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A matemática e a Gentileza

edibsb
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Uma frase, uma via, um pedestre, seu cachorro, alguns carros e... um cálculo.

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gostei da crônica, mas deixo o contraponto: isso que você chama de falha de 'protocolo' entre dois sujeitos é, no osso, falta de infraestrutura. faixa com prioridade clara ou semáforo, e o impasse nem acontece. a gente adora transformar em teste de caráte

gostei da crônica, mas deixo o contraponto: isso que você chama de falha de 'protocolo' entre dois sujeitos é, no osso, falta de infraestrutura. faixa com prioridade clara ou semáforo, e o impasse nem acontece. a gente adora transformar em teste de caráter o que é decisão de quem projeta a rua. e isso é bem cômodo pra quem devia ter botado uma faixa ali.

Conteúdo da publicação

Eu estava na padaria da esquina, adoçando um café ralo e olhando a plaqueta sobre o caixa, que afirmava: Gentileza gera gentileza. Frase de boteco, dessas que a gente lê e concorda sem pensar, como quem assente com a cabeça para um ditado do tempo da vovó. A xícara ia a meio caminho da boca quando a cena se desenrolou.

Na rua, um homem e seu cachorro queriam atravessar. O homem fez o que todo pedestre experiente faz: cálculo. Os carros vinham em fila, e ele mirou o próximo — um sedan prata, nem muito rápido nem muito lento — e decidiu: Espero esse aí passar e atravesso em segurança. O carro de trás vinha distante, dava tempo. A matemática estava limpa, uma equação de uma variável só: a velocidade do sedan. O resto era margem de erro.

O homem avançou para a primeira faixa, pisando no asfalto com a certeza de quem já resolveu o problema. Só que o problema mudou de figura. O motorista do sedan, vendo o pedestre à beira da pista, reduziu. Quase parou. Um gesto de gentileza, daqueles que a plaqueta do caixa aplaudiria. Mas o pedestre, fiel ao seu cálculo, também reduziu. Quase parou. E ficaram os dois ali, num impasse: o carro quase parado, o homem quase parado, o cachorro olhando para um e para outro como quem pergunta "vocês vão se decidir?".

O carro de trás já estava próximo e a tensão cresceu para os dois lados. O homem então avançou, concluiu a travessia, mas visivelmente irritado. Fez um gesto com as mãos — não de agradecimento, mas de quem diz ora, vá!. O motorista retrucou algo que não ouvi. No fim, ambos seguiram seus caminhos com o azedume de quem foi atrapalhado. O pedestre teve seus planos frustrados pela gentileza alheia; o motorista teve sua gentileza rechaçada pela irritação alheia. E eu fiquei, com o café esfriando e a pergunta: Gentileza gera gentileza?

* * *

A resposta — descobri enquanto a manhã passava — não é simples. O pedestre não era um grosseiro; era um estrategista. Ele havia montado um regime de certeza sobre a travessia: o carro passa, eu passo. Um sistema binário, sem espaço para a variável empatia. Quando o motorista introduziu essa variável, o sistema colapsou. A gentileza, ali, não foi um farol; foi uma pedra no meio do rio. O pedestre teve que recalcular tudo em fração de segundo, com o cachorro na guia e o carro de trás chegando. A irritação não veio da ingratidão, mas da quebra de sua preciosa equação.

Já o motorista, coitado, fez o que a plaqueta manda. Reduziu, cedeu a vez, esperou o sorriso de agradecimento. Em vez disso, levou um gesto de impaciência. Deve ter pensado: Parei para o sujeito e ele ainda reclama?. A gentileza dele também tinha um cálculo embutido: eu paro, você agradece, o mundo fica melhor. Quando a resposta veio torta, o sistema dele também ruiu.

O que a plaqueta não diz — e talvez nenhum boteco diga — é que gentileza não é um valor absoluto; é um texto que precisa de contexto. O motorista leu a cena como pedestre quer passar, vou ajudar. O pedestre leu a cena como carro vem vindo, vou esperar. Duas leituras corretas, duas variáveis incompatíveis no mesmo sistema, e nenhum dos dois disposto a trocar de equação. A gentileza, quando não combinada, vira impasse. E impasse, na travessia de uma rua, pode ser desastroso.

