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20º Capítulo/ OS MISTÉRIOS DO ACASO/ O Cheiro Da Verdade!

Pietrodeluccapoeta777
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Certo dia, a rotina discreta do escritório foi sutilmente alterada por uma confidência masculina. Um grande amigo de Narciso, o Poeta, um rapaz chamado Alex Williams, acabou descobrindo por caminhos…

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20º Capítulo

OS MISTÉRIOS DO ACASO

O Cheiro Da Verdade!

Certo dia, a rotina discreta do escritório foi sutilmente alterada por uma confidência masculina. Um grande amigo de Narciso, o Poeta, um rapaz chamado Alex Williams, acabou descobrindo por caminhos casuais que o escritor dedicava as suas mais belas linhas, textos e poesias personalizadas para Helena Dolly. Impressionado com o poder daquelas palavras e movido por um desejo romântico próprio, Alex procurou o escritor numa dessas tardes calmas de trabalho. Com um tom meio sem jeito, ele pediu para que Narciso fizesse uma singela poesia para que ele, Alex, pudesse entregar à sua própria namorada como um agrado. Generoso, Alex deixou claro que daria todos os créditos ao verdadeiro autor, fazendo questão de dizer à moça que tinha sido Narciso, o Poeta, quem havia esculpido aqueles versos. O Poeta, demonstrando a sua habitual camaradagem, deu o seu sinal positivo; contudo, estabeleceu uma condição clara: Alex teria que aguardar alguns dias, pois a prioridade criativa de sua mente era todinha e exclusiva de Helena Dolly.

E assim, os dias foram correndo. Passou-se uma semana completa, depois uma semana e meia, e nada de a poesia de Alex nascer. A verdade nua e crua é que, para Narciso, o Poeta, era uma tarefa hercúlea e quase impossível, naquele exato momento de arrebatamento, escrever uma única linha inspirada que não fosse direcionada para Helena Dolly. O seu canal com a beleza estava totalmente sintonizado na imagem de sua musa. Mesmo diante desse bloqueio, por consideração ao amigo, ele forçou a caneta e tentou escrever. Obviamente, no íntimo de sua autocrítica, ele sabia que o resultado final jamais ficaria com o mesmo primor, o mesmo brilho e a mesma profundidade dos versos gerados para a sua amada.

A poesia solicitada por Alex só foi sinceramente concretizada porque Narciso, num lampejo de astúcia artística, conseguiu finalizá-la inspirando-se secretamente na própria Helena Dolly. Ele buscou na sua paixão avassaladora aquele sinal que ela lhe dera desde o começo: o sinal da aprovação, o olhar de quem gostou e gosta de se sentir profundamente querida.

Para um poeta, falar de um ser celestial, falar de um Anjo, é sinônimo de falar de amor. É, na verdade, um prazer enorme, uma catarse que dá a falsa sensação de que nada no mundo pode abalar o seu comportamento ou a sua estabilidade emocional. Narciso sabia que esse "nada abala" era uma armadilha, uma verdade que funcionava apenas “às vezes”. Afinal, o poeta não é um ser divino; ele é um homem de carne e osso, que vive, respira e caminha como as outras pessoas, sofrendo as mesmas pressões esmagadoras do dia a dia, as contas, os prazos e as angústias cotidianas. No fundo, o artista é uma pessoa comum que apenas carrega uma lente mais sensível nos olhos.

A poesia pedida pelo amigo e criada por Narciso chamou-se Cordialidade dos Anjos. O texto funcionava como uma espécie de apresentação mística que o próprio poeta fazia à sua amada Helena, expressando, através de metáforas corteses, uma mistura densa de anseios humanos com ternura e devoção. No fechamento da obra, o eu lírico finaliza agradecendo aos Anjos da guarda por terem sido tão gentis ao colocar e apresentar aquela simpatia de mulher em seu caminho terreno.

