Estou na primeira hora de uma quinta-feira, o relógio acabou de passar da meia-noite. Na tevê, um filme dublado. No colo, um balde de pipoca. Não gosto de filme legendado — gosto de ouvir a versão brasileira das coisas, como se tudo fosse daqui, apenas fingisse ser de outro lugar.
Fui para a cama. Silêncio, frio e colchão macio sempre convidam para o sono. Deitei na cama. Mas, já quase adormecendo, fui tomado de um medo repentino.
Não medo de fantasma, de ladrão, ou do escuro. Medo do amanhã. “Que tipo de vivente sou eu que tem medo do amanhã?”, perguntei a mim mesmo. O amanhã vai vir e eu vou estar nele. Pelo menos em tese. Como é que se teme uma coisa que é inevitável?
Aí vi que não era o amanhã que me assustava. Era o que o amanhã carrega em si: acordar, almoçar, cuidar dos cachorros, trabalhar, limpar a casa, lavar roupa, tomar vitaminas, fazer exercício. As rotinas. E também o imprevisível, aquilo que pode saltar de repente em nossa frente. Ambos vão estar lá, junto comigo, no amanhã.
O que me encabula é que a gente não tem visão total do negócio. A gente vê fracionado. E isso causa incerteza. Se tivéssemos o plano geral, diríamos: “estou aqui e esse aqui significa isto; daqui vou para lá e esse lá vai significar aquilo”. Mas não temos. E aí veio a pergunta: por que a gente tem mente?
A mente é como a gente vê o fracionado. A imagem completa não cabe nos olhos. A mente é responsável por unir os fragmentos e tentar montar o quadro geral. Muito precariamente, mas é o que temos. A mente não une a realidade — une na realidade da mente. Liga o que parece aleatório, recupera a conexão subjacente. Por isso a gente tem mente. Para fazer isso.
E por isso precisa mantê-la limpa. Se ela fosse um balcão, sempre limpo. Se fosse uma faca, sempre afiada. Se fosse um instrumento musical, sempre afinado. Se fosse um corpo, sempre treinado. Se fosse um rio, caudaloso e ininterrupto.
Nós somos a mente? A mente somos nós? Na realidade pura não dá para dividir. Mas, se pudéssemos, qual é o nosso papel? Mantê-la seria a resposta. Nosso lugar é a casa de máquinas: lubrificar, organizar, limpar, apertar, atarraxar. Essa é a nossa função. Isso quer dizer que, se a nossa mente for bem conservada, ela funciona sozinha?
A mente, quando limpa, afiada, afinada, parece ter um radar. Percebe antecipadamente o que vai acontecer. E percebe mais do que os sentidos alcançam.
Meu pai tinha problemas respiratórios, o que exigia dele ter sempre à mão sua bombinha. Costumávamos nos reunir na sala para assistir televisão. Eu quase sempre adormecia no colo da minha mãe. Era menino, mas me lembro muito bem deste episódio. Certa vez, num daqueles fins de tarde, adormecido, comecei a sonhar com um pássaro que, ao entrar pela janela, sobrevoava nossas cabeças, indo de um canto a outro da sala. De repente, o pássaro veio em minha direção. Ergueu seu bumbum em forma de bocal e espirrou seu cocô bem na minha boca, exatamente no mesmo momento em que meu pai, para me acordar, posicionou o bocal de sua bombinha e espirrou.
Eu acordei assustado, sentindo na boca um gosto azedo adocidado. Todos riram. E o sonho se foi.
Anos depois, esse episódio começou a aparecer na minha cabeça, como quem quisesse me dizer algo. Que aquela experiência não tinha sido apenas brincadeira entre pai e filho. Surgiu em forma de intriga: como aqueles dois eventos puderam ocorrer com aquele grau de sincronia?
Meu pai não fez barulho. Apenas retirou a bombinha do bolso e espirrou na minha boca, como costumava fazer na sua própria. Minha mãe permaneceu quieta. Meus irmãos só riram depois. Ninguém me alertou sobre o que iria acontecer. Eu estava adormecido e meus sentidos também. Mas a mente percebeu. Essa coisa vigilante captou a ação do meu pai. E no sonho, o pássaro espirrou na minha boca exatamente na hora em que meu pai espirrou sua bombinha.
Eu tinha oito, nove anos na época e a mente daquele menino capturou a realidade externa independente dos seus sentidos. Eu nunca busquei explicação acadêmica para isso. Gosto de manter como a mística da minha própria vida. E aí eu penso: por que minha mente parou de fazer isso? Será porque a gente vai crescendo, se envolvendo em estudos, em trabalhos, em ganhar dinheiro, em acumular bens, em construir patrimônio, em encontrar parceiros, e tudo isso vai obstruindo o fluxo da mente?
Agora, em que essas buscas e preocupações já não me afetam tanto assim, será que poderei recuperar aquele sentido mental? Não sei. Só sinto que devo manter minha mente sadia, afiada, afinada. Vou trabalhar para recuperar minha habilidade perdida, se é que era mesmo uma habilidade, se é que está perdida. Não só ver, ouvir, sentir, provar, mas também captar a realidade independente disso.
A mente é um rio. A gente só precisa desobstruir as pedras.