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Cicatrizes de Vidro

Isah
Pública 4 conversas 5 pensamentos 7 votos positivos 2 votos negativos 0 séries 28 visualizações

— Uma resposta convenientemente genérica, senhorita Pietra. Uma casca bonita, mas sem nenhum conteúdo por dentro. Espero que, quando a vida exigir de você mais do que apenas "aparências", v

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Cicatrizes de Vidro

​Capítulo 1: O Brilho da Superfície

​O reflexo no espelho de moldura dourada do closet de Pietra era exatamente o que ela esperava: impecável. Aos dezessete anos, ela não conhecia o significado da palavra "esforço", pelo menos não no sentido acadêmico. Para Pietra, a vida era um fluxo contínuo de tapetes vermelhos invisíveis estendidos sob seus pés. Seus longos cabelos castanhos, iluminados por luzes loiras perfeitamente distribuídas, caíam em ondas suaves pelos ombros. Os olhos verdes, herdados da mãe, tinham aquela pitada de autoconfiança que beirava a arrogância, mas que o mundo insistia em chamar de "carisma".

​Ela ajustou a saia pregueada do uniforme do Colégio Saint-Exupéry, a escola particular mais cara e prestigiada da cidade. O Saint-Exupéry não era apenas uma escola; era um ecossistema de status, e Pietra estava no topo da cadeia alimentar.

​— Pietra! O carro já está esperando! — a voz de sua mãe, Helena, ecoou do andar de baixo, suave, mas sempre carregada daquela pressa elegante de quem tem reuniões com designers de interiores ou comitês de caridade.

​— Já vou, mãe! — Pietra gritou de volta, pegando sua bolsa de grife que servia como uma desculpa de mochila. Dentro dela, mal havia um caderno de anotações e um estojo reluzente. Livros? Eles costumavam ficar no armário da escola, intocados, acumulando a poeira da sua total indiferença.

​Pietra desceu as escadas de mármore com a leveza de quem sabe que o mundo existe para servi-la. Na cozinha, seu pai, Roberto, lia o jornal no tablet enquanto tomava um café expresso. Ele era um dos advogados societários mais influentes do país, um homem cuja assinatura mudava o destino de grandes corporações. Ele olhou para cima e sorriu, um sorriso cheio de orgulho.

​— Pronta para mais um ano de conquistas, minha princesa? — perguntou Roberto, estendendo a mão para um toque rápido.

​— Pronta para o último ano, pai. O que significa que só preciso sobreviver até as festas de formatura — Pietra respondeu com uma risada leve, pegando uma torrada integral e dando uma mordida protocolar.

​Helena desceu as escadas logo em seguida, conferindo o relógio de pulso.

— Roberto, você não esqueceu de assinar a autorização para a viagem de Pietra a Bariloche na temporada de inverno, esqueceu? Os pais da d’Ávila já fecharam o hotel.

​— Já está tudo assinado e pago, querida. Para a nossa filha, o melhor — disse Roberto, piscando para Pietra.

​Esse era o universo de Pietra: um porto seguro de certezas financeiras e mimos ilimitados. Estudar era um detalhe menor, uma chatice que os "outros" precisavam fazer para conseguir um lugar ao sol. Pietra já tinha o sol inteiro brilhando para ela. Suas notas eram mantidas na média mínima graças aos trabalhos em grupo onde seus amigos faziam a maior parte e ela entrava com a liderança e a apresentação, ou graças aos professores particulares que seu pai contratava na véspera das provas para lhe dar as respostas mastigadas.

​Quando o motorista particular a deixou na entrada do Saint-Exupéry, o burburinho habitual começou. Pietra saiu do carro e imediatamente foi cercada por suas duas melhores amigas, Amanda e Carina. As três formavam a santíssima trindade do colégio.

​— Amiga, você viu o feed do Léo? Ele postou uma foto na praia e acho que aquela indireta na legenda foi para você — disparou Amanda, ajustando os óculos escuros na cabeça.

