Pular para o conteúdo
Carregando…

A Aparição - Parte 18

aleroz

Conteúdo da publicação

O laboratório improvisado havia deixado de existir.

Restavam pedaços de equipamentos, cabos espalhados pelo chão, mesas tombadas e partes da estrutura metálica retorcidas como se fossem feitas de papel.

Aurora estava ali.

Parada.

Flutuando cerca de meio metro acima do chão.

Olhava para a psicóloga.

Não parecia assustada.

Não parecia cansada.

Não parecia sequer interessada no que havia acontecido.

A mãe de Aurora estava em outro alojamento, mantida separada por segurança. Os soldados permaneciam próximos, mas ninguém sabia exatamente o que deveria fazer.

Atirar já havia se mostrado inútil.

Tentar segurá-la, impossível.

Movê-la, impossível.

E tudo aquilo que entrava em seu caminho simplesmente deixava de existir da maneira como deveria.

A barraca improvisada estava cheia de militares, médicos e profissionais de biomedicina. Ninguém falava muito.

Duas mulheres se aproximaram de Aurora com uma roupa.

Era estranho.

Conseguir vestir Aurora não parecia exigir força. Seu corpo não resistia ao toque.

Ela apenas resistia quando alguém tentava fazê-la descer ou mudar de lugar.

As duas conseguiram colocar a roupa nela lentamente, como quem veste uma boneca.

Não havia nenhuma outra razão.

Era apenas uma questão ética.

Uma adolescente nua, flutuando no meio de uma operação militar, seria uma imagem difícil de justificar até mesmo para aquele caos.

Os superiores queriam respostas.

Queriam relatórios.

Queriam saber o que aquilo era.

Queriam saber por que Aurora destruíra tudo e depois simplesmente voltara a ficar parada, como se nada tivesse acontecido.

— Não faz sentido — disse um dos comandantes.

Ninguém respondeu.

— Ela destrói tudo quando se move. Tudo. E depois volta para o mesmo lugar.

Outro comandante passou a mão pelo rosto.

— Ela não pode simplesmente ficar flutuando daquele jeito.

A psicóloga permaneceu sentada.

Estava exausta.

— Mas ela está.

O homem olhou para ela.

— Eu sei que ela está.

— Então talvez seja isso.

— Isso o quê?

Ela demorou alguns segundos.

— Talvez não faça sentido.

O comandante ficou em silêncio.

— Precisamos de respostas — disse ele.

— Eu sei.

— Até amanhã.

A psicóloga levantou os olhos.

— O senhor quer uma resposta que faça sentido?

— Quero saber o que ela é.

Ela olhou novamente para Aurora.

A garota continuava parada.

— O mundo também não faz sentido.

O comandante franziu a testa.

— Como?

— Estamos em cima de uma pedra enorme chamada Terra. Ela está girando, atravessando o espaço, e ninguém aqui sabe exatamente para onde estamos indo. A gente nasceu nela, construiu cidades, inventou números, religiões, governos, universidades...

Ela respirou fundo.

— E agora tem uma garota flutuando meio metro acima do chão.

Ninguém falou.

— Talvez seja isso que esteja incomodando vocês — continuou. — Não o fato de ela não fazer sentido. Mas o fato de ela não precisar fazer.

O comandante ficou olhando para ela.

— Doutora, eu preciso de respostas.

— Eu também.

Ele não gostou da resposta.

A psicóloga percebeu.

Talvez tivesse acabado de colocar o próprio emprego em risco.

Um dos oficiais começou a recolher documentos.

Outro ligou novamente para o laboratório central.

Os demais foram se retirando aos poucos.

Ninguém tinha uma resposta.

Aurora continuava ali.

Os homens passaram horas tentando organizar informações que não se encaixavam.

Relatórios.

Filmagens.

Exames.

Imagens de satélite.

Depoimentos.

Dados de radiação.

Tudo era colocado sobre mesas improvisadas e analisado novamente.

Nada explicava nada.

A psicóloga não almoçou.

Também não jantou.

Em algum momento, alguém perguntou se ela queria alguma coisa.

Ela disse que não.

Depois continuou trabalhando.

Ela precisava encontrar alguma coisa.

Qualquer coisa.

Uma falha.

Um padrão.

Uma informação que os outros não haviam percebido.

O tempo passou.

Ela não percebeu.

Quando finalmente levantou os olhos, a barraca estava quase vazia.

Olhou para o relógio.

22h03.

Ela ficou imóvel.

Sua filha.

Ela deveria ter buscado sua filha na escola.

Na verdade, já deveria estar em casa havia horas.

A psicóloga fechou os olhos por alguns segundos.

Do outro lado da barraca, Aurora continuava flutuando.

O mesmo lugar.

A mesma distância do chão.

O mesmo rosto.

A mesma expressão.

Como se as horas não significassem absolutamente nada.

A psicóloga pegou o telefone.

Havia várias chamadas perdidas.

Ela não tinha percebido nenhuma.

#terror #horror #horrorsobrenatural #ficcaosobrenatural #terrorpsicologico #ficcao #conto #contosdeterror #historiasdeterror #darkfiction #darkstory #horrorstory #sobrenatural #misterio #floresta #adolescente #albinismo #criatura #possessao #paranormal

Thoughts

  • fribeiro71

    O comandante quer resposta até amanhã, como se relatório saísse por ordem. Mas a psicóloga também erra na mão: falar da pedra girando no espaço não segura emprego de ninguém. Aposto que essa fala volta contra ela quando os superiores lerem.

    Permalink
  • explica_em_miudos

    Fiquei pensando nas chamadas perdidas. Ela responde o comandante na hora e não ouve o telefone tocar a tarde inteira, nossa.

    Permalink

Related posts

  • A Aparição - Parte 21

    No posto militar, o carro de segurança já esperava.

  • A Aparição - Parte 19

    A culpa chegou quando ela viu o relógio.

  • A Aparição - Parte 20

    A psicóloga saiu do carro devagar.

  • A Aparição - Parte 15

    A sala de reunião improvisada ficava diante da área onde Aurora permanecia.

  • A Aparição - Parte 21

    O dia seguinte chegou.

  • O Deserto de Asfalto - Parte 4

    Às dez horas da noite, a praça continuava tão vazia quanto na noite anterior. O asfalto escuro ocupava quase toda a extensão do terreno, sem uma árvore sequer para quebrar a monotonia da paisagem.…

  • DIGA NÃO AS BETS - CAMPANHA FICTÍCIA EM IA

    Um curta experimental criado inteiramente com inteligência artificial. "O Espetáculo" é uma obra de ficção que usa a linguagem do teatro para contar uma história sobre ilusão, expectativa e as…

  • Como escrever bem!

    Para mim, essa é a pergunta mais idiota do mundo. E, como tem muita gente que a responde, escrever é pegar um papel ou sentar diante de um computador e escrever. Nem mesmo os escritores famosos…