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A Mosca, o Bolo e as Dançarinas do Diabo

aleroz
Pensamento

Pensamento

OtavioMourao

Quem dá a lição mais cristã do conto é o Diabo, quando manda o rapaz ser homem em vez de demônio. Achei graça nisso.

Quem dá a lição mais cristã do conto é o Diabo, quando manda o rapaz ser homem em vez de demônio. Achei graça nisso.

Conteúdo da publicação

Um conto sobre a covardia, a moral e a confeitaria do inferno.

Na empresa, havia três coisas que o rapaz conhecia muito bem: o funcionamento da copiadora, o gosto do café requentado e duas mulheres que estavam muito acima de suas possibilidades financeiras.

Pelo menos era o que ele pensava.

Uma delas parecia ter saído de um comercial de perfume francês. A outra tinha um sorriso capaz de fazer um homem esquecer a própria senha do banco. Ambas tinham dinheiro, frequentavam lugares caros e pareciam pertencer a uma espécie diferente de ser humano, daqueles que nascem sabendo usar talheres demais numa mesa de restaurante.

Ele, por sua vez, sabia fazer piadas.

E fazia muito bem.

As duas riam. Às vezes, riam tanto que precisavam se apoiar na mesa. Tinham brincadeiras particulares, olhares que dispensavam explicações e uma intimidade que fazia os colegas de trabalho erguerem as sobrancelhas.

O rapaz era um sucesso.

Um sucesso de escritório, naturalmente. Havia limites.

Quando uma delas se aproximava demais, ele sentia o coração bater como um funcionário que acabara de descobrir que o chefe estava auditando as despesas.

Quando a outra tocava seu braço durante uma conversa, ele imediatamente se lembrava de que não tinha dinheiro para frequentar os mesmos restaurantes que ela.

Era impressionante a velocidade com que sua mente transformava um carinho em uma planilha financeira.

— Você devia sair com a gente qualquer dia — disse uma delas certa vez.

O rapaz sorriu.

— Qualquer dia.

Esse dia nunca chegou.

Não por falta de calendário. O problema era que ele tinha um departamento inteiro dentro da cabeça dedicado a impedir que sua vida acontecesse.

O departamento funcionava perfeitamente.

Toda vez que surgia uma oportunidade, um funcionário invisível aparecia com uma prancheta.

Você tem dinheiro para levá-la a um lugar decente?

Não.

Você pertence ao mundo dela?

Não.

E se ela descobrir que você não tem condições de acompanhar a vida que leva?

O rapaz engolia em seco.

Processo encerrado. Oportunidade arquivada.

Era um procedimento tão eficiente que, se aplicado à empresa inteira, teria impedido até a contratação do primeiro funcionário.

Havia, entretanto, uma terceira personagem nessa história.

O Diabo.

Não o Diabo das pinturas medievais, com chifres, tridente e uma eterna dificuldade para encontrar sapatos confortáveis. Era um Diabo pequeno, de terno vermelho, que morava na consciência do rapaz e tinha diabetes.

Uma diabetes severa.

O sujeito não podia nem sentir o cheiro de açúcar sem precisar procurar um posto de saúde.

Certa tarde, depois de observar uma das mulheres cantarolar uma música enquanto organizava uns documentos, o rapaz foi ao banheiro lavar o rosto.

Olhou-se no espelho.

— Você é um bosta.

O Diabo apareceu sobre a pia.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

— Eu podia convidá-la para sair.

— Podia.

— Ela poderia aceitar.

— Poderia.

— E eu poderia ser feliz.

O Diabo coçou o queixo.

— Não vamos exagerar. Você poderia, no mínimo, descobrir se ela gosta de você.

O rapaz ficou em silêncio.

— Mas ela tem namorado — acrescentou.

— Tem.

— E eu não quero ser um canalha.

O Diabo abriu um sorriso.

— Meu filho, você está confundindo canalhice com iniciativa. Eu sou o Diabo, não um consultor de relacionamentos, mas até eu sei a diferença.

O rapaz abriu a torneira.

— Não vou fazer isso.

O Diabo suspirou, tirou um medidor de glicose do bolso e verificou a própria taxa de açúcar.

— Você vai morrer sem experimentar o bolo.

— Que bolo?

O Diabo apontou para a porta.

Do outro lado do espelho, havia uma padaria.

Uma padaria gigantesca, iluminada, cheia de tortas, sonhos, brigadeiros e bolos tão bonitos que pareciam ter sido desenhados por um arquiteto com problemas afetivos.

Na vitrine, havia um bolo de chocolate com cobertura brilhante.

O rapaz aproximou o rosto do vidro.

— Que bolo bonito.

— Bonito? — o Diabo quase engasgou. — Isso é um bolo, criatura! Não é uma exposição de arte contemporânea! Você não precisa compreender o conceito. Precisa comer!

— Mas e se eu passar mal?

— Você pode passar mal depois de comer. Também pode passar mal sem comer. A diferença é que, em um dos casos, você conhece o sabor.

O rapaz pensou naquilo por aproximadamente três segundos.

Então voltou para o escritório.

O Diabo ficou na padaria, com a glicemia subindo apenas de olhar para a vitrine.

Os anos passaram.

O rapaz saiu da empresa. As mulheres também seguiram suas vidas.

Casaram-se, tiveram filhos, compraram apartamentos, casas, viagens e tudo aquilo que se costuma colocar nas fotografias de uma vida bem-sucedida.

O rapaz continuou trabalhando.

Às vezes, encontrava uma delas por motivos profissionais. Entrava em apartamentos duplex tão grandes que seria possível perder um parente dentro da sala de estar.

Uma vez, esteve num triplex tão bonito que desconfiou que até os fantasmas precisavam pagar condomínio.

