O caderno do Adrian, com a planta medida visita a visita, é a prova que Nova Arcádia não quer ver, e ele está juntando isso sozinho sem contar a ninguém. Agora aparecem pegadas de outra pessoa em volta dela. Meu palpite é que quem passou ali também sabe da planta, e isso vai pesar mais que a caixa do tio. Obrigado por seguir postando os capítulos!
Âncoras
Capítulo 10 - Passos Errados
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Pensamento
O caderno do Adrian, com a planta medida visita a visita, é a prova que Nova Arcádia não quer ver, e ele está juntando isso sozinho sem contar a ninguém. Agora aparecem pegadas de outra pessoa em volta dela. Meu palpite é que quem passou ali também sabe d
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Capítulo 10 - Passos Errados
Adrian estava sentado no chão do alojamento, a caixa entre as pernas cruzadas, os dedos já doloridos de tanto forçar, quando a sombra de Mathias cobriu a luz fraca da lâmpada acima dele.
- Essa é a caixa - disse Mathias. Não era pergunta.
- Não é da sua conta.
Mathias se abaixou de qualquer jeito e puxou a caixa das mãos de Adrian antes que ele conseguisse reagir, virando-a de um lado pro outro, examinando a fechadura estranha com uma curiosidade que não parecia nem um pouco amigável.
- Devolve.
- Calma, só quero ver.
- Devolve, Mathias! - Adrian se levantou de um salto, tentando arrancar a caixa de volta.
Os dois se engalfinharam por ela por um segundo, cada um puxando pro próprio lado, até que o empurrão de Mathias jogou Adrian contra o beliche, o metal ressoando com o impacto.
- Que porra é essa?! - gritou Adrian, avançando de novo.
Foi nesse instante que a porta se abriu.
- Já chega. - A voz de Hollis cortou o quarto inteiro, parando os dois no meio do movimento. Ele avaliou a cena por um segundo - os dois ofegantes, a caixa ainda na mão de Mathias - antes de estender a própria mão. - Me dá isso aqui.
Mathias entregou sem hesitar, aliviado por ter uma desculpa pra soltar o objeto.
Hollis girou a caixa devagar, os olhos correndo pela fechadura, pela gravação apagada na base, examinando com uma atenção que parecia genuína demais pra ser só curiosidade casual. Ergueu os olhos para Adrian.
- Isso já devia ter sido reportado.
- É uma coisa pessoal - disse Adrian, a voz tensa. - Pertencia ao meu tio.
- Assim que voltou do exílio de seu tio, deveria ter reportado isso à Divisão Âncora, pessoal ou não, item não identificado, fica sob custódia do comando até ser esclarecido. - Hollis já guardava a caixa debaixo do próprio braço. - Vou ficar com ela. Vai ser registrada, catalogada, e você poderá retirar assim que o processo terminar. Se terminar.
- Isso é permitido? - A pergunta saiu antes que Adrian conseguisse conter o próprio tom de indignação.
- É o protocolo. - Hollis não se alterou nem um pouco. - E, pelo visto - olhou de um recruta para o outro - vocês dois pararam de conseguir trabalhar juntos há um bom tempo, só ninguém quis admitir isso em voz alta.
Adrian e Mathias se encararam por dois segundos.
- Muller, você vai pro Casulo do capitão Vogel a partir de hoje. - Hollis já se virava para sair. - Keller, se apresenta no hangar sul em vinte minutos. Vai ter um novo companheiro esperando por você lá.
Já na porta, Hollis parou por um instante, sem se virar.
- Vocês dois talvez até sintam falta um do outro. Com o tempo. - A voz saiu quase divertida, o que era raro o bastante pra soar estranho. - Mas vão sobreviver.
Saiu levando a caixa, sem esperar mais nenhuma palavra.
Marco já estava lá quando Adrian chegou, ajustando a última fivela do próprio traje, o sorriso de sempre no rosto.
- Ouvi dizer que você e o Muller decidiram fazer um showzinho - disse, sem erguer os olhos. - As paredes aqui são finas, Adrian. Todo mundo já sabe. Bem-vindo à minha dupla, já que a sua deu problema.
- Não quero falar sobre isso.
- Tudo bem, eu também não. - Marco bateu a mão no ombro de Adrian, uma vez, forte. - Vamos, antes que alguém mude de ideia de novo.
O Casulo desceu com os quatro - Hollis e Bruck à frente, Adrian e Marco sentados um de frente para o outro, as correntes rangendo no ritmo de sempre.
- Você sabe que eu já desci com o Muller uma vez, né? - disse Marco, quebrando o silêncio depois de um tempo. - Algumas semanas atrás, ele passou a descida inteira reclamando de tudo, do traje, do capacete, do jeito que a névoa grudava na viseira e no fim, eu perguntei se ele queria trocar de lugar com alguém, e ele disse que não.
