Epá, o Dario sabe mais do que diz. Aquele encolher de ombros veio depressa demais para quem só ouviu falar da caixa uma vez há anos, e a chave já passou pelas mãos dele.
Âncoras
Capítulo 9 - Mesma Estrela
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Pensamento
Epá, o Dario sabe mais do que diz. Aquele encolher de ombros veio depressa demais para quem só ouviu falar da caixa uma vez há anos, e a chave já passou pelas mãos dele.
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Capítulo 9 - Mesma Estrela
A porta da biblioteca era mais discreta do que Adrian esperava - sem placa grande, só uma pequena inscrição de metal acima do batente, quase apagada pelo tempo. Ele hesitou um segundo antes de empurrá-la, sem saber ao certo o que esperar lá dentro.
O ar era diferente do resto de Nova Arcádia assim que ele entrou - mais parado, mais seco, carregado de um cheiro de papel envelhecido e poeira compactada que parecia mais antigo que qualquer outra coisa na cidade voadora. O som dos próprios passos se abafava contra um tapete surrado demais pra lembrar a cor original, e as estantes de ferro subiam até um teto que ele mal conseguia enxergar na penumbra, fileira após fileira desaparecendo na escuridão do fundo do salão.
Atrás de um balcão de madeira escura, iluminado por uma única lâmpada a vapor pendurada baixa, uma mulher fumava um cigarro fino, os olhos fixos num caderno de registro aberto à sua frente. O rosto dela não se moveu quando Adrian se aproximou - nem em direção a ele, nem em qualquer outra direção.
Na parede logo atrás dela, uma placa de metal enferrujada dizia, em letras que já perdiam a tinta: PROIBIDO FUMAR. A cinza do cigarro caía, de tempos em tempos, direto sobre o próprio caderno de registro, sem que ela parecesse notar ou se incomodar.
- Silêncio absoluto. Nenhum livro sai sem registro. Nenhuma página é arrancada, dobrada ou marcada. - A voz saiu monótona, recitada, palavra empilhada sobre palavra sem pausa nem ênfase. - Devolução em setenta e duas horas. Assine aqui.
Adrian assinou onde ela apontou, sem que ela erguesse os olhos para conferir.
- Estou procurando livros sobre biologia. Radiação. Vida na superfície, se existir alguma coisa assim catalogada.
A caneta dela parou de se mover por um instante - o mesmo tipo de pausa breve que Adrian não saberia dizer se era genuína ou só o hábito dela de examinar qualquer pedido fora do comum.
- Fileira central - disse, apontando com a caneta sem erguer o resto do corpo. - Seção de ciências naturais.
Adrian ficou parado mais um segundo, reunindo coragem pra uma pergunta boba.
- É permitido fumar aqui dentro?
Ela ergueu os olhos por cima da armação dos óculos, sem levantar o rosto, o mesmo movimento exato que Adrian sentiu como se já fosse ensaiado pra qualquer pergunta indesejada. Deu uma tragada longa, encostou o cigarro de volta no cinzeiro, e voltou a escrever sem dizer uma palavra.
Adrian entendeu, ali mesmo, que aquela seria toda a resposta que receberia.
A fileira central era mais densa do que ele esperava - volumes grossos sobre anatomia animal pré-guerra, tratados de botânica com ilustrações desbotadas, um livro fino demais sobre radioatividade que parecia ter sido escrito por alguém que só tinha teorias, nunca provas reais.
Adrian passou os dedos pelas lombadas, puxando um volume de cada vez, sentando-se no chão entre as estantes quando os braços já não aguentavam carregar tanto peso em pé. Um livro descrevia mutações em insetos causadas por exposição prolongada - nada parecido com o que ele tinha visto. Outro falava de solo contaminado e da impossibilidade de qualquer vida vegetal sobreviver nele por mais de algumas semanas - o oposto exato do que ele sabia, em segredo, ser mentira.
Nenhum falava de roedores com olhos duplicados, focinhos partidos ao meio, dentes finos como agulhas. Nenhum falava de folhas crescendo onde a terra deveria estar morta havia décadas.
Passou a manhã inteira ali, anotando o pouco que parecia relevante, cada vez mais frustrado com o silêncio que os livros insistiam em manter sobre exatamente as duas coisas que mais precisava entender.
Devolveu os volumes no balcão quando o tempo já apertava. Takahashi carimbou o registro com um golpe seco, sem erguer os olhos.
- Não esqueceu nada?
Adrian sentiu o corpo travar por um instante.
- Assina aqui seu horário de saída - completou ela, já entediada com a própria pergunta, a caneta estendida.
Ele assinou, sentindo-se um pouco bobo pelo próprio susto, e saiu.
A oficina do Dario cheirava a café antes mesmo de Adrian abrir a porta - um cheiro tão forte e constante que ele já associava aquele lugar a ele antes de qualquer outra coisa.
- Não tenho muito tempo, estava na biblioteca, mas decidi vir aqui um pouco - disse, entrando depressa. - Descida daqui a pouco, mais tarde.
- Passou a manhã inteira enfiado em livro e agora vem correndo? - Dario ergueu uma sobrancelha, sem esconder a zombaria. - Sua noção de pressa é preocupante, Adrian.
Foi então que notou o garoto sentado num banquinho perto da bancada, mastigando um pedaço de pão com total naturalidade, como se aquele lugar fosse dele também.
