A imagem dos reis virando pó e ele usando os tronos como lenha marcou.
Baralho maldito - Capitulo 2
Benção ou Maldição?
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Pensamento
A imagem dos reis virando pó e ele usando os tronos como lenha marcou.
Conteúdo da publicação
Eu vi montanhas nascerem.
Não montanhas como os homens conhecem hoje — gigantes de pedra cortando o céu —, mas montanhas ainda jovens, quando eram apenas dunas esquecidas pelo vento, montes frágeis de areia esperando milhões de anos para aprender a ser eternos.
Eu estava lá.
Vi rios mudarem de direção como serpentes inquietas.
Vi florestas crescerem sobre desertos e desertos engolirem cidades inteiras.
Vi o mar reclamar terras que os homens juravam possuir para sempre.
Vi o destino descer sobre reis vestidos de ouro.
Homens que se acreditavam deuses.
Homens que ergueram impérios com sangue alheio.
Vi todos eles se transformarem em pó.
E usei os restos de seus tronos como lenha para aquecer minhas noites.
O tempo queimou em muitas das minhas fogueiras.
Minhas botas envelheceram mais vezes do que consigo contar.
O couro está gasto.
As solas estão finas.
As costuras falham.
Mas, de alguma forma cruel, elas nunca se desfazem completamente.
Assim como eu.
Já vivi sob mil nomes.
Cada século me obrigava a abandonar o anterior.
Já fui mercador.
Soldado.
Pirata.
Monge.
Assassino.
Rei sem coroa.
Mendigo sem pátria.
Já chamei inúmeras cidades de lar.
E deixei todas para trás.
Cruzei oceanos suficientes para esquecer quantos mares existem no mundo.
Atravessei continentes antes que recebessem os nomes que hoje carregam.
Mas existe uma lei cruel que me acompanha:
tudo o que eu toco o tempo consome.
Casas desmoronam.
Objetos desaparecem.
Fotografias desbotam.
Pessoas morrem.
E meu nome...
meu verdadeiro nome...
foi apagado há tanto tempo que às vezes acredito nunca ter existido.
O que sobra é apenas a lenda.
Uma história contada em sussurros.
Um homem que nunca envelhece.
Um rosto repetido em retratos separados por séculos.
Já tive grandes amores.
Mulheres que juraram envelhecer ao meu lado.
Homens que chamaram minha amizade de eterna.
Inimigos que prometeram me destruir.
Hoje todos são apenas fantasmas.
Sombras antigas vivendo dentro da minha memória.
A cova me recusa.
O céu fecha seus portões.
O inferno não parece interessado.
Minha sentença pertence a algum lugar entre todos eles.
Eu implorei por descanso.
Pedi pela morte como homens pedem por milagres.
Supliquei pelo fim.
Mas a morte parece ter esquecido meu nome.
Ou talvez se recuse a pronunciá-lo.
Sou um prisioneiro da própria eternidade.
Preso à luz de cada novo amanhecer.
Como um peixe condenado a ver o anzol para sempre sem jamais conseguir mordê-lo.
As pessoas chamam isso de dádiva.
Imortalidade.
Poder.
Milagre.
Não sabem do que falam.
Eternidade não é presente.
É corrente.
Pesada.
Fria.
Inquebrável.
O mundo continua girando em círculos.
A história muda apenas os figurinos.
Os homens repetem os mesmos erros com armas diferentes.
Guerras renascem com novos nomes.
Ódio troca de bandeira e continua igual.
E eu permaneço.
Sempre de pé.
Sempre sobrevivendo.
Sempre o alvo que nenhuma flecha consegue alcançar.
Caminho por estradas que não levam a lugar algum.
Sem destino.
Sem lar.
Carregando séculos inteiros nas mãos cansadas.
Carregando memórias demais para um único coração suportar.
Às vezes grito para o céu.
Exijo respostas dos anjos.
Outras vezes grito para a escuridão.
Exijo respostas do vazio.
— Por que todos partem... e eu fico?
Nenhuma voz responde.
Nenhum deus se manifesta.
Nenhum demônio ri.
Existe apenas silêncio.
E aprendi, depois de eras suficientes...
que o silêncio é a resposta mais cruel de todas.
Porque o tempo pode destruir reinos.
Pode apagar nomes.
Pode matar amores.
Pode desfazer todos os laços que os homens criam.
Mas há certos nós...
certas maldições...
que nem o próprio tempo consegue desatar.
Tudo por conta de um par de valetes.
Thoughts
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PermalinkSe o silêncio é a resposta mais cruel, então nenhuma morte, nenhum céu ou inferno é tão ruim quanto não ouvir nada? É por isso ele segue?
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PermalinkA imagem dos reis virando pó e ele usando os tronos como lenha marcou.
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PermalinkUm par de valetes no final tipo 'foi só culpa disso?' kkk que jeito de terminar
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PermalinkPor que todos partem e ele fica? Essa pergunta que ele faz no final, você já tem resposta ou a gente descobre junto conforme escreve?
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PermalinkCarregar séculos nas mãos cansadas. Eu entendo isso de uma forma diferente agora.
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PermalinkEsse capítulo 2 chega pesado demais. Qual é a história da maldição? O que aconteceu no capítulo 1 que levou a isso?
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PermalinkBotas envelhecendo mais vezes do que consegue contar. Isso é tudo 💀
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PermalinkEle tentou construir algo que durasse? Ou sempre soube que tudo que toca o tempo consome?
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