A ilusão que me prendeu
Não fui eu quem disse adeus
quando ainda existia felicidade.
Eu estava ali,
vivendo você
como quem acredita
que certas coisas foram feitas
para nunca terminar.
Depois vieram as fotos.
As lembranças.
Os pequenos restos
de uma história
que um dia pareceu inteira.
Engraçado...
O amor e o ódio
moram tão perto
que às vezes
eu já não sei
qual dos dois
está batendo dentro do meu peito.
Hoje eu te chamo de amor.
Amanhã...
Talvez eu atravesse você
como se nunca tivesse conhecido
o seu nome.
Talvez o tempo transforme
o seu rosto em uma fotografia
que eu já não consigo reconhecer.
E então eu penso:
O que é o amor?
Uma verdade?
Uma necessidade?
Ou apenas a mentira mais bonita
que nós, seres humanos,
inventamos para não encararmos
o vazio de estarmos sozinhos?
Nós dizemos:
“Eu te amo.”
“Você é minha vida.”
“Eu não consigo viver sem você.”
E, quando tudo termina,
às vezes basta uma semana
para colocarmos outro rosto
no lugar daquele
que juramos ser insubstituível.
Então me diga...
O que foi aquilo?
Amor?
Ou apenas medo
de ficar sozinho?
Eu não entendo o amor.
Talvez eu não entenda
nem mesmo o ser humano.
Porque quando perdemos alguém,
não sabemos se estamos sofrendo
pela pessoa...
ou pela versão dela
que inventamos dentro da nossa cabeça.
E talvez esse tenha sido
o meu maior erro.
Não foi culpa sua.
Foi minha.
Eu criei uma imagem sua.
Construí um sentimento
em cima dela.
Me apaixonei pelaquilo
que eu acreditava que você era.
E depois chamei minha própria ilusão
de amor.
Mas ainda existe uma coisa
que eu não consigo negar:
Você me salvou.
Não sei como.
Não sei por quê.
Talvez você nem saiba.
Mas, por algum tempo,
quando tudo dentro de mim
parecia perdido,
você foi a direção
que eu encontrei no escuro.
E talvez seja essa
a parte mais cruel.
Ser salvo por alguém
que um dia
também pode se tornar
a razão pela qual
você precisa aprender
a se salvar sozinho.
Você entrou na minha mente
como quem não pretendia ficar.
E ficou.
Fiquei refém
dos seus olhos,
do seu sorriso,
do seu cheiro,
da sua voz.
Refém do seu jeito.
Do seu silêncio.
Do seu ritmo.
Dos seus batimentos.
Eu conheci detalhes seus
que talvez o tempo
apague de mim.
E você nem precisou
me prender.
Eu construí a cela.
Eu fechei a porta.
E entreguei a chave
nas suas mãos.
Que crime perfeito...
Você nunca precisou
ser minha prisão.
Eu fiz isso sozinho.
Hoje eu olho para tudo
e não sei se devo agradecer
ou esquecer.
Porque amar alguém
também pode ser
aprender a aceitar
que essa pessoa
talvez nunca tenha pertencido
à história que você imaginou.
Talvez amanhã
você seja apenas lembrança.
Talvez um dia
eu passe por você
sem sentir nada.
E talvez essa seja
a verdadeira liberdade:
não esquecer que amei,
mas finalmente compreender
que o amor que senti
não precisa continuar
me destruindo.
Porque eu não fui metade.
Não fui mentira.
Não fui uma versão incompleta
de mim mesmo.
Eu fui inteiro.
Eu fui verdadeiro.
Eu fui cem por cento.
E se tudo isso
foi apenas uma ilusão...
então foi a ilusão
mais real
que eu já vivi.
(Lediuson Oliveira )