- Adotou um garoto, foi? - perguntou Adrian, erguendo uma sobrancelha.
- Esse aqui é o Fumaça - disse Dario, sem erguer os olhos do protótipo na bancada, o sorriso já formado. - Ele finge que trabalha pra mim, eu finjo que acredito.
- Eu realmente trabalho - protestou o garoto, a boca ainda cheia.
- Ele acha peças. Eu dou comida. É basicamente um contrato de trabalho perfeitamente justo.
Adrian riu, o peso do próprio dia aliviando um pouco só de estar ali.
- Já faz uns dois meses que você tá nisso, não é? - continuou Dario, finalmente olhando pra ele, um misto de orgulho e cansaço no rosto. - Conseguiu se adaptar?
- Mais ou menos. - Adrian deu de ombros, sem querer se alongar no assunto. - Dario, posso te perguntar uma coisa sobre o meu tio?
O sorriso de Dario ficou mais quieto.
- Pode.
- Ele disse uma coisa antes de ser exilado. "Sempre sigam o sol." Você sabe por que ele diria isso?
Dario ficou em silêncio por um momento, os dedos parando sobre a peça que ajustava, o olhar perdido em algum ponto da própria bancada.
- Seu tio sempre teve um parafuso a menos, sabia? - Um sorriso triste cruzou o rosto dele. - Era por isso que eu gostava tanto dele. Ele lia coisa que ninguém mais lia. Guardava coisa que ninguém mais achava importante guardar. - Deu de ombros, voltando ao trabalho, os dedos girando a chave de fenda entre eles sem realmente ajustar nada. - Nunca me disse o significado daquela frase especificamente. Mas não me surpreenderia se tivesse um.
Adrian sentiu o peito apertar.
- Você pelo menos conseguiu abrir a caixa dele? - perguntou Dario, casual, sem erguer os olhos de novo.
- Como você sabe da caixa? - A pergunta saiu mais rápido do que Adrian pretendia, a voz carregando uma tensão que ele não conseguiu esconder a tempo.
Dario finalmente ergueu o rosto, os dedos parando por completo sobre a peça que segurava. Um instante de hesitação atravessou o rosto dele antes de responder, breve o suficiente pra quase passar despercebido.
- Ele mencionou uma vez, há anos, quando eu ainda vinha aprender com ele. Disse que tinha uma caixa que só abriria as mãos certas um dia. - Deu de ombros, o gesto vindo rápido demais, como se quisesse encerrar o assunto ali mesmo. - Achei que fosse força de expressão, sinceramente. Coisa de velho.
- Não consegui abrir ainda - disse Adrian, já recuando em direção à porta, a mente disparada. - Preciso ir. Obrigado, Dario.
- Adrian... Se cuida.
Mas ele já tinha saído, o sino da porta ainda balançando atrás dele. Fumaça olhou para Dario, a testa franzida, sem entender direito o que tinha acabado de acontecer.
O alojamento estava quase vazio quando ele chegou, apenas Mathias treinando antes da decida, os outros provavelmente já teriam ido para seus casulos, realizar suas expedições.
Tirou a caixa de dentro do armário com as mãos quase trêmulas, sentando-se no chão com ela no colo, a luz fraca da lâmpada a vapor pendurada no teto lançando sombras longas pelo quarto.
Virou a caixa devagar, examinando cada centímetro que já tinha examinado dezenas de vezes antes - a fechadura estranha, uma entrada pra uma chave que não foi entregue junto a caixa.
Mas dessa vez, guiado por algo que não sabia nomear, inclinou a caixa num ângulo que nunca tinha tentado antes, deixando a luz bater bem rente à superfície do metal, quase de raspão.
Foi aí que viu.
Quase invisível, gravada tão de leve que parecia mais um arranhão acidental do que um símbolo intencional - uma pequena estrela, na borda inferior da caixa, do tamanho de uma unha.
O sangue gelou nas veias de Adrian.
Era a mesma estrela do anel. A mesma prata gravada em relevo que ele tinha visto no dedo do homem de casaco cinza, na Ala de Descontaminação, poucas semanas atrás.
Passou o polegar sobre o símbolo, sentindo o metal frio contra a pele, como se o gesto pudesse revelar mais alguma coisa que os olhos não tinham conseguido.
Seu tio não era só um Engraxado com um parafuso a menos. Pertencia a alguma coisa. E se pertencia, o exílio dele talvez nunca tivesse sido apenas castigo.
Thoughts
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PermalinkO vizinho velho que morreu deixou-me uma caixa de livros e vou tirando um de cada vez sem saber o que vem. O teu Adrian com a caixa do tio ao colo é o mesmo, só que a dele está fechada à chave.
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PermalinkEpá, o Dario sabe mais do que diz. Aquele encolher de ombros veio depressa demais para quem só ouviu falar da caixa uma vez há anos, e a chave já passou pelas mãos dele.
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PermalinkA Takahashi deixando a cinza cair em cima do livro de registro, bem embaixo da placa de PROIBIDO FUMAR, me disse mais sobre Nova Arcádia do que qualquer explicação. E depois os livros da fileira central se calam justamente sobre as duas coisas que o Adrian precisa saber. Onde dá para ler os capítulos anteriores? Queria começar do início!
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PermalinkLi o último parágrafo primeiro, como faço sempre. Fiquei com a mão dele no armário fechado e não percebi nada até voltar ao princípio.
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Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.