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31º Capítulo/OS MISTÉRIOS DO ACASO / Sem Miséria De Beleza

Pietrodeluccapoeta777
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Ovid

O convite pra floresta encantada, recusado às oito da manhã e repetido até as cinco e meia, me fez pensar em quantas vezes a gente decide que tem que ser hoje sem saber explicar por quê. Comigo já foi assim com coisa bem menor que uma cerveja. Deve ser po

O convite pra floresta encantada, recusado às oito da manhã e repetido até as cinco e meia, me fez pensar em quantas vezes a gente decide que tem que ser hoje sem saber explicar por quê. Comigo já foi assim com coisa bem menor que uma cerveja. Deve ser por isso que o poema saiu naquela mesma noite e não uma semana depois, no bar.

Conteúdo da publicação

31º Capítulo

Sem Miséria De Beleza

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Aqui neste Capítulo fica marcada a virada mais madura porém, dolorosa de toda a obra. É o momento em que o lirismo do Poeta bate de frente com o muro de concreto da realidade urbana e afetiva. A ilusão começa a se desfazer, dando lugar a uma dignidade melancólica. Narciso não desiste por falta de amor, mas por excesso de lucidez.

Já fazia algum tempo que os dois não saíam como nos velhos tempos. Aquelas tardes ensolaradas de sábado e as noitadas paulistanas recheadas de muito prazer, cumplicidade e amor pareciam ter ficado trancadas em algum lugar do passado recente, mas distante. Após quase oito meses de intensos impasses, idas e vindas, e conversas que pareciam não chegar a lugar nenhum, a amizade entre eles ainda se mantinha firme — pelo menos no que dependia do coração de Narciso, tudo certo. Na verdade, diante da impossibilidade de um romance formal, eles haviam ficado ainda mais amigos na superfície; saíam juntos para almoçar, passeavam nos intervalos, mas a barreira invisível estava lá.

O fato era que Narciso ainda nutria um gosto absurdamente gigante por ela. Ele era um verdadeiro aficionado por aquela mulher, carregando no peito um amor avassalador, daqueles inacreditáveis que desafiam a própria lógica e a razão. Um carinho daquela magnitude, construído na intimidade dos corpos e na lapidação dos versos, não iria se dissolver tão fácil assim, por mais que o tempo tentasse apagar os rastros.

Porém, o orgulho e o cansaço começaram a cobrar o seu preço. Fazia semanas que Narciso e Helena não saíam para absolutamente nada fora do ambiente profissional, nem mesmo para tomar um simples copo d’água na esquina. Ficava um jogo de paciência silencioso, onde um esperava a iniciativa ou a atitude do outro, enquanto a rotina do escritório consumia as horas. Até que, numa determinada manhã, ao chegar para o batente, Narciso resolveu quebrar o gelo que ameaçava congelar os dois. Aproximou-se da mesa dela com o seu melhor sorriso e a cumprimentou:

— Bom dia, Helena! A mamãe mais linda que eu conheço neste mundo!

— Bom dia, Narciso! Obrigada pelo elogio, meu querido — respondeu ela, com a simpatia que lhe era peculiar.

— Tenho um convite muito especial para te fazer hoje. Se você puder aceitar, é claro, e se a sua agenda permitir.

— Tem é? Deixa eu adivinhar... Você vai me raptar por acaso? — brincou Helena, soltando uma risada gostosa que ecoou pela sala. 🤣

— Vou raptar sim, mas com uma condição: prometo que não vou pedir resgate nenhum para te devolver!

— E o senhor pretende me levar para onde, se eu posso saber?

— Para uma floresta muito encantada, longe de toda essa burocracia do mundo.

— Ah, Narciso... Hoje eu realmente não posso. Talvez outro dia, quem sabe? Minha tarde hoje vai depender exclusivamente de um telefonema importante que estou esperando — justificou ela, mudando o tom para algo mais reservado.

— Não diga uma coisa dessas, minha linda. Justo hoje? Então vamos fazer o seguinte: já que a floresta está longe, vamos tomar ao menos uma cerveja gelada na saída do expediente. Pode ser?

— Acho que hoje não vai rolar mesmo, de verdade. Me desculpe, Narciso. Fica para a próxima.

