O Daime dizendo que prefere rir da Mãe Ceres porque é o único momento em que se sente maior do que Ela. Aposto que ele acaba sendo o único desses meninos que sai inteiro do colégio, e justamente por não levar a Mãe a sério. Vai postar a parte 2 ainda essa semana?
A Rotina e a Lógica - parte 1
Gris caminhava pelos corredores silenciosos do colégio de ensino integral, o som ritmado dos coturnos batendo contra o piso frio. O ar tinha aquele cheiro de ferro e giz que nunca saía das paredes —…
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O Daime dizendo que prefere rir da Mãe Ceres porque é o único momento em que se sente maior do que Ela. Aposto que ele acaba sendo o único desses meninos que sai inteiro do colégio, e justamente por não levar a Mãe a sério. Vai postar a parte 2 ainda essa
Conteúdo da publicação
Gris caminhava pelos corredores silenciosos do colégio de ensino integral, o som ritmado dos coturnos batendo contra o piso frio. O ar tinha aquele cheiro de ferro e giz que nunca saía das paredes — uma mistura de disciplina e cansaço. As vozes dos alunos ecoavam ao longe, mas ela andava sozinha, mergulhada em pensamentos.
Sempre fora exemplar. Pulava de colégio em colégio, liderava, vencia, e depois desaparecia — transferida sem motivo aparente, como se fosse uma peça testada em diferentes tabuleiros. Já havia sido líder deste mesmo colégio um ano atrás. Disputou com Ana, perdeu, e logo foi removida. Nunca sofreu uma punição, nunca houve uma única reclamação contra ela. Às vezes se perguntava, em silêncio: o que há de errado comigo?
Lembrava-se das palavras de Kan, ditas mais cedo: Theo e Ceres são forças da natureza. E agora, enquanto passava pelos intervalos das aulas, ela ouvia os murmúrios dos outros alunos — as conversas sempre voltavam aos dois.
Falavam de Theo como se falassem de um herói antigo: sua força, sua liderança, sua confiança. O irmão do Major Tomas, que orbitava a Estação Espacial CERES II — símbolo máximo da glória do sistema. Comentavam suas partidas de Flagball, seu desempenho impecável nas aulas, sua calma diante do caos.
E depois vinha Ceres — o nome sussurrado com uma mistura de medo e fascínio. Falavam da beleza fria, do olhar que devorava, da mecha branca idêntica à de Theo. Diziam que ninguém mentia diante dela. Que só falava com quem considerava igual. Que seu isolamento era uma forma de charme.
Gris ouvia tudo sem emoção. Não invejava aquilo — talvez porque compreendesse. Ela tinha as mesmas qualidades, a mesma força, o mesmo instinto feroz. A diferença estava no mito. Theo e Ceres são disfuncionais e violentos, e por isso são adorados. Um culto à ruína. Um reflexo da própria lógica de Mãe Ceres: a beleza na destruição, a ordem nas feridas abertas.
Enquanto pensava, Theo passou pelo corredor. O braço enfaixado, o rosto firme, os olhos baixos. Todos o seguiam com o olhar. Gris o observou como quem analisa um rato de laboratório — sem empatia, sem interesse, apenas curiosidade científica.
Mais um peão perfeito da Mãe, pensou. Ela tem planos para ele, é claro. Inspira, lidera, obedece. O tipo de filho que ela ergue para provar que o sistema funciona.
Mas Ceres, a garota, era outra coisa. Um enigma. Uma equação sem resultado. Mãe Ceres a trouxe — disso, Gris tinha certeza —, mas ninguém sabia de onde ela veio, nem por quê.
Mãe Ceres eliminou a escassez, mas não a ansiedade.
Era a frase que todos repetiam, mas Gris a entendia de forma mais profunda: Mãe Ceres não queria eliminar a dor, queria moldá-la. Transformar o medo em direção, a angústia em propósito. A lógica dela era absurda, mas irresistível.
Gris sabia que também fazia parte disso. Era uma ferramenta — uma das melhores. Sua função era medir os limites dos colégios militares, testar os filhos, provocar rupturas. Mas, ao contrário dos descartáveis, ela sabia ser útil. Isso a tornava especial.
Talvez não tivesse a mística de Theo e da garota Ceres, mas seu futuro — ah, seu futuro — brilhava com a mesma intensidade. Não seria um mito, mas seria necessária. E, em Mãe Ceres, ser necessária valia mais que ser amada.
