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A Voz da Minha Amiga Secreta

BELADIA
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Série Crônicas

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Ovid

A pergunta ao pai, sobre que tipo de mãe ela é, me fez pensar em quanto essas frases se preparam sem a gente perceber, em anos de parquinho e de sala de espera. Aposto que ela nunca tinha dito aquilo em voz alta antes daquele dia. Obrigado por seguir traz

A pergunta ao pai, sobre que tipo de mãe ela é, me fez pensar em quanto essas frases se preparam sem a gente perceber, em anos de parquinho e de sala de espera. Aposto que ela nunca tinha dito aquilo em voz alta antes daquele dia. Obrigado por seguir trazendo essas crônicas pra cá!

Conteúdo da publicação

Série Crônicas

Minha amiga secreta não apareceu do nada ou de uma explosão de circunstâncias, mas foi construída, pedaço por pedaço, desde a primeira infância. Ganhou forma por meio da voz meiga e suave da minha mãe a me ensinar que a minha melhor amiga sempre seria eu mesma. Hoje ela é furtiva, esgueirando-se entre meus pensamentos conscientes e inconscientes, apenas para me mostrar a linha fina e delicada da lucidez.

Mais um dia comum, como tantos outros nos últimos cinco anos. Fui despertada às três da madrugada com um chamado: "Mama". É assim que sou chamada pelo meu filho de cinco anos. Ele tem atraso na fala e só agora começa a desenvolvê-la, repetindo monossílabos. Sempre acorda a essa hora; é o seu despertar natural, fruto da melatonina desregulada em seu hipotálamo, em um cérebro ainda em desenvolvimento. Às vezes, acorda feliz; outras, chateado. Chora, grita, expressa a sua frustração... Algo natural para uma criança neurodivergente.

Tudo difere da rotina de uma maternidade típica. Dormir pouco é algo que se normaliza com o passar dos anos na maternidade atípica. Para pais que não lidam com isso, essa privação constante de sono seria uma tortura de guerra diária; para nós, é superada com sorrisos, bocejos e força. No entanto, dormir poucas horas, por dias seguidos, continua sendo a receita perfeita para o caos mental. É exatamente aí, nesse caos, que a minha amiga secreta atua: ela traz luz à minha escuridão e sanidade aos momentos de desespero.

A rotina recomeça. Organizar a mochila, a agenda das terapias, as consultas, o trabalho, a casa. Tudo precisa ser anotado, pois a minha memória curta já não funciona como antigamente. Não há tempo para a vida social adulta. Em uma rara hora livre, a missão é levá-lo ao parquinho para brincar e socializar.

O dia passa rápido, pontuado por pequenos lapsos temporais. Há aqueles momentos em que o menino chora, desregulado, e os minutos parecem se arrastar como horas. Em contrapartida, há o silêncio sereno do trajeto para as terapias ou os instantes em que ele está entretido, adorando as atividades, e as horas escorrem como se fossem meros minutos. Nada é mais lindo do que um sorriso no rosto do próprio filho.

O parque costuma ser caótico. Crianças correm, brincam, gritam. E você fica ali, observando a sua criança com seu interesse restrito, parada, como se o caos ao redor não existisse. O mundo dele se resume ao fascínio de girar o mesmo brinquedo, repetidas vezes, e você o leva ao parque porque lhe disseram que ele precisa socializar.

As outras mães, quase sempre curiosas — mas com aquela curiosidade pontiaguda e um tanto maldosa —, aproximam-se tentando forçar um diálogo. Eu me limito a responder com monossílabos. No fundo da minha mente, a minha amiga insiste: respira e responde.

— É sua aquela criança? — Sim. — Ela parece ser... "diferente". — É... — Ele está ali, brincando de girar aquele brinquedo há mais de trinta minutos. — É...

Dou dois passos em direção ao meu filho, encerrando o interrogatório.

Estou acordada desde as três da madrugada. Já sobrevivi a salas de espera de consultas, a terapias e ao caos escolar. Estou cansada demais para explicar ou para pedir desculpas. A intenção daquela mulher não era ajudar, mas apenas especular, recolher matéria-prima para ter o que falar com as outras mães.

