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Âncoras

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Capítulo 5 - Papel Molhado

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Capítulo 5 - Papel Molhado

Adrian ficou parado por tempo demais antes de conseguir se mover.

Olhou em volta uma vez. Depois outra. A névoa continuava igual, cinzenta, indiferente, sem nenhum sinal de que alguém mais tivesse passado por ali antes dele - nenhuma pegada além das próprias, nenhuma marca, nenhum indício de que outro Âncora, em outra descida, tivesse parado exatamente naquele ponto e visto exatamente aquilo.

Respirou fundo, o próprio fôlego soando alto demais dentro do capacete.

Será que alguém já tinha visto? Será que alguém sabia, e escondia, do mesmo jeito que ele estava prestes a esconder?

A primeira vontade foi pegar. Arrancar aquilo do chão, guardar no compartimento do traje, levar pra cima, mostrar pra alguém - qualquer pessoa que pudesse confirmar que ele não estava enlouquecendo, que aquilo era real. Mas a mão parou a centímetros de distância, suspensa no ar, e ele recuou.

Se levasse, alguém ia perguntar de onde tinha vindo. Alguém ia querer saber por que ele tinha se desviado do protocolo pra pegar. E depois disso, não haveria mais escolha nenhuma sobre o que fazer com aquilo - a decisão sairia das mãos dele pra sempre.

Melhor deixar ali. Melhor guardar só o conhecimento de que existia.

Tirou o pequeno bloco de couro que usava pra marcar posições no mapa oficial, mas em vez de riscar o símbolo padrão, virou pra uma página em branco no verso - fora dos registros, fora de qualquer coisa que alguém fosse conferir depois. Anotou o tamanho, contando aproximadamente com os dedos enluvados. A cor, tentando descrever com palavras que pareciam pequenas demais pra caber o que via. A forma das bordas, o jeito como aquilo parecia, impossivelmente, ainda vivo.

Desenhou rápido, os traços tremendo um pouco - não de medo, ou não só de medo. De alguma coisa mais parecida com euforia contida.

Quando terminou, ficou mais um instante ajoelhado ali, quase se despedindo.

Se ainda estivesse ali na próxima descida, ele voltaria.

A subida foi silenciosa, mas de um jeito diferente do costume. Mathias, sentado no banco de metal à sua frente, observava Adrian com uma atenção que ele só percebeu tarde demais para disfarçar.

Nenhum dos dois falou até as portas se abrirem no hangar.

Adrian entregou as amostras oficiais - solo comum, nada além disso - e já estava se afastando quando sentiu uma mão fechar-se em torno do próprio braço.

- Espera.

Virou-se. Mathias o encarava de perto, os olhos duros, mas com algo novo ali, algo que não era só desprezo de sempre.

- O que você viu lá embaixo?

- Nada. Terra, pedra, o de sempre.

- Mentira. - Mathias deu um passo mais perto, a voz baixando. - Eu conheço essa cara. Você tá com a mesma cara que eu tava quando achei aquele revólver. Aquela cara de quem viu alguma coisa que não devia.

Adrian sentiu o estômago apertar, mas manteve a expressão firme.

- Você tá ficando louco também, Mathias? Vendo coisa onde não tem nada?

Foi um golpe baixo, e ele soube na hora. Mathias recuou um passo, os olhos estreitando, a mandíbula travando com força.

- Vai se foder - disse, baixo, e se afastou sem olhar para trás.

O alojamento recebeu Adrian em silêncio tenso. Fred ergueu os olhos do próprio beliche assim que ele entrou, hesitou um segundo, e se levantou.

- Adrian. Sobre aquilo, eu queria-

- Não precisa. - A voz de Adrian saiu mais suave do que tinha saído com Mathias, mas ainda cansada demais pra qualquer conversa longa. - Eu entendi. Tá tudo bem.

Fred assentiu, aliviado e um pouco sem jeito ao mesmo tempo, e foi Marco quem preencheu o silêncio que se seguiu, atravessando o quarto e envolvendo os dois - Adrian de um lado, Fred do outro - num abraço apertado o suficiente pra arrancar um grunhido de protesto de ambos.

- Se eu soubesse que ia ter que fazer isso todo dia, tinha pedido transferência pro quarto dos veteranos - disse Marco, a voz abafada contra os ombros dos dois.

Adrian quase riu. Quase.

- Você tá me sufocando - reclamou Fred, mas sem realmente tentar sair.

Foi nesse momento que a porta se abriu, e Dorian entrou.

