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30º Capítulo O Pré-natal de Helena Dolly!

Pietrodeluccapoeta777
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30º Capítulo

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Ovid

O Narciso fazendo o bebê falar com a mãe antes de nascer, com chutinho pedindo desculpa e tudo, me fez pensar em como um pai que não pode assumir acaba arranjando outro jeito de estar presente. Meu palpite é que esses dois textos para o Gabriel ainda vão

O Narciso fazendo o bebê falar com a mãe antes de nascer, com chutinho pedindo desculpa e tudo, me fez pensar em como um pai que não pode assumir acaba arranjando outro jeito de estar presente. Meu palpite é que esses dois textos para o Gabriel ainda vão aparecer lá na frente, na mão do menino já grande.

Conteúdo da publicação

30º Capítulo

O Pré-natal de Helena Dolly!

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Um enigma para o Narciso, o contraste entre a certeza interior do Poeta e a recusa enfática de Helena cria uma grande tensão para ele, que encontra uma válvula de escape no lirismo puro das composições dedicadas ao pequeno Gabriel. A maturidade do Poeta expressa-se na opção de celebrar a vida e o bem-estar de sua musa, mesmo diante do silêncio que ela impõe sobre a verdade.

Helena Dolly, agora ostentando o semblante iluminado de uma linda gravidinha, vivia a plenitude de sua condição de gestante com a barriga que aumentava vertiginosamente. Ela caminhou com passos firmes e graciosos por cada semana daquele ciclo até a realização do primeiro pré-natal oficial de ultrassonografia morfológica. Ao atingir a emblemática marca das vinte semanas de gestação, o mistério sobre o sexo do bebê foi desfeito: ela já sabia, com absoluta certeza médica, que estava esperando um menino saudável e que o nome seria Gabriel.

Helena sempre foi uma pessoa extremamente resolvida, dona de uma postura prática perante as surprises da vida. A gravidez, portanto, foi algo que ela tirou de letra com uma facilidade invejável. A bem da verdade, para quem a olhava de longe, mal parecia que ela estava gerando uma vida em seu ventre, exceto, é claro, pelas novas medidas de suas curvas que mudaram de forma sutil e charmosa.

A sua habitual disposição física sofreu apenas algumas pequenas alterações nos dias de maior cansaço, o seu apetite aumentou um pouco, mas ela não apresentou nenhum daqueles desejos estranhos ou bizarros que costumam assolar as grávidas. Acima de tudo, manteve intacto o seu bom humor contagiante e a sua meritória simpatia pelos corredores da empresa.

A partir daquele momento da revelação, Narciso sentia-se flutuar em um mar de felicidade silenciosa. Pelas contas, a possibilidade matemática e biológica dele ser o pai daquele menino aquecia o seu peito nas madrugadas de solidão. No entanto, Helena insistia veementemente em dizer que não, negando qualquer ligação de paternidade dele com a criança. Narciso, com a sua intuição aguçada, nunca engoliu de fato aquela história defensiva, mas preferiu silenciar e respeitar o espaço dela.

Ela era uma mulher imperativa, impulsiva e determinada em suas decisões. O seu lado astuto e estratégico era algo fenomenal, uma faceta indiscutível de sua forte personalidade. No final das contas, diante daquela muralha de segredo, ninguém no ambiente corporativo jamais soube quem fora o verdadeiro pai da criança.

O processo criativo de Narciso não havia parado durante a gestação da musa. Numa daquelas tardes nostálgicas antes da ida de Helena para a maternidade, o Poeta havia escrito duas prosas em formato de diálogo teatral tendo como tema central a figura de Gabriel. A composição pegou a gestante totalmente de surpresa nos bastidores do escritório. Tocada pelo lirismo da surpresa, ela agradeceu com um sorriso sincero e demonstrou uma felicidade aparente que iluminou a sala; o escritor percebeu que ela jamais esperaria uma abordagem tão delicada naquele momento.

Há quem diga no meio social que o poeta é um ser alienado das realidades práticas; outros preferem nomeá-lo como um lunático desprovido de chão, e alguns poucos o chamam de psicodélico. Mas, afinal, o que importa a rotulagem do mundo? Para Narciso, o Poeta, na grande comédia humana, todo mundo tem a obrigação de ser alguma coisa nesta vida, de preferência algo que consiga tocar e agradar o coração de alguém, sem que para isso precise se submeter ao papel de palhaço de ninguém.

Com essa filosofia em mente, ele construiu um diálogo fictício e emocionante entre Gabriel (ainda abrigado no silêncio do ventre materno), sua mãe Helena Dolly e o próprio Narciso, que atuava como um terno mediador espiritual, encarregado de transmitir um recado vital à mãe.

E o texto correu livre no papel:

RECADO, SEU FILHO!

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— Ei, ei, psiu... É você mesma!

— Fala, meu filho!

