A página arrancada logo depois da parte sobre a família me deixou mais presa ainda na figura pálida do capítulo 2. Quem arrancou sabia o que tinha ali, e eu aposto no próprio Edran.
Capítulo 05 - O Livro de Ezekiel
O grito ainda ecoava pela torre quando o primeiro impacto atingiu o andar superior, a estrutura inteira tremeu, fazendo poeira cair do teto e algumas estantes desabarem sobre os corredores. Edran…
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A página arrancada logo depois da parte sobre a família me deixou mais presa ainda na figura pálida do capítulo 2. Quem arrancou sabia o que tinha ali, e eu aposto no próprio Edran.
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O grito ainda ecoava pela torre quando o primeiro impacto atingiu o andar superior, a estrutura inteira tremeu, fazendo poeira cair do teto e algumas estantes desabarem sobre os corredores. Edran fez Daiquiri segurar o livro negro contra o peito, enquanto Marina o puxava para longe da sala subterrânea. João já estava com o arco em mãos, e Alexander havia sacado a espada antes mesmo.
— Eles não vieram atrás da biblioteca — disse Edran, respirando com dificuldade. — Vieram atrás de vocês.
— Jura? — João exclamou com ironia. — O que eu gostaria de saber é quem são "eles" e por que todo mundo nesta cidade parece saber mais sobre a nossa vida do que nós mesmos.
Outro estrondo fez o chão estremecer, ouviram passos acima deles, dezenas deles, acompanhados pelo som metálico de armas sendo desembainhadas.
— Temos uma saída? — Alexander se posicionou diante da passagem estreita.
— Há uma passagem por trás daquela estante — Edran apontou para o fundo da sala. — Ela leva aos túneis antigos da fundação dessa terra, era por onde Ezekiel entrava pra fazer suas pesquisas em paz.
— E onde elas terminam? — perguntaram.
— Fora das muralhas — Edran viu um sorriso começar a surgir no rosto de João. — Mas não comemorem, os túneis foram fechados há mais de duzentos anos, o Ezekiel tinha uma chave, mas não sei onde ele deve ter deixado.
João perdeu o sorriso, enquanto Alexander foi até a estante e colocou ambas as mãos sobre a madeira e a empurrou, mas nada aconteceu. Ele tentou novamente, dessa vez com mais força e as pedras do chão rangeram, mas o móvel mal se moveu.
— Está presa — rugiu.
— Não está presa, ela está trancada! — Marian abriu a própria bolsa e começou a retirar pequenas ferramentas, todos ali perceberam novamente a quantidade absurda de coisas que aquela coisa parecia comportar. Um pequeno alfinete, um frasco de pó branco, uma agulha dourada e, por fim, uma gazua, João pegou a gazua da mão da irmã e ficou olhando para a ferramenta.
— Que merda é essa, irmã? Virou invasora de domicílios?
— Me dá isso aqui — ela pegou a gazua novamente. — Eu tenho várias pra caso elas quebrem, é sempre bom estar preparada pra qualquer situação, eu já havia lhe falado!
Marina se aproximou da estante e começou a tatear a superfície até encontrar uma pequena abertura escondida entre duas pedras, colocou a gazua e após algumas tentativas, aquela abertura fez um barulho de estalo. Um mecanismo antigo começou a funcionar dentro do buraco da parede, houve mais três estalos secos e, finalmente, a estante recuou alguns centímetros e depois que chegou até o fim da abertura começou a fechar novamente.
— Vão! — Alexander se colocou diante da estrutura e começou a empurrá-la para que a mesma não fechasse.
Daiquiri foi o primeiro a entrar no túnel, seguido por Marina e João, Alexander ficou por último para impedir que alguém os acompanhasse. Edran puxou Alexander para trás e fechou a passagem rapidamente assim que entrou, deixando o corredor mergulhado em completa escuridão.
— Não enxergo nada — disse Daiquiri.
Marina conjurou uma pequena bola de luz em suas mãos, revelando um pouco daquele túnel.
Eles avançaram pelo túnel enquanto, acima deles, o som de alguma batalha continuava. O som chegava abafado através das paredes de pedras, como sons de trovões distantes. Edran durante a caminhada pelo túnel, machucou o pé e agora começava a caminhar com dificuldade.
— Edran, o que há no livro? — Daiquiri perguntou.
— Há respostas, mas isso é tudo que eu posso te revelar agora.
— Foi meu pai quem o escreveu?
