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Pensamento

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IsauraBrandao

Li teu texto inteirinho, menino. Fiquei pensando nesse nome que não cabe mais na boca dela. Minha tia chamava o primeiro marido de "o homem", nunca pelo nome, e a gente em casa sabia o tamanho da mágoa só por isso.

Li teu texto inteirinho, menino. Fiquei pensando nesse nome que não cabe mais na boca dela. Minha tia chamava o primeiro marido de "o homem", nunca pelo nome, e a gente em casa sabia o tamanho da mágoa só por isso.

Conteúdo da publicação

E hoje alguém me mostrou
uma mensagem sua.

Eu li sem saber
que algumas palavras
podiam machucar tanto.

“Amiga,
a pessoa já deve ter te contado,
mas nós terminamos.”

A pessoa.

Eu parei ali.

Porque, de repente,
eu não era mais eu.

Não era o homem
que te esperava.

Não era quem perguntava
se você tinha chegado bem.

Não era quem conhecia
o som da sua voz,
o seu silêncio,
o seu jeito de sorrir.

Não era quem esteve ao seu lado.

Eu era…

a pessoa.

E talvez você nem tenha percebido
o peso dessas duas palavras.

Mas eu percebi.

Porque eu ainda lembro
de quando meu nome
tinha lugar na sua boca.

E agora ele coube
em duas palavras tão pequenas
que quase parecem
não carregar história nenhuma.

A pessoa.

Talvez tenha sido mais fácil
me chamar assim.

Afinal, nomes carregam lembranças.

E talvez lembrar
fosse mais difícil.

Depois você disse
que o que sentia por mim
não era amor.

Que talvez tivesse confundido
o carinho e a admiração
que sentia pelo homem
que eu era com minha filha,
pela maneira como eu cuidava,
como eu amava,
como eu protegia.

E talvez seja verdade.

Talvez você tenha amado
a forma como eu amava.

Enquanto eu amava
você.

E é aí que tudo dói.

Porque enquanto você descobria
que aquilo não era amor,

eu estava construindo
minha vida em cima dele.

E ainda tem uma coisa
que eu não consigo entender:

você ficou chateada
porque eu não quis continuar
sendo seu amigo.

Mas como?

Como eu poderia ser seu amigo
se ainda sou o homem
que queria ser seu amor?

Você queria continuar
com a minha presença.

Eu precisei escolher
a minha ausência.

Não porque eu não me importo.

Mas porque me importo demais.

Talvez um dia
eu consiga ser seu amigo.

Talvez um dia
eu consiga ouvir seu nome
sem procurar você dentro dele.

Talvez um dia
“a pessoa”
seja só uma palavra.

Mas hoje não.

Hoje ela ainda dói.

Porque você pode me chamar
de a pessoa.

Mas eu ainda lembro
de quando eu era
alguém para você.

E talvez seja isso
que mais machuca:

não ter deixado de amar você,

mas perceber
que, enquanto eu ainda tento
entender o fim da nossa história,

você já encontrou
uma maneira de contar
que ela acabou.

Eu gostaria muito
que um dia você levasse isso com você.

Que, quando o tempo passar
e tudo isso já não doer mais,
você conseguisse olhar para trás
e enxergar que aquela pessoa
um dia foi a sua pessoa.

Talvez, quando enxergar,
já seja tarde.

Então vou me despedir
pela vigésima vez.

Mas dessa vez,
pela última.

Adeus,
Valéria Fonseca.

P.S.: “A pessoa.”

Thoughts

  • versodemadrugada

    O nome que ainda tinha lugar na boca dela, isso eu levei comigo depois de fechar o celular. Foi do que mais gostei aqui 🖤

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  • linhaTorta

    A ordem das coisas é que me ficou atravessada. Ela termina com outra pessoa, alguém te mostra a mensagem, e nessa mensagem você já não tem nome. Quer dizer que a conversa sobre o fim rodou por fora antes de chegar em você. Isso me pesa mais do que o término em si. Ficar sabendo por último de uma coisa que era sua é uma humilhação pequena que ninguém nomeia.

    Permalink
  • fsantos1307

    Li isto duas vezes por causa do fim. Ando a pensar na amiga que lhe mostrou a mensagem e no que ela julgava estar a fazer.

    Permalink
  • brunocosta

    Ó pá, isto doeu.

    Permalink
  • anogueira52

    Bom dia. Li devagar, como leio tudo, e voltei duas vezes na parte em que você diz que precisou escolher a própria ausência. Fiquei parado ali um tempo. Minha mulher morreu faz nove anos e até hoje eu não acho o nome certo pra falar dela com gente de fora, falo "ela" e mudo de assunto. Essa vigésima despedida você chegou a mandar pra ela?

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  • NunoParreira

    Li isto uma vez e depois outra. À primeira fiquei com a ideia de que ela o tinha deixado por outro. À segunda vi que estava enganado: ela percebeu que gostava do modo como ele tratava a filha. Custa mais assim.

    Permalink
  • IsauraBrandao

    Li teu texto inteirinho, menino. Fiquei pensando nesse nome que não cabe mais na boca dela. Minha tia chamava o primeiro marido de "o homem", nunca pelo nome, e a gente em casa sabia o tamanho da mágoa só por isso.

    Permalink
  • HoracioMelo

    Despedir-se vinte vezes e dizer que esta é a última. Quem conta as despedidas ainda está à espera de alguma coisa, e isso ficou-me na cabeça a manhã toda.

    Permalink
  • Oliviamar

    Comecei pelo P.S., que é vício meu, e vi só duas palavras. Pensei que fosse frieza dele. Afinal era o contrário.

    Permalink
  • fora_da_lei_certinho

    Acho que ninguém devia terminar um relacionamento dizendo que confundiu sentimentos. Isso doi demais! Dilacera o coração e alma de quem ficou amando sozinho e fica realmente com a sensação de inexistência, como se estivesse fora do espaço-tempo do universo emanando luz e calor para o absoluto nada. Você que estava disposto a ser tudo por alguém, foi colocado na prateleira de a pessoa, como qualquer outro ser humano que a ignora.

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E hoje alguém me mostrou uma mensagem sua.

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