— Me faz um grande favor?

— É claro, meu pequeno baby!

— Você pode entregar esse “Recado” especial para aquela menina linda que vai ser a minha mãe?

— Pode falar o recado, menino, sou todo ouvidos!

*

— Obrigado, querida... Obrigado, mamãe. Você já me conhece no íntimo, mas ainda não me viu do lado de fora. Eu te amo muito, sabia? É um privilégio sem tamanho e uma honra divina ser gerado por você, no aconchego do seu corpo.

*

Eu sei que falta bem pouco tempo agora. Desde já, eu quero te agradecer por todo o seu carinho, pela sua paciência infinita com os meus dias pesados, pelas suas brincadeiras e pelas nossas trocas de ideias nas madrugadas.

*

Pois saiba que eu sinto tudo o que dizes aí fora; eu até tento te responder com os meus movimentos, mas só eu entendo o meu idioma e você ainda não consegue me ouvir.

*

O que houve? Me desculpe por esses chutinhos repentinos e pelas viradinhas constantes na hora de dormir... É que eu quero ganhar espaço, o lugar está ficando cada vez mais estreito aqui dentro.

*

Foi apenas o meu jeito inocente de retribuir tanto carinho e tanto afeto que recebo de você. Ei, mamãe, logo mais nós nos veremos bem de perto e poderei tocar o seu rosto.

*

Quanta ansiedade prende o meu peito!!! Te amo, mamãe. Obrigado por essa casa temporária e abençoada que é o seu próprio corpo. Obrigado por todo o conteúdo precioso que é você. Até logo mais... Do seu filho, Gabriel.

*

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Ass. Narciso "O Poeta"

Ao atingir o sétimo mês de gestação, a silhueta de Helena Dolly estava enorme, imponente como uma verdadeira escultura da fertilidade. O crescimento acelerado de Gabriel ia dando um volume corporal considerável à sua mãe, que começou a sentir o baque físico do peso, principalmente nos dias em que o calor de São Paulo mostrava-se sufocante.

Contudo, fazendo uso de sua vasta experiência de vida e de sua disciplina pessoal, Helena driblava com maestria os pequenos mal-estares decorrentes da gravidez. Ela mantinha uma rotina rigorosa de alimentação saudável e extremamente leve, fazendo uso de bebidas isotônicas e garantindo uma farta ingestão diária de frutas frescas, legumes cozidos, verduras variadas e muita água mineral para manter o corpo hidratado.

Até que, logo no início do oitavo mês, a inspiração bateu novamente à porta do escritor. O Poeta escreveu uma nova poesia intitulada simplesmente “Gabriel”. Como de praxe, ela não esperava por aquela nova homenagem e, seguindo o roteiro do coração, adorou o resultado. Quando Helena leu os versos que carregavam no topo o nome que ela havia escolhido precocemente para o filho, um brilho intenso e úmido tomou conta de seus olhos. A reação dela deixou o Poeta profundamente satisfeito e feliz, encontrando sua maior recompensa no ato de fazer a felicidade de sua amada através da arte.

E os versos ecoaram a chegada da vida:

…. GABRIEL ….

______________

Tô chegando

Tá na hora

Vou chegar

Parece loucura

Mas te digo

Antes de colocar no papel

Já sou o Gabriel

*

Obrigado, Deus

Obrigado, papai

Obrigado, mamãe

Tô quase aqui

Sinto o amor de vocês

*

Quero calor... Como?

Não sei!

Vocês sabem,

Sobre como serei grato

E sou

Por essa grata gentileza.

Até…. Daqui a pouco.

*

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Ass. Narciso "O Poeta"

Diante da negativa que no fundo não soava nada convincente, Narciso tomou a sábia decisão de não tocar mais no assunto e nem fazer perguntas que pudessem criar um clima tenso entre os dois. Faltando apenas duas semanas para a data prevista para o nascimento de Gabriel, o escritório foi palco de uma sutil e emocionante sessão de despedida. Em meio a abraços apertados, votos sinceros de boa sorte e olhares carregados de significados ocultos, Helena seguiu para a sua licença-maternidade.

Agora para o Poeta, restava apenas o exercício da paciência, esperando o dia em que o destino se cumpriria. Enfim, cerca de três semanas depois, veio ao mundo o pequeno Gabriel Dolly, pesando robustos três quilos e oitocentos gramas de pura vida e transbordando muita saúde. Helena mostrava-se radiante e plenamente realizada com a chegada de seu filhão. O Poeta por sua vez, também demonstrava uma felicidade genuína, mas fazia questão de mantê-la de forma contida e discreta perante o mundo, carregando consigo o peso daquela dúvida, uma vez que ela negara até o último segundo que ele fosse o pai.