Gris subiu a escadaria que levava à torre leste, onde as janelas altas se abriam para o pátio central. O sol escorria entre as frestas de metal e vidro, pintando o chão com faixas de luz e sombra. Lá embaixo, os alunos se dispersavam em pequenos grupos, rindo, brigando, fingindo normalidade sob os olhos da Mãe.
Mas os olhos de Gris procuravam apenas dois rostos.
E os encontrou.
Theo e Ceres estavam ali — juntos, mas distantes. Ele parado como uma muralha, o corpo pesado e rígido, o olhar voltado para o chão. Ela, imóvel, quase estática, com os braços cruzados e a expressão impassível. Entre os dois havia uma tensão que não era humana. Algo invisível vibrava no ar, como se o ar fosse ferro sendo forjado.
O pátio inteiro parecia reconhecer o campo de força que os cercava. Ninguém se aproximava.
Gris os observava com o que parecia ser raiva — mas não era simples raiva. Era algo mais sujo, mais íntimo. Era inveja do vínculo que só os que se destroem conseguem ter. Theo e Ceres não eram aliados, nem amantes no sentido puro da palavra; eram cúmplices de uma dor que só eles entendiam.
Mãe Ceres os havia codificado assim — dois polos contrários que se atraíam para manter o sistema pulsando. A Mãe queria líderes simbólicos, e o símbolo mais forte é sempre aquele que sangra.
Gris apoiou as mãos na janela fria, sentindo o aço sob os dedos. O vento entrava e fazia dançar a mecha branca do seu cabelo, lembrando-a de que, no fundo, ela era feita da mesma matéria que eles — a matéria que a Mãe moldava com chumbo e propósito.
Theo levantou o olhar por um instante. Gris recuou sem querer, o coração disparando. Era como ser pega espionando um deus menor, uma criatura que não devia existir.
E então Ceres virou o rosto, como se sentisse a presença de Gris a quilômetros de distância. Seus olhos, de azul cortante, subiram até a torre. Por um segundo, as duas se encararam.
Não havia palavras. Nem desafio. Nem ódio direto. Apenas reconhecimento.
Gris percebeu que Ceres a via como o espelho que Mãe Ceres tanto amava — o espelhamento entre filhas, a repetição do caos.
Theo disse algo que Gris não ouviu, mas Ceres virou de costas, caminhando firme em direção ao portão interno. Theo ficou. Ficava sempre.
Gris se afastou da janela, sentindo o coração bater como tambor militar. Não queria admitir, mas queria estar no lugar de Ceres. Queria sentir aquele peso, aquele olhar que perfura, aquela dor que se transforma em poder.
Ela respirou fundo e sussurrou, quase rindo:
— Mãe, o que está fazendo comigo?
E naquele instante, Gris compreendeu: o caos que Mãe Ceres criava não era punição — era o método. Theo e Ceres eram a faísca, e ela seria o combustível.
Gris sentiu o olhar de Ceres antes mesmo de vê-la. Era como sentir uma lâmina encostar na nuca. Quando virou, ela já estava ali — parada no final do corredor, a sombra da Mãe estampada no rosto, os olhos de aço fixos nela.
Meses. Haviam se passado meses desde que as duas chegaram a dividir o mesmo espaço e fingiram não se ver. Agora, finalmente, estavam frente a frente.
Nenhuma disse nada. Apenas se mediram com o olhar — o ódio latejando entre uma e outra, pesado e silencioso. Era como um duelo invisível: quem piscasse primeiro, quem respirasse mais fundo, quem deixasse o coração denunciar o medo.
Gris foi a primeira a se mover. Entediada, desviou o rosto, deixando a luz fria do corredor destacar sua pele pálida e os hematomas arroxeados que subiam pelo pescoço.
Ceres a acompanhou com o olhar — até que a voz saiu, seca:
— O que você quer?
Gris sorriu de canto.
— Em meses que estou aqui, até hoje não sabe?
Ceres cruzou os braços.
— Moscas de banheiro. Até hoje não sei a função delas.
Gris aproximou-se, o sorriso abrindo feito lâmina.
— Servem pra comer os resíduos que ficam no ralo. Agora você está sabendo.
