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A Aparição - Parte 21

aleroz

Conteúdo da publicação

O dia seguinte chegou.

A psicóloga não teve coragem de conversar com a filha.

Era uma batalha perdida antes mesmo de começar.

Na cozinha, preparou o café da manhã como fazia todos os dias.

Pão.

Café.

Frutas.

Um sanduíche para a filha levar.

Ela ouviu passos pelo corredor.

Quando levantou os olhos, as duas ficaram frente a frente.

— Quer café da manhã?

Silêncio.

A psicóloga respirou fundo.

— Eu quero me desculpar.

Silêncio.

A filha continuou parada.

— Eu estou falando com você.

A menina finalmente levantou os olhos.

— Agora eu existo pra você?

A psicóloga não respondeu.

— Você me abandonou.

A voz da menina começou a tremer.

— Me deixou sozinha esperando...

O pai apareceu na cozinha.

— Não fale assim com sua mãe.

A menina fez uma pequena expressão de desprezo.

Quase um sorriso pelo nariz.

Pegou uma maçã.

Depois o sanduíche que já estava preparado.

— Você nem conhece meus amigos.

Ela colocou a mochila nas costas.

— Nunca se interessou.

Saiu da cozinha.

O pai olhou para ela.

— Volta aqui, sua malcriada!

A porta se fechou.

A psicóloga permaneceu parada.

O marido respirou fundo.

— Deixa ela.

Ela não respondeu.

— Isso passa.

Então alguma coisa aconteceu.

A psicóloga levantou lentamente os olhos.

Não para o marido.

Para lugar nenhum.

Uma ideia.

Pequena.

Quase insignificante.

Mas suficiente para fazê-la parar.

Ela voltou mentalmente à floresta.

À barraca.

À Aurora.

À forma como ela olhava.

À maneira como respondia.

À maneira como reconhecia pessoas.

À ausência de reação.

À memória.

À falta de fome.

À falta de dor.

À falta de saudade.

Então pensou na filha.

A frase ainda estava na cozinha.

Agora eu existo pra você?

A psicóloga ficou imóvel.

O marido percebeu.

Não perguntou.

Apenas sorriu.

Um sorriso pequeno.

Ele conhecia aquela expressão.

Sua mulher havia encontrado alguma coisa.

Talvez não uma resposta.

Mas alguma coisa.

Ela pegou o notebook.

Abriu.

Começou a escrever.

Rapidamente.

Uma anotação.

Depois outra.

E outra.

O marido pegou as chaves.

— Vamos?

Ela continuou escrevendo.

— Vamos.

No carro, a filha entrou no banco de trás.

Colocou os fones de ouvido.

Não olhou para a mãe.

A psicóloga ficou no banco da frente com o notebook apoiado nas pernas.

Escrevia.

Parava.

Pensava.

Voltava a escrever.

O marido dirigia.

De vez em quando, olhava para ela pelo retrovisor.

Sorria.

Não sabia o que ela tinha descoberto.

Não precisava saber.

Confiava nela.

A filha permaneceu o caminho inteiro olhando pela janela, isolada pelos fones.

Quando chegaram ao ponto de encontro dos militares, a psicóloga fechou o notebook.

Virou-se para trás.

— Filha...

A menina abriu a porta.

Desceu.

A psicóloga ia dizer seu nome.

Mas parou.

A menina não olhou.

Nem uma vez.

Ela fechou a porta.

Caminhou até a entrada.

A psicóloga ficou olhando.

Não chamou novamente.

Apenas observou a filha desaparecer.

O marido esperou alguns segundos.

Depois colocou o carro em movimento.

Ela abriu o notebook novamente.

E começou a escrever.

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Thoughts

  • Bianquinha

    O pai mandando voltar aos gritos e a mãe calada no mesmo café da manhã, mana. Cada um brigando com uma pessoa diferente naquela cozinha.

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  • paulovitor

    A filha pegou o sanduíche que a mãe tinha feito antes de sair batendo a porta. Aposto que ela come no intervalo e não admite pra ninguém que foi a mãe que preparou.

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