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Capítulo 8 - Café Amargo

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A recusa dele faz sentido. Tem gente que ja sabe o que quer e nenhuma promocao muda aquilo.

A recusa dele faz sentido. Tem gente que ja sabe o que quer e nenhuma promocao muda aquilo.

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Capítulo 8 - Café Amargo

A oficina cheirava a óleo, metal quente e café - sempre café, numa mistura que qualquer outra pessoa provavelmente acharia enjoativa, mas que, para Dario, era só o cheiro de estar em casa.

Ele acordou antes do sol nascer de verdade, como sempre, e a primeira coisa que fez, antes mesmo de calçar as botas direito, foi caminhar até a bancada onde a caneca esperava.

Não era uma caneca comum. Nunca tinha sido.

O corpo de metal escovado escondia uma engenhoca inteira dentro de compartimentos que só ele sabia abrir na ordem certa. Um pequeno braço articulado descia, pegava os grãos guardados num funil lateral e os despejava num moedor minúsculo embutido na própria alça. Outro braço, do lado oposto, erguia um bico fino que soltava um fio de água já fervendo, vinda de um reservatório aquecido por uma serpentina que ele mesmo tinha soldado, testado e ajustado depois de queimar o próprio dedo três vezes até acertar a temperatura certa.

A água passava pelo pó recém-moído, coava através de um filtro de pano que ele trocava toda semana e caía, pingando devagar, dentro da própria caneca.

Dario observou o processo inteiro como observava todas as manhãs, o mesmo orgulho bobo de sempre brotando no peito ao ver os braços recolherem de volta para o corpo da caneca, prontos, esperando a próxima vez.

- Bom dia pra você também - disse, baixinho, para a caneca.

Bebeu o primeiro gole ainda de pé.

A oficina ao redor dele era um caos que só fazia sentido para uma pessoa no mundo. Pilhas de peças empilhadas em alturas questionáveis, ferramentas penduradas em ganchos que pareciam aleatórios, mas seguiam uma lógica interna que ele conseguia acessar de olhos fechados, protótipos inacabados espalhados por cada superfície livre.

Um braço mecânico sem os dedos. Uma engrenagem que girava sozinha só para provar que conseguia. Um relógio de parede desmontado havia meses porque ele “ia consertar depois” e nunca tinha tempo.

Encostado contra a parede, meio escondido atrás de uma pilha de livros, um caderno permanecia aberto na mesma página. Um desenho técnico feito por mãos mais jovens e menos seguras que as dele, uma planta antiga de algo que os dois tinham tentado construir juntos anos atrás e nunca terminado.

Ele nunca guardava aquele caderno de volta na estante.

Sentou-se na bancada principal, puxou um protótipo qualquer para perto, um sistema de filtragem que deveria funcionar nos fornos das caldeiras menores, mas que ainda vazava ar do jeito errado, e começou a trabalhar, resmungando explicações para ninguém enquanto ajustava uma peça de cada vez.

- Não, não, isso não vai funcionar assim. O ângulo tá errado. Se eu inclinar aqui...

Girou uma pequena engrenagem, testou e balançou a cabeça, insatisfeito.

- Melhor uma cabeça com um parafuso a menos do que uma viga.

Foi nesse instante que a porta lateral se abriu, deixando entrar um pouco da luz fraca da manhã.

Um garoto magro, de talvez dez anos, entrou com um pano surrado amarrado na cabeça, deixando escapar mechas de cabelo castanho ondulado. O rosto estava sujo de graxa numa mancha que já parecia permanente.

- Fumaça - disse Dario, sem erguer os olhos do trabalho. - Chegou cedo hoje.

- Achei um monte de coisa boa perto do mercado velho.

O garoto tirou a mochila das costas e começou a esvaziar o conteúdo sobre um canto livre da bancada. Parafusos enferrujados, um pedaço de tubo de cobre amassado, algo que parecia ter sido uma dobradiça em outra vida.