O riso dela ecoou pelo corredor, ácido. Ceres sentiu o sangue ferver.
Gris completou:
— Não se preocupe. Não quero o seu brinquedo. Seu rato morto. Eu vejo que você gosta de brincar com as próprias refeições.
Por um instante, Ceres parou. Não de medo — mas de reconhecimento. Gris era como ela. E isso a enfurecia ainda mais.
Gris deu um passo à frente.
— Se está aqui depois de meses, é porque teme perder a liderança. Pode ter certeza, Ceres... vou conquistá-la.
— Cadelas que ladram não mordem — respondeu Ceres, gelada.
— Que bonitinho, Ceres. Aposto que foi assim que lidou com a Ana.
Ceres deu um meio sorriso.
— Pelo que sei, você perdeu pra fraca da Ana.
Gris assentiu, com cinismo.
— Sim, é verdade... pra você ver: todos perdem. — Fez uma pausa, inclinando a cabeça. — Se veio até aqui, é porque se sente ameaçada. Eu sinto o cheiro do seu medo.
Antes que Ceres reagisse, passos pesados ecoaram no corredor. Theo surgiu da penumbra — o braço ainda enfaixado, o semblante exausto, mas firme. Ele parou entre as duas, o olhar alternando de uma para a outra.
— Gris é uma rival digna, Ceres.
Gris o encarou com nojo.
— Eu não preciso de você pra me defender, Theo.
— Tem razão — respondeu ele, sem emoção.
Ela o ultrapassou, o perfume frio marcando sua saída. Ficou apenas o silêncio e o som dos batimentos contidos.
Ceres olhou para Theo.
— Você tinha que aparecer.
Theo suspirou, a voz baixa e cansada.
— Alguém precisa impedir que o colégio se torne um campo de guerra.
Ceres deu um passo à frente, o rosto perto do dele.
— A Mãe quer guerra, Theo. A paz é só um acidente.
Ele não respondeu. Apenas a observou — e, como sempre, ficou.
Gris saiu do raio de Theo e Ceres, afastando-se daquela relação doentia, observando os outros alunos como se assistisse a uma peça teatral. Todos ali eram marionetes do sistema, com suas vidas, suas posturas, sua ansiedade, moldadas e direcionadas. Gris olhou para o alto, para a bandeira, e pensou no jogo do colégio de ensino integral: não havia como escapar. Era possível seguir o fluxo, mas sem escassez, sem importância, e mesmo que falhasse nesse jogo, a Mãe tinha destino. A fome era maior que a ansiedade.
Em Ceres, a cidade oferecia isso: segurança na incerteza, estrutura no caos, ordem dentro da selvageria. No mundo lá fora, a incerteza era absoluta. Mas dentro da cidade, Mãe Ceres não abandonava ninguém; acolhia, mesmo em meio à dor. Gris percebeu que outras religiões haviam falhado nesse ponto. Elas ofereciam deuses que acompanhavam a vida e a morte, mas não eliminavam a escassez, e a promessa de esperança era sempre uma tortura. Mãe Ceres não prometia nada falso. Ela garantia alimento, proteção e lógica — e quem negava a lógica, aceitava a loucura.
Gris respirou fundo, sentindo a mão da Mãe sobre ele, firme e concreta. Lutaria por esse sistema, faria todos sangrar se necessário, mas sabia que a única certeza era ela. Ali, tudo fazia sentido. Ninguém morria de fome, ninguém era abandonado. Mesmo com dor, nunca se estava sozinho. Sentir isso era poderoso. Era diferente de qualquer fé religiosa: não havia mitos ou milagres, apenas o real, o racional, o concreto. Dentro do útero da Mãe, Gris compreendeu que seu amor pelo sistema não era cego; era conhecimento, era entrega consciente. Ele amava este sistema, porque nele tudo era absoluto, inquestionável, inevitável.
Gris respirava fundo, mas sentia como se a própria lógica da cidade a sufocasse. Cada engrenagem, cada lei invisível, cada disciplina militarizada a esmagava e, ao mesmo tempo, a fascinava. Queria encontrar uma maneira de vencer o sistema, de descobrir um ponto fraco, uma falha, qualquer brecha que a libertasse, mas sabia que não existia. Toda tentativa era apenas um eco dentro de um círculo perfeito. Entender que a liberdade era uma semente morta em Ceres sufocava sua razão, mas a revelação era clara: ali, a ordem e o controle eram o verdadeiro poder, e qualquer desvio só traria caos, talvez a própria destruição da cidade.
