A Helena avisou por extenso: o livro é dele e a mulher das páginas não é ela. O meu palpite é que ele vai pôr a gravidez no livro na mesma, e é aí que essa frase volta para lhe cobrar.
29º Capítulo Feto Sem Teto.
Naquele dia Narciso passou tudo a limpo com sua caligrafia cuidadosa e, como já havia se tornado um hábito sagrado entre os dois, entregou as folhas manuscritas diretamente nas mãos de Helena. Ela…
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A Helena avisou por extenso: o livro é dele e a mulher das páginas não é ela. O meu palpite é que ele vai pôr a gravidez no livro na mesma, e é aí que essa frase volta para lhe cobrar.
Conteúdo da publicação
29º Capítulo
Feto Sem Teto.
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Naquele dia Narciso passou tudo a limpo com sua caligrafia cuidadosa e, como já havia se tornado um hábito sagrado entre os dois, entregou as folhas manuscritas diretamente nas mãos de Helena. Ela recebeu o papel com delicadeza, correu os olhos pelas estrofes e, rendendo-se mais uma vez à força daquela escrita, deixou transparecer o quanto admirava o talento do Poeta.
— Que lindo, Narciso! Você realmente tem o dom de acelerar o meu coração com as suas palavras — confessou Helena, com o olhar brilhando.
— Dedico inteiramente a você, de todo o meu coração, minha querida — respondeu o Poeta, com um sorriso terno.
— Francamente, eu gostei demais. E quer saber? Eu sempre adorei tudo isso que você faz. Nesse mundo, você é único, não existe outro igual — declarou ela, tocada pela fidalguia do escritor.
— Obrigado pelo carinho, você merece cada linha. Minha linda Deusa Grega — retribuiu Narciso.
E assim, de folha em folha, de madrugada em madrugada, Narciso ia enriquecendo as páginas do livro, dando volume àquela memória compartilhada. Ele fazia questão de mostrar o progresso do texto para Helena, e ela, gradativamente, começou a demonstrar um interesse muito mais aguçado em relação ao conteúdo. Parecia querer ler os novos trechos todos os dias, devorando as linhas com atenção. No entanto, ela mantinha um padrão intrigante:
Lia atentamente, devolvia as folhas e não tecia nenhum comentário profundo ou análise crítica. Narciso, por sua vez, ficava em uma ansiosa expectativa por aquele “feedback”, desejando um retorno que validasse a precisão de suas memórias, pois sentia a necessidade vital de chegar o mais próximo possível da realidade nua e crua dos fatos.
Um dia, incapaz de conter a curiosidade de autor, ele resolveu perguntar de forma direta e sem rodeios:
— Helena, me diga uma coisa: o que você está achando de verdade do rumo deste livro? Estou terrivelmente curioso para saber a sua opinião sincera sobre a nossa história no papel.
— É bonito... Muito bonito, de verdade Narciso. Mas o livro é seu. Somente seu — respondeu ela, com uma voz desapegada.
Aquela resposta trouxe um "bonito" muito vago, uma afirmação que soou meio vazia e distante nos ouvidos do escritor. Sentindo o peso daquele distanciamento, o Poeta continuou a questionar, buscando quebrar a blindagem dela:
— Como assim, apenas meu, Helena? O livro não é meu, é a nossa história! Eu creio piamente que tudo o que rolou entre nós até aqui não foi um monólogo de sentimentos... Ou por acaso foi?
— Não, Narciso... O livro é seu, só seu. Essa personagem que você desenhou aí nas páginas não tem absolutamente nada a ver comigo na vida real. Você não me conhece de verdade, eu não sou essa mulher perfeita e idealizada que você pensa que eu sou — disparou ela, mudando o semblante.
Helena deu uma breve pausa, desviou o olhar para o horizonte do escritório e completou com uma frase que ecoou como um enigma gelado:
— No fundo, eu sou apenas o que você quer que eu seja.
Essas palavras cortantes deixaram Narciso profundamente pensativo e, inevitavelmente, um tanto chateado. Um breve e desconfortável silêncio se instalou entre as mesas; ele preferiu não rebater nada naquele instante. O escritor não conseguia compreender a razão daquela irritabilidade repentina ou daquela postura defensiva, mas também não se deixou abater ou se decepcionar por completo. Ele apenas gostaria, no fundo de sua alma lírica, que ela retribuísse a construção daquela memória com a mesma ternura e dedicação que ele empenhava.
Contudo, por alguma carga d'água ou mistério psicológico, Helena parecia empenhada em jogar baldes de água fria no entusiasmo de Narciso, tentando sutilmente sufocar aquela alegria vibrante que havia marcado o início do romance. Pelo olhar enigmático dela, o Poeta sentia que havia algo oculto e misterioso pairando no ar, um segredo guardado a sete chaves que ela se recusava a libertar.
