Rapaz, o Oito oco por dentro é o truque mais velho do balcão: anuncia ouro maciço e entrega revestimento em cima de mármore. E quem descobre não é o Conselho, é o sujeito que passou a luva na placa.
A Fome que Devora a Fé - Parte 3
Pensamento
Rapaz, o Oito oco por dentro é o truque mais velho do balcão: anuncia ouro maciço e entrega revestimento em cima de mármore. E quem descobre não é o Conselho, é o sujeito que passou a luva na placa.
Conteúdo da publicação
A Catedral Vermelha — A Queda do Oito
Ainda havia vestígios de lixo espacial orbitando a Terra. A estação CERES II monitorava os detritos, previa chuvas de meteoritos e acompanhava as condições climáticas dos continentes. Era um trabalho rotineiro. A maioria dos fragmentos se desintegrava ao entrar na atmosfera; outros eram pequenos demais para serem vistos a olho nu. Alguns atravessavam o céu durante o dia, invisíveis sob a claridade, enquanto outros deixavam rastros luminosos na escuridão. Para a população, era apenas mais um fenômeno natural. Para os sistemas de monitoramento, números, trajetórias e probabilidades.
Ninguém tinha motivos para temer o céu.
Na Catedral Vermelha, entretanto, o que acontecera naquela tarde ainda era motivo de inquietação.
Sob as abóbadas monumentais, as luzes dos castiçais tremeluziam sobre o ouro, as pedras preciosas e os tecidos cerimoniais. No altar, atrás do púlpito sagrado, erguia-se o Oito Sagrado Alado, uma estrutura monumental que parecia ter sido construída para desafiar o próprio tempo. As asas douradas se abriam sobre os sacerdotes, enquanto um enorme vitral, composto por milhares de peças de vidro colorido, reproduzia a mesma imagem atrás do símbolo. A luz do fim da tarde atravessava o desenho sagrado e espalhava manchas vermelhas pelo mármore branco.
Os Consagrados ocupavam os lugares reservados às famílias tradicionais. Eram homens de capuzes vermelhos e máscaras bordadas a ouro, herdeiros de sobrenomes antigos, criados para acreditar que o poder lhes pertencia por direito divino. Chamavam a si mesmos de Novos Tradicionalistas. Em Omni Opus, a tradição era a raiz; a religião, o tronco; e eles eram os frutos que ninguém tinha autorização para colher.
O Conselho Vermelho não precisava de eleições. Sua autoridade vinha da aclamação pública, do medo e da certeza que seus membros exibiam diante das multidões. Em Omni Opus, hesitar era perigoso. Demonstrar dúvida, quase uma heresia.
Naquela tarde, porém, alguns deles haviam visto algo que não conseguiam explicar.
— A audácia daquela mulher profana! — declarou um Consagrado, de pé diante do púlpito. Sua voz reverberou pela catedral. — É muita sorte que ainda esteja viva. Teria sido perfeito em nome da Fraternidade, da Família e da Fé se ela tivesse morrido diante das câmeras. Uma morte pública, testemunhada por milhares. O próprio Oito teria sido servido!
— E, no entanto, ela alimentou os refugiados — respondeu outro, sentado à direita do altar. — Deu água, assistência médica e abrigo. Diante das câmeras, comportou-se como se aquelas pessoas fossem cidadãs de Ceres.
— Eram refugiados de Arcadia! — retrucou um sacerdote. — Não eram cidadãos dela!
— E isso tornava aquelas crianças menos famintas?
O silêncio que se seguiu foi breve, mas suficiente para incomodar os presentes.
O primeiro Consagrado virou a máscara na direção do sacerdote.
— Cuidado com suas palavras.
— Estou apenas descrevendo o que todos viram.
— Todos viram uma encenação — disse um terceiro. — Mãe Ceres preparou aquele espetáculo para humilhar nossas escrituras. Colocou-se diante de uma multidão miserável e transformou a própria presença em um altar. Até o homem que tentou matá-la acabou nos braços dela!
— O homem sofreu um infarto — corrigiu outro sacerdote. — Os médicos confirmaram. Não houve milagre.