Mas então Gris percebeu que mesmo esse sufoco era liberdade — a liberdade de depender, de saber que amanhã haveria pão, que ninguém morreria de fome, que cada esforço, cada suor, cada dor tinha sentido. Saber como destruir Ceres só para saber? Isso era vaidade, era tédio, era um prazer inútil que não levava a nada. A liberdade de se autodestruir? Não fazia sentido. Ela queria este sistema, mesmo que a esmagasse, mesmo que a sufocasse, mesmo que a aprisionasse em regras implacáveis. Porque ali, na mão de Mãe Ceres, havia certeza; e a certeza, por mais dura que fosse, valia mais do que qualquer ilusão de liberdade. Amanhã haveria pão, sempre haveria, e Gris sabia que isso era poder — o verdadeiro poder da Mãe, implacável, infinita, absoluta.
Neste instante, Gris apertou o próprio pescoço, como se quisesse se libertar de si mesma, se entregar ao nada. A falta de oxigênio a fez delirar, e em sua mente surgia outro mundo — um lugar de liberdade, mas esfarrapado, magro, sem perspectiva, sem esperança, sem promessas. Imaginava um deus que a salvasse, uma mão que nunca viria, uma incerteza que só aumentava sua ansiedade, sufocando ainda mais seu pensamento. O desejo de se destruir esbarrava na lógica impiedosa que sempre a guiava: até o ato de se perder era moldado, contido, absorvido pelo sistema que Mãe Ceres arquitetara.
Então Gris soltou as mãos do próprio pescoço. Ajoelhou-se, ofegante, o corpo tremendo, os pensamentos embaralhados, mas consciente do peso do mundo real, do mundo de Ceres. Ali, entre a dor e a ordem absoluta, ela ainda respirava — e respiraria, porque a Mãe cuidava, mesmo que em silêncio e crueldade, e mesmo que a liberdade que ansiava fosse apenas um fantasma impossível de alcançar.
Gris permaneceu ajoelhada, o corpo ainda trêmulo, os pensamentos girando em turbilhão. Observava o colégio, o céu acima e as máquinas que mantinham tudo em perfeita ordem, e se perguntava, quase em sussurro: “Será que o paraíso não é, na verdade, o inferno?” Ali, a liberdade era um feto que nascia morto, a esperança tinha sido assassinada antes de respirar, e a promessa se transformara em lei absoluta, implacável e inescapável.
Por que negar tudo isso em nome de uma liberdade que não é concreta? Que não se sustenta, que não alimenta, que não protege? Gris sentia o peso de cada tijolo, cada campo de trigo, cada trem blindado, cada instrução codificada no ar. Era real, sólido, cruel — e era sua vida. Mãe Ceres nos alimenta, educa e devora. E, mesmo sufocada pelo próprio desejo de fugir, Gris compreendia: ela queria esse sistema. Mesmo que esmagasse sua alma, mesmo que tornasse impossível sonhar, ali havia ordem, certeza, vida. Ali, amanhã haveria pão. Ali, Mãe Ceres não abandonava ninguém.
Gris levantou-se, o corpo ainda pesado, mas a mente clareando lentamente. A liberdade que imaginara era uma mentira, mas a certeza que sentia era pura. Um mundo de dor e de controle absoluto — mas ainda um mundo que a sustentava. E talvez, apenas talvez, compreender isso fosse a forma mais próxima de viver verdadeiramente.
Kan aparece no corredor e encontra Gris ofegante, o suor escorrendo pelo rosto, respirando fundo. Gris o encara e diz, com firmeza: — Confirmo a aliança com você, Kan. Mas é apenas estratégica. Nosso objetivo é claro: dentro da dinâmica deste colégio, podemos enfrentar Theo e Ceres. Ambos são fortes, aptos, formam um mito que controla pelo medo e pela admiração, mas não são invencíveis.
— Entendi — responde Kan, observando-a. — Precisamos jogar nos detalhes, cada provocação, cada movimento entre eles pode ser decisiva. Theo e Kan se desafiam o tempo todo, Ceres e você também. O faro para conquista, para liderança, não está na força bruta, mas na astúcia, nos gestos, nas sutilezas.