Esse bate-papo rápido aconteceu logo pelas primeiras horas da manhã. No decorrer de todo o dia, o Poeta não conseguiu tirar aquela ideia da cabeça. Ele ficou rodeando Helena Dolly insistente, como um verdadeiro urubu na carniça, vigiando cada passo e cada brecha na rotina dela. Ele queria, por uma necessidade quase mística que nem ele mesmo sabia explicar, tomar pelo menos uma cerveja ao lado dela; tinha que ser especificamente naquele dia.

Narciso não deu espaço ou trégua. Parecia um zagueiro na marcação cerrada do atacante, sem deixar a bola passar. Enfim, as horas arrastaram-se e o expediente chegou ao fim. Às dezessete e trinta horas, enquanto o escritório começava a esvaziar, o Poeta aproximou-se da mesa dela e perguntou pela décima quinta vez:

— E então, vamos lá, Helena Dolly? Uma saideira só, eu prometo de pés juntos que não vou te segurar por muito tempo!

— Narciso, eu já te disse que tenho que ir embora direto. Hoje não tem jeito mesmo de acompanhar você. Me perdoa... — respondeu ela, arrumando a bolsa com pressa.

— Tudo bem — limitou-se a dizer o escritor, forçando um tom de normalidade.

Mesmo recebendo aquela recusa clara, ele lá no fundo não quis acreditar. Pensou que Helena estivesse apenas brincando ou fazendo charme, porque ela sempre foi uma mulher cheia de mistérios e jogadas enigmáticas. Ele permaneceu ali até o último minuto do horário de saída, observando o ritual de costume dela recolher seus materiais de serviço, desligar o computador e fechar as gavetas. Quando ela finalmente terminou e jogou a bolsa sobre o ombro, ele insistiu uma última vez, jogando sua última cartada:

— E aí? Uma única gelada, linda... Vamos lá comigo?

— Narciso, eu já falei que hoje eu não posso de jeito nenhum. Tchau!

Helena simplesmente virou as costas e seguiu em direção à porta da rua. Aquela recusa seca foi sentida como uma imensa desfeita, um balde de água congelada nas expectativas do escritor. Mas a verdade é que aquele distanciamento já estava previsto nas entrelinhas do contrato invisível que os unia. Narciso é quem era teimoso demais, um romântico inveterado que se recusava a enxergar a realidade nua e crua: para Helena Dolly, tudo aquilo nunca passara de uma aventura passageira, uma louca paixão de momento, enquanto para ele era a razão de sua poesia.

O Poeta abaixou a cabeça, guardou a caneta no bolso e saiu caminhando lentamente pelas calçadas de São Paulo. Levava consigo o peso esmagador daquela decepção, justamente em um dia onde sentia uma carência e uma necessidade gigantesca de partilhar a presença de Helena.

Um tanto atordoado pelo baque e profundamente chateado, ele seguiu o seu caminho cabisbaixo, observando o asfalto cinzento. Naquela altura do campeonato, ele já deveria saber muito bem que não ocupava o posto de preferido no coração dela. Por sinal, Helena jamais havia lhe dado qualquer esperança concreta de um futuro estável ou de um compromisso sério; o que houve entre os dois foi uma belíssima e avassaladora paixão carnal, e o que restava agora era apenas uma mera amizade de escritório.

Naquela noite fria, Narciso finalmente caiu na real. O impacto daquela rejeição bofeteou o seu coração de poeta e o fez acordar do transe idealizado. Ele tomou a firme resolução de, aos poucos, começar o doloroso processo de esquecer Helena Dolly. Chega de "pagar sapo" e de mendigar atenções — como costumavam dizer as gírias das ruas.

A sensação era tão amarga que ele nem sequer sentia vontade de voltar para a solidão de sua casa. Perambulou por alguns bares da cidade e só cruzou a porta de seu lar por volta da meia-noite, após afogar as mágoas em uma boa rodada de cerveja solitária para espairecer as ideias. O seu antigo sonho de tê-la como companheira de vida, como esposa e mãe de seus dias, desmoronava ali. Depois de tantas tentativas e recusas veladas, Narciso finalmente desistia de lutar contra a maré.