— E quem está falando em milagre? — perguntou o primeiro.
— Os nossos próprios fiéis.
A resposta caiu sobre o salão como uma pedra.
Um dos Consagrados, mais velho que os demais, apoiou as mãos enluvadas na borda do banco.
— Alguns cidadãos de Omni Opus já a chamam de Nossa Senhora da Fome.
Dessa vez, os murmúrios percorreram toda a nave.
— Blasfêmia! — exclamou um sacerdote.
— Uma blasfêmia que nasce dentro das nossas próprias fronteiras — continuou o homem. — Não estamos falando de estrangeiros, nem de ateus, nem de inimigos declarados. São pessoas que frequentam nossas catedrais, pagam suas ofertas e se ajoelham diante do Oito. Se começam a procurar uma santa fora de nossos altares, temos um problema.
— São apenas boatos — disse o Consagrado junto ao púlpito. — Boatos morrem quando não recebem alimento.
— E se não morrerem?
— Então serão silenciados.
— Como os outros?
O homem não respondeu imediatamente.
Um sacerdote ajeitou o colar dourado sobre o peito.
— O Oito Sagrado permanece intacto. Nossas escrituras não mudaram. A Catedral Vermelha continua de pé. Nada corrompe aquilo que foi consagrado.
— Não estou falando da pedra, sacerdote.
— Então fale com clareza.
O Consagrado levantou-se devagar.
— Uma pequena centelha pode provocar uma revolução em Omni Opus. Não precisamos que o povo abandone o Oito. Basta que comece a perguntar por que precisa de nós para compreendê-lo.
— Consagrado — interveio o homem no púlpito —, tem dúvidas sobre nossas escrituras sagradas?
O outro virou a máscara para ele.
— Não, Consagrado. Tenho dúvidas sobre aquilo que as pessoas fazem em nome delas.
Alguns sacerdotes trocaram olhares. Outros permaneceram imóveis, como se até a curiosidade pudesse ser interpretada como uma confissão.
O homem prosseguiu:
— A voz do povo também é a voz de Omni Opus. Não podemos ignorar o que aconteceu diante das câmeras. Aquele homem caiu morto, ou quase morto, nos braços de Mãe Ceres. Ela chorou por ele. Chamou-o de filho. Pediu que o salvassem. E, quando tudo terminou, negou qualquer milagre.
— Porque é uma mentirosa! — interrompeu um dos sacerdotes.
— Talvez. Mas é uma mentirosa que não reivindicou o poder que lhe atribuem.
— Isso não importa. O povo não precisa de explicações. Precisa de fé.
— E se começar a acreditar nela?
O Consagrado que presidia a reunião soltou uma risada curta, sem alegria.
— Acreditar em quê? Em uma mulher que governa uma cidade onde a fé foi substituída por essa palavra grotesca: suportar?
— Talvez seja justamente isso que os incomoda — disse o homem. — Ela não promete salvação. Não exige que os famintos agradeçam pela fome. Ela os alimenta.
— E depois os transforma em instrumentos políticos!
— É possível. Mas o pão continua sendo pão, mesmo quando alguém o utiliza para conquistar poder.
O sacerdote que permanecia junto ao púlpito bateu a mão na madeira.
— Basta! Estamos aqui para discutir uma afronta, não para reproduzir a propaganda de Ceres!
A voz reverberou pelas abóbadas. Durante alguns segundos, ninguém ousou responder.
Atrás dele, o Oito Sagrado Alado reluzia sob as luzes dos castiçais. Ouro sobre ouro. Pedras preciosas incrustadas em suas asas. Uma obra monumental que, durante gerações, fora apresentada como prova material da proteção divina sobre Omni Opus.
O Consagrado mais velho ergueu o rosto para o símbolo.
— Não duvido do nosso Oito. Ele permaneceu de pé durante séculos. Mas aquilo que vimos hoje foi diferente. Milhares de pessoas testemunharam a mesma coisa. Não é possível simplesmente apagar uma imagem da memória. Não é possível desver.