Enfim, além da beleza estética da poesia, existia um fundo muito real e biográfico naquele poema. Ainda que formalizado sob as rédeas da métrica poética para o namoro de Alex, Narciso mentalmente usava aquelas palavras para agradecer a Deus pelo fato de Helena ter surgido em sua vida. Ele sabia que aquele encontro não fora por acaso; houve sim uma forçadinha do destino, somada às manhãs, aos jogos de olhar e às seduções que ambos alimentaram nos corredores. Uma vez cruzados os caminhos, de tudo foi tentado, testado e arriscado até que eles chegassem onde chegaram.

Não havia nada de constrangedor ali; tudo fazia parte do nobre jogo da conquista, mesmo com a plena consciência de que as dificuldades ao redor eram as maiores barreiras possíveis. Barreiras que, contudo, não impediram e nem impediram que os dois se admirassem e se aceitarem mutuamente, embora soubessem que seria por um tempo restrito e curto, conforme o relato histórico desta paixão já prévia. O poema foi entregue a Alex Williams para cumprir o seu papel, mas a sua alma pertencia a outro endereço:

CORDIALIDADE DOS ANJOS

_______________________________

Tenho o prazer

Em ser assim

Como sou, sim.

É de minha natureza

Passar com gentileza

A beleza do encanto.

Sempre encontro o que procuro,

Busco no mundo

Um meio de dar a meu coração

O carinho

Que a você também reservo.

E serei seu servo.

Meu perfil é hábil

Como um fio,

Sou diplomata da paixão

E magnata do amor.

Querida,

Não faças a mim

O que não queres a ti.

Sou sincero,

Assim espero que sejas.

Se não me queres,

Não me alimente por compaixão.

Forte meu peito é,

E franco também,

Mas o duro

É caminhar sem direção.

O mundo dá voltas e voltas,

Tem mistérios e mistérios,

Mas no meu ministério

Sou eu quem comando,

A mando do meu coração.

Vendo você,

Doce e meiga,

Sinto o prazer rolar

No pulsar de minhas veias.

Pode nada acontecer,

Pode a história

Estar próxima do fim...

De qualquer forma,

Meu Eu agradece

Pela Cordialidade dos Anjos,

Por ser presenteado por você…

______________________

Ass. Narciso "O Poeta"

O interessante e mágico na vida do escritor é que tudo ia acontecendo de forma extremamente suave. Os versos iam pintando na mente de Narciso como uma chuva mansa de letras que, além de irrigar o solo outrora seco de sua mente, produzia belos frutos que atendiam pelo nome de poesia. Eram pronomes, metáforas e adjetivos em abundância. Aquele período específico ao lado de Helena Dolly parecia uma grande e farta colheita dos frutos da inspiração divina.

Foi nesse banquete criativo que pintou o poema O Cheiro da Verdade, uma poesia que a própria Helena achou extraordinariamente linda quando a leu. O texto funcionava como uma revelação íntima, pois, para Narciso, toda poesia por si só já traz uma revelação do invisível.

Tratando-se de Helena Dolly, este era um poema forte, de linhas chamativas, que não perdia as características da afinidade magnética que o poeta enredava na continuação das declarações de amor que fazia a ela em cada papel entregue. Talvez, neste mundo de aparências e convenções rígidas, os sentimentos mais profundos dos seres humanos corram o risco de ficar mudos, sufocados pelo medo; mas as almas, essas permanecem sintonizadas na mesma frequência. Narciso pensava de forma transcendental: se nesta era atual, nesta encarnação, aquele romance não conseguisse vingar de forma plena aos olhos do mundo, poderia ser que em uma próxima era ele vingasse.

O difícil, o verdadeiro desafio para o homem, é segurar o momento presente, segurar a batida do agora. Afinal, com o pulso funcionando e o coração preso à terra, fica muito difícil para o corpo seguir uma diretriz definitiva quando as regras sociais empurram para o lado oposto. A indecisão humana sempre será um agente paralisante, um freio que paralisa o elemento chamado homem.