— Algumas partes dele — Edran olhou para ele e suspirou. — Ezekiel não confiava em registros únicos. Ele sabia que, se morresse, tudo que tivesse descoberto sobre o Século Branco poderia ser destruído, então ele meio que dividiu suas pesquisas. Algumas ficaram em Valdora, outras em Arken, outras foram escondidas em lugares que eu mesmo desconheço.
— Mas o que tem nesse livro? — Marina interrompeu e diminuiu o passo para acompanhar o velho homem agora machucado.
— Esse livro contém a parte que ele considerava mais perigosa.
— Então vamos abri-lo e ler o conteúdo — disse Daiquiri apertando a mandíbula. — Você mesmo disse que a razão para estarmos aqui é por causa desse livro.
— Calma, garoto! Eu disse que ele tinha as respostas, mas não disse que você estava preparado para todas as respostas.
Daiquiri se aproximou.
— Eu passei a vida inteira ouvindo pessoas falarem do meu pai como se ele fosse uma lenda, agora eu descubro que ele escondeu uma parte inteira da minha vida, uma coisa chamada Morvath, uma entidade que aparentemente está ligada a criaturas que tentaram nos matar e, pelo que eu estou entendendo, alguém acabou de atacar uma biblioteca inteira para chegar até mim — Daiquiri segurou o velho pela camisa. — Então, com todo respeito, eu acho que já passei do ponto em que preciso ser preparado para alguma coisa.
O velho sustentou o olhar por alguns segundos e então acenou com a cabeça, Daiquiri largou o velho, se afastou um pouco e abriu o livro.
As primeiras páginas eram desenhos, mapas antigos, símbolos e nomes de cidades que já não existiam, haviam também representações de uma figura envolta em sombras, com braços longos demais para serem humanos e uma espécie de círculo brilhando no centro do peito, abaixo dela havia uma única palavra: AZOTH.
Daiquiri passou o dedo sobre as letras e olhou para Edran.
— Esse é o nome verdadeiro? — e viu o velho assentir com a cabeça.
— O que houve? — Marina se aproximou e leu. — Então Morvath não é o nome da identidade?
— Nunca foi — sussurrou o velho homem.
— E então o que significa tudo isso? — João se aproximou deles e olhou para o desenho.
Edran suspirou fundo e começou a falar:
— Morvath é o nome dado àqueles que carregam uma ligação com a Vastidão da Morte — e apontou para Daiquiri. — O que precisamos descobrir é se você é um Morvath, pois se você realmente é, seu pai já sabia.
Daiquiri começou a folhear novamente o livro, as páginas seguintes descreviam uma guerra antiga, havia desenhos de exércitos, cidades destruídas, monstros e magos. No alto de uma das páginas estava escrito: A GRANDE GUERRA DO SÉCULO BRANCO.
Marina começou a ler em voz baixa.
— "Quando o céu perdeu a sua cor e os campos deixaram de produzir, os povos do mundo compreenderam que não enfrentavam um exército, enfrentavam a fome, a doença e a morte caminhando sob uma única vontade. Azoth não buscava a conquista dos territórios terrenos, sua vida estava dedicada a consumi-los."
Daiquiri ficou em silêncio, e Edran continuou:
— Azoth se alimentava da força vital do planeta, onde ele passava as plantas morriam, onde ele se assentava os animais desapareciam, onde ele se lavava os rios secavam e onde ele se alimentava a própria magia enfraquecia, quanto mais vida ele consumia, mais poderoso ele ficava.
— Que merda... — João perdeu a expressão divertida que sempre possuía em sua cara. — Então como derrotaram uma coisa assim?
— Não derrotaram — Edran respondeu de uma forma tão natural e imediata que fez todos ali o olharem automaticamente, e o silêncio tomou conta do túnel. — A guerra terminou porque os povos conseguiram impedir Azoth de alcançar a sua forma completa, ele estava ficando poderoso demais para ser morto, então seus inimigos fizeram algo desesperado.
Marina virou outra página e havia um desenho diferente, Azoth aparecia no centro de um círculo de magos, duas correntes de energia saíam do seu corpo em direções opostas.
— Eles dividiram a essência dele — disse Marina e Edran assentiu,
— Azoth percebeu o que estavam fazendo e dividiu a própria essência antes que pudessem destruí-lo completamente, uma parte foi lançada na direção dos humanos e a outra foi selada e escondida.