— A fé não depende dos olhos — respondeu o sacerdote. — Depende do sentimento. O medo faz parte das provações. Quantas vezes fomos testados? Quantas vezes nossos inimigos tentaram nos afastar do caminho? O Oito permanece acima de nós porque nossa devoção o mantém vivo.
— O Oito não precisa de nós para existir.
— Precisa de nós para ser compreendido!
— Ou precisa de nós para continuar sendo obedecido?
As últimas palavras mal haviam terminado quando vários Consagrados se levantaram. Os capuzes vermelhos se moveram juntos, como uma única criatura perturbada.
— Retire o que disse! — exigiu um deles.
— Eu disse que o povo pode começar a fazer perguntas.
— Perguntas são a porta de entrada para a heresia!
— Não, Consagrado. A fome também é.
O presidente da reunião bateu o cajado contra o chão.
— Chega!
O som percorreu a catedral e morreu lentamente entre as colunas.
O homem que ocupava o púlpito respirou fundo. Sob o capuz vermelho, seus olhos voltaram-se para o celular pousado ao lado dos livros sagrados. Na tela, mensagens privadas e imagens de fiéis menores de idade se acumulavam, aguardando sua atenção depois da cerimônia. Ele deslizou o dedo pela tela, satisfeito com o que viu, e tornou a guardá-la sob o tecido.
Aquela era a verdadeira intimidade de alguns homens que pregavam pureza: um mundo de privilégios escondido atrás de máscaras, enquanto a população era vigiada, castigada e obrigada a confessar até os pensamentos que não ousava pronunciar.
Ele ergueu os braços.
— Consagrados, sacerdotes, filhos da tradição! Não permitiremos que uma mulher profana contamine nossa fé. Não permitiremos que os famintos sejam usados para reescrever nossas escrituras. O Oito está intacto. Nossa autoridade está intacta. Omni Opus está intacta!
Alguns responderam com entusiasmo. Outros repetiram as palavras sem convicção.
— Fraternidade! — proclamou o homem.
— Família! — responderam os presentes.
— Fé!
— Fé!
A última palavra ecoou sob a cúpula.
O sacerdote sorriu por trás da máscara.
— Digo a todos os Consagrados: esta noite será especial, como sempre foi e sempre será. O Oito nos ouve. O Oito nos protege. O Oito não nos abandonará.
Foi então que as primeiras luzes apareceram no céu.
A noite começava a cobrir a cidade quando um risco luminoso atravessou a abertura superior da catedral. Outro surgiu logo depois, mais distante, seguido por um terceiro. Por alguns instantes, os fragmentos deixaram rastros brancos e azulados sobre as nuvens.
Os sacerdotes interromperam os cânticos.
Um jovem acólito apontou para os vitrais.
— Consagrados... olhem!
As figuras encapuzadas se viraram. Do lado de fora, pessoas paravam nas ruas para observar o fenômeno. Algumas apontavam para o céu. Outras se ajoelhavam, convencidas de que estavam presenciando uma resposta divina.
Dentro da catedral, o presidente ergueu os braços.
— Estão vendo? O Oito nos ouviu!
Um sacerdote começou a chorar.
— É um sinal!
— Uma confirmação! — exclamou outro.
— As palavras foram recebidas! — gritou alguém entre os fiéis.
O coro de vozes cresceu. Os Consagrados se levantaram, alguns com os braços erguidos, outros inclinados diante do altar. O medo de poucas horas antes se transformou em euforia. A coincidência parecia conveniente demais para ser questionada.
— O Oito nos protege! — proclamou o homem do púlpito.
— O Oito nos protege! — repetiram os demais.
Mas, muito acima das nuvens, não havia divindade escolhendo onde cairia a luz.
Havia apenas matéria.
Fragmentos antigos, resíduos de satélites, restos de equipamentos e pedaços de estruturas esquecidas percorriam suas órbitas sob a influência da gravidade. Alguns queimavam antes de alcançar o solo. Outros sobreviviam à passagem pela atmosfera, perdendo velocidade, massa e calor ao longo da queda.