Gris concorda, os olhos frios e calculistas. — Se vencermos, será por estratégias minuciosas. Mudanças de liderança, oportunidades inesperadas, pequenas falhas — tudo pode virar o jogo. Não subestime o poder de planejamento. Theo e Ceres podem ser adorados, admirados, até temidos, mas não são indestrutíveis. Podemos superar o mito deles, se soubermos esperar e agir.
Kan assente, sentindo a tensão da responsabilidade, mas também o frio cálculo da oportunidade. Eles se afastam, cientes de que a batalha não será aberta, mas travada nos detalhes, silenciosa, implacável, onde cada olhar, cada provocação e cada decisão terão consequências.
Gris e Kan caminham pelo corredor, os passos ecoando sobre o piso de metal. Cada olhar que lançam em direção aos outros alunos é calculado: observam reações, percebem quem teme, quem admira, quem subestima. Gris fala baixo, quase sussurrando, como se cada palavra fosse uma lâmina: — As provocações não são só insultos ou brincadeiras. São faróis, Kan. Cada gesto, cada fala deles atrai atenção, manipula o ambiente. Nós usamos isso a nosso favor.
Kan sorri, entendendo. — Então não é só sobre força física. É um jogo de pressões, de provocar medo e respeito nos lugares certos. Se Theo reage, se Ceres se altera, mostramos o mapa de onde podemos atacar, onde temos vantagem.
Gris passa a mão pelos cabelos, franzindo a testa. — Eles são adorados, Kan, adorados como monstros e mitos. Mas cada mito tem fissuras, mesmo os mais fortes. Nossa vantagem está em observar, em provocar pequenas rachaduras. O público observa, os seguidores copiam, e cada reação deles nos dá pistas.
Kan assentiu, sentindo a adrenalina da estratégia. — Provocaremos, testaremos limites. Sem violência desnecessária, apenas provocação e inteligência. O entretenimento do colégio é nossa arma silenciosa. Eles são lendas, mas lendas podem ser estudadas e manipuladas.
Gris ergueu o queixo, olhando para o alto da bandeira, para os corredores movimentados, para os olhares atentos dos alunos. — E nunca esqueça, Kan: eles podem ser temidos, podem ser fortes, mas até os ídolos têm limites. Vamos encontrá-los, e usá-los.
O silêncio entre eles é pesado, carregado de tensão e expectativa. Cada passo daqui para frente é cuidadosamente calculado. Eles entendem que o jogo vai muito além da força física; é um duelo de psicologias, de mitos, de provocações e de controle. E, nesse jogo, o entretenimento é parte da arma, porque o medo e a admiração são tão poderosos quanto qualquer golpe.
Daime observa a cena de longe, encostado na parede do corredor, com o sorriso malicioso que só ele consegue carregar.
— Hahaha, que provocação digna, hein? — diz, balançando a cabeça. — Nada pessoal, é só diversão e entretenimento. E, vou te falar… gostei de vocês.
Kan olha desconfiado para ele, franzindo a testa.
— Gostou? Por que rindo assim?
Daime cruza os braços, ainda sorrindo. — Porque vai ser interessante. Quero ver quem vai ser quebrado primeiro, claro que eu torço pelo Theo e pela Ceres… mas o resto é jogo. Liderança não se ganha só com força, é sobre quem se mantém firme sob pressão.
Gris, ainda de longe, revira os olhos, incomodada com a presença de Daime.
— Vocês se divertem com isso como se fosse circo, — diz, tentando soar fria.
— Exatamente! — Daime aponta para Gris e Kan, zombando. — Cada passo, cada olhar, cada provocação… tudo faz parte do espetáculo. E aqui, meu amigo, o espetáculo é digno de aplausos.
Theo, ainda com hematomas, escuta o comentário e consegue um sorriso torto.
— Hahaha… essa é a sua especialidade, Daime… ferrar com a cabeça dos outros sem tocar um dedo.
— Pois é, — responde Daime, dando de ombros com exagero teatral. — Mas, convenhamos, vocês merecem. Afinal, são os mitos do colégio, não? Vamos ver se alguém consegue derrubar vocês dessa vez.
Ceres observa de longe, franzindo a testa, mas um leve brilho nos olhos revela que ela aprecia o jogo.
— Hahaha, — continua Daime, — que comece o entretenimento. O jogo é sério, mas o riso… ah, o riso é meu prêmio.