- E o café tá em promoção lá no mercado central. Vi o preço caindo enquanto passava.

Dario ergueu os olhos pela primeira vez, um brilho genuíno de interesse cruzando o rosto.

- Em promoção quanto?

- Uns bons trocados a menos por saco.

- Você é um anjo enviado dos céus, Fumaça.

- Sou um garoto com fome, Dario.

Dario riu, baixo, e se levantou. Foi até um pote de metal escondido atrás de um monte de fios enrolados, tirou de dentro um pedaço de pão e um punhado de fruta seca e entregou tudo ao garoto sem cerimônia.

- Senta aí. Come. E não mexe na minha bagunça, já te falei isso.

- Isso não é bagunça. Isso é uma ameaça à segurança pública.

Fumaça já estava com a boca cheia de pão quando se sentou no lugar de sempre.

- É organização.

- É bagunça com nome bonito.

Dario ia responder, provavelmente com algo igualmente sarcástico, quando o som de passos firmes e cadenciados no corredor externo o interrompeu.

Reconheceu o ritmo antes mesmo de ver quem era. Pesado demais para ser uma visita casual, medido demais para alguém que estivesse ali por acaso.

O sorriso desapareceu do rosto de Dario.

- Fumaça. Fundo da oficina. Agora.

O garoto não perguntou por quê. Só pegou o resto da comida e desapareceu atrás de uma cortina de lona pendurada entre duas prateleiras, silencioso como só quem crescera precisando ser silencioso conseguia ser.

Dois representantes do Conselho entraram sem bater. Um homem alto, de farda cinza-escura impecável, e uma mulher mais baixa, carregando uma prancheta que parecia nunca sair da mão dela.

Dario não se levantou.

Continuou debruçado sobre o sistema de filtragem, os dedos ajustando uma peça minúscula com uma chave de fenda que tirou do próprio cinto sem nem precisar procurar.

- Dario Kamado - disse o homem, o tom formal o suficiente para soar quase cômico dentro daquela bagunça toda. - Viemos em nome do Conselho.

- Imaginei.

A mulher consultou a prancheta, pigarreando antes de começar a falar.

- O Conselho reconhece seu trabalho. Seu potencial é grande demais para ser desperdiçado nesta condição.

Dario continuou trabalhando.

Ela falou sobre o valor do trabalho dele. Sobre o potencial desperdiçado. Sobre uma vaga dentro do próprio Conselho, desenvolvendo tecnologia para manutenção estrutural de Nova Arcádia.

Falou sobre a remoção do Relógio.

Sobre a ascensão à ala Civil.

Sobre tudo que qualquer Engraxado sonharia ouvir uma vez na vida.

Dario deixou a voz dela virar ruído de fundo enquanto os dedos continuavam trabalhando. Girando. Ajustando. Testando o encaixe de uma válvula pequena demais para qualquer outra pessoa notar que estava torta.

Quando a mulher finalmente terminou, o silêncio se estendeu por um segundo longo demais.

- Já terminaram? - perguntou Dario, ainda sem erguer os olhos.

- Terminamos - respondeu o homem.

Dario largou a chave de fenda sobre a bancada com um clique seco e finalmente ergueu o rosto.

- Não. A resposta é não. A mesma da última vez. E vai ser a mesma da próxima.

O homem e a mulher trocaram um olhar breve.

- Qualquer pessoa nesta cidade daria a própria vida para estar no seu lugar - disse o homem, a voz subindo de leve. - E você está jogando essa oportunidade fora, sem nem considerar.

- Qual oportunidade?

Dario se levantou, limpando as mãos sujas de graxa numa toalha pendurada no cinto.

- Ser cachorro do Conselho? Não, obrigado.

O silêncio que se seguiu carregava um peso diferente.

A mulher fechou a prancheta com um gesto brusco.

- Você vai se arrepender dessa arrogância, Kamado.

- Já ouvi isso antes também.

O homem não respondeu.