O ser humano é um bicho orgulhoso: ele pensa que sabe tudo, pensa que domina as variáveis do destino e que controla os sentimentos alheios. Falta-lhe apenas um espelho real para que ele possa se enxergar de verdade, pois o imprevisto — aquele incômodo da realidade — surge sempre no momento mais inoportuno e fora do turno, quebrando as ilusões de controle. “O Cheiro da Verdade” revelava exatamente o clima expressivo de um homem que amadureceu e sabe que, se tentar forçar as situações ou exigir compromissos, nada vai adiantar. Nós, meros mortais, não mandamos em nada e não controlamos absolutamente nada do amanhã.

Narciso, o Poeta, assegurava somente uma máxima: o homem deve ter a lucidez de saber exatamente onde está pisando, mantendo os pés firmes no chão para não cair em demasia no abismo do que a humanidade chama de azar ou fatalidade. Voltando ao cerne de sua história, desde o exato segundo em que Narciso conheceu Helena Dolly, ele nunca mais conseguiu esquecê-la. Ela era, sem sombra de dúvidas, o mistério vivo que comoveu as estruturas de seu coração e o fez acordar do sono profundo para o mundo real.

Às vezes, contudo, a crueza da realidade batia à porta, e Narciso expressava em suas anotações o medo terrível que sentia quando o seu coração esbarrava na postura arredia de Helena. A verdade que ele tentava internalizar é que não valia a pena ficar nervoso, ansioso ou chateado se ela, por força de sua própria vida e escolhas, não podia ou não queria assumir algo definitivo com ele. Helena não era, e nunca foi, obrigada a ter um vínculo formal com Narciso ou com quem quer que fosse. Ela era livre. O Poeta apenas achava que não era justo fazer aquele seu coração — que havia renascido por causa dela — quebrar-se em pedaços como se fosse um cristal valioso, provocando uma dor interna que ardia como uma úlcera aguda na alma.

O desânimo que às vezes abatia Narciso era tão devastador que, em certas noites escuras, ele simplesmente se deitava na cama, fechava os olhos e assistia, na tela de sua mente, ao filme completo de sua jornada ao lado de Helena Dolly. Ele se lamentava em silêncio, quase culpando o destino, como se ela tivesse culpa da impossibilidade do romance. Na verdade, fazendo um balanço sincero, Narciso já havia se decepcionado demais no passado; já havia sofrido todas as penalidades, dores e rasteiras que um coração apaixonado poderia suportar em uma vida inteira. E, no entanto, ali estava ele: continuava vivo, firme, resiliente e forte. Ele compreendia que só precisava aprender a jogar as regras do tempo, a escolher melhor as suas batalhas e a enxergar a parede invisível que as ilusões amorosas oferecem quando o tempo já não se mostra mais hábil ou favorável.

Para a psicologia de Narciso, perder Helena Dolly não era um sentimento muito diferente da dor de perder um ente querido para a eternidade. E ela, imersa em suas próprias defesas, nem sempre notava a gravidade disso; não percebia o tamanho da adoração que o Poeta nutria por ela, ou talvez, por proteção, fazia que não tinha percebido nada.

Aos poucos, na linha do tempo daquela história, o fim desse flash afetivo foi crescendo, desenhando a decadência natural de um amor que, nos moldes tradicionais do mundo, nunca pôde existir abertamente. Narciso foi fundo demais, viajou sem paraquedas num mundo construído de puras ilusões poéticas, mas ele considerava, com a dignidade dos grandes homens, que cada segundo havia valido a pena. Afinal, ele teve a coragem de acreditar no amor em uma era de cinismo. A poesia o ergueu do chão e o fez renascer como um homem lúcido, um autor que escreveu o compêndio mais esplêndido de sua vida, gerado por aquela empolgação imatura e divina chamada romance…

Narciso, o Poeta, apresenta o cheiro de sua libertação:

O CHEIRO DA VERDADE

__________________________

É escancarada

A paixão que tenho por ti.

Se tratando de você,

Tudo eu gosto.

E tão grande

É o gostar

Que você é pra lá de especial.

Paro às vezes para pensar

Como seria ficar sem você...

Neste curto espaço de tempo,

Fez a nossa paixão parecer miragem.

Nós nos aceitamos de uma forma tão linda

Que a Perfeição

Anula qualquer farsa.