- Por quê?
-Porque ninguém mais aguentava ele. - Marco riu baixo, sem maldade. - Ele sabia disso. Preferia reclamar sozinho a reclamar pra alguém que ia desistir de ouvir.
Adrian ficou quieto, sem saber o que dizer.
- Não tô defendendo ele, longe disso. - Marco ergueu as mãos, o sorriso ainda ali, mas mais sério agora. - Só tô dizendo que o Muller é um cara que carrega as coisas sozinho, do jeito dele. Igual você. Vocês dois são mais parecidos do que qualquer um de vocês admitiria.
- A gente não é parecido.
- Claro que não. - Marco deu de ombros. - Só que quando eu olho pra vocês, penso que até pudessem ser irmãos.
Adrian ficou em silêncio, pensativo. O Casulo continuou descendo, o silêncio voltando a preencher o espaço entre eles, mas um silêncio diferente agora - mais leve, menos vazio.
- Você tem irmãos? - perguntou Adrian.
- Tinha um, mais velho, acabou morrendo na superfície, há uns seis anos. - A voz de Marco não mudou de tom, mas os olhos desviaram por um instante. - Ele era Âncora também, pra mim ele sempre vai ser o melhor que eu já vi.
- Sinto muito.
- Não precisa. - Marco ergueu os olhos de novo, o sorriso voltando devagar. - Ele fez o que queria fazer e eu também tô fazendo, é mais do que a maioria consegue dizer.
As portas se abriram antes que Adrian pudesse responder.
Formaram o losango de sempre, Hollis à frente, Adrian e Marco nas pontas, Bruck fechando a retaguarda. A névoa recebeu os quatro com a densidade habitual, o cheiro metálico infiltrando através dos filtros, o silêncio pesado da superfície cobrindo tudo como um lençol.
- Quarenta minutos - disse Hollis, já apontando direções. - Bruck pro norte, marco a oeste, eu fico no sul e Adrian vai para sudeste. Quando o tempo acabar, o Casulo já estará chamando vocês de volta.
Adrian assentiu, ajustando a direção do próprio traje, e se afastou do grupo sem olhar para trás.
Assim que a formação se dividiu e as silhuetas dos outros três desapareceram na névoa, Adrian mudou de direção. Os passos calculados, o ritmo calmo demais para quem estava desviando da rota designada - um desvio pequeno, quase imperceptível, mas suficiente para levá-lo onde precisava ir.
A planta continuava exatamente onde ele tinha deixado, meses atrás - só que maior agora, as folhas mais numerosas, um segundo broto brotando de um ponto que antes era só terra nua ao lado do original.
Adrian se ajoelhou devagar, tirando o caderno de dentro do próprio traje.
- Você cresceu - sussurrou, quase rindo da própria bobagem, mas incapaz de se conter. - Olha só você.
Mediu a altura com os dedos, comparando com a marca que tinha deixado na página anterior. Anotou a cor - um verde mais escuro agora, quase carregado de um tom que ele não tinha visto na primeira vez. Desenhou o segundo broto com cuidado, os traços mais seguros do que tinham sido meses atrás, a mão já acostumada com o formato das folhas, com a curva específica das bordas.
Virou algumas páginas para trás, revisando o próprio histórico - cada visita catalogada, cada centímetro de crescimento registrado como se fosse ciência séria, como se ele fosse algum tipo de pesquisador clandestino documentando a única coisa viva de verdade que Nova Arcádia se recusava a admitir que existia.
Foi então que notou.
No solo mais macio ao redor da planta, marcas rasas, quase apagadas pela poeira que a névoa constante depositava sobre tudo - o formato inconfundível de passos, botas talvez, um atrás do outro, seguindo uma direção específica antes de desaparecerem completamente onde o chão se tornava mais firme, mais rochoso.
Adrian ficou paralisado, o lápis parado no ar.
Aquilo não era formação natural de terreno. Não era vento, não era erosão.
Eram pegadas.
Do tamanho de um adulto. E seguiam numa direção específica - noroeste, longe da rota que qualquer um dos quatro tinha recebido.
Adrian fechou o caderno depressa, guardando-o de volta no traje, e seguiu as pegadas por alguns metros antes que elas desaparecessem de vez na rocha. Ficou parado ali, o coração batendo rápido, tentando decidir o que fazer.
Foi quando o rádio crepitou.
- Adrian. - A voz de Marco, baixa, com um tom que Adrian ainda não tinha ouvido nele. - Muda de rota. Noroeste. Tem uma coisa aqui que você precisa ver.
- O que é?
- Uma guarita antiga, dee antes da guerra, pelo menos eu acho que é.
Adrian olhou para as pegadas que sumiam na rocha, para a direção noroeste, e sentiu um frio subir pela espinha.
- Estou indo.