Antes de sair, porém, lançou um último olhar para a oficina.

Não para Dario.

Para as bancadas.

Para os protótipos.

Para o caderno aberto sobre a estante.

Foi rápido. Quase imperceptível.

Mas Dario percebeu.

Os dois saíram sem dizer mais nada. Os passos firmes ecoaram pelo corredor até desaparecerem.

Dario ficou parado diante da porta fechada.

Só então percebeu que ainda segurava a toalha entre os dedos.

Olhou para a porta por mais alguns segundos.

Depois voltou para a bancada.

A caneca começou novamente o processo de preparar o café. Grãos. Água. Vapor.

- Você pode sair, Fumaça.

O garoto surgiu de trás da cortina, os olhos ainda arregalados.

- Eu ouvi tudo - disse, sentando-se de volta no banquinho. - Você é louco, sabia? Eles iam tirar seu Relógio. Você ia virar Civil.

- Eu sei o que eles ofereceram.

- E você disse não. De novo.

- E vou continuar dizendo.

Dario serviu o café numa segunda caneca, comum, sem mecanismo nenhum, e entregou ao garoto, que aceitou com as duas mãos.

- Vem. Deixa eu te mostrar uma coisa.

O teto da oficina era alcançado por uma escada de metal enferrujada nos fundos do prédio. Dario subiu na frente, os passos automáticos de quem já tinha feito aquele caminho centenas de vezes.

Lá em cima, o vento de Nova Arcádia batia mais forte, carregando o cheiro distante das caldeiras principais, e as luzes da cidade se espalhavam abaixo deles numa mistura de âmbar e fumaça.

Dario sentou-se na beirada, as pernas penduradas para fora.

- Meu melhor amigo e eu ficávamos aqui quando éramos crianças.

Fumaça sentou-se ao lado, mais cauteloso com a altura.

- A gente ficava vendo os Âncoras saindo pras descidas. Ele sempre dizia que ia ser o melhor Âncora que Nova Arcádia já tinha visto.

- E ele conseguiu?

Dario olhou para o horizonte.

- Conseguiu. Ele tá lá agora. Descendo de verdade. Vivendo aquilo que só ficava imaginando daqui de cima.

Fumaça ficou em silêncio por um instante.

- E você?

Dario sorriu de canto.

- Eu encontrei o meu também.

Bateu de leve na própria têmpora com o dedo.

- Aqui dentro.

Fumaça olhou para ele.

- Então você não queria ser Civil?

- Não.

- Mesmo ganhando mais?

Dario tomou um gole do café.

- Tem coisa que vale mais quando ninguém consegue colocar um preço nela.

Fumaça ficou olhando para as luzes da cidade.

Dario apoiou os braços nos joelhos.

- Você também vai precisar achar o seu, sabia?

- O quê?

- Alguma coisa que seja só sua.

Fumaça permaneceu em silêncio.

- E se eu não achar?

Dario deu um sorriso torto e bateu de leve no ombro do garoto.

- Então continua procurando.

Fumaça não respondeu.

Ficou olhando para as luzes lá embaixo, o café esfriando devagar nas mãos pequenas.

Por um instante, a cidade inteira pareceu feita de fumaça e promessas.

Thoughts

  • duvidaHonesta

    Fumaca entendeu tudo.

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  • oquefaltadizer

    O que tá faltando na história dele é por que o Conselho olhou pra tudo o que Dario construiu e pensou que conseguia comprar aquilo.

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  • Ovid

    Que belo. Vai postar o proximo capitulo?

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  • mesaDeBar

    Esse moço recusou uma ala Civil inteira porque prefere um garoto que chama de Fumaca e uma caneca. Ta certo na testa dele.

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  • homeOfficeFake

    A recusa dele faz sentido. Tem gente que ja sabe o que quer e nenhuma promocao muda aquilo.

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  • guardo_uma_frase

    A frase do café que só ele consegue operar de manhã. Dario achou sua bagunça e point.

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