Brasília, manhã fria de julho. O celular desliza sob o polegar como a pá de café desliza na xícara em dia sem compromisso. Entre uma postagem e outra, paro numa imagem que desconhecia até então. O título: “Como identificar mel?”. O método: três copos d’água. O resultado: três qualidades para o mel. O Puro — não se dissolve, afunda em cordões dourados. O Misturado — se dissolve em nuvens, mas deixa rastro. O Falso — some, deixando de si apenas o corante.
Fecho os olhos por um segundo. Lá fora, o céu da cidade é daquele azul que parece promessa, mas o ar é gelado. E eu penso: e se o homem fosse mel?
A ideia veio rápida, confortável: o homem deveria ser o mel puro, intocado, que se mantém quando o mundo o joga na água. Deveria afundar em si mesmo, denso, inabalável. É o que a imagem sugere, é o que o feed quer que eu pense. É o que eu quero pensar, porque me exime de examinar o copo d’água onde existo.
Mas, o mel puro não se dissolve porque é resistente — ou porque é inerte? A abelha não faz o mel para ser testado. Ela o faz para alimentar. E o mel, se não se dissolve, não alimenta. Fica no fundo do copo, belo e inútil. Já o mel falso some porque nunca foi; era açúcar invertido, água com cor. O misturado, porém, é o que a imagem não explica: ele tem algo que a água leva, e algo que a água não alcança.
E o homem? O homem não é fechado em si. Ele é jogado na água do tempo todos os dias. A manhã fria o dissolve um pouco. O trânsito, o feed, a notícia que não pedimos, o elogio que nos desmancha, a crítica que nos mancha — tudo isso é água. Se o homem fosse mel puro, imune à dissolução, seria herói ou seria pedra? A pedra também não se dissolve. E não alimenta ninguém.
Aí a escada se revela.
Falso não é o homem que se dissolve. Falso é o homem que se dissolve completamente e rapidamente, sem deixar densidade no fundo. É o que entra numa sala e sai outro. É o que repete a opinião do último feed. É o que, jogado na água do mundo, se dilui nas cores do mundo. Não deixa rastro porque não tinha traço próprio.
O misturado é mais trágico: dissolve, mas não completamente. Carrega uma densidade que não consegue nomear. É o homem que sabe que não é puro, mas não sabe o que ainda resta dele. Vive em nuvens, em suspenso, entre o que perdeu e o que não conseguiu ser.
Mas o puro — se existe — não é o que não se toca. É o que, ao se tocar, deixa no fundo do copo a marca do que sempre foi. O mel puro afunda em cordões porque tem carga. Tem história. Tem o trabalho da abelha, a flor do cerrado, o tempo do enxame. Quando a água o testa, ele não some porque não pode ser separado da sua origem. O homem puro seria assim: não o inatingível, mas o irreversível. Jogado na água, perde a forma, mas não a essência. A água fica doce. E no fundo do copo, algo que ainda não sei nomear continua denso.
Larguei o celular. Lá fora, o céu ainda era azul promessa. E eu pensei: Brasília foi construída sobre um planalto onde não havia nada, e hoje é densa de gente. Cada um, jogado na água da cidade, dissolve um pouco. Mas alguns, no fundo, deixam um cordão dourado. Não se vê de cima. Só quem bebe a água sente o doce.