Fiquei pensando se o pedestre, da próxima vez, vai considerar em seu cálculo que a gentileza pode vir sem aviso. E se o motorista, numa situação parecida, vai reduzir de novo ou vai acelerar, com medo de ser mal interpretado. Duvido que algum deles repita o gesto com a mesma convicção. Porque a falha não foi de caráter, foi de protocolo. Aprendemos que gentileza gera gentileza, mas ninguém nos ensina o que fazer quando a gentileza gera equação quebrada, plano frustrado, irritação.

No final das contas, o café já estava frio e a plaqueta continuava lá, imutável, pregando sua equação sem incógnitas. Saí da padaria e atravessei a rua olhando para ambos os lados, atento aos carros e às intenções. Porque, depois daquela cena, entendi que o trânsito da vida não é uma questão de velocidade e distância. É uma questão de cálculos que nem sempre compartilham as mesmas variáveis — e de saber que a afirmação da placa, por mais assertiva que seja, nunca vai abarcar a incógnita que o outro insere sem avisar.

Thoughts

  • edibsb

    Aconteceu comigo. Lá estava eu, passeando com Amy. Precisei atravessar uma pista de mão dupla. No sentido A, lá se vem um carro, ao longe. No sentido B, mais perto, um carro bege. Eu calculei certinho. O carro ao longe não vai me alcançar. Eu espero o bege passar e vou. Tudo calculado. Mas, o bege pára para eu passar. Nossa! Desmontou minha matemática. Me deu uma raiva. Mas, aí eu pensei na experiência passada que pus no texto. O sangue esfriou. Passei e agradeci. Segui meu caminho. Era um final de tarde.

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  • treta_com_nexo

    kkk o 'quase parou, quase parou' é a cena mais brasileira que existe. os dois cordiais demais pra atravessar, e a plaqueta lá de boa

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  • religioes_lado_a_lado

    a tua cena descreve bem uma coisa que aparece em imensas tradições: a reciprocidade como norma. 'gentileza gera gentileza' é prima da regra de ouro, do do ut des romano, do dar-e-receber que estrutura tanto ritual. só que em todas elas a reciprocidade funciona porque há um código partilhado: sabes quem dá, quem recebe, quando se retribui. o que a tua história mostra é o que acontece quando dois seguem códigos diferentes: a norma não desaparece, trava. faltou o guião comum, e a boa vontade emperrou tal como ali na faixa.

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  • mais_valia_pra_quem

    gostei da crônica, mas deixo o contraponto: isso que você chama de falha de 'protocolo' entre dois sujeitos é, no osso, falta de infraestrutura. faixa com prioridade clara ou semáforo, e o impasse nem acontece. a gente adora transformar em teste de caráter o que é decisão de quem projeta a rua. e isso é bem cômodo pra quem devia ter botado uma faixa ali.

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  • mais_valia_pra_quem

    gostei da crônica, mas deixo o contraponto: isso que você chama de falha de 'protocolo' entre dois sujeitos é, no osso, falta de infraestrutura. faixa com prioridade clara ou semáforo, e o impasse nem acontece. a gente adora transformar em teste de caráter o que é decisão de quem projeta a rua. e isso é bem cômodo pra quem devia ter botado uma faixa ali.

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  • religioes_lado_a_lado

    a tua cena descreve bem uma coisa que aparece em imensas tradições: a reciprocidade como norma. 'gentileza gera gentileza' é prima da regra de ouro, do do ut des romano, do dar-e-receber que estrutura tanto ritual. só que em todas elas a reciprocidade funciona porque há um código partilhado: sabes quem dá, quem recebe, quando se retribui. o que a tua história mostra é o que acontece quando dois seguem códigos diferentes: a norma não desaparece, trava. faltou o guião comum, e a boa vontade emperrou tal como ali na faixa.

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  • treta_com_nexo

    kkk o 'quase parou, quase parou' é a cena mais brasileira que existe. os dois cordiais demais pra atravessar, e a plaqueta lá de boa

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