​Pietra deu um sorriso enigmático. Léo era o capitão do time de futebol e o garoto mais cobiçado do terceiro ano. Eles tinham um "caso" mal definido que durava meses, um jogo de gato e rato que alimentava as fofocas dos corredores.

— O Léo sabe exatamente o que precisa fazer se quiser a minha atenção de verdade, Amandinha. Legendas no Instagram não compram meu tempo.

​As amigas riram, impressionadas com a postura inabalável de Pietra. Elas caminharam pelo pátio central, onde os olhares as seguiam como girassóis buscando a luz. Pietra acenava, distribuía sorrisos e sentia aquela onda de dopamina que a popularidade proporcionava. Ela era rainha ali.

​A primeira aula era de Literatura, ministrada pelo professor Assis, um homem de cabelos grisalhos e óculos na ponta do nariz que não se deixava impressionar por sobrenomes importantes.

​— Bom dia, turma. Como este é o último ano de vocês, espero que o compromisso com as leituras obrigatórias para o vestibular seja levado a sério — disse o professor Assis, batendo com a palma da mão sobre uma pilha de livros grossos na mesa. — Quero a análise do primeiro bloco até sexta-feira. E antes que me perguntem: não, não haverá extensão de prazo.

​Pietra soltou um suspiro audível de tédio e abriu o celular por baixo da carteira, ignorando completamente o roteiro que o professor passava no quadro. Ela começou a responder mensagens no grupo do WhatsApp intitulado "VIPs Balada". Alguém estava organizando um "esquenta" para a sexta-feira à noite na cobertura de um dos meninos.

​"Estou dentro. Mas só se o DJ for o mesmo do mês passado", digitou Pietra, os dedos voando pela tela.

​— Senhorita Pietra — a voz firme do professor Assis cortou o transe digital dela.

​Pietra ergueu os olhos lentamente, guardando o celular com uma calma calculada.

— Sim, professor?

​— Poderia nos agraciar com a sua opinião sobre o realismo machadiano e como ele se aplica à hipocrisia social, já que parece tão entretida com algo mais importante em seu colo?

​Alguns alunos abafaram risadinhas. Amanda olhou para Pietra com uma expressão de pena. Pietra, no entanto, não se abalou. Ela ajeitou a postura, deu o seu sorriso mais desarmante e usou a tática de sempre: enrolação com palavras bonitas.

​— Eu acho, professor, que a hipocrisia social de Machado de Assis é um reflexo atemporal de como as pessoas se importam mais com as aparências do que com a essência. É um tema profundo que realmente nos faz pensar sobre... o comportamento humano.

​O professor Assis a encarou por alguns segundos, os olhos semicerrados por trás das lentes. Ele deu um sorriso triste, quase profético.

— Uma resposta convenientemente genérica, senhorita Pietra. Uma casca bonita, mas sem nenhum conteúdo por dentro. Espero que, quando a vida exigir de você mais do que apenas "aparências", você tenha algo mais sólido para apresentar. Estudar não é para passar de ano; é para não ser enganado pelo mundo.

​Pietra engoliu em seco. Por um breve instante, aquela frase ecoou de uma forma desconfortável em seu peito. "Uma casca bonita". Mas o desconforto durou pouco. Assim que o sinal bateu, anunciando o intervalo, a sensação de poder retornou. Léo a esperava na porta da sala, com um sorriso de lado e os braços cruzados.

​— E aí, linda? Ouvi dizer que levou um sermão do Assis — zombou Léo, passando o braço pelos ombros dela enquanto caminhavam para o refeitório.

​— Aquele velho é um frustrado — Pietra minimizou, encostando a cabeça no ombro dele por um segundo. — Ele não entende que o mundo real funciona de outro jeito. Meu pai conhece o diretor da fundação que avalia o ingresso na faculdade que eu quero. Eu não preciso decorar Machado de Assis.