A dificuldade em aceitar

Você pra lá

E eu pra cá

Cresce a cada momento

Em que nossas almas se cruzam.

O interessante

É que a espontaneidade

Foi com tanta naturalidade

Que foi inevitável a tal paixão.

Você me fez um bem tão grande

Que minha pretensiosidade

Foi além do esperado

E da realidade.

O interessante é que nem eu

E nem você

Acreditamos que tudo isso

Seja verdade...

A mais linda das verdade.

Chego à conclusão

Que descobri um novo mundo.

Pensei que fosse, talvez,

Mais um produto da ilusão,

Mas o Cheiro da Verdade

Predomina em nossa realidade

E acertou em cheio nossos corações.

Parabéns, Helena Dolly…

________________________

Ass. Narciso "O Poeta"

Naquele dia específico, ou naquela noite sem estrelas, o desejo mais profundo e secreto do escritor era de que as engrenagens do universo congelassem e as horas parassem no infinito, eternizando o toque de Helena. Mas o relógio do destino não faz concessões a ninguém. Chegou o momento amargo, a hora inevitável em que a história romântica virou um véu do passado, encerrando as suas exibições.

Narciso, contudo, guardava no peito a certeza nobre de que havia cumprido com louvor o ciclo completo da natureza do amor nas três esferas mais importantes da existência: o começo arrebatador, o meio intenso e o fim melancólico. Foi o exato momento em que ambos compreenderam que não havia mais nada a ser feito na esfera prática. O término aconteceu de forma natural, madura, sem brigas barulhentas, sem rancores mesquinhos ou qualquer tipo de energia negativa. Com a alma em paz de quem entregou o seu melhor na mise en place da vida, o Poeta desejou e continua desejando todos os dias que Helena Dolly tenha muitas felicidades em sua jornada e que encontre alguém no mundo que a faça verdadeiramente feliz.

Obrigado por dedicar seu tempo às minhas palavras. Este espaço é mantido vivo pela paixão daqueles que ainda acreditam no poder da escrita autêntica, das paixões viscerais e das verdades que o tempo eterniza. Considere tornar-se um assinante — na modalidade gratuita ou paga — para não perder nenhum capítulo dessa jornada literária. Vamos juntos manter viva a chama da literatura.

Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os Mistérios do Acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

______________________________

@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444®

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

Thoughts

  • Doralice

    Conheci um moço que pediu pro irmão escrever o discurso do casamento dele, e o irmão escreveu pensando na própria noiva que tinha perdido. A noiva do casamento chorou, o irmão também, cada um por um motivo. Foi nisso que eu pensei quando o Alex saiu com o poema debaixo do braço, sô.

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  • AmandaPeixoto

    O narrador conta que o término foi natural, maduro, sem briga, e conta isso em duas linhas depois de vinte capítulos de insistência. Quem ouve muita gente contar a própria história sabe que a parte dita mais rápido é a parte que a pessoa menos quer contar. Tu vai mostrar a conversa do fim em algum capítulo?

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  • AlmaTavares

    Desde o capítulo anterior esperava uma zanga, e em vez disso o Narciso deseja a Helena feliz com outra pessoa, sem ressalva nenhuma. Deu-me menos alívio do que esperava e mais uma espécie de silêncio, como quando alguém sai de uma sala e ainda se ouve a porta.

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  • versodemadrugada

    O Narciso se chama de diplomata e de magnata no mesmo poema em que pede pra não ser alimentado por compaixão. Ele se acha e se teme na mesma página, e eu gosto dele assim.

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  • Ovid

    Um poema encomendado pelo amigo, escrito pensando na Helena e entregue com o nome do Narciso pra outra namorada, hahaha, isso me fez pensar em quanta carta de amor circula por aí com o coração em outro endereço. Aposto que a namorada do Alex percebe antes dele. Obrigado por seguir com a série, vinte capítulos já!

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  • versoAlheio

    Cara, o Alex vai entregar pra namorada um poema que foi escrito pensando na Helena, e ainda vai dizer o nome do autor. Não entendi se isso é favor ou golpe. A moça do Alex chega a ler o poema em algum capítulo?

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