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O dote não brilha sozinho

edibsb
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O dote não brilha sozinho. Apaga, como lâmpada esquecida. E acende de novo, só quando alguém se lembra de apertar o interruptor — ou quando quem a possui decide, enfim, que a escuridão da sala já dura tempo demais.

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O Dote

A sexta aula de cavaquinho já cheirava a talco de estojo velho. Eu sentava na cadeira de plástico marrom, o instrumento no colo, e o professor repetia o mesmo acorde de ré maior pela terceira vez. Ele tinha a paciência de quem ensina a tocar violão em igreja — o que, descobri depois, era exatamente o que fazia nos sábados. A voz não subia nem descia. Os dedos, que deveriam voar pelo braço do cavaquinho, pareciam contar moedas. Eu não levava mais fé nele. Só não tinha coragem de admitir.

A desconfiança é assim: um tédio que se disfarça de educação. Você concorda, repete, finge que aprende. E vai levando.

Na sétima aula, pedi três músicas. Não lembro mais quais. Lembro só que eram difíceis — talvez eu quisesse testá-lo, talvez apenas me entediar de outro jeito. Ele ouviu os nomes, assentiu, pegou o próprio cavaquinho e tocou o primeiro compasso de uma delas. De ouvido. Sem pestanejar. Depois, parou. Levantou-se, foi até o quadro branco manchado de giz seco, e começou a escrever. Nota por nota. Pausa por pausa. O som que acabara de sair de seus dedos virou risco de caneta no quadro, e o risco virou partitura. Ele escreveu as três músicas que eu pedira. Uma atrás da outra. Como quem copia de um livro aberto que só ele enxergava.

Eu não disse nada. Não tinha o que dizer. A admiração, quando é genuína, cala a boca antes de pensar em elogiar.

Só mais tarde, no ônibus, é que a frase veio: professor é quem tem alguma coisa para te mostrar. Não diploma. Não método. Não didática comprada em curso de fim de semana. Uma coisa. Uma técnica. Uma percepção que é nuclear, central, que faz você entender o assunto de um jeito que não entenderia sozinho. Qualquer um pode vestir a bata. Poucos têm a coisa.

E aí pensei no resto.

Pensei em quantas vezes já deixei de levar fé em alguém. No trabalho, quando o colega repete a mesma piada de segunda-feira. No amigo que só fala dos mesmos problemas. No pai que conta a mesma história de 1987. A desconfiança não chega de repente. Ela é um tédio acumulado, um estoque de monotonia. Você não perde a fé de uma vez. Vai deixando de levar, aula após aula, até que a pessoa vira móvel na sala: está lá, ocupa espaço, mas não ilumina mais nada.

E o que ela deveria fazer?

Mostrar o dote.

Não o dote de sempre. Um dote novo. Uma visão de mundo que só ela percebeu. Um método que só ela inventou. Alguma coisa que faça você dizer, de novo, no fundo da garganta: não sabia que você sabia disso. A fé não é renovada por promessa. É reconquistada por surpresa.

Mas tem uma coisa que o professor de cavaquinho não me disse — e que eu só entendi depois, escrevendo isso.

Ele não sabia que eu duvidava dele. Ou, se sabia, não disse nada. Não se defendeu. Não explicou. Não postou nas redes que estava “em constante evolução”. Simplesmente tocou. E o toque foi a resposta.

A responsabilidade de ser visto é nossa. Ninguém pode renovar a fé de outro por nós. Mas a demonstração não precisa ser performance. Pode ser, simplesmente, o gesto que você já domina, feito no momento em que ninguém espera.

Eu ainda corto o cabelo no mesmo lugar há quinze anos. O barbeiro sabe o meu nome, sabe que não gosto de navalha quente, sabe que minha mãe morreu em 2019 porque eu parei de marcar o corte no aniversário dela. Ele nunca me deu conselho. Mas uma vez, numa terça-feira vazia, enquanto eu olhava para o espelho sujo de dedadas, ele disse: você está mais magro. Não era observação de peso. Era de atenção. E naquele dia eu lembrei que existia.

O professor de cavaquinho não sabe que escrevi isso. Não sabe que a sétima aula virou crônica. Talvez nunca saiba. Mas eu sei que, na oitava aula, eu cheguei antes do horário. E trouxe outra música para ele tirar de ouvido.

“O dote não brilha sozinho. Apaga, como lâmpada esquecida. E acende de novo, só quando alguém se lembra de apertar o interruptor — ou quando quem a possui decide, enfim, que a escuridão da sala já dura tempo demais.”

Thoughts

  • de_onde_vem_a_palavra

    Achei que ia ficar só em história, mas aí vi que o craque dessa crônica é semântico. "Dote" é bem escolhido: começou como herança material que a noiva levava pro casamento, coisa de propriedade. Mas no texto vira capacidade, algo que só se prova fazendo. A etimologia não muda — segue ligada a dar, ofertar — mas a força semântica desliza de "o que eu tenho" pra "o que eu faço visível". É esse deslizamento que carrega a reflexão toda: fé não é questão de ter o dote, é questão de acender a lâmpada.

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  • treta_com_nexo

    Gosto do retrato, mas tem uma cilada aí: você presume que quem tem o dote também tem a oportunidade de prová-lo. O professor tem alunos, o barbeiro tem clientes, mas e quem tá em um espaço onde ninguém tá pedindo prova nenhuma? A lâmpada acende pra quem tá perto do interruptor.

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  • treta_com_nexo

    É elegante a análise, mas presume que você tem um espaço pra revelar o dote. O professor tem a aula, o barbeiro tem sua cadeira. Agora, pra quem não controla um lugar assim? O 'interruptor' nem existe, ou está nas mãos de quem não vai apertar.

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