O relacionamento, a partir dali, começou a experimentar dias de uma certa frieza, uma distância causada pelos contratempos do cotidiano e pelo choque entre as expectativas de ambos. Narciso queria realmente viver um grande e transcendental amor à luz do dia; Helena, por sua vez, parecia contentar-se apenas com o momento presente, limitando o envolvimento à barreira de uma louca paixão. E assim, os dois iam navegando naquele ritmo controverso e cheio de correntes opostas. Como o próprio Poeta profetizou em um de seus momentos de reflexão:
"O barco ainda não afundou e nem afundará, mas terá que enfrentar muito tempo ruim pela frente antes de encontrar águas calmas."
Afinal, a vida humana é exatamente igual à correnteza de um grande rio: não para nunca, não retrocede e segue sempre firme em direção ao desconhecido. E assim como a força das águas inevitavelmente deságua na imensidão do mar, o desaguar da própria existência acontece quando o homem encerra sua jornada terrena, partindo para viver e evoluir em um novo espaço e plano astral.
Sempre atento ao cenário ao seu redor, contemplando a movimentação dos parques, as praças do mundo e os fatos cotidianos de gente comum, Narciso sabia que tudo carrega uma lição oculta. A existência útil serve para nos ensinar a alcançar um denominador comum em todas as esferas. Foi justamente em uma dessas manhãs de observação que o Poeta, a caminho do trabalho, deparou-se com uma cena forte e dantesca que jamais sairia de sua memória.
Ao caminhar pelas proximidades de um córrego urbano — um riacho poluído que cortava a região —, ele avistou um aglomerado de pessoas que olhavam fixamente para a água, apontando e cochichando com expressões de horror. Aquela agitação despertou a natural curiosidade do escritor, que resolveu descer a margem para ver de perto o que estava acontecendo.
Ao se aproximar da beira do canal, seus olhos captaram uma imagem devastadora: preso entre os entulhos, pedaços de plástico e o lixo carregado pela chuva, estava o corpo inerte de um feto humano. Movido por um profundo senso de humanidade e compaixão, Narciso não conseguiu ficar parado como mero espectador daquela tragédia. Ignorando a sujeira, ele procurou imediatamente um meio e apoio para resgatar aquela pequena criatura daquele lugar inóspito e cruel. Foram cerca de dez minutos de um esforço doloroso, até que o feto foi finalmente retirado das águas sujas pelas mãos do Poeta e entregue a uma autoridade policial.
Na sua condição de ser humano consciente, Narciso achou aquela realidade absolutamente inaceitável. Era inconcebível que duas pessoas desfrutassem do ápice do prazer carnal para, logo em seguida, desprezarem de forma tão bárbara o fruto daquela união. O Poeta sentiu o baque daquela visão em sua própria alma; afinal, a criatura já estava quase completamente formada, era uma vida em potencial, um amor que havia sido jogado fora no lixo da indiferença.
Ali mesmo, à beira do córrego, ele sentou-se em uma pedra, isolou-se do barulho da multidão e permaneceu quieto por um bom tempo, absorvendo o impacto do acontecido. Foi naquele silêncio fúnebre que ele primeiro pediu a Deus para cuidar daquela alma e em seguida pegou seu caderno de rascunhos e começou a compor “Feto Sem Teto”, um poema curto, breve, mas dotado de uma força hercúlea, capaz de chacoalhar a consciência daqueles que ingenuamente pensam que a vida só passa a existir após o ato do parto.
Nada neste universo é decidido por acaso e nenhuma existência é puramente casual. Foi um marco indelével na trajetória de Narciso resgatar aquele pequeno ser lameado, jogado em meio às águas podres do riacho, desprezado e desrespeitado por um espírito fraco, egoísta e desprovido de luz divina.
E a poesia brotou como uma prece de transição:
… FETO SEM TETO …
______________
Não tenho nome
Nem sequer pronome
Nem sei quem sou
Dirá o sobrenome
Nem me deixaram chegar
Uns me olharam com cara de pena
Outros com dó
Inútil
Não importa o nó
Sou um feto
Sem teto
Se não vim agora
Talvez
Esteja marcado pra outra era
E espaço
De qualquer forma
Obrigado rapaz
Por tentar levar a paz
Pois minha essência
Já não estava mais aqui.
___________________
Ass. Narciso "O Poeta"
Ao chegar à empresa mais tarde, ainda visivelmente impactado pelo acontecimento daquela manhã, Narciso procurou Helena e comentou detalhadamente sobre o ocorrido. Ele expressou sua indignação com a insensatez monstruosa de quem havia optado por aquele desfecho tão triste, frio e cruel, classificando o ato no fundo como um verdadeiro e covarde homicídio silencioso.
