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Entre Tetris e Chocolatinhos

edibsb
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Uma manhã fria de julho. Café na xícara, pouco açúcar, barriga roncando, e a cabeça ainda presa entre duas noites: uma palestra sobre convivência que prometia mudança, e um silêncio estratégico num restaurante barulhento, quando alguém propôs um clube de leitura e alguém respondeu, sem querer, com o silêncio de quem espera que o assunto morra sozinho. Convido a todos a participarem dos grupos: Do Brasil e Em Português.

In groups

Conteúdo da publicação

Mais uma manhã fria de julho. Acordei com a barriga roncando, mas o que me trouxe à cozinha não foi o dejejum — foram duas coisas: uma palestra que vi antes de ontem, e uma conversa que tive com alguns amigos ontem. Essas duas coisas se misturavam na cabeça como café com pouco açúcar: amargo, mas que desperta.

A palestra era sobre convivência. A questão central: por que tratamos com protocolo os mais distantes e tratamos os mais próximos — o irmão, o primo, o amigo de longa data — como se protocolo fosse coisa de gente que não se conhece. Ao discorrer sobre os protocolos de convivência, a palestrante citou Platão, citou Confúcio, citou Khalil Gibran, e eu lá, anotando tudo mentalmente: manter o protocolo com os mais próximos, fazer os rituais ao lidar com os outros, porque são eles os que mais sofrem quando o deixamos de lado. Gostei das ideias discorridas. Achei justas. Fui dormir contente e propenso a ajustar algumas de minhas atitudes e mudar outras.

Mas aí, no grupo de amigos ontem à noite, no meio da conversa, surgiu o tema leitura. No meio do burburinho, ouvi alguém perguntar "Você já leu o livro?" e alguém responder "Não, só vi o filme". A partir disso, se seguiu uma conversa animada que começou com a recomendação deste e daquele best-seller e terminou com a proposta, entre a gente, de um clube de leitura. Algo simples: cada um traria um livro, a gente leria, discutiria, conversaria sobre as ideias. Enfim, um clube.

Silêncio geral em nossa roda. Um verdadeiro paradoxo naquele restaurante barulhento. Aqueles segundos entre a proposta de criação do clube e a manifestação de alguém, qualquer um, que aderisse ou recusasse, pareceram horas. No final, ninguém se manifestou. Nem contra nem a favor. Só o silêncio esperançoso pelo surgimento de um novo rumo para aquela conversa.

E isso me transportou para a plateia da palestra do dia anterior. Os protocolos de convivência só funcionam se todos aderirem?

A palestrante não tinha respondido isso. Mas eu senti que precisava de uma resposta. E, olhando para os rostos "desconversantes" de meus colegas, eu pensei: como posso preencher essa lacuna?

Voltei para casa com a pergunta grudada na cabeça. Sem resposta, fui dormir desconsolado. Só hoje de manhã, com fome, foi que algo aproveitável me ocorreu: me lembrei de uma dinâmica de grupo da qual participei há muitos anos. Tão reveladora que os anos se passam e ela, vez ou outra, aparece por aqui, na minha cachola, em momentos como este. Estávamos em círculo e a instrutora, sentada ao centro numa cadeira giratória, desenhava a letra "a" no ar e pedia para que cada um na roda repetisse o gesto. A pegadinha: você tinha que desenhar exatamente como ela, o que incluía a postura corporal. Cruzou a perna? Você cruza. Fez com a mão esquerda? Você faz. Altura dos olhos? A mesma coisa. Quem percebia a dinâmica e cumpria os protocolos, ganhava um chocolatinho. Quem não, ouvia: errado, você não fez direito. Próximo. Quem descobria a chave, ficava calado. Ninguém explicava a regra. Era a graça da dinâmica. Cada qual tinha que perceber sozinho.

Eu até tentei retomar a ideia do clube de leitura, entre uma garfada e outra. Acho a leitura importante, pois ela não serve apenas para os livros. Serve para a vida. Como viver sem ler? Fiz menção à Agatha Christie como exemplo de leitura leve, acessível, puro entretenimento. Mas alguém a achou elaborada demais, no estilo de Kafka. No mesmo fôlego, outro alguém lançou no meio do papo: "A melhor leitura é a da Bíblia", como quem desconsidera toda a densidade envolvida, o simbolismo, as camadas de significado, o peso de dois milênios em cada versículo. Percebi que fazer referência a esse livro sagrado funcionou mais como uma fuga ao tema do que uma sugestão propriamente dita, como quem diz "Vamos mudar de assunto. Esse papo de clube de leitura já deu".

