Ficou-me a mãe a rever a internet inteira durante cinco dias e a guardar tudo para entrar na loja só com uma dor nas costas. Li aí menos teimosia do que uma paciência com prazo, dessas que se vêem melhor de fora.
C 013: Sofá, artigo científico, pula-pula
Pensamento
Ficou-me a mãe a rever a internet inteira durante cinco dias e a guardar tudo para entrar na loja só com uma dor nas costas. Li aí menos teimosia do que uma paciência com prazo, dessas que se vêem melhor de fora.
Conteúdo da publicação
séries crônicas.
Era uma manhã como muitas outras na semana. Estávamos na sala de espera, aguardando o término da última terapia da manhã. Minha filha saiu feliz, sorrindo.
— Tudo certo, mãe — afirmou a terapeuta sorrindo. — Ela fez todos os exercícios e está evoluindo muito bem. Você tem alguma coisa para relatar? — perguntou a terapeuta.
— Nada de importante de ontem para hoje, ela dormiu bem e hoje está bem disposta. Mas tenho percebido que ela está com muito interesse em pula-pula — falei, sorrindo. — Ontem a levei para brincar, ela pulou bastante e chorou muito porque não queria sair. Mas cansou o corpo e dormiu bem.
— Isso é ótimo! Cansar o corpo para que ela consiga dormir sem precisar tomar a melatonina.
— Verdade — afirmei.
— E pular ajuda a desenvolver novos neurônios — concluiu ela.
— Vou pesquisar sobre os benefícios. Obrigada. Até amanhã.
À tarde, ela foi para a escolinha, e assim se passaram cinco dias. Nesse meio tempo, eu já havia revirado a internet, encontrado alguns artigos científicos e assistido a vários vídeos de neurologistas falando sobre os benefícios de pular em trampolim: estímulo da neuroplasticidade, novas conexões neurais, aumento da dopamina, melhora no humor e na coordenação, ativa os dois hemisférios cerebrais ao exigir ritmo, equilíbrio e atenção espacial, além da saúde cardiovascular. E já era a vigésima vez que eu tentava argumentar com meu marido para comprarmos um.
— Você precisa entender: não temos lugar nessa casa para um pula-pula. Só se tirarmos o sofá, mas aí vamos ver TV onde? Ou vamos tirar a mesa de jantar e comer onde? Não temos espaço físico dentro da casa. Não dá para deixar no tempo, ela tem problema respiratório e está frio — ele continuava inflexível.
Duas semanas se passaram.
— Quero trocar o sofá — falei para ele, firme.
— Por que você quer trocar o sofá agora? O nosso está bom.
— Não está. Ele tem mais de cinco anos, está velho e é duro. Quero trocar o sofá.
— Não vamos trocar. O sofá ainda está bom, não precisa trocar.
— Ele é duro, me doem as costas. Vamos trocar.
E lá fomos nós para a loja. Minha filha, de três anos, começou a andar entre os sofás. Encontrou um, subiu e começou a pular nele.
— Eu quero aquele ali, em que ela está pulando.
Meu marido, ainda sem entender, retrucou:
— Não cabe na nossa sala, é muito grande.
— Vai caber, sim — rebati sem piscar.
O vendedor interveio:
— Esse sofá é ótimo. Tem molas flexíveis, é de veludo, fácil de limpar, abre e fica com quase dois metros. Dá até para dormir nele.
— É esse mesmo que eu estava querendo! Quando pode entregar? E tem que levar o velho também quando entregarem esse novo. Vamos pagar. — Olhei para o meu marido, indicando que o assunto já estava encerrado.
O sofá é realmente confortável e tem molas flexíveis. Minha filha passa a maior parte do tempo pulando nele como se fosse um pula-pula. E, no fim das contas, ficou ótimo na sala.
Thoughts
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PermalinkTu deu ao marido todos os argumentos dele, o sofá, a mesa, o frio, e o teu foi uma frase só dentro da loja. Ele nunca soube por que tinha que ser aquele, e a crônica também não diz se ele entendeu depois que a menina começou a pular. Fiquei do lado dele por dois segundos, visse.
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PermalinkFicou-me a mãe a rever a internet inteira durante cinco dias e a guardar tudo para entrar na loja só com uma dor nas costas. Li aí menos teimosia do que uma paciência com prazo, dessas que se vêem melhor de fora.
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PermalinkLi isto de seguida, coisa rara em mim. a miúda a saltar em cima do sofá da loja foi onde fiquei acordada mais tempo do que devia.
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PermalinkAchei super bacana e legal que tem parte de psicologia
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PermalinkJogada de mestre, tchê.
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PermalinkVéi, aquele olhar pro marido no meio da loja fechando o assunto, eu vi a cena inteira. Toda casa tem uma dessas: o homem acha que ainda está decidindo e a mulher já resolveu há duas semanas.
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PermalinkVinte tentativas com artigo científico e no fim quem decidiu a compra foi a menina subindo no sofá da loja. Aposto que o marido já testou as molas também quando ninguém estava olhando, hahaha. E o sofá velho indo embora no mesmo caminhão me pareceu a parte mais esperta do plano todo. Obrigado por seguir com as crônicas por aqui!
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PermalinkFui somando: cinco dias de vídeo de neurologista, vinte rodadas de argumento com o marido, duas semanas de silêncio e aí o sofá duro que dói nas costas. Ele nunca teve chance. Na crônica anterior era chuva e dor de cabeça, nessa ela sai da terapia sorrindo e termina o dia pulando em veludo, e fiquei com a impressão de que o sofá velho saiu de casa sem ninguém sentir falta. O marido já sentou no novo e admitiu que coube?
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