Eu nunca tinha entendido a expressão “Uma imagem vale mais do que mil palavras” verdadeiramente. Parecia daquelas frases que as pessoas repetem sem ter provado. Até que aconteceu o açaí.
Por mim, eu tomava açaí de manhã, de tarde e de noite. Só que açaí de açaiteria é caro — trinta reais o pote de setecentos. Noventa reais por dia não dá. Então tive a brilhante ideia: comprar uma caixa de dez litros. Entre cem e cento e cinquenta reais, dependendo da qualidade. Economia pura.
Só que, para minha decepção, quando chegou, o açaí da caixa não era tão bom quanto o da açaiteria. Na primeira colherada eu soube. Senti na língua, na textura, na falta de alguma coisa. Mas não conseguia dizer o quê. Ficava ali, deixando a boca derreter aquela insatisfação sem nome. “Não é tão bom” — essa era a minha definição. Pobre, vaga, inútil. Mil palavras não dariam conta.
Até que, pesquisando outros vendedores na internet, um anúncio me fisgou: “Se o seu açaí parece areia congelada...”
Parei. Respirei. Era isso.
Areia congelada. Duas palavras. Uma imagem. E essa imagem trazia tudo que eu não conseguia nomear: a granulação áspera, o gelo quebradiço entre os dentes, a cor opaca, a sensação de algo moribundo, desidratado, ressuscitado à força no liquidificador. Não era “não tão bom”. Era areia congelada. Na hora, vi o que comi.
Aí entendi. “Não é tão bom” é linguagem. É uma espécie de definição, sim, mas precária, como quem aponta para uma parede e diz “coisa”. Agora, “areia congelada” — isso é outra coisa. A imagem não descreve. Ela nomeia pelo corpo, pela memória tátil, pelo que você já sentiu na praia, no freezer, na boca. Uma só imagem atingindo dezenas de propriedades que nem mil orações substantivas alcançariam.
Uma imagem vale mais que mil palavras porque ela encerra mais afeto. Não entra pela cabeça: vai direto para o coração. Não explica — mostra, faz você sentir de novo. Faz você saber.
Agora eu sei o que é um açaí ruim. É areia congelada. E toda vez que eu disser isso, não só verei no bowl, mas sentirei na ponta da colher e daí na boca. E toda vez que eu vir e sentir, entenderei — finalmente — por que mil palavras nunca chegariam lá.