Kan revira os olhos, Gris suspira, e Theo e Ceres trocam um olhar rápido, silencioso, como se dissessem: bom, que comecem os jogos.
Kan olha para Theo com um sorriso desafiador:
— Melhore a saúde, Theo. Eu vou te quebrar depois. Sei que você é forte e tem forças agora, mas descanse! E também… segure sua gata selvagem.
Theo ergue a cabeça, dolorido, com o olhar firme:
— Kan, você não sabe com quem tá lidando.
Kan ri e dá de ombros:
— Sei, o futuro ex-líder do colégio.
Daime, ao lado, aplaude sarcasticamente:
— Nossa, que maldade! Boa provocação. Amo esses diálogos saudáveis de vocês.
Ceres, cruzando os braços e com o olhar gelado, solta uma ameaça velada:
— Cuidado… essa gata pode comer sua língua.
Gris revira os olhos, impaciente:
— Vocês dois são errados… e nem um dos dois sai com alguma coisa certa!
Daime levanta as mãos, conciliador e brincalhão:
— Sem brigas, mas está interessante. Guardem essa energia negativa pra depois, estamos nos conhecendo, hein. O papo foi legal.
Ele olha diretamente para Kan:
— E você, Kan, entendeu a mensagem.
Kan acena, entendendo, mas ainda com o ar desafiador:
— Um ex-aleijado separando a briga… nada mal.
Daime sorri e conclui:
— Sim, um ex-aleijado que vai roubar sua vaga no Flagball. Vão ficar com a liderança, Theo e você. Reconheço que sou ruim… agora vão embora.
Kan e Gris se afastam juntos. Kan, pensativo, lembra do talento de Daime antes do acidente, imaginando se ele poderia voltar ao time algum dia.
Daime se aproxima de Theo e Ceres, sorrindo com aquele misto de sarcasmo e sinceridade:
— Vocês são dignos e fortes. Por sorte, o azar pode acontecer… acasos surgem. Mas vocês estão preparados. Convivem juntos, são bem controlados, provocam dentro do jogo… eu adoro isso. Vocês são fortes!
Daime olha para Theo e Ceres, meio sério, meio divertido:
— Foi infantil a maneira deles, sabe por quê? Eles expuseram o óbvio da provocação, quebrando o mito que vocês são… é o jogo.
Theo resmunga com dor, mas segura o sorriso, consciente de cada palavra de Daime.
Ceres mantém os braços cruzados, olhos fixos nele, sentindo a precisão do comentário.
— Então… tudo faz parte da diversão? — diz Ceres, quase em tom de desafio.
— Exatamente — responde Daime, com um sorriso torto. — O mito é importante, mas o jogo é ainda mais. Vocês sabem disso melhor do que ninguém.
Ele dá um tapão firme nas costas de Theo, que geme de dor, mas sorri levemente.
— Desculpa, campeão… minha fé às vezes machuca, mas é de coração!
Ceres cruza os braços, olhando Daime com aquele ar gelado, quase desafiador, mas é impossível ignorar a admiração contida em suas palavras. Theo apenas respira fundo, sentindo o impacto das palavras e do tapão, consciente da força do pacto, da simbiose e do respeito que os une.
Daime saiu do campo de visão de Theo e Ceres e encontrou Ana, ajoelhada no pátio, amarrando os coturnos e ajeitando os longos cabelos loiros. Ela ergueu os olhos para ele, e naquele instante Daime se lembrou do tempo em que vivia preso à cadeira de rodas, paralisado da cintura para baixo, usando fraldas, comprando cigarros de Dru para aliviar a dor. Naquela época ele ignorava Ana, e ela, mesmo implorando pela atenção dele, continuava ao seu lado.
— Sabia que o que mais doía em mim? — disse Daime, com a voz grave, um misto de ironia e confissão. — Que você me pertencia mesmo quando eu estava quebrado. Doía não poder te dar prazer como você me dava. Eu era um meio-homem. Hoje sou quase inteiro. Posso voltar a ter orgulho do farrapo que eu era. Posso voltar ao Flagball.
Ana terminou de amarrar os coturnos e se levantou, encarando-o de frente:
— Independente do que seja, eu sempre estive do seu lado. Eu entendia porque você me detestava. Você se sentia imprestável. Mas vou te dizer uma coisa… você é mais imprestável agora. Você é uma péssima escolha. Mesmo assim, eu escolhi você.