Adrian percebeu antes mesmo de olhar direito - algo no jeito como os ombros dele estavam curvados, no jeito como a mão direita já girava o anel de bronze no dedo do meio, rápido demais, o gesto que normalmente era distraído agora parecendo quase desesperado.

- Dorian? - Marco soltou os outros dois, a preocupação substituindo a leveza de antes num instante. - O que houve?

Dorian não respondeu de imediato. Sentou-se devagar na beirada do próprio beliche, os olhos fixos num ponto qualquer do chão, o anel ainda girando sem parar.

- Renner enlouqueceu - disse, finalmente, a voz estranhamente controlada, o tipo de controle que só existe quando alguém está segurando algo maior por dentro. - Meu parceiro de descida. Renner.

O quarto ficou em silêncio absoluto.

- A gente tava trabalhando, cada um no seu setor, tudo normal - continuou Dorian, os olhos ainda no chão. - Aí, do nada, ele começou a gritar. Vim correndo, achei que era emboscada, sei lá, alguma coisa. Mas era só ele. Sozinho. Gritando pro nada.

Fez uma pausa, engolindo em seco.

- Ele veio pra cima de mim. Os olhos dele... - Dorian parou, engoliu em seco. - Os olhos dele estavam vermelhos, Adrian. Não de chorar. Vermelhos como se tivesse sangue dentro deles. - Respirou fundo antes de continuar. - Tipo um animal, sabe? Sem lógica nenhuma. Só força bruta, dentes, unhas arranhando o traje. Gritando que eu não era humano. Que nenhum de nós era humano.

- Merda - sussurrou Marco.

- Eu consegui imobilizar ele. - Dorian ergueu os olhos, finalmente, e havia algo neles que não combinava com o resto do rosto - quase vergonha, misturada com um medo que ele claramente não sabia onde colocar.- Mas eu não entendo, cara. A gente tava bem. Conversando, rindo até, cinco minutos antes. E do nada ele simplesmente... apagou. Virou outra coisa.

- O que aconteceu com ele agora? - perguntou Fred, a voz baixa.

- Levaram ele. Não sei pra onde. - Dorian parou de girar o anel por um segundo, só pra fechar a mão em punho. - E agora eu tô sob vigilância. Pra garantir que não aconteça comigo também. Como se isso fosse alguma coisa que a gente escolhe.

Ninguém soube o que dizer. Marco se aproximou e colocou a mão no ombro de Dorian, sem palavras dessa vez, e ficou ali, presença silenciosa fazendo o trabalho que nenhuma frase conseguiria.

As luzes se apagaram pouco depois, mas Adrian não conseguiu dormir. Ficou ouvindo a respiração dos outros, o zumbido distante dos reatores, o próprio coração batendo mais rápido do que deveria para alguém só esperando o quarto ficar quieto.

Esperou a respiração de Marco engrossar em sono pesado. Esperou Fred parar de virar de um lado pro outro. Esperou até o silêncio do quarto ficar denso o suficiente pra ele confiar que ninguém acordaria.

Só então tirou o bloco de couro de dentro do próprio uniforme e, usando a luz fraca que escapava por baixo da porta, aperfeiçoou o desenho - os detalhes que a mão trêmula não tinha conseguido capturar direito na primeira vez, agora refeitos com mais calma, mais precisão.

Do fundo do próprio malote, tirou um livro velho, encadernação gasta, que carregava desde criança - presente do pai, ilustrações da Terra antiga, o tipo de livro que ele folheava escondido debaixo das cobertas quando pequeno, sonhando com um mundo que ninguém mais parecia lembrar.

Abriu numa página qualquer, comparando por instinto mais do que por lógica.

E parou.

A ilustração ali - desbotada, antiga, quase esquecida entre páginas amareladas - não era parecida com o que ele tinha desenhado.

Era exatamente a mesma coisa.

A mesma curva de borda. A mesma nervura central que ele tinha tentado, sem sucesso, capturar com traços trêmulos. A mesma textura que ele só conseguira descrever, no bloco de couro, como "parece papel molhado".

Adrian ficou olhando para as duas imagens lado a lado - a dele, tosca, tremida, feita às pressas na superfície; e a do livro, cuidadosamente desenhada por alguém que viveu num mundo que deveria ter morrido junto com a guerra - até sentir o peito apertar com uma certeza que não deixava mais espaço para dúvida.

- Nunca imaginei que fosse ver isso pessoalmente - sussurrou, baixo o suficiente para não acordar ninguém, a voz carregando um misto de espanto e medo que ele não sabia nomear direito. - Não uma crescendo no solo da Terra.

Fechou os olhos por um segundo.

- Uma planta.

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