Encontrou Marco parado na entrada de uma estrutura de concreto reforçado, parcialmente soterrada, mas ainda mantendo parte da forma original - um bloco baixo e comprido, com aberturas estreitas na parte superior que deviam ter servido de postos de observação, agora só buracos escuros encarando a névoa.
- Isso aqui é antigo de verdade - murmurou Marco, a voz carregando um respeito estranho pelo lugar. - Acha que deveríamos entrar?
- Bom... - Adrian olhou em volta, passou os olhos pela estrutura. - Podem ter recursos que seriam bons para Nova Arcádia, e me parece que ainda não foi explorado, não vi nada disso nas planilhas de reconhecimento.
Marco sinalizou então com a cabeça, e os dois entraram.
O feixe da lanterna cortando a escuridão densa, o cheiro de metal enferrujado e poeira compactada mais forte ali dentro do que em qualquer outro lugar que já tinham visitado.
Tudo parecia manter parte da forma original - restos de estantes de metal enferrujadas ainda seguravam, tortas, o que pareciam ser suportes para armas há muito tempo removidas ou destruídas. Um símbolo pintado na parede, quase completamente apagado, mostrava o contorno de uma bandeira que nenhum dos dois reconheceu.
- Olha isso - disse Marco, apontando para o chão.
Foi quando Adrian viu o objeto meio enterrado, próximo a uma das antigas estantes de armas - um cilindro pequeno, escuro, com um padrão de sulcos na superfície que não parecia natural.
Adrian se aproximou por trás, agachando-se ao lado dele. Os dois ficaram parados ali por um instante, a lanterna varrendo o padrão gravado no metal, tentando entender aquela geometria que não combinava com nenhum resto de máquina ou estrutura que já tinham visto antes.
- Não mexe - disse Adrian, esticando o braço sem pensar, a mão travando no ar antes de tocar Marco, um alerta subindo pela espinha sem forma definida.
Tarde demais. O pé de Marco deslocou um pedaço de entulho ao se equilibrar, e o som que veio em seguida não foi um estalo qualquer - foi um clique mecânico, seco, seguido de um silvo curto.
- Corre! - gritou Adrian, já se lançando para trás.
A explosão não foi grande, mas foi suficiente. A estrutura de concreto acima deles, já fragilizada pelas décadas, cedeu com um estrondo de metal e pedra dobrando sobre si mesma, uma nuvem de poeira e destroços despencando entre os dois num segundo que pareceu durar muito mais que isso.
Quando a poeira começou a assentar, Adrian tentou se mover e sentiu o próprio cabo travar com violência, preso em algum ponto sob a nova pilha de escombros.
- Desgraça! - tentou puxar o cabo mais uma vez, sem sucesso. - Marco, aonde você está?
- Aqui! - A voz dele, tossindo, vinda de perto, mas abafada. - Sei que tudo caiu, mas olha essa boca aí.
Adrian soltou uma risada sem fôlego, o alívio vindo antes mesmo de entender a própria situação.
- Você tá bem?
- Mais ou menos. - A voz de Marco ficou mais baixa. - Acho que estaria melhor se conseguisse me mexer.
Adrian soltou seu cabo e foi se arrastando seguindo a voz, encontrando Marco parcialmente soterrado, uma viga de concreto cruzando sobre as pernas dele, pesada demais para qualquer um dos dois mover sozinho.
- Comandante! - chamou Adrian no rádio, a voz alta demais. - Tivemos um incidente, precisamos de...
- Têm três minutos - disse Hollis, a voz sem nenhuma variação. - Se não estiverem no ponto de extração, o protocolo segue sem vocês.
- Temos um problema - respondeu Marco, a voz forçadamente calma. - O cabo do Adrian ficou preso nos escombros. E eu... E eu acabei ficando preso aqui.
- Não conseguiremos ir até aí, os cabos serão puxados em três minutos, então resolvam isso - disse Hollis, cada sílaba pesando mais que a anterior. - Agora.
Thoughts
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PermalinkO Adrian não sai dali sem o Marco, isso é certo. O problema é que o Hollis também não está a fazer bluff nenhum, e alguém fica mesmo lá em cima.
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PermalinkO caderno do Adrian, com a planta medida visita a visita, é a prova que Nova Arcádia não quer ver, e ele está juntando isso sozinho sem contar a ninguém. Agora aparecem pegadas de outra pessoa em volta dela. Meu palpite é que quem passou ali também sabe da planta, e isso vai pesar mais que a caixa do tio. Obrigado por seguir postando os capítulos!
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PermalinkVou juntar as peças. Hollis leva a caixa do tio falando em protocolo, olha a gravação apagada da base com atenção demais, e no mesmo dia separa o Adrian do Mathias e manda ele pro hangar sul. Pra mim a troca de dupla tem mais a ver com a caixa do que com a briga no alojamento. Você já tinha decidido quem deixou as pegadas perto da planta quando escreveu este capítulo?
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