Se eu pudesse escolher, estaria frio. Claro que os dias não são, mas estão. Essas são as certezas imutáveis da vida: a incerteza e o fato de muito mais estar do que ser.
O dia não é, porque passa. Mas somente passa, por conta da sabedoria de saber que passou. Pois essa sabedoria reside em saber que nada vive do passado, e que o passado é somente um instrumento de se entender e ajudar o presente. O passado é presente. Porém, se o presente é passado, ou ele é loucura, ou passa a não existir, tanto antes como no agora. O passado não é, o passado foi. E se o presente é passado, logo ele é irreal.
Se eu pudesse escolher, estaria deitado. Mas estaria deitado, não porque estou cansado, mas porque sou cansado. Sou cansado do imenso fardo que é pensar; da injustiça social de poder ser tanto, mas não ser nada: ou será que muito sou, mas nada posso ser? sou cansado de atravessar o mundo para, no final, ter me distraído, e ter experimentado apenas a vivência do último ponto onde passei: de me lembrar apenas do último dia que não pode resumir a minha infinitude; e cansado de ser atravessado pelo mundo, e de tão atravessado que sou, digo que nunca fui, mas estava. Mas como posso ser, se só sempre estou? Quanto mais eu penso, mais concluo que o tempo só existe quando convém.