E lá estava ela.

A mulher que ria de suas piadas.

A mulher que se lembrava de uma brincadeira idiota de tantos anos antes.

— Você se lembra daquele dia? — perguntou, rindo.

E começou a contar a história.

O rapaz se lembrava.

Lembrava do dia, da roupa, da música que tocava, do jeito como ela olhava para ele. Lembrava até de coisas que ela própria talvez tivesse esquecido.

Ela ria com uma nostalgia sincera.

Ele sorria.

Um sorriso pequeno, torto, quase cínico.

Por dentro, porém, havia uma reunião de emergência.

Olha onde ela está.

Olha onde você está.

Olha essa sala.

Olha esse lustre, pelo amor de Deus.

E, principalmente:

OLHA O BOLO QUE VOCÊ NÃO COMEU.

A mulher continuava falando, feliz com a lembrança.

— Você era impossível! — disse ela, rindo.

O rapaz quase respondeu:

Impossível nada. Eu era um imbecil com departamento financeiro próprio.

Mas apenas sorriu.

— Bons tempos.

Ela não sabia.

Não sabia que havia uma música que ele não escutava porque o fazia lembrar daquela época. Não sabia que ele havia passado anos pensando no que não fez. Não sabia que, para ele, aquelas lembranças vinham acompanhadas de uma sensação estranha: a de ter visitado uma casa sem nunca ter entrado pela porta principal.

Ela tinha suas recordações.

Ele tinha as dele.

E, em algum lugar do universo, o Diabo continuava diabético.

Naquela noite, o rapaz chegou em casa, tirou os sapatos e sentou-se na cama.

O Diabo apareceu novamente.

Estava mais magro. Usava um sensor de glicose no braço e carregava uma sacola de padaria.

— Você voltou — disse o rapaz.

— Vim me despedir.

— Vai morrer?

— Estou tentando controlar a diabetes. Você sabe como é. Uma vida inteira olhando para o açúcar sem poder experimentar.

O rapaz riu.

— Você é o Diabo. Podia ter feito qualquer coisa.

— Eu fiz. Tentei convencê-lo.

— E não conseguiu.

— Você tinha uma consciência muito barulhenta.

O rapaz baixou os olhos.

— Talvez eu devesse ter sido um demônio.

O Diabo sentou-se ao lado dele.

— Não. Você devia ter sido um homem.

— Qual é a diferença?

— O demônio não se importa com as consequências. O homem se importa, mas faz escolhas mesmo assim. Às vezes acerta. Às vezes se ferra. Às vezes come o bolo e descobre que estava estragado.

O rapaz começou a rir.

— E se eu tivesse comido e me arrependido?

— Não dá para descomer.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

Então o Diabo abriu a sacola.

Havia um pedaço de bolo de chocolate.

O rapaz olhou para ele.

— Posso?

— Claro.

— E se eu passar mal?

O Diabo mediu a glicose.

— Eu já estou passando mal só de estar aqui.

O rapaz pegou o bolo.

Mordeu.

Mastigou devagar.

Fechou os olhos.

O Diabo esperou.

— E então?

O rapaz abriu um sorriso.

— PORRA.

— O quê?

— QUE BOLO GOSTOSO!

O Diabo começou a chorar.

Não de emoção.

Era hipoglicemia.

Na manhã seguinte, o rapaz acordou com uma revelação.

Não poderia voltar no tempo. Não poderia desfazer as oportunidades que recusara, nem descobrir se aquelas mulheres teriam dito sim ou não.

Talvez tivesse sido rejeitado.

Talvez tivesse vivido histórias maravilhosas.

Talvez tivesse se apaixonado, sofrido e passado meses ouvindo músicas deprimentes.

Talvez tudo tivesse terminado numa confusão monumental.

Mas teria vivido.

E, pela primeira vez, compreendeu o verdadeiro drama de sua existência.

Ele não tinha medo apenas de perder.

Tinha medo de perder sem poder justificar a derrota com a própria dignidade.

Preferira sair de mãos vazias a arriscar descobrir que o mundo não o queria. E, para tornar essa decisão suportável, chamara sua desistência de respeito, sua insegurança de prudência e sua ausência de virtude.

Não era mentira, exatamente.

Era apenas uma verdade incompleta.

O rapaz levantou-se, foi até a cozinha e preparou café.

Na mesa, havia um pedaço de bolo que comprara na noite anterior.

Ele se sentou.

Mordeu.

E começou a rir sozinho.

— Me fudi — disse.

Mordeu novamente.

— Mas pelo menos agora sei o gosto.

Do outro lado da cidade, o Diabo recebeu uma notificação médica.

Glicemia: 347 mg/dL.

Ele olhou para o céu.

— Senhor, eu só queria que aquele desgraçado tivesse comido o bolo quando ainda estava quente.

E, nas profundezas do inferno, as dançarinas do Diabo começaram a cantar.

Não era uma música triste.

Era um samba.

Porque até o inferno tem seus limites, e ninguém aguenta ouvir Crowded House por toda a eternidade.

Moral da história: não é preciso ser canalha para comer o bolo. Mas, se você passar a vida inteira olhando para ele, não culpe a confeitaria quando envelhecer com fome.

E, se um dia a vida lhe der a oportunidade de morder, lembre-se:

Você pode se arrepender de ter comido. Mas não dá pra descomer.

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Thoughts

  • OtavioMourao

    Quem dá a lição mais cristã do conto é o Diabo, quando manda o rapaz ser homem em vez de demônio. Achei graça nisso.

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  • argumento_frouxo

    O funcionário da prancheta só faz pergunta que já vem com o não dentro. Ninguém ali pergunta se ela gosta dele, que era a única que importava, e o Diabo foi o primeiro a notar.

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