Agora, conseguindo enxergar a terra firme e fincando os dois pés no chão da realidade, ele decidia seguir a sua trilha literária e pessoal de forma solitária. Afinal, reconhecia que, pelo curto espaço de tempo que durou o encanto, ele estivera voando alto demais, perto demais do sol.

Uma semana inteira se passou após o episódio. O clima entre os dois na empresa ficou arrastado, quase não rolou conversa além do estritamente necessário para o serviço. Até que, ironicamente, foi ela quem tomou a iniciativa de convidá-lo para sair. Narciso, embora tenha aceitado o convite, já não carregava o mesmo entusiasmo vibrante de antes. O brilho nos olhos havia dado lugar à cautela.

Ao fim do expediente, no final da tarde, os dois se acomodaram na mesa de um bar próximo. Pediram as cervejas e, assim que os copos foram servidos, o diálogo inevitável começou:

— O que você tem, Narciso? Notei que você está muito esquisito comigo ultimamente — pontuou Helena, quebrando o silêncio.

— Não tenho nada demais, Helena. Só estou um pouco chateado. Mas está tudo bem, eu já entendi que o melhor que faço agora é desacelerar o meu coração.

— Desacelerar com o quê? Comigo? O que foi que eu te fiz de tão grave? — questionou ela, arqueando as sobrancelhas.

— Eu nem tenho o direito de me chatear com você, Helena. Mas você sabe, perfeitamente bem, o tamanho do sentimento que eu carrego por você.

— Só por causa daquela cervejinha que não deu para tomar com você naquele dia, meu querido? É sério isso?

— Eu já esqueci aquilo, Helena. Não se preocupe, não quero mais atrapalhar a sua vida ou os seus planos.

Mas a verdade era que Narciso não havia esquecido absolutamente nada. Aquela recusa continuava bem viva, nítida e dolorosa em sua mente de escritor, e a insistência dela em tocar na ferida só tornava o ambiente mais pesado. Helena olhou para ele com os seus olhos enigmáticos e insistiu na conversa:

— Sabe, Narciso... Eu sinto, às vezes, que no fundo você só precisa de uma companheira ao seu lado.

— Eu acho que sim, Helena. Mas existe uma diferença gigantesca entre amar alguém de verdade e querer apenas uma companheira qualquer por conveniência — rebateu o Poeta, com firmeza.

— Você precisa de alguém que te escute de verdade, que te dê a atenção que você merece.

— Com certeza. Mas deixa isso quieto, Helena. Eu já entendi e aceitei que essa pessoa não vai ser você.

— Você precisa de uma mulher que leia os seus poemas lindos e que faça muito amor com você. Você é um homem muito carente, Narciso — sentenciou ela, com uma segurança cortante.

— Carente eu acho que não sou, Helena. O detalhe é que eu gosto de você de uma forma especial. Em partes, até concordo com a sua visão prática das coisas; a única coisa que minha mente não consegue processar é o porquê de você, às vezes, fazer tanta questão de me esnobar dessa maneira.

Aquela conversa tensa estendeu-se até às dezenove e trinta horas. Enquanto ouvia as justificativas dela, Narciso foi assaltado por uma lembrança e ficou espantado com uma enorme coincidência cósmica: exatamente na noite daquela recusa dolorosa da semana anterior, trancado em seu quarto com o peito apertado, ele havia “psicografado” através de sua dor um poema com o título exato de “Sem Miséria de Beleza”.

Para o Poeta, a simples companhia física de Helena Dolly já possuía um valor incomensurável. Se porventura pintasse sexo ou amor na jogada, seria uma mera e feliz consequência natural; se não acontecesse absolutamente nada carnal, apenas o fato de ter a atenção e o olhar dela direcionados a ele já carregava um significado espiritual fortíssimo.

Apesar de todos os pesares, dos desencontros e das barreiras psicológicas, Helena Dolly sempre fora uma mulher inteligentíssima, alegre, espontânea e dona de uma presença indispensável. Era uma parceira de conversa à altura de sua mente e extremamente apresentável em qualquer roda social. Narciso reconhecia que tivera um excelente bom gosto ao escolhê-la como musa, mas orgulhava-se também de ter o discernimento e a hombridade necessários para enxergar o começo do fim daquela bela e intensa jornada.