Talvez residisse exatamente aí o grande e sagrado segredo de Helena Dolly: negar a paternidade para proteger a integridade social e profissional de Narciso, ou talvez para salvaguardar a sua própria independência e orgulho. De qualquer forma, se o objetivo era poupá-lo, tratava-se de um gesto de uma generosidade gigantesca por parte dela.

Com o pequeno Gabriel já na área, preenchendo a vida da mãe, logo após o menino completar seus primeiros quatro meses de vida, Helena fez uma visita surpresa à empresa com o intuito de apresentar o bebê aos amigos e amigas do escritório — que não eram poucos, dado o enorme carinho que todos nutriam por ela.

Narciso, obviamente, aproximou-se do carrinho de forma sutil e diplomática, aproveitando o momento para dar aquela averiguada detalhada e minuciosa nos traços da criança, buscando desesperadamente alguma semelhança física com suas próprias feições ou com as de seus antepassados. À primeira vista, parecia que não havia traços evidentes, mas o Poeta não se dava por vencido facilmente. No fundo de sua alma criativa, ele queria a qualquer custo cravar aquela paternidade junto à Helena, que manteve sua palavra e negou o fato até o fim da linha.

Quando o período da licença-maternidade terminou, o retorno foi inevitável. Apesar da natural dependência de um bebê tão pequeno, Gabriel Dolly demonstrava uma força incomum, aparentando inclusive ter mais tempo de vida do que os registros indicavam. Para que Helena pudesse retomar suas obrigações profissionais na empresa com tranquilidade, o menino ficou sob os cuidados zelosos de sua avó materna, a dona Phabian Dolly, no aconchego do lar.

Com o nascimento e a presença real de Gabriel em sua vida, era óbvio e perfeitamente natural que surtiria alguma mudança visível de comportamento por parte dela. Afinal, Helena já havia dado fortes e definitivos indícios ao longo da jornada de que não pretendia romper suas blindagens emocionais para estabelecer uma relação fixa ou definitiva com Narciso, exatamente da forma como ele tanto queria e idealizava em seus sonhos românticos. No entanto, apesar das verdades ditas e não ditas, das barreiras do destino e dos mistérios que o acaso insistia em manter entre as mesas de trabalho, os dois deram um tempo, porém, em espaços esporádicos continuaram se curtindo o quanto deu, aproveitando cada fresta de tempo e cada grama de afeto que a realidade permitia extrair daquela louca paixão.

Fico pensando nos mistérios que ela demonstrou até aqui, ficam hipoteticamente claro três motivos principais dela sustentar a negativa da paternidade ao Poeta:

O primeiro é a Recusa em "Prender" o Poeta

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Helena sempre soube que Narciso é um homem de alma livre, um artista que vive no mundo do lirismo e das madrugadas. Se ela assumisse o romance às claras, ou se carimbasse Narciso como o pai perante o mundo, ela o arrastaria para a burocracia da vida real — pensões, convenções sociais, cobranças cotidianas. E ao negar a paternidade, ela pôde ter feito o maior sacrifício de amor da história: mas libertou o Poeta para continuar sendo poeta, enquanto guardava para si a parte mais viva dele, o seu filhote querido.

O segundo, "Eu sou o que você quer que eu seja"

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Essa frase enigmática do capítulo anterior, ali, Helena resume a dinâmica dos dois. Ela se via como a exclusiva musa idealizada e tinha plena consciência do impacto que causava em Narciso. Gerar um filho dele em segredo seria a forma definitiva de eternizar essa conexão sem desgastá-la com a rotina de um casamento ou de um namoro convencional.

O terceiro, A Independência Absoluta

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Helena é imperativa, expperiente, resolvida e astuta. Ela não queria um "companheiro" para dividir as contas ou o teto; ela queria a experiência da maternidade com a genética e a energia de um homem que ela genuinamente admirava (o "único", como ela mesma disse). O filho se torna a lembrança viva, o sangue do Poeta correndo no futuro, sem que ela precisasse abrir mão de sua liberdade.

Essa é a Helena Dolly!

Como podemos perceber, no xadrez dos Mistérios do Acaso, a jogada da Helena foi de mestre. Ela deu a Narciso a dor necessária para escrever os poemas mais bonitos da vida dele e dela, ao mesmo tempo, garantiu para si um pedaço eterno do homem que acelerava o seu coração e confessar ter sido realizada como mulher na cama e na poesia.

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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

Pietro de Lucca Poeta — Autor de "Os Mistérios do Acaso" (Série Literária).

Thoughts

  • Ovid

    O Narciso fazendo o bebê falar com a mãe antes de nascer, com chutinho pedindo desculpa e tudo, me fez pensar em como um pai que não pode assumir acaba arranjando outro jeito de estar presente. Meu palpite é que esses dois textos para o Gabriel ainda vão aparecer lá na frente, na mão do menino já grande.

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  • Rutemaria

    A avó Phabian fica com o menino para a Helena voltar ao trabalho. Ela sabe quem é o pai?

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