Os médicos soltando hipótese tipo roleta e a psicóloga só virando o notebook. Ri junto com a risada nervosa do médico.
A Aparição - Parte 21
Pensamento
Os médicos soltando hipótese tipo roleta e a psicóloga só virando o notebook. Ri junto com a risada nervosa do médico.
Conteúdo da publicação
No posto militar, o carro de segurança já esperava.
A psicóloga entrou sem dizer nada.
O trajeto era o mesmo de todas as manhãs.
As mesmas barreiras.
Os mesmos policiais.
As mesmas pessoas acampadas ao redor da área.
Mas agora havia ainda mais gente.
Religiosos.
Ufólogos.
Curiosos.
Pessoas carregando cartazes.
Alguns chamavam Aurora de santa.
Outros gritavam que ela era uma ameaça.
Havia gente rezando.
Gente filmando.
Gente vendendo comida.
Gente discutindo.
Ela passou por todos.
Não olhou para ninguém.
Quando chegou à base, apresentou o crachá.
Entrou.
Caminhou pelos corredores improvisados.
Parecia diferente.
Mais confiante.
Uma reunião havia sido convocada com urgência.
Médicos.
Enfermeiros.
Biomédicos.
Psicólogos.
Militares.
O comandante estava de pé diante de uma mesa cheia de documentos.
Aurora continuava na floresta.
A situação não havia mudado.
O problema era que ninguém sabia o que fazer.
— Vamos começar — disse o comandante. — Quero hipóteses concretas.
Um médico falou primeiro.
Falou sobre alterações neurológicas.
Outro sobre alguma condição desconhecida do sistema nervoso.
Um biomédico apresentou a possibilidade de uma anomalia celular.
Um pesquisador falou sobre radiação.
Outro mencionou fenômenos gravitacionais.
Um psicólogo levantou a hipótese de dissociação extrema.
Nenhuma explicação durava mais de alguns minutos.
Sempre havia alguma coisa que não encaixava.
O comandante ouviu todos.
Depois olhou para a psicóloga.
— E você?
Ela abriu o notebook.
— Eu acho que estamos fazendo a pergunta errada.
A sala ficou quieta.
— Aurora pode não ser o acontecimento.
Alguns se entreolharam.
— Explique.
Ela respirou.
— Aurora era uma adolescente comum. Estava sendo perseguida por alunos da escola quando aquilo aconteceu.
Colocou algumas fotografias sobre a mesa.
— Nós sabemos que um dos garotos que a perseguia foi até a própria casa e tentou impedi-la.
O comandante assentiu.
— O pai dele atacou Aurora.
— Sim.
Ela passou para a próxima página.
— E o garoto estava na lista de agressores.
O comandante olhou para os documentos.
— Quantos?
— Seis.
Ela apontou.
— Cinco garotos e uma garota.
Silêncio.
— Você está dizendo que ela veio atrás deles?
— Não.
— Então o que está dizendo?
— Estou dizendo que talvez a aparição tenha acesso às memórias de Aurora.
Um médico franziu a testa.
— Como você pode saber disso?
— Não posso.
Ela olhou para todos.
— É uma hipótese.
Continuou.
— Mas a aparição sabe quem eles são. O garoto estava diante dela. Ele sabia que ela lembrava dele. E ela entrou na casa.
— Para matá-lo?
— Não.
A psicóloga balançou a cabeça.
— Se fosse esse o objetivo, ela poderia ter feito isso.
Ninguém respondeu.
— Ela apenas olhou para ele.
O comandante cruzou os braços.
— E os outros?
— Precisamos encontrá-los.
— Por quê?
— Porque talvez ela queira conhecê-los.
— Conhecê-los?
— Não como nós conhecemos alguém. Não existe empatia. Não existe raiva. Não existe vingança.
Ela parou.
— Curiosidade.
Um dos médicos soltou uma pequena risada nervosa.
— Uma entidade cósmica curiosa?
— Não sei o que ela é.
A psicóloga fechou os olhos por um instante.
— Mas sei que ela não age como alguém que quer alguma coisa de nós.
Abriu novamente.
— Talvez Aurora tenha sido apenas um ponto de referência.
O comandante permaneceu em silêncio.
— Um ponto de referência para quê?
— Não sei.
— Então por que ela continua na floresta?
A psicóloga respondeu imediatamente:
— Porque aquele é o ponto.
— Qual ponto?
— O lugar onde tudo aconteceu.
Ela virou o notebook para os outros.
— Ela saiu.
— Destruiu tudo no caminho.
— Passou por pessoas.
— Chegou a uma casa.
— Voltou.
Fez uma pausa.
— E retornou exatamente para onde estava.
O comandante olhou para a fotografia da floresta.
— Você está dizendo que ela está esperando?
— Sim.
— Esperando o quê?
A psicóloga fechou o notebook.
— Alguém.
Silêncio.
— Quem?
— Não sabemos.
— E você acha que essa coisa sabe?
Ela demorou a responder.
— Acho.
— Por quê?
A psicóloga olhou para a janela da barraca.
— Porque ela não parece perdida.
Ninguém falou.
— Ela não procura nada — continuou. — Não pergunta. Não foge. Não tenta voltar para casa. Não demonstra medo. Não demonstra sofrimento.
Sua voz ficou mais baixa.
— Ela simplesmente espera.
O comandante ficou olhando para ela.
— Espera alguém que vai voltar?
A psicóloga assentiu.
— Talvez.
— E ela sabe quando?
— Não.
— Então como sabe que vai voltar?
Ela olhou para a mesa.
— Não sabemos nem se ela sabe.
Silêncio.
— Talvez a aparição nem seja alguém.
O comandante franziu a testa.
— Então o que é?
A psicóloga respirou fundo.
— Alguma coisa que ficou.
— Ficou esperando.
— Sim.
— O retorno de quem?
Ela levantou os olhos.
— É isso que precisamos descobrir.
Ninguém falou por alguns segundos.
Até que o comandante perguntou:
— E os seis alunos?
— Precisamos encontrá-los.
— Você acha que ela vai atrás deles?
— Não.
— Então por quê?
A psicóloga fechou o notebook.
— Porque talvez eles sejam as únicas pessoas que a aparição conheça através de Aurora.
Ela olhou para todos.
— E talvez queira vê-los.
O comandante permaneceu imóvel.
A reunião continuou por mais alguns minutos.
Mas, pela primeira vez desde que Aurora apareceu, ninguém estava tentando descobrir o que ela era.
Estavam tentando descobrir quem estava faltando.
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PermalinkOs médicos soltando hipótese tipo roleta e a psicóloga só virando o notebook. Ri junto com a risada nervosa do médico.
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PermalinkDepois de tanta parte com a Aurora parada na floresta, a lista dos seis virou lista de visita. Aposto que a garota é a primeira que eles acham, e que ela sabe mais que os cinco meninos juntos.
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