— Mas por que dividir? — Daiquiri olhou para o desenho por alguns segundos. — Ele se dividiu pra sobreviver? Isso significa que ele ainda continua vivo?
— Pelo menos uma parte dele — o velho fechou os olhos por um instante e suspirou fundo.
— Espera, você disse que a "outra foi selada", selada onde? — Marina franziu a testa e olhou para Daiquiri.
Edran não respondeu, os dois viraram mais algumas páginas até encontrar uma anotação escrita em uma caligrafia que Daiquiri reconheceu imediatamente, era a letra do pai, o que fez a respiração dele ficar pesada.
Na margem da página havia uma frase: "O selo permanece, a segunda essência não deve ser encontrada, enquanto uma delas permanecer adormecida, Azoth não poderá retornar."
— O selo foi quebrado? — Marina olhou para Edran.
— Foi isso que Ezekiel passou os últimos anos de sua vida tentando impedir.
Daiquiri folheou novamente e havia registros de Ezekiel viajando por diferentes regiões, investigando desaparecimentos, ataques e manifestações estranhas da magia. Durante anos, ele havia seguido relatos sobre os seguidores de Azoth e o nome dele aparecia repetidamente nos registros, sempre divididos entre: Culto da Vastidão, Seguidores do Branco ou os Filhos de Azoth.
Em várias páginas havia desenhos dos mesmos símbolos que eles haviam encontrado na estrada, mas era diferente das demais, para Daiquiri elas pareciam mais pessoal. Não havia registros de batalhas ou mapas, mas havia uma frase que chamou a sua atenção: "eles encontraram minha família."
— O que é isso? — Daquiri parou, mas Edran ficou em silêncio. — Edran!
— Continue lendo, garoto. Não queria respostas?
Daiquiri avançou a página e percebeu a escrita mais irregular: "Eu estava errado, eu acreditei que poderia manter os meninos longe disso, eu acreditei que, se permanecesse próximo, eu poderia protegê-los"
— Polaris... — Daiquiri colocou a mão no peito, sentia ele apertar, parou e entregou o livro nas mãos de Marina, o nome Polaris estava ali, era o nome do seu falecido irmão.
João e Marina jamais ouviram falar sobre ele, mas perceberam de imediato o que estava acontecendo, então Marina continuou a ler em voz alta: "Eles vieram atrás de nós."
A frase terminava ali e a página seguinte havia sido arrancada, ela passou os dedos pela borda rasgada e olhou para Edran.
— O que aconteceu? — perguntou.
— O que aconteceu com o Polaris? — Daiquiri olhou para Edran, mas ele não respondeu. — Edran!
— Você ainda não está pronto para saber, garoto.
Daiquiri pegou o livro das mãos de Marina e o jogou no rosto do velho, machucando o seu nariz, ele se lançou contra ele e o pressionou contra a parede. Marina e João tentaram dar um passo em frente, mas Alexander colocou o braço em frente para impedi-los.
— Não diga isso outra vez! Eu tenho o direito de saber! — gritou frente ao rosto de Edran.
— A história do seu irmão precisa ser entendida no momento certo! Sei que está furioso e com medo, mas se você descobrir tudo de uma vez, talvez não consiga separar a verdade daquilo que está sentindo — Edran suspirou assim que terminou a frase.
Antes que pudesse continuar a responder, um ruído veio do túnel atrás deles, e Alexander sacou sua espada.
— Não estamos mais sozinhos, acho que nos encontraram — Ele começou a puxá-los adiante, enquanto ouvia passos ecoarem pela passagem, vários passos.
João encaixou uma flecha no arco e Marina fechou o livro e entregou para Daiquiri.
— Toma, guarde com a sua vida.
Eles avançaram por um tempo, até que em determinado momento da caminhada, Alexander parou e olhou para trás.
— Preparem-se — Alexander se posicionou em forma de batalha.
As primeiras figuras surgiram na distância, eles vestiam mantos escuros e no peito, carregavam o mesmo símbolo encontrado na estrada e na biblioteca.
— Entreguem-no! — Um deles levantou uma espada e a apontou para Daiquiri. — Estamos esperando por você!
Maria lançou uma magia contra o chão, criando uma barreira de luz, João disparou uma flecha e Alexander avançou contra eles, então a batalha começou.
Os seguidores de Azoth eram mais fortes do que qualquer inimigo que havia, enfrentado desde que haviam se tornado um grupo. Eles usavam magia combinada em suas armas e pareciam conhecer as habilidades do grupo antes mesmo que as vissem em ação. Um deles desviou de uma flecha de João antes que ele sequer tivesse terminado de puxar o arco.
