PARTE I — A VERDADE
Agora eu entendo.
Demorei muito para perceber,
mas certas verdades
só aparecem
quando o coração já está cansado demais
para continuar se enganando.
Você nunca me quis
da maneira que eu quis você.
Eu era o lugar
para onde você corria
quando a noite ficava pesada demais.
Quando alguém te machucava,
era para mim que você vinha.
Quando o mundo te rejeitava,
era o meu nome que você chamava.
Eu era o abrigo.
Mas apenas enquanto
a tempestade durava.
Quando o céu voltava a clarear,
você desaparecia.
E eu permanecia.
Esperando.
Acreditando que sua volta
era saudade.
Acreditando que sua presença
era amor.
Mas você voltava
porque precisava.
E eu confundia necessidade
com sentimento.
Confundia solidão
com amor.
Eu era apenas
a escuridão confortável
onde você escondia suas dores
até encontrar uma luz melhor.
Eu era o coração
que você sabia
que sempre estaria ali.
E talvez tenha sido esse
o meu maior erro:
ter transformado permanência
em prova de amor.
Eu te ofereci
lealdade,
sentimento
e verdade.
E você recebeu tudo isso
como se fosse algo comum.
Agora entendo
por que meus gestos
nunca pareciam suficientes.
Por que meu amor
sempre parecia pequeno demais.
Não era falta de esforço.
Era porque eu estava tentando
ser importante
para alguém
que já tinha seu coração
em outro lugar.
Nele.
No homem que você ama.
E quantas vezes
eu senti isso?
Quantas vezes cheguei do trabalho
e, antes mesmo de entrar,
já sentia que aquela
não era a minha casa?
Quantas vezes deitei ao seu lado
com a sensação
de que você desejava
que fosse outra pessoa ali?
Não era o meu toque
que você queria.
Não era o meu beijo
que fazia falta.
Eu estava presente,
mas não era eu
quem seu coração procurava.
Mesmo quando você dizia
que me amava,
alguma coisa dentro de mim
respondia em silêncio:
não é verdade.
Talvez eu tenha querido acreditar.
Talvez amar você
tenha sido a maneira mais bonita
que encontrei
de mentir para mim mesmo.
E existem perguntas
que talvez eu nunca responda.
Quantas vezes vocês conversaram
para matar a saudade?
Quantas coisas aconteceram
pelas minhas costas
enquanto eu acreditava
que existia respeito?
Eu não sei.
E hoje,
já não preciso saber.
Porque quando a confiança morre,
a verdade deixa de precisar
de testemunhas.
Você nunca me perdeu.
Porque para perder alguém
é preciso primeiro
ter se importado em tê-lo.
Eu nunca fui alguém
que você teve.
Fui apenas
uma sombra útil
na sua escuridão.
E sombras,
como você sempre soube,
só existem
enquanto são necessárias.
Mas você esqueceu
de uma coisa:
até uma sombra pode partir.
(Lediuson Oliveira)