Antologia de Órion
V
Finalmente!
Com o acúmulo de coisas para fazer, pensei em nem tirar o intervalo para o almoço, mas fiquei bastante curioso para conhecer o restaurante novo. Além de me ver aliviado por não ter que almoçar com o pessoal da firma, sinceramente, não tenho paciência para nenhum deles; inclusive, é insuportável escutar pessoas conversando alto enquanto mastigam.
Hoje o ar estava bem seco. Minha garganta arranhava levemente e para respirar era difícil, mas a temperatura estava bem agradável. Era um daqueles dias confortáveis, o tipo que dá vontade de andar lentamente pelas ruas enquanto escuta uma música, com isso, coloquei meus fones de ouvido, atravessei a rua e fui caminhando num passo deliberadamente lento. A música escolhida dessa vez era Paper Bag, da Fiona Apple, uma das minhas músicas favoritas. Assim que começou, cantei baixinho:
— “I was staring at the sky
Just looking for a star
To pray on or wish on
or something like that…”
O ambiente do restaurante era tão sem personalidade, percebi logo de cara. Um excesso de cores pastéis e um verde sem vida preenchiam o espaço, como em todos os restaurantes veganos que conhecia. Até aqui, já perdi a fome. Mas vou dar um braço a torcer; decidi não me servir no self service, em vez disso, vou pedir algo do cardápio. Mesmo com o projeto para entregar, hoje vou me dar o prazer de demorar um pouco. O cardápio era vasto, mas nada de novidade. No fim, escolhi guioza como entrada, ensopado de cogumelos para o prato principal e um expresso para finalizar. Nada de sobremesa por hoje.
Enquanto o meu pedido era preparado, eu resolvi exercitar minha poesia. Faz muito tempo que não escrevo, então peguei o guardanapo, tirei uma caneta que estava em meu bolso e escrevi o primeiro poema da minha vida. Eu tinha dezenas, mas esse era o único que sabia de cor.
“Poesia maldita, oh poesia,
você rima tanto quanto uma sinfonia
sinfonia essa tão desconexa,
que chega a ser uma simpatia.
Tão incerta e dúbia,
parecendo uma analogia,
vagarosa e ardilosa
como o seu doce beijo.
Beijo doce e maldito
como essa mesma poesia.”
Era uma poesia bem rudimentar, mas tinha um enorme carinho por ter sido a primeira coisa que escrevi na vida.
Ao olhar mais atento para o ambiente percebi que havia um aquário enorme no estabelecimento. Até estranhei por ser uma contradição lógica com a proposta do restaurante. Me deu até um arrependimento, pois eu queria era um sushi ou um peixe grelhado nesse momento.
Logo mais, veio a entrada. Eu adoro guioza, e essas estavam no ponto ideal: macias, douradas e com um recheio que acho que era repolho, muito bom. Em seguida, veio o prato principal. O ensopado estava bem gostoso, mas acho que faltava tempero. Era feito com um mix de cogumelos que amo. Realmente, era um restaurante agradável. Me vejo almoçando ali regularmente. E os preços eram condizentes com a qualidade. Por fim, o expresso para a digestão.
— Finalmente, um café com gosto de café.
Paguei e voltei para o trabalho bem satisfeito.
No caminho do escritório eu olhei para o céu e vi a lua, sei que é normal vê a lua durante o dia, mas nunca pensei que fosse possível observar a lua cheia sem ser a noite. Era uma cena linda e até poética.
Ao retornar para o escritório, fui correndo para minha mesa. Demorei demais no almoço. O ambiente estava caótico. Todo mundo corria e falava alto entre si para dar conta das demandas. Quando me sentei e ajustei a cadeira, meu editor-chefe veio em minha direção.
— Olha, preciso que você assuma a matéria do sequestro pra mim.
— Outra pessoa não tava fazendo?!
— Sim, mas o dia tá sendo um inferno, tive que remanejar.
— Entendi. Tudo bem, então.
— Atualize a matéria, pois sequestrador foi preso há poucos instantes.
Suspirei fundo.
— Relaxa, já tá quase finalizada. Conto com você!
Ele saiu me dando um leve sorriso só pra fingir simpatia.
Estava muito sobrecarregado de trabalho, mas seria algo de que dou conta. Mas antes, eu iria ajustar minha mente, fiquei me espreguiçando na cadeira e olhei pro teto fixamente.
Estava mofando por conta da umidade.
Ao voltar minha atenção para o computador, minha colega ao lado perguntou:
— E aí, gostou do restaurante novo?
— Gostei.
— O ponto do peixe é perfeito, né?
— Muito. Obrigado por me recomendar.
Sorri agradecido. Ela me agradava muito.
E continuei a trabalhar.