​— É assim que se fala — Léo riu, beijando o topo da cabeça dela. — Sexta tem festa. Você vai comigo, né?

​— Claro. A gente se vê lá.

​O restante do dia passou como um borrão agradável de risadas, fofocas e planos para o fim de semana. Pietra voltou para casa no final da tarde, sentindo-se a dona do universo. O sol estava se pondo, tingindo o céu de tons de rosa e laranja através da janela do carro. Ela pensou em como sua vida era perfeita. Tinha os pais perfeitos, a beleza perfeita, o namorado perfeito e um futuro garantido sem precisar derramar uma única gota de suor.

​Quando o carro parou em frente à mansão da família, Pietra estranhou ao ver duas viaturas da Polícia Federal estacionadas na rua, com as luzes rotativas apagadas, mas os agentes em movimento. Havia também dois carros pretos e descaracterizados parados bem em frente ao portão principal.

​O motorista, visivelmente tenso, olhou pelo retrovisor.

— Senhorita Pietra... acho melhor esperarmos um pouco.

​— O que está acontecendo, Carlos? — Pietra perguntou, o coração dando um salto inédito de ansiedade. — Por que a polícia está na minha casa?

​Antes que o motorista pudesse responder, a porta principal da mansão se abriu. Dois homens de terno saíram carregando caixas de papelão cheias de documentos e computadores. Logo atrás deles, vinha seu pai, Roberto. Ele não usava o paletó, suas mangas estavam dobradas de forma desordenada e, para o horror absoluto de Pietra, suas mãos estavam algemadas para a frente. Ele caminhava de cabeça baixa, uma imagem de derrota que Pietra nunca, em toda a sua vida, imaginou ver.

​Sua mãe, Helena, vinha logo atrás, chorando copiosamente, sendo amparada por uma policial feminina.

​— Pai! — Pietra gritou, abrindo a porta do carro antes que o motorista pudesse impedi-la. Ela correu em direção ao jardim, os saltos de seus sapatos batendo contra as pedras portuguesas. — O que está acontecendo? Soltem o meu pai!

​— Fique no carro, Pietra! — gritou Roberto, a voz embargada, sem olhar nos olhos da filha enquanto era conduzido para a parte de trás de um dos carros pretos. — Ligue para o Dr. Maurício! Peça para a sua mãe ligar para o Maurício!

​Um dos policiais barrou o caminho de Pietra com o braço firme.

— Afaste-se, mocinha. Estamos cumprindo um mandado de prisão preventiva e busca e apreensão.

​Pietra estacou, o ar subitamente sumindo de seus pulmões. O carro que levava seu pai deu a partida, os pneus cantando de leve no asfalto. Ela olhou para a mãe, que havia desabado de joelhos no gramado perfeito do jardim, soluçando alto.

​O céu, que antes parecia um teto de ouro sobre a vida de Pietra, de repente pareceu desabar sobre sua cabeça como um bloco de concreto. O brilho da superfície havia trincado, e o chão sob seus pés começava a desaparecer.

​Gostou do primeiro capítulo? Deseja que eu prossiga para o Capítulo 2, mantendo este es— Uma resposta convenientemente genérica, senhorita Pietra. Uma casca bonita, mas sem nenhum conteúdo por dentro. Espero que, quando a vida exigir de você mais do que apenas "aparências", você tenha algo mais sólido para apresentar. Estudar não é para passar de ano; é para não ser enganado pelo mundo.

​Pietra engoliu em seco. Por um breve instante, aquela frase ecoou de uma forma desconfortável em seu peito. "Uma casca bonita". Mas o desconforto durou pouco. Assim que o sinal bateu, anunciando o intervalo, a sensação de poder retornou. Léo a esperava na porta da sala, com um sorriso de lado e os braços cruzados.