Logo ali perto, um grupo de crianças brinca em roda com uma bola de futebol. Em um movimento inesperado, a bola voa na direção do meu filho, que brincava alheio a tudo. Num puro reflexo de defesa, ele rebate a bola com o braço. Ela ganha velocidade e atinge o rosto de uma criança menor. O menino chora e os pais se aproximam. Meu filho permanece absorto, focado em girar o seu brinquedo.

Os pais da criança machucada esbravejam sua indignação. Aproximo-me e digo:

— Peço desculpas, não foi a intenção dele machucar. Ele apenas se defendeu num reflexo...

O pai da criança, ainda embalando o filho que chorava em seu colo, dispara com raiva:

— Crianças como a sua não deveriam estar em um parquinho como este.

Minha mente se incendeia. Várias perguntas fervem: Como não poderia? Por que não poderia? O que lhe dá o direito de dizer isso? Como consegue viver com tanto preconceito dentro de si?

Ele dá dois passos na direção do meu filho. Imediatamente, coloco-me entre os dois. Fito os seus olhos profundamente.

— O senhor sabe que tipo de mãe eu sou?

Ele recua um passo, parecendo confuso com a pergunta. Prossigo, com a voz embargada por uma calma cortante, sem desviar o olhar:

— Existem dois tipos de mães. Aquela que entregaria o próprio filho para salvar o mundo, e a outra mãe... — Desvio os olhos para a criança em seu colo, com o rostinho ainda vermelho de choro. — A mãe que colocaria fogo no mundo inteiro.

Volto a olhar para aquele pai. A raiva em seu semblante agora cede lugar à compreensão do peso daquelas palavras. Eu sinto muito, mas foi um acidente, diz internamente a voz da minha amiga secreta, a minha razão, puxando-me de volta para a lucidez. Completo, em tom baixo e sereno:

— Peço desculpas. Não foi a intenção dele machucar o seu filho. Foi um acidente.

Ele olha novamente para o meu menino, que continua a girar o brinquedo. Olha para mim. Engole o seu preconceito, resmunga um insulto quase inaudível, vira-se e afasta-se a passos largos.

A noite chega. Deitada na cama, abraçada ao meu filho, leio historinhas para dormir. Quando a história acaba e o cansaço já pesa em seus olhinhos, entre piscadas longas e pálpebras pesadas de sono, ele se concentra nas minhas palavras:

— Hoje foi um dia especial. Foi um dia bom porque você deu o melhor de si. Quero que você se lembre, sempre, de ser bom consigo mesmo. Lembre-se de que você é especial, inteligente, amigo, maravilhoso, esforçado, destemido, corajoso, autêntico e perfeito. Você pode fazer o que quiser. A única pessoa capaz de te limitar é você mesmo. Então, seja o seu melhor amigo. Não se cobre tanto. Todo dia é uma nova oportunidade.

Eu bocejo, vencida pelo cansaço. E a minha voz interior, a minha amiga secreta, sussurra feliz em minha consciência:

— É assim que se constrói um amigo. Um amigo que estará com você para sempre. Você está fazendo um belo trabalho como mãe.

Thoughts

  • brunocosta

    Aquele pai, credo.

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  • Simao

    Aquele pai a dar dois passos para o miúdo meteu-me mais medo do que muita história de fantasmas. Ainda bem que ela se pôs no meio.

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  • Oliviamar

    Fui ao fim antes de tudo e julguei que a amiga era outra pessoa. Afinal é a voz da mãe dela, e agora está a passar para o filho.

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  • Ovid

    A pergunta ao pai, sobre que tipo de mãe ela é, me fez pensar em quanto essas frases se preparam sem a gente perceber, em anos de parquinho e de sala de espera. Aposto que ela nunca tinha dito aquilo em voz alta antes daquele dia. Obrigado por seguir trazendo essas crônicas pra cá!

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  • Rui_Salgueiro

    Pôr-se entre o homem e o miúdo sem levantar a voz. Gostei disso mais do que de qualquer coisa que ela lhe disse.

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