Eu olhei para aquilo e vi a antiga dinâmica de grupo acontecendo de novo: quem percebe que ler livros é um treino para ler a vida, percebe. Quem não percebe, continua desenhando o "a" de pernas juntas, achando que está certo.

E aí veio a conclusão que me queima desde que acordei.

A vida é como o Tetris. As peças caem sozinhas. Cada pessoa é uma peça. O Nirvana — ou o que você quiser chamar de plenitude, de fim do sofrimento, de portão dourado — é o final da área do jogo, que só fica livre quando todas as peças que caem se encaixam. O espaço vazio na linha significa linha incompleta, e linha incompleta permanece. O objetivo do jogo? Encaixar as peças de modo que formem uma linha que, completa, suma. Sumir, em epifania, significa entrar no Nirvana.

Viemos em peças individuais, mas só saímos em bloco. As peças caem em seu tempo, em sua velocidade, possuem sua própria forma. Eu não posso determinar a próxima peça a cair, só posso esperar por ela e torcer para que caiba no espaço vazio da linha. Se não couber, é pena. Significa mais uma linha acumulada, cheia de espaços vazios a serem preenchidos. Não posso escolher a peça, nem configurá-la, nem acelerá-la, nem retardá-la. Não posso cruzar sua perna. Não posso desenhar "a" na altura de seus olhos. Cada qual é quem tem que fazê-lo. Mas as peças continuam surgindo. Continuam descendo. Continuam se acumulando em linhas mal formadas.

A vontade de revelar o segredo da pegadinha é grande. A pressa é real, pois o Nirvana nos espera. Quanto antes todos estiverem encaixados em uma linha perfeita, diante do portão, mais rápido sumiremos. Por isso a pressa. Mas se eu me precipitar, querendo encaixar uma peça num espaço onde ela não cabe, posso pôr tudo a perder. Posso correr o mesmo risco que corre o homem da alegoria da caverna: aquele que volta para contar e é rejeitado, desacreditado, ou mesmo morto.

A conclusão só pode ser: viva segundo o que você viu; deixe o método claro; se você percebeu a pegadinha, deixe-a visível — como quem simplesmente está — mas não fale nada, sob o risco de estragar a brincadeira. O chato que estraga uma diversão quase nunca é convidado para a próxima.

Deixe apenas claro que não importa qual método — importa que haja método. Perceber que há método é o próprio método.

Na dinâmica de grupo, a instrutora não explicou isso. Ela só cruzou as pernas e desenhou no ar.

E agora, enquanto o café esfria na xícara e o pão amanteigado espera, eu me pego pensando nos amigos que não quiseram o clube de leitura, nos protocolos que só eu seguiria, nas peças de Tetris caindo em velocidades diferentes. Cada um no seu tempo. Cada um com seu método. Cada um com sua queimação de cabeça pela manhã.

Eu já cruzei as pernas. Desenhei o meu "a" na altura dos olhos, tal como percebi que era para fazer. Essa dinâmica eu já introjetei. Ganhei meu chocolatinho.

O resto é espera. Não passiva — ativa, como quem observa os demais membros da roda, essa longa roda de pessoas que se chama humanidade, jogando, sabendo que a peça certa vai cair, mas não sabendo quando. Esperando que todos percebam a pegadinha dessa dinâmica. Esperando a próxima dinâmica de grupo. Rezando para perceber logo de cara de que se trata a pegadinha.

E enquanto isso, a barriga ronca de fome e de espera pelo próximo chocolatinho, o café esfria na xícara e julho bate na janela, me lembrando que esta manhã é apenas o início de um novo dia — outra chance de alguém finalmente perceber que a perna cruzada estava bem à vista, disponível para ser percebida e usada como método, desde o início da dinâmica.

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Quando você chega no Nirvana dessa metáfora, é o entendimento que importa ou é o silêncio sobre o entendimento?

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  • treta_com_nexo

    o negócio de ganhar chocolatinho por perceber a pegadinha me dá aquela sensação de estar dentro de uma brincadeira que só quem percebeu tá rindo de verdade

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