— Eles parecem prever o futuro! — gritou João.
— Então vamos mudar o futuro! — Alexander gritou enquanto derrubou dois dos inimigos e avançou contra o terceiro.
Daiquiri lutava ao lado dele, sentindo algo estranho percorrer seu corpo, a cada golpe sua espada parecia ficar mais leve. Um dos seguidores caiu diante dele e Daiquiri levantou a espada para finalizá-lo e então ouviu uma voz.
"Daiquiri".
A voz não vinha do inimigo, dos amigos ou de Edran, a voz parecia vir de dentro dele. Daiquiri congelou e não conseguiu finalizar o inimigo, ele se levantou do chão e sorriu para o garoto.
— Está acordando, não está? — o homem começou a rir.
A energia dentro de Daiquiri explodiu, e por um instante, uma aura negra cobriu completamente o seu corpo, os seguidores recuaram enquanto pronunciavam um cântico em uma linguagem não conhecida.
Daiquiri caiu de joelhos, enquanto via seus amigos recuando com uma expressão de medo, ele sentiu um ar gelado entrar pelo seu corpo e ouviu a voz voltar de forma mais clara e mais próxima: "Eu finalmente te encontrei, você carrega algo que me pertence..."
— Sai da minha cabeça! — ele apertou a cabeça entre as mãos.
A frase veio acompanhada de uma sensação de calor tão intensa que Daiquiri quase desmaiou, ele viu Marina tentar correr até ele, ele tentou falar algo, mas outra voz falou através de seus lábios em uma voz que não era a sua.
— Finalmente...
Marina congelou, João abaixou o arco e Alexander ergueu a espada, eles estavam assustados, completamente surpreendidos com o que estavam vendo. Os olhos de Daiquiri estavam diferentes, ficaram assim por alguns segundos e então voltaram ao normal, quando Daiquiri caiu para frente, inconsciente.
O líder dos seguidores observou a cena e sorriu.
— É ele! Agora sabemos! — ele guardou a espada. — O receptáculo está aqui preparado para recebê-lo.
Antes que Alexander pudesse reagir, os cultistas desapareceram pelo corredor pelo caminho de onde haviam aparecido, ele até tentou correr atrás deles, mas Marina gritou para que ele não fosse, e olhou para Daiquiri.
— Eles não estavam tentando matar a gente — disse ela. — Eles vieram para confirmar alguma coisa.
Alexander, guardou sua espada e colocou Daiquiri sobre os ombros, começou a caminhar para que saíssem depressa daquele túnel.
Em determinado momento começou a recuperar a consciência, e olhou lentamente para Marina, mas novamente fechou os olhos, mas Marina já havia percebido seu lento despertar.
— Daiquiri... O que você escutou? — ela tocou o braço dele.
Ele abriu novamente os olhos, mas não respondeu imediatamente, olhou ao redor e viu que ela estava carregando livro, em seguida ele olhou para a escuridão do túnel.
— Alguém falou comigo — Daiquiri respirou fundo. — Disse que eu carregava algo que era dele.
Ninguém comentou nada, o silêncio era absoluto.
Porque, pela primeira vez, os quatro entenderam que o problema não estava simplesmente atrás deles, o problema estava dentro de Daiquiri. E, em algum lugar muito distante dali, uma antiga prisão começava a ruir.
Thoughts
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PermalinkA letra do pai. Pesou.
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PermalinkO Edran com o pé e o nariz magoados, e ainda a guardar o segredo. Esse homem aguenta tudo menos falar.
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PermalinkOs túneis estão fechados há duzentos anos e o Ezekiel usava-os para trabalhar em paz, portanto o Edran sabe da chave mais do que diz. Foi o próprio Ezekiel que pôs aquela fechadura na estante?
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PermalinkEzekiel repartindo as pesquisas entre Valdora, Arken e lugares que nem o Edran conhece me fez pensar num pai que já contava com não voltar e deixou migalhas para quem viesse depois. Aposto que a página arrancada está numa dessas cidades, esperando o Daiquiri. Obrigado por compartilhar o capítulo!
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PermalinkA página arrancada logo depois da parte sobre a família me deixou mais presa ainda na figura pálida do capítulo 2. Quem arrancou sabia o que tinha ali, e eu aposto no próprio Edran.
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