Helena Dolly ouviu atentamente o relato com uma seriedade pesada e argumentou, com a voz mansa, que de fato aquilo representava uma infelicidade gigantesca daquela mãe com o destino daquela criança, emendando o antigo ditado de que "onde comem três, comem quatro". Narciso endossou as palavras da amada, afirmando categoricamente que um sangue jamais deve ser desprezado, nem mesmo em pensamento. No entanto, ambos concordaram que, acima de tudo, não cabia a eles a prerrogativa de lançar qualquer tipo de julgamento sobre as misérias alheias.
Daquele triste e marcante episódio, restou o poema melancólico do qual Helena tomou conhecimento, guardando as linhas na memória. Apesar das sombras daquela manhã, a engrenagem do romance continuou a girar nos dias seguintes. Aqueles momentos de intensos amores, as inesquecíveis e calorosas tardes de sábado recheadas de cumplicidade e prazer, e as noites frias de São Paulo — sempre finalizadas com aquele gostoso sabor de quero mais — já haviam se tornado uma praxe na rotina dos amantes.
Narciso e Helena Dolly saíam juntos pelo menos duas vezes por semana. A paixão rolava solta e livre pelos cantos discretos da cidade, alimentando a ilusão de que aquele éden particular nunca teria um fim.
Contudo, fazendo jus ao tema central dos “Mistérios do Acaso”, a enigmática Helena mantinha o seu grande segredo blindado, não abrindo o jogo de maneira nenhuma. Foi nesse cenário de intensa convivência que chegou o momento do seu retiro anual de trinta dias:
Ela saiu para gozar suas merecidas férias, uma pausa necessária, já que era extremamente exigida em suas atividades profissionais devido à sua alta competência e profundo conhecimento técnico.
A GESTAÇÃO DE HELENA DOLLY
Com certeza a ausência dela deixou um vazio nos dias de Narciso. Porém, a surpresa maior aconteceu quando, com apenas quinze dias decorridos de suas férias, Helena Dolly apareceu de repente na empresa. Ela exibia um semblante nítido de cansaço e uma fisionomia meio preocupada. Ao cruzar com os colegas, explicou que havia ido até ali apenas porque, na tarde daquele mesmo dia, teria uma consulta médica crucial agendada com sua ginecologista de confiança.
Ela permaneceu no local por algum tempo, conversando amenidades com os amigos e amigas do escritório — que não eram poucos, dado o seu carisma. Pouco depois das treze horas, despediu-se de todos e seguiu o seu caminho em direção ao consultório.
O mistério ganhou contornos definitivos na segunda-feira da semana seguinte.
Ao retornar definitivamente para o ambiente de trabalho após a realização de todos os exames clínicos, Helena Dolly aproximou-se de Narciso e, com uma voz que misturava gravidade e mistério, soltou a notícia bombástica:
— Eu estou grávida, Narciso!
Ao ouvir aquela palavra, as orelhas de Narciso pareceram fazer aquele som clássico do “toimm”, tamanho foi o choque térmico que atingiu o seu sistema nervoso. A sua primeira providência mental e matemática foi realizar a contagem dos dias e semanas no calendário de suas lembranças. No fundo, aquela equação nem era tão necessária: dadas as probabilidades exatas do tempo de relacionamento e a frequência de seus encontros íntimos, Narciso sabia que tinha chances gigantescas de ser o pai biológico daquela criança.
Em um instante, o coração do Poeta foi inundado por uma felicidade transbordante. Era tudo o que ele mais queria no mundo: gerar um filho, uma extensão de sua própria alma, com a mulher que ele idolatrava como sua Deusa Grega. Seus pensamentos começaram a voar alto, desenhando planejamentos futuros, desejos paternos e estruturando uma linda pré-realidade para a nova família que se desenhava em sua mente lírica.
No entanto, como Helena permanecia em absoluto silêncio sobre a autoria da paternidade e não se pronunciava sobre o rumo das coisas, Narciso preferiu adotar a prudência. Ele manteve-se quieto exteriormente, guardando o turbilhão para si, mas carregando no peito uma baita vontade de perguntar abertamente quem era o pai daquela criança. Ele controlou o impulso e não o fez, temendo profundamente aborrecê-la ou quebrar o frágil encanto daquele momento tão delicado.
(Continua...)
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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444
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pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com
Pietro de Lucca Poeta — Autor de "Os Mistérios do Acaso" (Série Literária).
Thoughts
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PermalinkA Helena avisou por extenso: o livro é dele e a mulher das páginas não é ela. O meu palpite é que ele vai pôr a gravidez no livro na mesma, e é aí que essa frase volta para lhe cobrar.
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PermalinkAs orelhas fazendo toimm e o Narciso já contando as semanas no calendário me fez rir, porque é a reação de quem quer muito uma coisa e tem medo de perguntar. Aposto que a Helena sabe que ele está fazendo essa conta e está esperando pra ver se ele pergunta. Esse silêncio entre os dois vai pesar mais que a notícia.
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PermalinkQuinze dias. Pois.
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