Havia um tempo em que eu era pomar florido,
fruta rara, desejada, sonho colorido.
Você atravessava ruas, noites e madrugadas,
só para sentir de perto minhas palavras.
Eu era como a fruta mais bonita da feira,
escolhida com cuidado, admirada por inteira.
Recebia atenção, carinho e valor,
como quem protege aquilo que encontrou por amor.
Mas o tempo passou... e algo mudou.
Virei a fruta do quintal que sempre esteve ali.
Aquela que amadurece em silêncio,
que mata a fome sem precisar pedir.
Ninguém elogia a fruta do próprio quintal.
Ela está tão perto, tão fácil, tão normal,
que seus sabores deixam de ser notados,
e seus frutos passam a ser ignorados.
Enquanto isso, os olhos se encantam com as frutas de fora,
com aquilo que ainda não possuem, aquilo que os devora.
Porque o ser humano, muitas vezes, valoriza a conquista,
mas esquece de cuidar daquilo que já faz parte da sua vida.
E assim acontece com algumas mulheres.
Enquanto são desejo, recebem flores e atenção.
Mas depois que se tornam certeza,
alguns trocam o encanto pela acomodação.
Só que a fruta do quintal continua doce.
Continua alimentando, florescendo e produzindo.
O problema nunca esteve no seu valor,
mas em quem se acostumou tanto com sua presença que deixou de enxergar seu brilho.
Porque o que está ao alcance das mãos
não vale menos do que aquilo que está distante.
Às vezes, o maior tesouro da vida
é justamente aquele que está no quintal o tempo todo,
esperando apenas ser valorizado novamente.