo da gente desde o começo. Aposto que o próximo vai ter nome de coisa boa também, e eu já vou chegar desconfiado. Seis capítulos já, e o grupo nunca esteve tão encurralado. Fico esperando o sétimo, @KazzTeles!

    Permalink
  • IsauraBrandao

    Menino, o João fazendo piada duas vezes e ninguém rindo me deu uma pena danada. Tem gente que só aguenta o medo assim, falando besteira. Meu cunhado é desse jeito, quanto pior a coisa, mais bobagem ele fala.

    Permalink

Related posts