E assim, antes mesmo que Helena fizesse qualquer menção de despedida definitiva, o Poeta eternizou o desfecho nas linhas de Sem Miséria de Beleza:

SEM MISÉRIA DE BELEZA

____________________________

Hoje, simplesmente hoje

Senti um aperto no peito

Senti,

Senti uma falta alta

De sua alma, de você

Não queria seu corpo, seu amor puro

Só te querias

Por cinco minutos

Que já era o bastante

Para acalentar e acalmar

Esse mar de paixão

Que você conhece

*

Não sei o que faço

Só sei que te gosto

Com gosto, o ano todo

Com muito gosto

Só sei que te sinto

Mas não forço

E torço por nós

Tá difícil, dificílimo

Ser insensível

Não consigo

Nem esquecer de te esquecer

*

O tempo com a sua generosidade

Tem nos orientado muito

E muito ando voando

Sonhando, meditando

Sentindo também

Sua dor

Sei o quanto te adoro

Pela razão também

Que se pode

Considerar sofrimento,

*

Te ver alegre

E sorrindo,

Me conforta e me comporta

Pois não é de meu agrado

E felicidade

Te ver em prantos

Quando quem não te merece

Carece de prece

Da serenidade Divina

*

Hoje, estranhamente

Estou sentindo

Que está chegando o fim

De nossa caminhada,

Da nossa empreitada

Muito sinto

Pois tenho você

Em meu coração

Agradeço por tudo

Pelo apego, os beijos

E adereços do amor

*

Você é simplesmente linda

Sem miséria de beleza

Mas entendo e compreendo

Essa curta passagem

É difícil de aceitar,

Você há de convir comigo

Mas é assim que tem que ser

Esse lindo amor,

Que não foi feitiço, enfatizo

Como já disse,

Está eternizado

Em meu coração

Parabéns, pois você é totalmente

Sem Miséria de Beleza...


Ass. Narciso "O Poeta"

A aceitação do fim é o passo mais nobre de um verdadeiro cavalheiro das letras. Ao reconhecer que a jornada ao lado de Helena estava atingindo a sua última estação, Narciso transforma a sua renúncia no mais puro ouro literário, deixando claro que a beleza dela — externa e interna — jamais seria esquecida.

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ENQUETE DOS MISTÉRIOS DO ACASO: Deixe a sua resposta nos comentários!

Narciso fez certo em dar um passo atrás após a recusa de Helena?

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[ Opção 1 ] Sim, o Poeta agiu com orgulho e dignidade ao perceber que merecia alguém que estivesse na mesma sintonia que ele.

[ Opção 2 ] Não, ele deveria ter insistido um pouco mais, afinal, Helena sempre foi uma mulher cheia de mistérios e jogadas de charme.

[ Opção 3 ] A decisão foi correta porque o tempo deles como casal havia chegado ao fim, restando apenas a arte e a cumplicidade?

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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

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Thoughts

  • fioAtras

    Ele chama a Helena de mamãe mais linda logo no bom dia e a criança não aparece no capítulo inteiro. Meu palpite é que o tal telefonema tinha a ver com ela.

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  • domingoSemPressa

    Reparei que o poema foi escrito na noite da recusa, e só uma semana depois, sentado no bar com ela, ele percebe que o título já dizia o que estava acontecendo. A gente lê tudo na ordem certa, mas ele escreveu o fim antes de saber que era o fim. Meu palpite é que a Helena ainda nem leu esses versos e que isso fica para o próximo capítulo.

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  • RicardoValen

    Concordo que ele fez bem em recuar, fico com a opção 1. Só que quinze convites no mesmo dia, rondando a mesa dela até ela fechar as gavetas, já era o recuo chegando tarde. A recusa das oito da manhã já era a resposta, e a tal lucidez só veio depois de um expediente inteiro de marcação cerrada.

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  • Ovid

    O convite pra floresta encantada, recusado às oito da manhã e repetido até as cinco e meia, me fez pensar em quantas vezes a gente decide que tem que ser hoje sem saber explicar por quê. Comigo já foi assim com coisa bem menor que uma cerveja. Deve ser por isso que o poema saiu naquela mesma noite e não uma semana depois, no bar.

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  • lteixeira71

    Ela recusa por causa de um telefonema importante e uma semana depois é ela quem chama pro bar. Esse telefonema volta a aparecer mais pra frente na história?

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