​— E aí, linda? Ouvi dizer que levou um sermão do Assis — zombou Léo, passando o braço pelos ombros dela enquanto caminhavam para o refeitório.

​— Aquele velho é um frustrado — Pietra minimizou, encostando a cabeça no ombro dele por um segundo. — Ele não entende que o mundo real funciona de outro jeito. Meu pai conhece o diretor da fundação que avalia o ingresso na faculdade que eu quero. Eu não preciso decorar Machado de Assis.

​— É assim que se fala — Léo riu, beijando o topo da cabeça dela. — Sexta tem festa. Você vai comigo, né?

​— Claro. A gente se vê lá.

​O restante do dia passou como um borrão agradável de risadas, fofocas e planos para o fim de semana. Pietra voltou para casa no final da tarde, sentindo-se a dona do universo. O sol estava se pondo, tingindo o céu de tons de rosa e laranja através da janela do carro. Ela pensou em como sua vida era perfeita. Tinha os pais perfeitos, a beleza perfeita, o namorado perfeito e um futuro garantido sem precisar derramar uma única gota de suor.

​Quando o carro parou em frente à mansão da família, Pietra estranhou ao ver duas viaturas da Polícia Federal estacionadas na rua, com as luzes rotativas apagadas, mas os agentes em movimento. Havia também dois carros pretos e descaracterizados parados bem em frente ao portão principal.

​O motorista, visivelmente tenso, olhou pelo retrovisor.

— Senhorita Pietra... acho melhor esperarmos um pouco.

​— O que está acontecendo, Carlos? — Pietra perguntou, o coração dando um salto inédito de ansiedade. — Por que a polícia está na minha casa?

​Antes que o motorista pudesse responder, a porta principal da mansão se abriu. Dois homens de terno saíram carregando caixas de papelão cheias de documentos e computadores. Logo atrás deles, vinha seu pai, Roberto. Ele não usava o paletó, suas mangas estavam dobradas de forma desordenada e, para o horror absoluto de Pietra, suas mãos estavam algemadas para a frente. Ele caminhava de cabeça baixa, uma imagem de derrota que Pietra nunca, em toda a sua vida, imaginou ver.

​Sua mãe, Helena, vinha logo atrás, chorando copiosamente, sendo amparada por uma policial feminina.

​— Pai! — Pietra gritou, abrindo a porta do carro antes que o motorista pudesse impedi-la. Ela correu em direção ao jardim, os saltos de seus sapatos batendo contra as pedras portuguesas. — O que está acontecendo? Soltem o meu pai!

​— Fique no carro, Pietra! — gritou Roberto, a voz embargada, sem olhar nos olhos da filha enquanto era conduzido para a parte de trás de um dos carros pretos. — Ligue para o Dr. Maurício! Peça para a sua mãe ligar para o Maurício!

​Um dos policiais barrou o caminho de Pietra com o braço firme.

— Afaste-se, mocinha. Estamos cumprindo um mandado de prisão preventiva e busca e apreensão.

​Pietra estacou, o ar subitamente sumindo de seus pulmões. O carro que levava seu pai deu a partida, os pneus cantando de leve no asfalto. Ela olhou para a mãe, que havia desabado de joelhos no gramado perfeito do jardim, soluçando alto.

​O céu, que antes parecia um teto de ouro sobre a vida de Pietra, de repente pareceu desabar sobre sua cabeça como um bloco de concreto. O brilho da superfície havia trincado, e o chão sob seus pés começava a desaparecer.

​Gostou do primeiro capítulo? Deseja que eu prossiga para o Capítulo 2, mantendo este estilo e aprofundando o início da queda de Pietra?tilo e aprofundando o início da queda de Pietra?

Querem continuação?

Thoughts

  • treta_com_nexo

    Então é isso: Pietra inteira era casca. Pai rico, escola cara, motorista particular. Polícia chega e tudo desaba em vinte minutos. Privilégio não é competência. O professor Assis tava certo.

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