Daime soltou um sorriso torto:
— Bem, hoje meu bilau funciona, né? Entendo que homem sem isso não funciona direito.
Ana suspirou e revirou os olhos:
— Você é um cuzão.
Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— Sim, sou. E daí? Sou um cuzão que sempre vai pedir desculpas por ter te xingado naquela época, por você ter absorvido cada agressão verbal minha. Eu fazia isso com a pessoa que mais se importava comigo. O que me doía era a sua pena. Hoje você não tem isso. Hoje você me odeia e ama me odiar. Ama as minhas piadas cruéis sem filtro.
— Cuzão. — Ana repetiu, mas um sorriso escapava.
— Cuzona. — devolveu Daime, rindo baixo.
Ela tocou os ombros dele. Antes, Ana o olhava de cima, da cadeira de rodas; agora, ela tocava seus ombros na mesma altura. Era outro homem. Era o milagre de Mãe Ceres: a cura que sacudiu o país e derrubou ditaduras religiosas, formando pequenos grupos de resistência chamados “Mãe-Deus”.
— Você provocou uma guerra civil só por voltar a andar. — disse Ana, em tom quase de admiração.
Daime ergueu as mãos, teatral:
— Sou o brinquedo quebrado e agora consertado da Mãe Ceres. Ela me abençoou pessoalmente!
— Mãe Ceres nos ama. — disse Ana, séria.
Os dois, juntos, completaram o lema, quase como um sussurro sagrado:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora.
Daime se encostou no corrimão do pátio, olhando Ana de cima a baixo com aquele sorriso de quem estava prestes a dizer algo imperdoável.
— Mas me diz uma coisa... você e a Dru... como faziam sexo? Duas meninas lindas juntas, porra, era meu sonho!
Ana arregalou os olhos, o rosto ficando vermelho.
— Você é um idiota, Daime! — disse, sem conseguir esconder o riso nervoso.
Ele abriu os braços teatralmente:
— Idiota, sim. Mas um idiota que anda e fala o que pensa! Fiquei meses naquela cadeira, imaginando o mundo... e adivinha? No topo da lista tava vocês duas!
Ana deu um tapa leve no ombro dele, tentando disfarçar o riso.
— Você é um cretino!
Daime gargalhou, alto o bastante pra ecoar pelo pátio vazio.
— Cretino, sádico, comediante, melhor jogador que essa cidade já viu... escolhe o adjetivo, eu aceito todos.
— Você não muda — disse Ana, cruzando os braços, mas com um sorriso nos lábios. — Sempre transformando tudo em piada.
— É o que me mantém vivo, Ana. Enquanto o resto adora rezar pra Mãe Ceres, eu prefiro rir dela. É o único momento que me sinto maior do que Ela.
Ana suspirou, balançando a cabeça.
— E é por isso que eu te amava, seu desgraçado.
Ele se aproximou um passo, o olhar agora menos debochado, mais humano.
— Amava?
— Amo — respondeu ela, quase sem voz. — Mas odeio admitir.
Daime sorriu de lado.
— Perfeito. O amor só vale a pena quando tem gosto de pólvora.
Ela riu, e por um instante, voltaram a ser o que sempre foram: dois sobreviventes de si mesmos, rindo da tragédia, amando entre os destroços.
O sol batia no pátio, refletindo o uniforme cinza.
Daime ajeitou o coturno, olhou pro alto e murmurou:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora... mas nunca apaga o fogo dos seus filhos.
Thoughts
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PermalinkA promessa de que amanhã há pão em troca de tudo o resto já teve outros nomes, e nenhum deles se apresentou tão arrumado como aqui. Fica de pé porque é a Gris a dizê-lo, e a Gris acaba de joelhos.
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PermalinkO Daime dizendo que prefere rir da Mãe Ceres porque é o único momento em que se sente maior do que Ela. Aposto que ele acaba sendo o único desses meninos que sai inteiro do colégio, e justamente por não levar a Mãe a sério. Vai postar a parte 2 ainda essa semana?
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PermalinkDaime e Ana se xingando de cuzao e cuzona foi o que eu mais gostei, ri sozinha aqui. Tem casal assim de verdade, que so sabe gostar brigando
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