A estação CERES II acompanhava milhares dessas trajetórias. Para seus sistemas, o que cruzava o céu naquela noite era parte de um fenômeno conhecido, sujeito a cálculos e margens de incerteza. A maior parte dos fragmentos previstos não representava ameaça significativa à superfície.
Mas um deles seguia uma trajetória diferente.
Seu tamanho era modesto. Sua origem, antiga. Sua identificação, incompleta.
Durante mais de vinte anos, aquele fragmento havia circulado a Terra, carregando consigo um pedaço de uma estação que já não existia. A destruição da CERES I fora celebrada em Omni Opus como uma vitória contra a blasfêmia. Seus destroços, porém, jamais haviam desaparecido por completo.
O fragmento entrou na atmosfera.
O atrito incendiou sua superfície. O material aqueceu, rachou e se desprendeu em pequenas partículas luminosas. O objeto perdeu parte da massa, mas continuou avançando, envolto por uma chama que a distância fazia parecer uma estrela.
Na catedral, os cânticos ficaram mais altos.
— O Oito manifesta sua glória! — gritou um sacerdote.
— Que nossos inimigos vejam! — respondeu um Consagrado.
O presidente do Conselho abriu os braços diante do altar.
— Fraternidade, Família e Fé! Que o mundo testemunhe a proteção de Omni Opus!
Então veio o estrondo.
O vitral atrás do Oito Sagrado Alado explodiu para dentro.
Milhares de pedaços coloridos atravessaram o ar. O som dos vidros quebrando foi engolido por um impacto muito maior, que fez as colunas vibrarem e derrubou os castiçais. Uma chuva de fragmentos incandescentes atravessou a nave, espalhando fumaça, poeira e estilhaços sobre os bancos.
O meteorito atingiu o Oito.
Por um instante, a estrutura monumental pareceu resistir. As asas douradas tremeram. Uma rachadura atravessou o corpo central. O suporte cedeu com um gemido profundo, quase orgânico, e a peça começou a tombar.
Os Consagrados assistiram à queda sem conseguir se mover.
O símbolo inclinou-se lentamente, como se o próprio céu tivesse decidido abandonar o altar.
— Segurem-no! — gritou um sacerdote.
Dois homens correram na direção da estrutura, mas recuaram quando uma das asas se desprendeu e despencou sobre o piso. O estrondo fez a nave inteira estremecer.
— O Oito! — berrou alguém. — Salvem o Oito!
Não havia como salvá-lo.
O monumento atingiu o chão e se despedaçou. O ouro que revestia sua superfície se abriu em placas retorcidas. As pedras preciosas saltaram de suas cavidades e rolaram pelo mármore, misturadas a cacos de vidro, fuligem e sangue. A fumaça ocultou o altar. O som das pessoas gritando se misturou ao alarme dos sistemas de emergência e ao estalar dos últimos pedaços do vitral que ainda se desprendiam das molduras.
Durante alguns segundos, ninguém pronunciou uma palavra.
Os homens que haviam acabado de proclamar a invulnerabilidade do Oito contemplavam seus restos no chão.
Um sacerdote caiu de joelhos.
— Não...
Outro começou a repetir uma oração, mas perdeu a sequência das palavras. Um terceiro recuou até bater contra uma coluna.
— Foi uma provação — murmurou alguém.
— Foi um ataque! — gritou um Consagrado. — Fechem as portas! Ninguém pode sair!
— As portas? — perguntou um sacerdote, atordoado. — E as pessoas feridas?
— Protejam o Conselho!
— O Conselho? O Oito acabou de cair!
O presidente tentou recuperar a autoridade. Subiu um degrau do altar, ergueu o cajado e gritou:
— Silêncio! Ninguém tocará nos restos sagrados! Todos devem permanecer em oração! Isto não pode ser interpretado como—
Uma nova sequência de estalos veio do altar. Parte da estrutura desabou, revelando o interior do monumento.
O sacerdote parou de falar.
