O dia seguinte chegou.
A psicóloga não teve coragem de conversar com a filha.
Era uma batalha perdida antes mesmo de começar.
Na cozinha, preparou o café da manhã como fazia todos os dias.
Pão.
Café.
Frutas.
Um sanduíche para a filha levar.
Ela ouviu passos pelo corredor.
Quando levantou os olhos, as duas ficaram frente a frente.
— Quer café da manhã?
Silêncio.
A psicóloga respirou fundo.
— Eu quero me desculpar.
Silêncio.
A filha continuou parada.
— Eu estou falando com você.
A menina finalmente levantou os olhos.
— Agora eu existo pra você?
A psicóloga não respondeu.
— Você me abandonou.
A voz da menina começou a tremer.
— Me deixou sozinha esperando...
O pai apareceu na cozinha.
— Não fale assim com sua mãe.
A menina fez uma pequena expressão de desprezo.
Quase um sorriso pelo nariz.
Pegou uma maçã.
Depois o sanduíche que já estava preparado.
— Você nem conhece meus amigos.
Ela colocou a mochila nas costas.
— Nunca se interessou.
Saiu da cozinha.
O pai olhou para ela.
— Volta aqui, sua malcriada!
A porta se fechou.
A psicóloga permaneceu parada.
O marido respirou fundo.
— Deixa ela.
Ela não respondeu.
— Isso passa.
Então alguma coisa aconteceu.
A psicóloga levantou lentamente os olhos.
Não para o marido.
Para lugar nenhum.
Uma ideia.
Pequena.
Quase insignificante.
Mas suficiente para fazê-la parar.
Ela voltou mentalmente à floresta.
À barraca.
À Aurora.
À forma como ela olhava.
À maneira como respondia.
À maneira como reconhecia pessoas.
À ausência de reação.
À memória.
À falta de fome.
À falta de dor.
À falta de saudade.
Então pensou na filha.
A frase ainda estava na cozinha.
Agora eu existo pra você?
A psicóloga ficou imóvel.
O marido percebeu.
Não perguntou.
Apenas sorriu.
Um sorriso pequeno.
Ele conhecia aquela expressão.
Sua mulher havia encontrado alguma coisa.
Talvez não uma resposta.
Mas alguma coisa.
Ela pegou o notebook.
Abriu.
Começou a escrever.
Rapidamente.
Uma anotação.
Depois outra.
E outra.
O marido pegou as chaves.
— Vamos?
Ela continuou escrevendo.
— Vamos.
No carro, a filha entrou no banco de trás.
Colocou os fones de ouvido.
Não olhou para a mãe.
A psicóloga ficou no banco da frente com o notebook apoiado nas pernas.
Escrevia.
Parava.
Pensava.
Voltava a escrever.
O marido dirigia.
De vez em quando, olhava para ela pelo retrovisor.
Sorria.
Não sabia o que ela tinha descoberto.
Não precisava saber.
Confiava nela.
A filha permaneceu o caminho inteiro olhando pela janela, isolada pelos fones.
Quando chegaram ao ponto de encontro dos militares, a psicóloga fechou o notebook.
Virou-se para trás.
— Filha...
A menina abriu a porta.
Desceu.
A psicóloga ia dizer seu nome.
Mas parou.
A menina não olhou.
Nem uma vez.
Ela fechou a porta.
Caminhou até a entrada.
A psicóloga ficou olhando.
Não chamou novamente.
Apenas observou a filha desaparecer.
O marido esperou alguns segundos.
Depois colocou o carro em movimento.
Ela abriu o notebook novamente.
E começou a escrever.
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