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A Aparição - Parte 19

aleroz

Conteúdo da publicação

A culpa chegou quando ela viu o relógio.

22h17.

Sua filha provavelmente ainda estava acordada.

A psicóloga guardou os papéis que tinha nas mãos, pegou a bolsa e saiu da barraca.

Ninguém tentou impedi-la.

Talvez todos soubessem que ela precisava ir.

Ela caminhou até o estacionamento e entrou no carro militar que fazia o transporte dos profissionais autorizados entre o complexo e o ponto de encontro.

Era a mesma rotina das últimas semanas.

Mas naquela noite tudo parecia diferente.

Ou talvez fosse apenas ela.

O carro avançou lentamente.

Pelas barreiras de segurança, ainda havia gente.

Muita gente.

Alguns estavam ajoelhados.

Outros seguravam velas.

Havia religiosos rezando por Aurora.

Havia grupos de ufólogos com câmeras e equipamentos.

Homens com cartazes dizendo que Aurora era uma mensageira.

Outros diziam que ela era um demônio.

Algumas pessoas gritavam que o governo estava escondendo a verdade.

Outras protestavam contra a presença militar.

Havia barracas improvisadas, vendedores de comida, água, lembranças.

Uma pequena multidão discutia diante de uma barreira policial.

Um homem segurava uma imagem de Aurora vestida de branco.

Outro gritava que aquilo era o começo do fim do mundo.

Mais adiante, um grupo cantava.

Outro grupo rezava.

Um terceiro discutia com jornalistas.

A estrada havia virado um circo.

Um circo histérico.

O carro passou por mais uma barreira.

A psicóloga olhava pela janela sem dizer nada.

Até que chegou ao ponto de encontro.

Ela desceu.

O marido estava esperando.

Ele tinha uma expressão fechada.

Poucos amigos.

Ela parou diante dele.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Então ele a abraçou.

Ela apertou os braços ao redor dele.

E começou a chorar.

Não era um choro alto.

Era quase silencioso.

O marido não perguntou por quê.

Ele já sabia.

Tinha visto tudo pela televisão.

Tinha visto o laboratório sendo destruído.

Tinha visto os disparos.

O caminhão.

O homem ferido.

O fogo.

A casa destruída.

O menino.

Tinha visto o garoto que perseguia Aurora completamente traumatizado.

Tinha visto o pai sendo levado.

Tinha visto Aurora voltar para a floresta.

E tinha visto a cidade começar a esvaziar.

Algumas famílias já estavam indo embora.

Ninguém sabia o que aconteceria depois.

— Você está bem? — perguntou ele.

Ela balançou a cabeça.

Não sabia se estava dizendo sim ou não.

Entraram no carro.

Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou.

O rádio estava ligado.

A voz do locutor preenchia o interior do veículo.

— ...o adolescente permanece sob acompanhamento médico e psicológico. Segundo testemunhas, o jovem teria pedido perdão a Aurora antes que ela deixasse a residência...

O marido abaixou um pouco o volume.

— O pai continua internado. O estado de saúde é estável, embora tenha sofrido queimaduras graves...

Silêncio.

— Autoridades recomendam que moradores deixem a região até que novas informações sejam divulgadas...

A psicóloga olhava pela janela.

As luzes da cidade passavam lentamente.

— Eles estão indo embora — disse ela.

— Quem?

— As pessoas.

Ele não respondeu.

O rádio continuou.

— ...grupos religiosos permanecem próximos à área de isolamento. Especialistas ainda não conseguem explicar a natureza do fenômeno...

Ela fechou os olhos.

Fenômeno.

Era uma palavra.

Só isso.

Uma palavra para alguma coisa que ninguém entendia.

— Eu não sei o que ela é — disse a psicóloga.

O marido continuou dirigindo.

— Eu sei.

— Não.

Ela limpou o rosto.

— Você não entende. Eu deveria saber alguma coisa. Qualquer coisa.

Ele permaneceu em silêncio.

— Ela olha para você e parece que está olhando através de você. Ela sabe quem somos. Sabe quem é a mãe. Sabe quem são os garotos. Ela lembra da vida inteira.

A voz dela falhou.

— Mas parece que não existe nada ali além disso.

O marido olhou rapidamente para ela.

— Ela está sofrendo?

— Não.

— Então...

A psicóloga olhou para ele.

— Esse é o problema.

Ele não perguntou mais nada.

O carro continuou.

Quando chegaram em casa, já passava das onze.

A psicóloga desceu.

Ficou alguns segundos parada diante da porta.

Depois entrou.

A casa estava silenciosa.

Ela caminhou pelo corredor.

Parou diante do quarto da filha.

A porta estava entreaberta.

A menina estava deitada.

A luz do abajur permanecia acesa.

A psicóloga ficou olhando para ela.

Sua filha dormia.

Por alguns segundos, não entrou.

Apenas observou.

Então apagou a luz.

O corredor ficou escuro.

Ela continuou parada ali.

Do lado de fora, muito longe dali, Aurora continuava flutuando na floresta.

E naquela noite, pela primeira vez, a psicóloga teve a sensação de que aquilo não tinha terminado.

Talvez estivesse apenas começando.

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Thoughts

  • bancadaVazia

    Ela passou o dia inteiro ao pé da Aurora sem comer, e a culpa só chega com o relógio. Lá fora meio mundo reza ou grita por ela, e a única pessoa que esteve mesmo perto só consegue pensar na filha. Aposto que o marido repara nisso antes dela.

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  • entrei_em_tudo

    Ela larga os papéis na barraca às 22h17 e sai sem ninguém segurar. Uai, aposto que a equipe inteira já tava esperando ela pedir pra ir embora faz dias.

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