Sob o revestimento dourado, não havia ouro maciço. Não havia a substância sagrada que os sermões descreviam. O que aparecia entre as placas partidas era uma estrutura de sustentação e um núcleo de mármore negro, escurecido pela poeira e pelas chamas. A peça, vendida ao povo como uma manifestação material da glória eterna, era uma construção revestida, uma aparência cuidadosamente produzida.
Um dos Consagrados se aproximou, cambaleando.
— Isso... isso não é possível.
Ele tocou uma das placas douradas com a ponta da luva. O metal se soltou e caiu sobre o piso.
— É apenas um revestimento — sussurrou.
— Cale a boca! — ordenou o presidente.
— Mas olhe!
— Eu mandei calar a boca!
O homem apontou para o interior exposto.
— Durante séculos, disseram que era ouro consagrado. Disseram que cada parte havia sido oferecida pelos primeiros fiéis. Disseram que o Oito não podia ser corrompido porque era feito de uma matéria que o mundo comum não conhecia.
Ele olhou para o mármore negro.
— O que mais nos esconderam?
O presidente ergueu o cajado, mas não encontrou resposta.
Um som baixo atravessou a nave. Não era um cântico nem uma oração. Era o murmúrio crescente de centenas de pessoas que, pela primeira vez, não sabiam para onde olhar.
Então alguém percebeu o pequeno objeto junto aos escombros.
Um fragmento metálico, ainda quente, havia caído perto de uma das asas quebradas. Não possuía ouro, inscrições religiosas ou qualquer ornamento. Era apenas uma peça escurecida pelo calor, parcialmente deformada, com marcas técnicas gravadas na superfície.
Um sacerdote se aproximou com cautela.
— Não toque nisso — ordenou um Consagrado.
O homem ignorou a ordem. Usou a extremidade de seu cajado dourado, ornamentado com pequenas pedras preciosas, para virar a peça.
A fumaça ainda subia do metal.
Ele se inclinou, tentando ler as inscrições. Passou a manga pela superfície chamuscada e tornou a olhar.
Seu corpo ficou imóvel.
— O que foi? — perguntou o presidente.
O sacerdote não respondeu.
— O que está escrito?
Ele ergueu os olhos. Por trás da máscara, sua expressão não podia ser vista, mas a voz saiu trêmula.
— CERES I.
Um dos Consagrados deu um passo para trás.
— Repita.
— CERES I.
O sacerdote virou a peça um pouco mais. A luz de um castiçal caído iluminou uma segunda inscrição, gravada em caracteres alfanuméricos, seguida de palavras que não pertenciam a nenhum idioma litúrgico de Omni Opus.
FEITO EM CERES.
Ninguém se moveu.
Por mais de vinte anos, aquele pedaço de metal havia orbitado o planeta, sobrevivendo em silêncio à destruição da estação que Omni Opus mandara eliminar. Agora repousava no centro de sua maior catedral, entre os destroços do símbolo que os mesmos homens haviam proclamado eterno.
Um Consagrado começou a rir. Era uma risada curta, quebrada, que logo se transformou em um soluço.
— Não... Não pode ser.
— Foi Ceres! — gritou outro. — Ceres nos atacou!
— Como? — perguntou o sacerdote que segurava o fragmento. — Como alguém poderia lançar um ataque vinte anos depois, sem sequer saber onde cairia?
— Então foi uma mensagem! — respondeu o outro. — Uma maldição!
— É lixo espacial — disse uma voz atrás deles.
Todos se viraram.
O jovem acólito permanecia junto a uma coluna, coberto de poeira e pequenos cacos de vidro. Tremia, mas continuou:
— São restos da estação que destruímos. Foi isso que caiu do céu.
O presidente avançou até ele.
— Você não sabe o que está dizendo.
— Está escrito na peça.
— Você não compreende o que está escrito!
— Compreendo que veio de Ceres.
O Consagrado agarrou o jovem pelo colarinho.
— Ceres é uma nação profana. Seus objetos não podem atravessar nossa catedral e destruir o Oito!
O rapaz olhou para os escombros.
— Mas atravessaram.
O homem o soltou como se tivesse tocado em algo contaminado.
Ao redor deles, os fiéis começaram a gritar. Alguns exigiam explicações. Outros se ajoelhavam diante dos restos do monumento, implorando por perdão. Havia quem tentasse recolher as pedras preciosas espalhadas pelo chão, enquanto sacerdotes ordenavam que ninguém tocasse nos objetos sagrados. Os guardas empurravam a multidão, sem saber se deveriam proteger os feridos, os Consagrados ou o que restava do altar.
As câmeras da catedral continuavam transmitindo.
Milhares de pessoas assistiam à catástrofe em tempo real.
O presidente percebeu as lentes voltadas para ele. Endireitou os ombros, ajeitou o capuz e levantou o cajado.
— Filhos de Omni Opus! Não temam! O Oito foi provado, mas nossa fé permanece! Nossos inimigos tentaram profanar este lugar, e o Conselho Vermelho descobrirá a verdade!
Sua voz vacilou na última palavra.
Atrás dele, o Oito continuava espalhado pelo chão.
Um sacerdote puxou o presidente pelo braço.
— Precisamos interromper a transmissão.
— Imediatamente.
— Já tentaram. Os sistemas de emergência estão enviando imagens para as redes externas.
O presidente olhou para as câmeras. Pela primeira vez, pareceu compreender a dimensão do que acontecera.
A população não veria apenas um monumento destruído. Veria os homens que haviam prometido sua invulnerabilidade. Veria as asas douradas partidas, o mármore negro exposto e o fragmento de uma estação construída em Ceres. Veria o Conselho tentando explicar por que o céu, que minutos antes supostamente confirmara sua fé, acabara de derrubar seu maior símbolo.
E veria tudo isso sem precisar da autorização de um sacerdote.
— Desliguem as câmeras! — gritou.
Mas a ordem chegou tarde demais.
Em algum lugar da cidade, uma mulher segurou o filho contra o peito. Um homem abandonou a oração no meio da frase. Nas ruas, os cidadãos se reuniam diante das telas, incapazes de compreender se deveriam chorar, fugir ou comemorar. Dentro das delegacias vermelhas, os guardas receberam ordens contraditórias. Nas casas das famílias tradicionais, os telefones começaram a tocar.
O Conselho Vermelho tinha passado gerações ensinando que a dúvida era uma doença, que a desobediência era uma ameaça e que o Oito Alado jamais poderia cair.
Agora, todos haviam visto a queda.
No chão da Catedral Vermelha, o fragmento metálico esfriava lentamente.
CERES I.
Não havia sido enviado por Mãe Ceres. Não havia atravessado o espaço para cumprir uma profecia. Não conhecia o nome de Omni Opus, não reconhecia o Oito e não carregava qualquer intenção de vingança.
Era apenas um resto de uma estação destruída, um objeto abandonado à própria órbita por mais de vinte anos.
Ainda assim, naquele instante, tornou-se a coisa mais perigosa que já havia entrado na Catedral Vermelha.
Porque o Conselho podia prender os hereges, confiscar livros, censurar notícias e condenar pessoas por pensamentos que nunca haviam pronunciado.
Mas não podia ordenar que milhares de testemunhas esquecessem aquilo que tinham visto.
E, pela primeira vez em séculos, os Consagrados não sabiam qual oração deveriam ensinar ao povo.
O Oito Sagrado Alado estava no chão.
E Omni Opus, de joelhos diante de seus próprios escombros, descobria que a fé podia sobreviver à destruição de um símbolo — mas o poder construído sobre a certeza absoluta talvez não sobrevivesse à primeira pergunta.
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Thoughts
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PermalinkA profecia da Parte 1, a das asas do Oito quebrando, se cumpriu, e quem quebrou foi a estação que eles festejaram derrubar, voltando sozinha vinte anos depois. Desconfio que o Conselho vai querer calar primeiro o acólito que falou com as câmeras ligadas.
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PermalinkRapaz, o Oito oco por dentro é o truque mais velho do balcão: anuncia ouro maciço e entrega revestimento em cima de mármore. E quem descobre não é o Conselho, é o sujeito que passou a luva na placa.
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